domingo, 25 de dezembro de 2011

11 - A Rua de Neón


           As roupas curtas e a maquiagem exagerada das garotas nas esquinas mostravam a Lia o quanto ela estava perto de casa. Algumas ela conhecia, algumas eram novas. Todas tentavam parecer sedutoras para os homens que passavam de carro, mas nenhuma tinha qualquer vestígio de brilho nos olhos. Eram todos pares vazios de quem sabe que a vida não reserva mais nenhuma surpresa. Todas, porém, se endireitavam nos saltos altos quando viam Lia passando. Não importa quanto tempo passa, o rosto dela sempre será conhecido naquela região.
           Apesar disso Lia não abaixou a cabeça. Continuou com seu andar firme sem diminuir ou acelerar o ritmo. Passava por entre as prostitutas sem lhes dirigir o olhar, nem mesmo pelo canto do olho, e todas acabavam esquecendo que estavam no meio do trabalho. Era preciso algumas buzinas para despertá-las, mas já não era a mesma coisa. A atenção dos homens estava agora voltada para aquela garota tão linda, que passou por eles sem acenar, sem tentar seduzi-los. Naquele momento qualquer um deles poderia dar todo o seu dinheiro para tê-la, mas também sabiam que nenhum deles conseguiria. Eles também viram a diferença entre os olhos das prostitutas e os seus. A diferença entre a ausência de esperança e a pura obstinação.
           Apenas três mulheres de saia curta não aderiram ao movimento da massa. Três colunas maquiadas que bloqueavam a calçada por onde Lia passaria. Três garotas de programa que esperaram muito por aquele reencontro. Lia bem poderia tentar dar a volta ou mudar de rua, mas não o fez. Olhou nos olhos da líder do trio, que estava a um passo a frente das outras, e nada falou.
– Vejam só se não é a princesinha – disse a líder, colocando todo o desprezo que conseguiu na última palavra.
– Sai da minha frente, Carla – respondeu Lia, com o tom de voz de quem dá “bom dia”.
           As duas mulheres de trás começaram a rir, mas pararam quase imediatamente ao ver que Carla não fazia o mesmo. Darline e Roberta eram elas, que passaram a vida toda na sombra de uma prostituta com mais liderança. Era melhor do que tentar a vida sozinhas, já que nenhuma “casa especializada” as aceitou. Carla, por outro lado, era requisitada, mas seu orgulho a impedia de receber ordens.
– Ou o que você vai fazer? Não to vendo aquele seu namorado corno aqui pra te proteger – foi a resposta amarga.
– De vocês eu posso cuidar sozinha – retrucou Lia, tão séria que Carla teve de se esforçar para manter a cara de deboche. Darline e Roberta não conseguiram, e já demonstravam um leve ar de obediência por medo da punição.
– Você não consegue cuidar nem de você mesma! É só ver pra onde você está indo: não conseguiu fugir, agora vai voltar pra casa –
           Lia piscou. Não conseguiu pensar em uma resposta de imediato, o que deu a Carla motivos para desta vez rir com vontade. atrás dela,  suas duas seguidoras riam junto. Um coral de riso falso. três hienas humanas aproveitando do melhor que aquela vida poderia dar a elas: rir dos outros. É um alívio para o corpo cansado saber que, por pior que a vida seja, sempre vai haver alguém de quem podemos dar risada. A desgraça alheia nos dá forças. Carla, Darline e Roberta se sentiam fortes quando se colocavam acima de alguém.
    De certo Carla achou que aquilo já era vitória o bastante por uma noite, pois deu meia volta e saiu andando, liberando a passagem para que Lia continuasse seu caminho. Mas ela ficou lá, parada. Seus olhos já não mostravam mais obstinação, e sim dúvida. A sua volta a noite girava com tudo no lugar: bêbados, prostitutas e homens de carro. Ninguém mais prestava atenção naquela garota que há pouco parara a rua.
           De um beco escuro um mendigo chamava Lia para lhe fazer companhia. Aquilo a trouxe de volta de seus pensamentos e ela pode seguir em frente. Mas agora não mais de cabeça erguida.
           As ruas passavam invisíveis aos seus olhos, mas seus pés já sabiam a direção que devia tomar. Ela se guiava instintivamente olhando para os próprios sapatos.
Afinal, estava em casa.
           Durante a caminhada, ela se perguntava se poderia fazer mesmo aquilo. Se ia ser bem recebida. Se ia ficar segura. Mas acima de tudo se perguntava o que Guilherme diria se soubesse que ela estava ali. Retornando ao lugar de onde ele a tirara.
           “Ele já deve saber que eu estou aqui” pensou ela com desânimo. “Ele sabe que não há outro lugar que eu ainda possa ir”.
           Agora estava chegando mais perto, e a cada luz de néon ela se lembrava do nome da dona de cada bordel e de cada prostituta que lá trabalhava. Até que chegou a um dos maiores e mais procurados bordéis da região, o Castelo da Rainha. As luzes piscando lembravam a sua infância, e foi engolindo em seco que ela parou na frente da enorme construção. Não era tão grande antes, Lia tinha certeza, mas isso realmente não importava mais.
           “Lar doce lar... Jamais imaginei que fosse por os pés aqui de novo”

domingo, 18 de dezembro de 2011

10 - Aumente o Volume, Por Favor

        Toda a estranheza das ruas sempre foi normal. É normal se acostumar com a estranheza quando ela é a sua casa. O problema é quando se começa a estranhar aquilo que sempre esteve lá. Guilherme ia pensando nisso pelas ruas escuras. Era normal ser olhado por todos que se escondiam nos becos. Era normal até mesmo ser olhado pelas pessoas que se escondiam atrás das cortinas. Só que nada mais parecia normal para ele. Em cada olhar desconfiado, assustado, curioso ou até mesmo raivoso, ele via sua última aventura exposta. Via uma arma em cada bolso. Via uma tentativa em cada movimento. A sua mente já começava a brincar com ele, e ele nem fazia ideia de até onde aquilo poderia chegar.
        Não era possível adivinhar se a eles sabiam quem ele era, o que ele tinha feito. As vezes as notícias corriam rápido demais em Tenemissa. As vezes não. Os dedos de Guilherme roçavam nervosos no canivete de bolso: a única arma que ele tinha, contra uma possível emboscada reunindo mais de dez mendigos. É fácil fazer um exército, basta espalhar a notícia de que a cabeça de alguém está a prêmio, e a cidade inteira estará voltada para aquela pessoa. Mesmo os mais inocentes não podem negar seu profundo desejo por sangue, e no fim o prêmio é apenas uma desculpa: o que todos querem é descontar em uma única pessoa tudo o que já aconteceu em toda a sua vida. Se for pago pra fazer isso, melhor.
        Mais adiante havia um bar. Vozes gritavam e riam lá dentro. A única luz ainda acesa. Era o tipo de bar que abria com o pôr do sol e só fechava quando ele nascia de novo. Um ótimo lugar para alguém com contatos se informar e, quem sabe, cobrar favores. Guilherme precisava de um lugar seguro para dormir, não dava pra confiar em nenhum hoteleiro.
        Lá dentro, a confusão era como um almoço de domingo. Bebidas, cartas, bebidas, brigas, bebidas, queda-de-braço, bebidas, homens desmaiados no chão, bebidas, televisão...
Televisão
        Uma notícia urgente mostrava uma confusão muito maior do que a festinha do bar. O lar-doce-lar de Guilherme era manchete do jornal local. O sonho do síndico, ou talvez não, já que o prédio já quase não existia. O que existia era um bocado de concreto tentando não ceder a um apartamento inteiro que fazia força para baixo. Fumaça, fogo, pessoas gritando, curiosos sedentos por novidades e moleques fazendo caretas para as câmeras.
        Já dentro do bar, Guilherme tentava ouvir a notícia, junto com um grupo de bêbados. Cada vez chegavam mais. Vendo isso o dono aumentou o volume, e logo todo o bar estava quieto para ver e ouvir.
        ... Ainda não se sabe o que aconteceu, tudo indica um acidente envolvendo o último apartamento. Provavelmente explodiu o butijão de gás. Até agora ninguém saiu, e não podemos ver se há sobreviventes...
        Guilherme não se surpreendeu. Sabia que sua granada não explodiria apenas um possível perseguidor, mas também todos os seus vizinhos. Sua guerra particular havia começado, não podia parar para se arrepender por atos pequenos. Eram apenas mais pessoas sem vidas, morrendo oficialmente para os jornais.
        Os bombeiros estão a caminho, mas parece que o número de carros das pessoas que vieram para ver o acidente está interditando as ruas. Pedimos para que ninguém mais tente vir aqui de carro, ou o caminhão de bombeiros não conseguirá chegar. Espere! Tem alguém... há duas pessoas no topo tentando descer!
        A repórter começou a correr e o câmera tentava segui-la sem tirar o foco dos vultos em meio a fumaça. Seguiu-se um verdadeiro batalhão de pessoas gritando e amontoando o que quer que tivesse a volta para formar uma escada. A grande maioria queria ajudar. Um ou outro queria ser entrevistado pelo ato de heroísmo.
        Guilherme ficou apreensivo. Quando apareceram o homem negro e a mulher de cabelos compridos, ele não os reconheceu. Não eram inquilinos, eram as pessoas que acionaram a granada. Por isso sobreviveram: o teto não caiu em suas cabeças.
        Devagar, ainda muito confuso Guilherme tentou se desvencilhar do bando de bêbados a sua volta que tentavam assistir a notícia. Queria sair daquele lugar, antes que anunciassem seu nome como dono do apartamento ou qualquer coisa do tipo. Se sua casa explodiu, ele estava morto. Era melhor assim. Já se dirigia para a porta quando um brilho chamou a sua atenção. Era a luz refletida nos óculos de alguém que sentava sozinho na mesa do canto, meio copo de cerveja a sua frente. Aqueles óculos quadrados que Guilherme tão bem conhecia. Os olhos atrás deles se mantinham fixos em Guilherme desde o momento em que ele entrou no bar. Aqueles olhos capazes de acalmar ou deixar alguém desconfortável.
        Aqueles olhos verdes que deveriam estar vendo as paisagens de lugares muito distantes de Tenemissa, pois foram os primeiros olhos a escapar daquela ilha.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

9 - Fênix

        A primeira reação foi a tosse. Ao menos a primeira consciente. A dor, a confusão, os barulhos estranhos dentro de sua cabeça estavam lá muito antes de ele se dar conta de onde estava. De que ainda estava vivo. Sentiu o corpo dormente, pesado, tentou se mexer e não conseguiu. Com muito esforço abriu os olhos, não que houvesse muito para se ver, apenas a grande confusão cinza, que em sua visão desacostumada tomava por diferentes cores. Ouviu o crepitar de fogo em algum lugar próximo e subtamente se lembrou de onde estava e o que tinha acontecido: a porta, o fio, o inferno.
        Virou a cabeça tentando encontra-la com os olhos, mas a única coisa que conseguiu foi perceber que ainda estava fraco demais para esses movimentos bruscos. Tentou respirar fundo, mas a fumaça o deixou tonto. Tinha que fazer alguma coisa, mas era difícil se concentrar. O que conseguiu fazer foi gritar com a voz rouca e quase inaudível em meio ao caos que reinava ao redor.
– ALINE! –
        Tossiu de novo. Esperou um pouco mas ninguém respondeu. Ele se lembrou de ter derrubado ela com o corpo antes de cair, e foi quando se deu conta da sensação quente em sua perna direita. Ele estava encostado em alguma coisa viva. Com um susto combinado a um suspiro de alívio ele viu a face quase preta de cinzas de Aline, olhos fechados, mas respirando. Teve vontade de rir, mas achou que seus pulmões talvez não fossem aguentar. Em vez disso, começou a fazer um enorme esforço de mexer a perna direita. Seu corpo inteiro ainda estava dormente, e Carlos não fazia a menor ideia de quanto tempo levou para que ele finalmente conseguisse resultados positivos. Quando conseguiu, tentou pequenos chutes, embora não soubesse bem ao certo que parte do corpo de Aline estava chutando.
        “Foda-se”, pensou. “Tenho certeza de que ela já quebrou o que tinha de quebrar”.
        Continuou tentando, chutar e chamar. Chutar e chamar. Até que ela demonstrou sinal de vida. Com um gemido e uma tosse. Olhos fechados que tentanvam com todas as forças se abrirem. “Exatamente como eu”.
– O... O qu... COF! COF! O... O que que... –
– Aline, presta atenção! –
        Mesmo com ela mantendo os olhos fechados, Carlos pode ver que Aline tinha escutado e que estava atenta.
– O apartamento explodiu. Tem muitos escombros em cima da gente, mas tem mais em cima de você. Eu ainda não estou sentindo meu corpo muito bem, então não sei se eu quebrei alguma coisa. A gente vai ter que dar um jeito de sair daqui rápido, não dá pra adivinhar quem vai se arriscar a vir aqui primeiro –
– O... Ok –
        Fazendo muito mais esforço do que antes, Carlos tentou mexer o corpo todo, fazendo força para se levantar. Haviam pedaços de muitas coisas em cima dele. Por sorte nenhuma pegando fogo. Ele reconheceu bastante concreto, pedaços de madeira e pedaços de coisas que ele não fazia ideia de o que era. Provavelmente objetos do apartamento, todos estraçalhados. A cabeça do pênis pichado apontava para ele, descansando a centímetros de sua testa num pedaço chamuscado da porta. Mais uma ironia do destino.
        Aline também fazia força para se levantar, mas mal conseguia se mexer. Depois de um tempo, Carlos já estava de pé ajudando ela. Alguma força milagrosa movendo ele, uma vez que braço e perna esquerda estavam ambos quebrados, além de algumas costelas, mas ele ainda não estava consciente o bastante para sentir a dor.
        Vozes já se espalhavam ao redor deles quando passou o braço esquerdo de Aline por cima de seu pescoço. Ela tinha muito mais dificuldades de se mexer do que ele. Começaram a andar em meio a confusão, sem fazer a menor ideia de para onde estavam indo. Tiveram uma desagradável surpresa ao se deparar com uma queda considerável para eles. Tinham esquecido que estavam em cima de um prédio.
        Foi necessária a ajuda de algumas pessoas que estavam ao redor para chegar ao chão, pois a escadaria foi bloqueada pelos destroços. Fora da fumaça, eles puderam ver o estado do prédio: o último andar caiu em cima dos outros como se tivesse despencao do céu. Não conseguiram resgatar mais ninguém, pois os andares inferiores foram esmagados. Apenas algumas partes continuavam de pé. Onde Carlos e Aline desmaiaram era uma delas. Vendo aquilo eles souberam que sobreviveram por pura sorte.
– Isso vai ter troco – disse Carlos, antes de se virar e sair dali ajudando Aline, ambos ignorando as pessoas que diziam que era preciso esperar pela ambulância e, é claro, que era preciso dar entrevistas para o jornal.

sábado, 3 de dezembro de 2011

8 - A Mensagem de Marcos

        Marcos não conseguia conter o suor, nem a tremedeira causada pelo nervosismo. Todos o olhavam desconfiados. Andar nervoso na casa do chefe era quase suicídio, mas ele não tinha escolha. “Diabos, o que eles estão pensando, que eu to carregando uma bomba pra explodir na cara do chefe?”.
        Na verdade, era isso mesmo. Marcos carregava uma bomba que iria explodi-lo assim que Giuseppe ouvisse o barulho. Mas Giuseppe, é claro, não iria explodir junto. No máximo ia acabar queimado. Ninguém que trabalha para os Manenti é tão infeliz quanto aqueles que devem dar a notícia ruim para o senhor chefe, pois ele as vezes podia ser um pouco... incompreensível. De fato as histórias que os veteranos as vezes contavam sobre o que aconteceu com o último cara que deu uma notícia ruim ao Giuseppe assombrava Marcos mais do que o dinheiro lhe dava esperanças. “Por que então eu não simplesmente dou meia-volta e largo esse emprego kamikaze?”
        Ele sabia bem o porque. Ninguém dava meia-volta. Ninguém larga a família sem sofrer as consequências. E as consequências sempre deixam furos na camisa.
        “Aquele puto do Guilherme é que devia ter pensado nisso antes de matar o Jean. Agora por culpa daquele desgraçado sou eu quem vou ser morto. Ou será que eu to exagerando? Se o Manentão matasse mesmo todos que trouxessem notícias ruins metade desse filhos da puta não tariam aqui. isso é treta que esses vagabundos ficam armando porque não tem mais o que fazer”
        O pensamento deixou Marcos mais tranquilo, mas ele ainda suava. Suava e olhava para os lados, recebendo em troca de seu olhar medroso olhares desconfiados, mãos que apertavam um pouco mais o rifle. Dedos coçando para fazer alguma besteira.
– Tenho uma mensagem pro Giuseppe – As palavras saíram trêmulas da sua boca, e os guardas notaram e riram. Todos pareciam achar graça agora que sabiam o motivo do nervosismo. Um negro alto e musculoso tateou o corpo de Marcos a procura de armas, um pouco mais do que devia. As risadas estouravam. O negro alto e musculoso fazendo a revista já seria amedrontador o bastante, mas ainda havia o fato que todos sabiam: ele era gay, e era exatamente por isso que colocaram ele na revista.
– Entra... – Ouviu-se a voz grave, que procurava lembrar o nome de seu visitante
– Marcos – Respondeu o rapaz, prontamente.
– Tanto faz, o que você ta fazendo aqui? –
        Os lábios de Marcos agora pareciam estranhamente secos. Demorou um tempo para que ele conseguisse falar de novo. Giuseppe não o apressou, parecia cansado demais para se importar.
– O... o Guilherme... – Tentou falar Marcos, gaguejando um pouco.
– Sei, que que tem, ele saiu da linha? – Perguntou o Manentti, já parecendo um pouco mais interessado.
        A compreensão súbita de que Giuseppe já esperava alguma coisa do tipo deu a Marcos novas forças. Talvez se ele falasse bastante mal daquele puto do Guilherme antes de dar a notícia, quem sabe não ganhava um voto de confiança?
– É, aquele desgraçado filho duma puta. Eu sempre soube que ele tinha alguma coisa estranha –
– Anda logo – Disse Giuseppe, o tédio tomando conta da sua voz.
– Poisé, ele e aquela vadia que anda com ele, não lembro o nome. Eles fuderam pra valer com o senhor – Disse Marcos de uma só vez, um sorriso quase aparecendo no rosto pela oportunidade de criar um vínculo com o chefe. Nada melhor do que xingar o inimigo de um homem para ganhar a sua simpatia.
        Desta vez Giuseppe se ajeitou na cadeira. Esperava um erro, não que alguém fodesse com ele.
– Eles mataram o Jean –
        Por um instante a idéia pareceu não tomar forma na cabeça de Giuseppe, como se ele estivesse em choque, ou talvez apenas sonolento. Mas quando ele percebeu o que havia acontecido. Gritou com fúria o nome do seu braço direito, a cara já começando a ficar vermelha.
– MATHEUS! –
        E Matheus veio correndo, silencioso, mas correndo.
– PEGA O FILHO DA PUTA DO GUILHERME E AQUELA VACA DELE E TRÁS OS DOIS AQUI AGORA! –
– Vivos ou mortos? – Perguntou Matheus, a voz firme e calma, embora Marcos se surpreendesse com seu tom agudo. Nunca antes tinha o ouvido falar, e esperava que um armário ambulante tivesse uma voz a altura.
– Não sei! Digo, mortos! Não... –
        Por um tempo a cabeça vermelha se pôs a pensar, tentando perceber melhor o que havia acontecido e como lidar com a situação.
– Vivos. Traga eles vivos –
        Matheus saiu, deixando Giuseppe sozinho na sala, pois Marcos aproveitou a primeira oportunidade para sair silenciosamente, e dava graças a Deus por ainda estar vivo. Giuseppe não notou a sua ausência.

sábado, 26 de novembro de 2011

7 - A Luz que Embeleza a Cidade

– Sabe que eu achei brilhante aquela granada? –
Guilherme riu. Eles estavam andando por mais uma rua escura de Tenemissa, bêbados, drogados, ladrões e assassinos espreitavam, mas Guilherme ria. Ambos andavam levemente, como se tivessem se livrado de um peso. Era ótimo ter algo pra fazer, poder se mexer sem se perguntar “o que vem depois?”
– Vi isso num filme, só espero que funcione –
– Mas desde quando você tem uma granada? –
Guilherme parou de rir, ficou apenas com um leve sorriso congelando no rosto, olhando para cima. Sua boa e velha expressão nostálgica que Lia tanto conhecia.
– Meu pai me deu no meu aniversário de treze anos –
Lia riu, e encarou Guilherme, esperando ele admitir que foi apenas uma piada, mas ele não o fez.
– ele me disse que agora eu estava me tornando um homem, era preciso algo que simbolizasse isso: se eu quisesse, eu poderia explodir a granada num bosque apenas por diversão, mas então eu estaria explodindo a minha responsabilidade. Ele queria que eu cuidasse da granada como se fosse um ovo... sabendo que mais cedo ou mais tarde eu ia ter que chocar ela, mas tinha que ser por um bom motivo –
Lia silenciou, e Guilherme também. Ela sabia que o pai significava muito pra ele, e que aquele tinha sido o último aniversário que passaram juntos. A granada era, provavelmente, a única coisa que ele tinha para se recordar dele. Se ela chegasse a explodir, explodiria o apartamento inteiro, e nada sobraria da antiga vida de Guilherme. Essa era a prova de que agora não havia mais volta: ou eles escapavam de Tenemissa o morriam tentando.
– Você acha que vai piorar a nossa situação se aquela bomba matar alguém importante? –
– A nossa situação não pode piorar. Então o que temos a perder? –
– É mas... e se a bomba matar um Manenti? Ai não vai ter como pedir ajuda ao Giuseppe –
– Aí nós vamos até o papis Menegaro e nos entregamos a ele –
Lia parou, chocada. Aquilo não era uma piada, por mais que o tom fosse leve, Guilherme realmente quis dizer aquilo.
– O... o que... –
– Calma, pensa bem: nós nos entregamos aos Menegaro dizendo que fomos obrigados pelo Giuseppe a matar o Jean, e que depois fomos traídos. Que descobrimos que o Giuseppe tava usando a gente como bode expiatório, que ia nos mandar pra ele dizendo “encontrei os assassinos do seu filho” pra então fazer uma aliança –
– Uau! Isso é fantástico! –
– Tudo isso enquanto fazemos questão de afirmar o quanto a família Manenti está fraca e o quanto ela teme os Menegaro –
O rosto de Lia se iluminou, e pareceu iluminar junto toda aquela rua sombria, espantando os ratos, as moscas, os velhos jogados no chão e outros vermes que fugiam da luz. Mas o sorriso seguiu o olhar, e olhar apontava para a divisória. A rua não seguia mais reto. Esquerda ou direita. Ambas seriam escolhidas. Por um, pelo outro, pelos dois mas nenhum iria inteiramente. No fim eles ficariam ali, olhando a bifurcação por toda a eternidade, enquanto seus corpos vazios tomavam em conjunto a decisão de para que lado deveriam ir.
– Você vai ficar bem? – ele perguntou, sabendo que a pergunta era inútil e que não obteria resposta. Ainda assim ele perguntou, pois não tinha mais a certeza que uma vez já possuíra.
Eles poderiam ter ficado ali, olhando um para o outro, depois cada um para a sua rua, mas um barulho distante chamou a atenção de ambos para onde não imaginavam se voltar: o caminho de onde vieram.
A luz linda e poderosa de uma imensa bola de fogo subia pelos céus. A granada que explodiu o botijão de gás e fez os fogos de artifício mais bonitos que já se viram em Tenemissa. Queimavam e destruíam o que restava do apartamento no terceiro andar, invocando para as ruas centenas de meio-homens e meio-mulheres, as pessoas que viviam na escuridão. Também viam os pobres e oprimidos moradores de Tenemissa, criando finalmente coragem para abrir a janela de casa pela primeira vez desde que a guerra entre as famílias começou.
Enquanto todos se voltavam maravilhados para aquela deusa das chamas, duas pessoas voltavam suas costas à ela. Duas pessoas que se obrigavam agora a seguir caminhos distintos.

domingo, 20 de novembro de 2011

6 - O Apartamento no Terceiro Andar

– É aqui? – Perguntou Aline, olhando com desagrado para o prédio velho, cheio de rachaduras e com a pintura quase toda descascada.
– Tá com medo de se sujar? – Carlos não encarou ela. Ainda estava visivelmente zangado. “Por que diabos eu trouxe ela comigo?” era o que ele estava se perguntando. Durante toda a busca, Aline fez questão de aparecer aonde não deveria. Uma Menegaro ao lado dele estragava sua fama de neutro. Mesmo tentando explicar a ela, ela fazia questão de interferir, de botar medo nos contatos que Carlos demorou tanto para ganhar confiança. A briga de meia hora atrás ainda ressoava em sua mente, como uma música irritante que ele não conseguia parar de cantar.
É graças a essas pessoas que eu faço meu trabalho melhor que qualquer um, e você está arruinando tudo!
Não quer ser visto em minha companhia?
Você sabe muito bem que aqui não posso tomar lados. Não quero que ninguém veja uma Menegaro junto comigo!
Achei que você gostasse de mim... disse Aline, sem fazer o menor esforço pra esconder o sorriso irônico. Para ela aquilo tudo era apenas uma brincadeira. Carlos se perguntava se ela já teria esquecido tão cedo da morte do irmão. Provavelmente esse era o jeito dela de tentar esquecer Além do mais, ficar do lado da minha família só faz com que todos saibam que você está do lado mais forte
Eu não estou de lado nenhum. Eu faço o trabalho que eu aceitar pelo dinheiro de quem paga mais
Então você faz o que eu quiser

“Faz o que eu quiser! quem aquela vadia pensa que é?”. Carlos saiu do carro. Aline falava alguma coisa, mas ele simplesmente não conseguia ouvir, ou talvez não quisesse ouvir. Ignorou a voz dela e entrou no apartamento. Uma escadaria estreita estava logo a frente: subia um pouco, virava pro outro lado. Uma porta de madeira observava os intrusos tranquilamente ao final do primeiro lance, ignorando a pichação com o formato de um pênis que o filho do vizinho havia feito nela.
Carlos começou a subir. Tinha a vaga consciência de que Aline estava atrás dele. Não era surpresa, em nenhum momento ela ficou dentro do carro. Só pedia para que não encontrasse aquele tal de Guilherme esperando por ele na curva da escadaria.
Subiram o primeiro lance, depois o segundo. Só haviam três. A última porta aguardava no topo do último lance. Um pênis também servia de boas vindas nela, assim como em todas as outras porta. Carlos se sentiu um pouco desconfortável: nesta porta a maçaneta era o testículo direito do pênis. Aline riu quando percebeu o motivo de Carlos ter parado.
– Quem está com medo de se sujar agora? –
– Cala a boca! –
E ele então subiu, Aline rindo histericamente atrás. Uma veia latejava na têmpora de Carlos enquanto ele imaginava uma cena onde estaria estrangulando aquela mulher. Nunca antes tinha se incomodado tanto com a risada de alguém.
Antes de abrir a porta, ambos pararam. Ouvia-se um barulho de dentro do apartamento. Parecia voz de duas pessoas conversando. Não sabia dizer o que estavam falando, as vozes eram baixas.
– Parece que vamos ter que interromper eles –
Shhhhhh! Fala mais baixo!
Carlos encostou o ouvido na porta, preocupado, mas pelo visto o suposto casal que eles caçavam ainda estava conversando. Pode reconhecer a voz de um homem e de uma mulher, tinha de ser eles. Lentamente, ele sacou seu revólver, segurando-o com uma mão e com a outra segurou a maçaneta, esquecendo completamente a pichação. Mas Aline não havia esquecido.
Não tão forte! Vai machucar o coitadinho

Carlos apenas ignorou. Respirou fundo, afastou Aline com a mão, girou a maçaneta e abriu a porta com força, apontando a arma para dentro.
Durante o segundo em que ele fez isso, tomou consciência de três coisas: a porta estava aberta, um casal conversava em uma novela na tv e um fio branco, quase invisível, arrebentou quando a porta se abriu. Um fio branco que estava preso ao pino uma temida bola verde.
Carlos não esperou para ver o que aconteceria, na verdade, ele nem sequer olhou na direção da granada. No instante em que percebeu que o fio estava lá, saltou para trás, batendo com as costas em Aline e fazendo com que ambos rolassem escada abaixo enquanto o inferno parecia correr atrás deles na forma de uma imensa bola de fogo.

sábado, 12 de novembro de 2011

5 - Mudança de Planos

Lia viu quando Guilherme atendeu o telefone. Sabia que ele também não estava dormindo, mas não esperava vê-lo receber uma ligação justo de madrugada. Talvez fosse a confusão que se fazia em sua cabeça, ou a confusão que vinha não-se-sabe-de-onde, mas ela, ao invés de ficar preocupada com uma possível ligação de um Menegaro ou Manentti, ficou com ciúmes da possibilidade de ser a ligação de alguma puta qualquer. “O que eu estou fazendo?” se perguntou quando percebeu a loucura de seu pensamento. Em sua distração, não viu quando Guilherme desligou o telefone e a olhou com preocupação nos olhos.
– Tem um cara vindo pra cá –
– Quem? – perguntou Lia, mais confusa por sua repentina volta a realidade do que pela situação em si.
– Um policial fez umas perguntas prum cara que tava me devendo uma. Ele já deve ta chegando –
– Policial? Isso quer dizer que... –
– Eles já acharam o corpo. Não tem mais jeito de sair com os barcos –
Eles estavam novamente sem saída. As engrenagens de ambos os cérebros trabalhavam na maior velocidade possível para tentar encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que desmentisse aquele comentário. Mas nenhum dos dois conseguiu. Ficaram apenas lá, olhando para o chão. Guilherme ainda segurando o celular e Lia ainda sentada na cama, observando os pés descalços de Guilherme pela abertura da porta do quarto, que ficou aquele tempo todo aberta por via das dúvidas.
– Não importa mais, a gente tem que sair daqui – Conseguiu dizer Guilherme
– E ir pra onde? –
– Por aí, em alguma casa, ah sei lá! –
– Você ainda tem muitos amigos que te devem uma? –
Guilherme parou para pensar. Ainda podia contar com um ou dois amigos. Confiar, não. Confiança era uma piada em Tenemissa, e todos sabiam disso. O grande problema era Lia. É raro conseguir alguma ajuda quando se tem um alvo pintado na testa, ainda mais se você estiver acompanhado de uma estranha. Se ninguém consegue confiar de verdade em um velho amigo, um velho amigo procurado andando ao lado de uma provável ladra ou prostituta (pois era a essas alternativas que se resumiam as mulheres jovens e belas) merecia na verdade dois tiros de revólver: um de cumprimento e outro de despedida.
– Tenho, mas não acho que seria uma boa ideia... –
– Eu tenho pra onde ir, se não tiver escolha –
– É seguro? – perguntou Guilherme erguendo os olhos. Pergunta besta, Lia nem se deu ao trabalho de responder. Apenas sorriu com uma mistura de ironia e carinho.
– Ta certo, mas será que é bom a gente se separar? –
– E tem outra saída? Você vai procurar ajuda de um lado, eu de outro. Se um de nós conseguir alguma coisa, liga –
O que Lia disse não era na verdade um plano. Ela estava apenas afirmando o que os dois já sabiam, mas Guilherme não queria admitir: não havia outra escolha.
– Ta certo, mas quem você vai procurar? –
– Não se preocupa, eu sou tanto da rua quanto você –
– Eu só acho que... –
– Foi você quem me ensinou a me cuidar sozinha, Guilherme, não vai começar a se arrepender agora, vai? –
– Não – respondeu por fim Guilherme. Era verdade, e quem era ele para discutir? O pai dela? “malditas mulheres e sua capacidade de sempre ganhar uma discussão”. – Mas tira essa roupa, ta parecendo uma sapatona que faz street dance que eu conheço. Tem umas roupas suas no armário –
Lia sorriu. Ainda usava as roupas de Jean. Masculinas e grandes demais pra ela.
– Não tem um espelho aqui? –
– Só no banheiro –
– Já conheci putas que vivem melhor do que você. Onde você arranjou esse lixo? –
Guilherme riu. Estavam se dando bem, mas ignoravam o tempo que um policial como Carlos leva para encontrar uma dupla tão amadora como eles. Na verdade, eles ignoravam muitas coisas.

sábado, 5 de novembro de 2011

4 - O Verde Sempre Volta

– Parece que foi um assalto – disse o policial.
– Droga, Carlos! Não me interessa o que é que foi, só quero pegar o filho da puta que fez isso – respondeu o homem de cabelos grisalhos.
O policial olhou em volta, examinando cada detalhe. Primeiro o corpo, depois a cama, depois as gavetas... o quarto inteiro, a sala, a cozinha... o banheiro.
– Já deu de brincar de CSI? – perguntou o velho.
– Acho que você não tá procurando por um filho da puta, Hércules, mas pela própria puta –
– O que você disse? –
Carlos abaixou sua mão para a privada com um sorriso no rosto, ignorando as reclamações de nojo de Hércules. Lá dentro, uma ponta verde dançava no fundo, como uma sereia dos mares na qual alguém tentou dar descarga. O policial puxou, e o verde aumentou de tamanho. Ele continuou puxando e puxando até tirar do fiapo um vestido inteiro. A tela verde salpicada de vermelho abstrato. Uma arte linda e única digna de Jackson Pollock.
– Uma puta com classe, ainda por cima – finalizou Carlos, parecendo querer apresentar a obra recém descoberta.
Hércules olhava com repugnância o vestido, como se a própria dona ainda estivesse nele, zombando do velho que ainda tinha nos olhos a marca do choro.
– Não me interessa se é homem, mulher ou a sua mãe. Você vai pegar quem fez isso, e vai trazer pra mim antes do sol nascer –
– Calma lá, também não é assim. Sabe, tem muitas dificuldades em se rastrear alguém... tenho de molhar a mão das pessoas certas, mas não tenho dinheiro agora, sabe como é, sem dinheiro leva mais temp... –
– Pegue o quanto quiser, seu maldito policial, pode levar todo o meu dinheiro. Se você me trouxer a garota, arranjo um jeito de te dar mais ainda –
– Agradeço a gentileza – respondeu Carlos com o sorriso mais irônico do mundo – Já posso começar com você. Sabe se ele tava trabalhando em alguma coisa? –
– Não me meto nos negócios dos meus filhos. Contanto que eles consigam dinheiro, não me interessa como. Foi assim que eu criei eles, e é assim que devia ser com todo mundo –
– É claro, mas nem sua filha sabe? –
– A Aline? Talvez... Ela tá lá fora, vamos lá –
Enquanto andavam pela casa, Carlos ia examinando o vestido, sentindo uma estranha e irracional afeição por ele. Quando eles abriram a porta da frente, não foi necessário procurar Aline. Ela estava lá, parada em frente a porta, ansiosa esperando por notícias. As lágrimas ainda não haviam cessado. Era uma mulher muito bonita, reparou Carlos. Vindo de uma família como aquela, era de se admirar que não se parecia nem um pouco com uma prostituta. Parecia, na verdade, não ser filha de ninguém, tão independente era seu olhar, mesmo estando arrasada.
– Esse cara vai pegar quem fez isso, pai? –
– Vai sim, filha, mas vai precisar de sua ajuda –
Imediatamente a postura dela mudou, as lágrimas pararam de cair, o rosto se ergueu, orgulhoso como era normalmente, o olhar decisivo que devia ter amedrontado seus primeiros namorados, a expressão de quem está se concentrando para realizar um trabalho árduo. Carlos quase deixou escapar uma exclamação.
– O que eu posso fazer? – perguntou ela.
– Vo... Você sabe no que seu irmão estava trabalhando? –
Aline olhou para o pai, não estava indecisa, mas sabia que precisava de permissão para aquilo. Hércules acenou que sim com a cabeça.
– Ele tava mexendo com drogas, tudo quanto é tipo. Mas precisava de alguém que saísse da ilha com a intenção de voltar –
– Quem? –
– Não sei, só sei do plano, mas não me meti –
– Então eu vou falar com algumas pessoas, ver que informação eu consigo... –
– Eu vou com você – Interrompeu Aline, nitidamente escravizava o negro alto apenas com seu olhar.
Carlos a encarou sem piscar. Teria de dizer não. Não podia fazer seu trabalho direito com uma Menegaro sentada no banco do seu carro. A única alternativa que tinha era dizer pra ela que não podia ir, que iria atrapalhar.
– Tudo bem, pode vir – disse ele, sem saber como aquelas palavras saíram de sua boca.

sábado, 29 de outubro de 2011

3 - O Que Fazer

– A gente tem que dar um jeito de sair dessa ilha –
Lia quebrou o silêncio com a pergunta que, sabia, Guilherme estava prestes a fazer. Apesar disso a sala continuou silenciosa, como uma enorme teia de aranha na qual aquela pergunta era apenas mais uma mosca. A ansiedade pela resposta fez o silêncio parecer ainda mais opressor. Após um tempo incalculável Guilherme suspirou. O barulho súbito fez com que Lia se arrepiasse.
– Não tem como –
Parecia que o silêncio novamente ia reinar. Quando ninguém quer falar sobre a única coisa que se tem em mente, é impossível conversar. Lia não estava disposta a calar aquele assunto enquanto não tivesse algo a fazer. Algo mais “possível” em que se preocupar.
– Mas ninguém sabe ainda – insistiu Lia
– Só amanhã que começa a sair os barcos. Se até lá nem a polícia nem os Menegaro souberem do que vo... do que a gente fez, então nós saímos –
– Não é melhor roubar um barco? –
– E arriscar pra que? Amanhã saímos. Se fosse fácil roubar um barco por aqui, não haveria mais nenhum escorado no cais –
Eles se viraram para olhar um para o outro, tentando encontrar uma resposta milagrosa nos olhos.
– Como isso foi acontecer? – perguntou Lia
– Algo deu errado. Uma hora ou outra alguma coisa ia acontecer, sempre acontece. Com a gente a hora foi agora –

Lia parou para pensar. O assunto ainda não tinha acabado.

– E se não der certo? –
– Vai dar–
– Mas e se não der? Precisamos de um plano pra tirar a gente daqui caso a polícia descubra o corpo antes do amanhecer –
– Eu tava pensando nisso... acho que só tem uma saída. Pedir ajuda ao Giuseppe –
– Nada mais justo, fizemos um favor pra ele! –
– Não é bem assim. Matar o Jean vai significar guerra, e eu não duvido que a primeira coisa que o Giuseppe vai fazer quando descobrir é mandar a gente pra forca tentando evitar a briga –
– Então acabamos de ficar inimigos dos dois times, né? Não tem pra onde correr –
– Esqueceu de contar a polícia. Somos inimigos dos dois times e do juiz também –
A risada foi inevitável. Rir da própria desgraça parece improvável, mas acontece. Pode ser o primeiro sinal de loucura ou o último vestígio de sanidade. Para Guilherme e Lia, era a prova de que ainda podiam passar por aquilo juntos, e quem sabe um dia rir novamente quando se lembrassem.
– Mas ainda acho que posso convencer o Giussepe a me ajudar, se eu fizer ele achar que vai ser vantajoso pra ele... – continuou Guilherme
– Meio difícil, não? –
– O Giuseppe gosta de mandar, ta cheio de gente que sabe das coisas trabalhando pra ele, e tem a maioria do seu lado. Mas é burro, eu não seria o primeiro a convencer ele a ajudar alguém que não merecia –
– Teve gente que saiu daqui graças a ele? Não acredito! –
– Teve sim, mas não me disseram o nome – mentiu Guilherme
– Parece um sonho sair de Tenemissa... –
– A gente consegue –
– Aquele nosso plano poderia ter dado certo, e então a gente já teria passagem garantida pra fora –
– Acha mesmo isso? –
– Não, mas bem que você podia calar a boca ao invés de estragar meu pensamento positivo! –
Pouco tempo depois Lia e Guilherme foram dormir. Após um pouco de insistência, Lia conseguiu trocar o sofá pela cama, o que não adiantou. Por uma hora ambos só conseguiram cochilar, pois toda vez que dormiam acordavam de pesadelos muito semelhantes.
Nenhum dos dois poderia adivinhar, mas um dos pesadelos estava naquele momento se tornando realidade. A realidade na forma de um carro preto que estacionava na casa de Jean. A realidade na forma de um pai chorando sobre o corpo do filho.