As roupas curtas e a maquiagem exagerada das garotas nas esquinas mostravam a Lia o quanto ela estava perto de casa. Algumas ela conhecia, algumas eram novas. Todas tentavam parecer sedutoras para os homens que passavam de carro, mas nenhuma tinha qualquer vestígio de brilho nos olhos. Eram todos pares vazios de quem sabe que a vida não reserva mais nenhuma surpresa. Todas, porém, se endireitavam nos saltos altos quando viam Lia passando. Não importa quanto tempo passa, o rosto dela sempre será conhecido naquela região.
Apesar disso Lia não abaixou a cabeça. Continuou com seu andar firme sem diminuir ou acelerar o ritmo. Passava por entre as prostitutas sem lhes dirigir o olhar, nem mesmo pelo canto do olho, e todas acabavam esquecendo que estavam no meio do trabalho. Era preciso algumas buzinas para despertá-las, mas já não era a mesma coisa. A atenção dos homens estava agora voltada para aquela garota tão linda, que passou por eles sem acenar, sem tentar seduzi-los. Naquele momento qualquer um deles poderia dar todo o seu dinheiro para tê-la, mas também sabiam que nenhum deles conseguiria. Eles também viram a diferença entre os olhos das prostitutas e os seus. A diferença entre a ausência de esperança e a pura obstinação.
Apenas três mulheres de saia curta não aderiram ao movimento da massa. Três colunas maquiadas que bloqueavam a calçada por onde Lia passaria. Três garotas de programa que esperaram muito por aquele reencontro. Lia bem poderia tentar dar a volta ou mudar de rua, mas não o fez. Olhou nos olhos da líder do trio, que estava a um passo a frente das outras, e nada falou.
– Vejam só se não é a princesinha – disse a líder, colocando todo o desprezo que conseguiu na última palavra.
– Sai da minha frente, Carla – respondeu Lia, com o tom de voz de quem dá “bom dia”.
As duas mulheres de trás começaram a rir, mas pararam quase imediatamente ao ver que Carla não fazia o mesmo. Darline e Roberta eram elas, que passaram a vida toda na sombra de uma prostituta com mais liderança. Era melhor do que tentar a vida sozinhas, já que nenhuma “casa especializada” as aceitou. Carla, por outro lado, era requisitada, mas seu orgulho a impedia de receber ordens.
– Ou o que você vai fazer? Não to vendo aquele seu namorado corno aqui pra te proteger – foi a resposta amarga.
– De vocês eu posso cuidar sozinha – retrucou Lia, tão séria que Carla teve de se esforçar para manter a cara de deboche. Darline e Roberta não conseguiram, e já demonstravam um leve ar de obediência por medo da punição.
– Você não consegue cuidar nem de você mesma! É só ver pra onde você está indo: não conseguiu fugir, agora vai voltar pra casa –
Lia piscou. Não conseguiu pensar em uma resposta de imediato, o que deu a Carla motivos para desta vez rir com vontade. atrás dela, suas duas seguidoras riam junto. Um coral de riso falso. três hienas humanas aproveitando do melhor que aquela vida poderia dar a elas: rir dos outros. É um alívio para o corpo cansado saber que, por pior que a vida seja, sempre vai haver alguém de quem podemos dar risada. A desgraça alheia nos dá forças. Carla, Darline e Roberta se sentiam fortes quando se colocavam acima de alguém.
De certo Carla achou que aquilo já era vitória o bastante por uma noite, pois deu meia volta e saiu andando, liberando a passagem para que Lia continuasse seu caminho. Mas ela ficou lá, parada. Seus olhos já não mostravam mais obstinação, e sim dúvida. A sua volta a noite girava com tudo no lugar: bêbados, prostitutas e homens de carro. Ninguém mais prestava atenção naquela garota que há pouco parara a rua.
De um beco escuro um mendigo chamava Lia para lhe fazer companhia. Aquilo a trouxe de volta de seus pensamentos e ela pode seguir em frente. Mas agora não mais de cabeça erguida.
As ruas passavam invisíveis aos seus olhos, mas seus pés já sabiam a direção que devia tomar. Ela se guiava instintivamente olhando para os próprios sapatos.
Afinal, estava em casa.
Durante a caminhada, ela se perguntava se poderia fazer mesmo aquilo. Se ia ser bem recebida. Se ia ficar segura. Mas acima de tudo se perguntava o que Guilherme diria se soubesse que ela estava ali. Retornando ao lugar de onde ele a tirara.
“Ele já deve saber que eu estou aqui” pensou ela com desânimo. “Ele sabe que não há outro lugar que eu ainda possa ir”.
Agora estava chegando mais perto, e a cada luz de néon ela se lembrava do nome da dona de cada bordel e de cada prostituta que lá trabalhava. Até que chegou a um dos maiores e mais procurados bordéis da região, o Castelo da Rainha. As luzes piscando lembravam a sua infância, e foi engolindo em seco que ela parou na frente da enorme construção. Não era tão grande antes, Lia tinha certeza, mas isso realmente não importava mais.
“Lar doce lar... Jamais imaginei que fosse por os pés aqui de novo”
Apesar disso Lia não abaixou a cabeça. Continuou com seu andar firme sem diminuir ou acelerar o ritmo. Passava por entre as prostitutas sem lhes dirigir o olhar, nem mesmo pelo canto do olho, e todas acabavam esquecendo que estavam no meio do trabalho. Era preciso algumas buzinas para despertá-las, mas já não era a mesma coisa. A atenção dos homens estava agora voltada para aquela garota tão linda, que passou por eles sem acenar, sem tentar seduzi-los. Naquele momento qualquer um deles poderia dar todo o seu dinheiro para tê-la, mas também sabiam que nenhum deles conseguiria. Eles também viram a diferença entre os olhos das prostitutas e os seus. A diferença entre a ausência de esperança e a pura obstinação.
Apenas três mulheres de saia curta não aderiram ao movimento da massa. Três colunas maquiadas que bloqueavam a calçada por onde Lia passaria. Três garotas de programa que esperaram muito por aquele reencontro. Lia bem poderia tentar dar a volta ou mudar de rua, mas não o fez. Olhou nos olhos da líder do trio, que estava a um passo a frente das outras, e nada falou.
– Vejam só se não é a princesinha – disse a líder, colocando todo o desprezo que conseguiu na última palavra.
– Sai da minha frente, Carla – respondeu Lia, com o tom de voz de quem dá “bom dia”.
As duas mulheres de trás começaram a rir, mas pararam quase imediatamente ao ver que Carla não fazia o mesmo. Darline e Roberta eram elas, que passaram a vida toda na sombra de uma prostituta com mais liderança. Era melhor do que tentar a vida sozinhas, já que nenhuma “casa especializada” as aceitou. Carla, por outro lado, era requisitada, mas seu orgulho a impedia de receber ordens.
– Ou o que você vai fazer? Não to vendo aquele seu namorado corno aqui pra te proteger – foi a resposta amarga.
– De vocês eu posso cuidar sozinha – retrucou Lia, tão séria que Carla teve de se esforçar para manter a cara de deboche. Darline e Roberta não conseguiram, e já demonstravam um leve ar de obediência por medo da punição.
– Você não consegue cuidar nem de você mesma! É só ver pra onde você está indo: não conseguiu fugir, agora vai voltar pra casa –
Lia piscou. Não conseguiu pensar em uma resposta de imediato, o que deu a Carla motivos para desta vez rir com vontade. atrás dela, suas duas seguidoras riam junto. Um coral de riso falso. três hienas humanas aproveitando do melhor que aquela vida poderia dar a elas: rir dos outros. É um alívio para o corpo cansado saber que, por pior que a vida seja, sempre vai haver alguém de quem podemos dar risada. A desgraça alheia nos dá forças. Carla, Darline e Roberta se sentiam fortes quando se colocavam acima de alguém.
De certo Carla achou que aquilo já era vitória o bastante por uma noite, pois deu meia volta e saiu andando, liberando a passagem para que Lia continuasse seu caminho. Mas ela ficou lá, parada. Seus olhos já não mostravam mais obstinação, e sim dúvida. A sua volta a noite girava com tudo no lugar: bêbados, prostitutas e homens de carro. Ninguém mais prestava atenção naquela garota que há pouco parara a rua.
De um beco escuro um mendigo chamava Lia para lhe fazer companhia. Aquilo a trouxe de volta de seus pensamentos e ela pode seguir em frente. Mas agora não mais de cabeça erguida.
As ruas passavam invisíveis aos seus olhos, mas seus pés já sabiam a direção que devia tomar. Ela se guiava instintivamente olhando para os próprios sapatos.
Afinal, estava em casa.
Durante a caminhada, ela se perguntava se poderia fazer mesmo aquilo. Se ia ser bem recebida. Se ia ficar segura. Mas acima de tudo se perguntava o que Guilherme diria se soubesse que ela estava ali. Retornando ao lugar de onde ele a tirara.
“Ele já deve saber que eu estou aqui” pensou ela com desânimo. “Ele sabe que não há outro lugar que eu ainda possa ir”.
Agora estava chegando mais perto, e a cada luz de néon ela se lembrava do nome da dona de cada bordel e de cada prostituta que lá trabalhava. Até que chegou a um dos maiores e mais procurados bordéis da região, o Castelo da Rainha. As luzes piscando lembravam a sua infância, e foi engolindo em seco que ela parou na frente da enorme construção. Não era tão grande antes, Lia tinha certeza, mas isso realmente não importava mais.
“Lar doce lar... Jamais imaginei que fosse por os pés aqui de novo”