domingo, 29 de abril de 2012

29 - Despeça-se dos Nossos Amigos Queridos

            Os vermes tinham curiosidade o bastante para virar a cabeça e ver aquele homem que sangrava ser carregado para dentro das ruínas do que antes fora uma casa símbolo de poder. Ainda assim, ninguém parecia se importar com aquilo. De sangue e de água, oferendas jorram pelos esgotos. Quase todos os viciados jogados naquele chão sujo já haviam visto alguém morrer de forma violenta. Alguns até mesmo já tinham matado. Mas agora não mais representavam perigo algum. Não passavam de pessoas sem vontade própria, escravas de todos os tipos de droga que podiam comprar. Isso era o que Guilherme pensou quando passou por eles pela primeira vez, mas agora ele já sabia. Não havia nenhum verme de verdade, eram apenas atores mortos. Todos da resistência têm o seu turno, sua vez de se fantasiar e fingir que levantar é algo difícil. Ficar um dia inteiro jogados no chão, apenas para manter as aparências. Foi isso que assegurou que aquele esconderijo permanecesse intacto por tanto tempo. E agora, esse tempo estava acabando.
            O alçapão secreto foi aberto sem perguntas. Tudo estava sendo feito muito depressa. Estavam perdendo Gustavo. Até mesmo aqueles que deveriam permanecer deitados, e fingir desinteresse extremo, não resistiram. Levantaram-se e foram atrás para ver o que aconteceria com um dos homens mais divertidos dentre eles, pobres esquecidos. Talvez tenha sido esse o erro. Estavam todos distraídos demais para prestar atenção no casal que se aproximava: um negro alto e musculoso vinha na frente, e uma elegante mulher caminhava atrás, cautelosa. Era o trabalho de Guilherme se certificar de que não estavam sendo seguidos, mas quem poderia culpá-lo? Ele ainda teria que ser interrogado, contar como foi que aquilo aconteceu, por que a missão foi um fracasso. Por que somente ele voltara são e salvo.
            Mas não eram essas as questões em sua cabeça, vendo seu mais novo amigo ser colocado em uma maca improvisada, com pessoas nervosas ao redor falando coisas demais para serem entendidas. Tudo aquilo era muito mais confuso que o próprio tiroteio. A batalha ainda tinha um sentido lógico: eram os aliados do seu lado, e os inimigos de outro. Mas ali estava Gustavo, com seus aliados se aglomerando em um círculo a sua volta. E onde estava o inimigo? Contra o que aquelas pessoas poderiam lutar, quando o estrago já estava feito? O herói estava completamente branco já fazia algum tempo, e ninguém parecia saber exatamente como reverter aquela situação. Eles não tinham equipamentos médicos. Eles não tinham nem mesmo médicos. Ícaro, Guilherme e Yohana permaneciam lado a lado, observando toda aquela loucura, quando se ouviram estampidos que fizeram todos esquecerem do morto que lutava para sobreviver.

            O policial se arriscou. Não poderia deixar de ver até onde aquilo ia dar. Sentia-se mais confiante com sua nova e poderosa arma. Aline, logo atrás, não parecia nem um pouco satisfeita em ter sido metida no tiroteio, mas agora não havia mais volta. Ao contrário de Guilherme, o policial percebeu a farsa do bando rebelde assim que penetrou nos jardins por um muro lateral. Se fosse um dia normal, talvez ele tivesse sido enganado, mas jamais uma pessoa que em minuto está caindo aos pedaços se levantaria tão depressa. Foi o que aconteceu com vários dos atores. Eles se levantavam e corriam para a casa. Com certeza aquilo era um comportamento incomum, devido ao homem ferido que Guilherme carregara. Era uma oportunidade única, Carlos sabia disso. Não podia desperdiçá-la indo embora. Precisava agir. E agiu.
            Logo todos corriam para fora do esconderijo, empunhando suas armas, mas já era tarde. O policial apertava o gatilho com uma fúria enlouquecedora, e não iria parar até que tivesse matado seu alvo. Este corria atrás de Yohana, que foi a primeira a se mobilizar quando ouviu o tiro. Guilherme imaginava ainda que Ícaro estaria logo atrás dele, e que ele saberia o que fazer, que comandaria aquele exército que tanto treinava para uma batalha. Mas Ícaro sumira silenciosamente, quando tudo o que havia ao redor era barulho.
            Enquanto isso uma dupla havia encurralado centenas de soldados. Carlos e Aline estavam dentro da casa. Eles esperaram para que a maioria dos vigias se rendesse à curiosidade, então mataram os que permaneceram em serviço silenciosamente. A intenção era ver até onde conseguiriam chegar, e então segurar o máximo possível a inevitável revanche daquelas pessoas, pois Carlos já chamara reforços policiais e, sem que ele soubesse, Aline também chamara os seus próprios reforços. Mas seus objetivos eram diferentes, e por isso Aline não se arriscou muito em nenhum momento. Ainda assim, sua própria cautela quase a traiu. Quando ela resistiu a entrar na casa, um dos vigias ainda estava vivo do lado de fora, e a viu. Ele se aproximou o bastante para que pudesse fazer pontaria, pois não carregava uma arma com a qual tivesse muita confiança, e foi enquanto se movia que Carlos apareceu do lado de fora novamente, dando ordens para que Aline entrasse. No momento de dúvida, em que o soldado não sabia se voltava para o seu esconderijo, se atirava dali mesmo e em quem, o policial o avistou. Não precisou pensar, pois já tinha a arma na mão, e o outro não conseguiu se mover a tempo. Os poucos tiros que saíram do cano da metralhadora ecoaram alto, se multiplicando pelos prédios da rua e por dentro das paredes do subsolo. Carlos e Aline correram para dentro da casa. Ele já notara para onde os outros tinham ido, então fazia uma boa ideia de em que direção ficava o esconderijo. Para a sorte deles, é quase impossível sair de dentro de um alçapão com alguém mirando diretamente nele, e foi assim que eles conseguiram evitar de serem massacrados por um exército inteiro.

            Yohana empurrava a fila que se fazia na escada. Logo muitos caiam. Não por ela, mas porque quem tentou sair acabava morto, derrubando os outros. Ela parecia não se importar. Viu o alçapão aberto, e percebeu o que estava acontecendo. Alguém estava esperando eles saírem para então atirar. Gritou ordens para que todos se amontoassem perto dela, e eles fizeram, sem questionar se sobreviveriam a o que quer que aquela mulher estivesse planejando.
– Quando eu for, todos vocês vão ao mesmo tempo! –
            E ela foi. Não saiu como os outros, ou como qualquer pessoa normal sairia de um alçapão. Ela saltou da escada direto para o piso térreo, em uma bela demonstração circense, que confundiu o policial por tempo o bastante para que os outros saíssem, mas não por tempo o bastante para que ela própria deixasse de virar um alvo. Carlos metralhou toda a sala da esquerda para a direita, atingindo primeiro Yohana, que morreu antes de tombar no chão. Mas a massa de pessoas que saiam atirando era grande demais, e o policial teve que fugir. Ouvia carros chegando, e sentia a sorte que tinha de que seus companheiros chegaram bem na hora certa.
            Mas nenhum policial se importou de atender ao chamado de Carlos. Os carros que chegavam eram todos Menegaro, e Aline já estava entre eles. Ele nem viu quando que ela se separou dele, mas imaginava que foi enquanto atirava. Ainda assim não parou pra pensar, apenas correu para detrás da cobertura que os automóveis ofereciam. Correu para perto da mulher que o enganou.
– Acho que eles são muitos, ainda bem que você chamou eles – disse Carlos, ofegante da corrida.
– Não foi por você que eu chamei eles. A gente já tava tentando encontrar esse lugar há um bom tempo. Meu pai te contratou para encontrar o Guilherme, e te dispensou quando você falhou. Mas quando desconfiamos que ele poderia ter vindo pra cá, meu pai disse que eu deveria me juntar a você, que você poderia encontrar o esconderijo, se pensasse que isso não era um trabalho pago, mas apenas uma vingança pessoal sua –
– O... o que? Do que você ta falando? –
– Existe uma terceira família, Carlos, os Fascin. Eles estão usando os rebeldes, mentindo pra eles, dizendo que vão lutar por liberdade, para que não precisem sujar as mãos. Eles querem derrubar as duas famílias ao mesmo tempo –
            Carlos parou para pensar naquilo tudo. De dentro da casa, os rebeldes se espalhavam. Havia uma parcela que escapava por uma saída de emergência, tentando não ser pegos pela emboscada para então contra-atacar. A dupla então resolveu sair dos limites do fogo cruzado, indo conversar em um beco próximo.
– Então esse era o seu motivo? Era isso o tempo todo? –
– Fala sério, você ta o que, triste por ter sido usado? Que tipo de policial você é? –
– Ta, eu entendi. Só estou um pouco surpreso. O que vem agora? –
– Agora nós vamos acabar com eles, e, depois vamos por um fim nos Manenti – respondeu Aline, se afastando devagar.
– E a gente? –
            Aline parou, de costas. Com seu corpo contra a Luz, Carlos só podia ver seu vulto. E o vulto virou-se para ele e riu.
– Você não se apaixonou de verdade, se apaixonou? –
            Carlos ficou em silêncio. Sentia-se extremamente burro. Toda a sua vida fora cauteloso, e agora tinha sido enganado.
– Adeus Carlos – disse Aline, e o policial viu sua silhueta se mexer de forma suspeita. Antes que ele pudesse reagir, a mulher sacou sua pistola e atirou no peito do policial. Apenas mais um tiro em meio a tantos outros. E Carlos caiu, sozinho no escuro, se perguntando o que poderia ter feito para que seu destino tivesse sido diferente. Sua assassina estava prestes a abandoná-lo, quando se lembrou da imagem do homem negro vestindo um colete. Apontou novamente a arma para o policial e apertou o gatilho mais uma vez, e outra. Não acertou a sua cabeça, apenas decidiu furar o colete. Ela queria que ele sofresse, que morresse aos poucos. Vingança? Não. Rancor? Não. Aquele homem não tinha feito nada que a fizesse ter raiva dele. Aline gostava de Carlos, de verdade. Ela só gostava mais de matar do que dele.

domingo, 22 de abril de 2012

28 - O Contra-Ataque da Garota Morta

            Após a euforia, veio o silêncio. Ou quase isso. Apenas o barulho de líquido derramando ecoava pela pequena sala do subsolo. E Lia permanecia quieta, esperando. Precisava saber se sua vingança não tinha sido ouvida pelo guarda que esperava a sua vez do lado de fora.
            Com muita cautela, ela pegou a pistola do homem morto no chão que por tanto tempo havia se tornado sua cama. Na parede ele havia deixado seu rifle escorado, descansando inocentemente, pois era um rifle para a segurança da casa, e nunca precisou ser usado. As armas dos soldados que iam para a rua eram todas sujas com o sangue da alma de suas vítimas, mas aquele rifle não. Ele era apenas uma criança, que não tinha ideia nenhuma do que viria em seu futuro. Mas Lia nem sequer tentou pegá-lo. Era pesado demais para ela que, ainda por cima, mal sabia atirar. A pistola serviria mais como uma emergência, sua verdadeira arma mortal era a tesoura na mão esquerda. E foi segurando-a com demasiada força que Lia passou por cima do corpo, pisando descalça em seu sangue, e se dirigiu à escada, única saída do seu “quarto”.
            O porão de tortura nada mais era do que um antigo depósito da garagem, antes de ter seu uso trocado para algo mais útil. No último canto da imensidão branca, onde os Menegaro guardavam dezenas de veículos, um guarda esperava pacientemente do lado de uma porta muito discreta, que, não fosse por ela estar sempre acompanhada de homens armados, ninguém jamais notaria. Não quando se há tantos automóveis impressionantes em todo o redor para chamar a atenção.
            Abrindo a porta, viria um lance não muito grande, mas também não tão pequeno de escadas. É uma descida quase vertical, e a paredes são muito estreitas. De fora, a impressão é que se vai cair ao tentar descer. De dentro, a impressão é que jamais alguém que passou por tantas torturas conseguiria subir. Mas Lia não mataria uma pessoa para desistir por uma escada. Pé por pé, ela subiu, sempre parando para ouvir. Estava tudo muito silencioso. Como ela não gritara durante o último ato do guarda morto, não deveria haver nenhum motivo para o sentinela do lado de fora desconfiar de algo. Eles já estavam acostumados com a total entrega da sua presa fácil, e foi por isso que Lia tomou coragem para fugir. Ser subestimado é uma oportunidade perfeita quando se está preso.
            Leandro, o guarda, ouviu os últimos passos da escada. Seu companheiro estava demorando um pouco, normalmente ele era mais rápido. Deveria ter se cansado, ou ficado tonto na subida. Isso era completamente normal. Quando a porta se abriu, o sentinela virou-se sorrindo, prestes a fazer alguma piada, como sempre fazia, tornando esse hábito tão repetitivo que teria sido mais engraçado se em algum momento ele não falasse nada. E é claro, Lia estava certa. A surpresa é mesmo uma grande arma. Ao ver a garota que ele jugava semi-morta aparecer na sua frente, com uma pistola em uma mão e uma tesoura ensanguentada em outra, Leandro ficou sem ação por dois segundos. Foi todo o tempo que Lia precisava. Com rapidez, ela passou por detrás do guarda e apontou o revólver para a cabeça dele.
– Acho bom você não tentar fazer nada – disse ela, em tom baixo, no ouvido do homem que pela vida inteira nunca precisou temer uma mulher. Agora via o risco que corria de ser morto justamente pelas mãos daquela que ele mais fez sofrer.
– Vai atirar em mim? E então o que, vai atirar em todos os outros guardas que vierem ver o que está acontecendo? – desafiou Leandro, mas Lia sentiu sua voz tremendo. Era tudo o que precisava.
– Você só viu a pistola, né? Nem percebeu que a minha tesoura ta prestes a furar o seu precioso amiguinho, e sabe como eu quero tanto fazer isso! –
            O guarda olhou para baixo, nervoso. A garota mantinha a tesoura ensanguentada firmemente apontada para o meio de suas calças. Ele suou frio. A cada minuto se arrependia mais e mais por tudo o que tinha feito a ela. Com as pernas tremendo, ele se deixou conduzir. Ela o estava levando de volta para a sala onde estava presa. O que faria com ele lá embaixo? Seria melhor tentar se livrar agora? Se ele deixasse, ela o mataria silenciosamente no depósito e nenhum guarda viria por ajuda. Mas, se ele se mexesse, ela o acertaria com a tesoura. Descendo as escadas o guarda chegou a conclusão de que não vale a pena perder o pinto apenas para que a prisioneira fosse recapturada. Se fosse para morrer, ele morreria inteiro.
            Mas ele pensou duas vezes quando viu o corpo do seu companheiro. Ela faria a mesma coisa, com certeza. No fundo do estômago, Leandro já saboreava a mesma sensação de entrega que ele e os outros tinham feita aquela garota sentir. Não havia nada a ser feito, a não ser esperar. E a espera é a pior parte.
            Lia não sentiu pena. Não pensou duas vezes. Ela estava se divertindo. As lágrimas caindo do rosto de sua futura vítima faziam com que ela sentisse vontade de rir. Ainda assim, não se permitiu isso. Algo a dizia que rir quando se está prestes a matar alguém é falta de respeito. Por isso sua expressão ficou o mais séria possível, e até o guarda acreditou que ela não estava gostando de fazer isso, mas era obrigada a fazê-lo. Nada poderia estar mais longe da verdade.
            Até um tempo atrás, ter matado Jean a atormentava em sonhos. Tirar uma vida pela primeira vez... Ela sempre teve esperanças de nunca precisar passar por isso. Mas esses pensamentos eram de antes do que aconteceu com Gabriela. Eram de antes da tortura. Eram de antes do estupro. Lia não mais se importava. Quando via qualquer um dos capangas do Menegaro, ela se lembrava dos olhos castanhos da sua melhor amiga, no momento em que eles deixavam de ser vivos e sonhadores. E então tudo o que ela podia desejar era pegar sua tesoura e tirar deles tudo o que tiraram dela.
            Foi o que ela fez novamente. O segundo corpo caiu estirado em cima do primeiro. Sangue por cima de sangue se mistura, tornando cada elixir próprio da vida de dois homens um único líquido sem valor se não pela lembrança. Marcas da violência não pertencem a ninguém: é apenas sangue e nada mais. Lia ficou lá, observando os corpos que agora ela clamara para si, enquanto esperava Magali aparecer. Sua protetora sabia exatamente o que ela tinha feito. O plano foi todo dela. Afinal, até mesmo a tesoura foi ela quem conseguiu. Agora juntas elas fugiriam, e Magali saberia para onde ir. Lia confiava sua vida nela, e como poderia fazer diferente?
            Ainda assim, demorou alguns minutos para que a outra aparecesse, seu uniforme de empregada sujo de sangue. Assim como Lia, ela também carregava uma pistola, mas esta era silenciada. A fuga já tinha começado. Sem perder tempo, elas correram para o carro que já tinham escolhido previamente: um esportivo blindado, perfeito para o plano. Tudo estava perfeito, afinal. Magali roubara as chaves e muito dinheiro, uma bolsa com armas e outra com munição. Lia sabia dirigir e muito bem, coisa que sua amiga não poderia fazer sozinha.
            Mas antes mesmo de entrarem no carro, vários homens armados apareceram, cercando a garagem. No meio daquele labirinto de automóveis, eles não conseguiam ver onde as duas estavam, e não podiam arriscar disparar naquela coleção multimilionária. Essa foi a sorte de Lia e Magali, que conseguiram chegar até o carro planejado, entrar sem fazer barulho e então dar a partida, dedurando a posição de ambas. Mas já era tarde demais para os guardas, que não sabiam se atiravam ou não. Com muita destreza, Lia escapou da garagem, sem se importar com quem aparecesse na frente do carro. No instante em que saiu, os guardas tiveram a certeza de que podiam atirar, e foi o que fizeram. A blindagem era boa, mas as armas também, e elas eram muitas. O antes belo esportivo parecia agora um carro abandonado, repleto de furos, ainda que nenhum representasse grande perigo para as mulheres que estavam lá dentro. Nem mesmo o grande portão de ferro as impediu de sair, quando o carro acelerou em sua direção, arrebentando-o.
            Mas nem mesmo quando saiu dos terrenos da mansão Lia se permitiu relaxar. Mais de vinte carros arrancavam da garagem para persegui-las, e ainda seria um longo caminho até sair do território inimigo.

sábado, 14 de abril de 2012

27 - No Seu Ponto de Vista

            O homem de boa aparência mandou que chamassem seu fiel braço direito, Ícaro. Este já sabia o que estava por vir. Era apenas uma entrevista de rotina, onde ele reportava tudo sobre o plano da resistência para o Chefe Invisível. Ainda assim, o ruivo não parava de arrumar os cabelos, nervoso. Neste dia, pela primeira vez, não trazia boas notícias. Foi até mesmo desencorajador ver o sorriso do manda-chuva, que lhe dava as boas vindas.
– Ícaro! Meu caro amigo, sente-se – disse Giovanni Fascin
            E Ícaro se sentou. E Ícaro tomou coragem para contar o que aconteceu. E o que aconteceu lhe custou o cargo, que não mais poderia existir, e quase lhe custou a vida. E ainda havia um peso na consciência que lhe dizia que tudo aquilo foi merecido. Ele fez merda deixando Guilherme sair numa missão. Agora tudo estava arruinado.


            Não era nada fácil carregar um peso morto. Gustavo estava prestes a desmaiar, e não mais andava. Guilherme tinha que carrega-lo, o que só fazia dos dois alvos ainda mais fáceis para outra emboscada, mesmo que muito improvável. Eles não conseguiram matar todos, um ou dois fugiram, de certeza, mas um zumbido no ouvido de Guilherme lhe dizia que eles não estavam sozinhos. Confiar nos instintos não é apenas um dom, é uma arte. Quem sabe dela usar pode atravessar a ilha ileso, tomando as ruas certas sempre, com o olhar confiante e atento para o que quer que se mexa.
            Seria mesmo uma grande pena se, depois de tudo, Gustavo morresse no caminho. Eles só não foram massacrados pelo seu ato de heroísmo. Mas e então, o que acontece depois? Ele morre, os Manenti descobrem onde fica o esconderijo, e tudo pelo que um dia se lutou voa pelos ares e sucumbe para o esquecimento, escoando pelos esgotos. Guilherme não conseguia entender. Tinha achado ótimo a ideia de lutar por um ideal mas, na prática, não havia o menor sentido. Apenas conseguiam fazer a verdadeira luta aqueles que se sacrificavam, então por que lutar? Foi sentindo o peso cada vez mais sem vida de seu companheiro de briga que Guilherme decidiu que não era aquilo que ele queria. Que, quando chegasse a hora, ele viraria as costas para os seus companheiros sem pensar duas vezes, e fugiria com Lia para longe dali. Isso é a coisa certa a se fazer, não há do que se arrepender depois.


            Força. Nojo. Humilhação. Desespero. Arrependimento e novamente força. Finalmente a simples entrega, rezando para que tudo acabe. Foi assim com Lia todas as vezes, em tudo o que faziam com ela, várias vezes por dia. Não fosse por Magali, a prisioneira dos Menegaro já teria esquecido o que significa a palavra “humano”. Mas ter uma amiga, ainda mais por dentro das linhas inimigas, um apoio tão forte que a fez finalmente saber como é se sentir uma filha amada por uma mãe, a deu forças para revidar. Todos já a consideravam semi-morta. Faziam apostas para ver quantos dias mais ela sobreviveria. Ninguém sabia que, embora seu estado deplorável dos primeiros dias fosse genuíno, ela agora estava novamente cheia de forças e esperanças. Para quem não tem nada, isso é simplesmente tudo. Lia viu nos olhos dos soldados que eles não a consideravam mais uma possível ameaça. Eles baixaram a guarda muitas e muitas vezes, e ela não fez nada. Simplesmente se deixou cair, e eles acreditavam em sua falta de força. Eles acreditavam que ela já estava pronta para morrer.
            Mas ela nunca esteve. Até mesmo um soldado uma vez viu Magali a ajudando, mas não a dedurou. Apenas comentou, rindo: “deixa ela, essa aí já ta morta mesmo, nem tem mais jeito”. E foi justamente esse soldado que viu a morta se levantar, quando ele já estava tonto e satisfeito, e a viu pegar uma tesoura, e vingar o sangue escorrido de sua carne espirrando o sangue do pescoço do desavisado estuprador. Não, não era apenas um tesoura, era A tesoura. Quando Magali ouviu, fascinada, a história de como Lia matou Jean e enterrou a arma do crime, ela deu o seu jeitinho. Em menos de uma semana, já tinha a tesoura em mãos. Poucos dias depois, surgiu a oportunidade de escondê-la no porão.
            Lia adorou a ideia. Segundo sua mais nova protetora, aquele simples objeto simbolizava a queda de toda a opressão. A história já tinha se espalhado, e todos agora já esperava pela imagem da tesoura velha, enferrujada, com antigas marcas de sangue. Lia daria a eles exatamente o que eles queriam ver: sangue novo sendo derramado pela arma que causou o apocalipse pessoal de Tenemissa.


            O policial e a Menegaro se mantiveram afastados o tempo todo. Carlos sabia que alguém que sobreviveu aquele tiroteio deveria ter sentidos de aço, então era melhor não arriscar. Aquele rapaz combinava com a descrição de Guilherme. Poderia muito bem ser ele, e isso era uma coincidência tremenda. Se fosse mesmo seu alvo, com certeza, ele jamais entraria em um lugar qualquer carregando um homem ferido, então tinha de estar se dirigindo ao seu esconderijo. E se ele tinha duas pessoas dispostas a se sacrificar em um tiroteio, no esconderijo deveria haver mais. Quem sabe quantos? Eles não poderiam entrar lá se fossem muitos, mas ao menos já saberiam onde é.
            A grande surpresa foi quando viu o jovem carregar o seu companheiro para dentro de uma casa quase demolida, repleta de viciados. É claro, quem jamais desconfiaria de um esconderijo onde não há como se esconder? Mas aquilo não fazia sentido, uma hora ou outra, deveria aparecer algum viciado com cérebro o bastante para denunciar aquelas pessoas, se elas morassem mesmo entre eles. E como eles conseguiam guardar armas naquele lugar? E comida? A curiosidade matava o policial. Talvez por isso ele não percebeu que Aline mandava, discretamente, uma mensagem do seu celular para o seu irmão, Felipe. Isso era o tipo de coisa que ele jamais deixaria passar, se as circunstâncias fossem outras. Mas lá estavam os dois, depois de meses sem pistas nenhumas, prestes a encontrar o esconderijo do homem que matou o filho de Hércules Menegaro. O policial já nem sequer precisava mais caçar o rapaz, mas simplesmente não poderia deixar viver alguém que quase o matou com uma granada, que fez um prédio cair em cima dele e ainda por cima, por culpa disso, o fez perder contato com o homem que mais lhe pagava bem: o pai da linda mulher que, propositalmente, estava aos poucos ficando para trás dos passos ansiosos de Carlos. Ela o traíra, como sempre soube que ia fazer, e que mesmo ele já desconfiava disso.
Agora era só esperar a festa começar.

domingo, 8 de abril de 2012

26 - Nunca se Sabe o que Vai Encontrar

– E então? – perguntou Carlos.
            O casal seguiu silencioso durante alguns minutos, cada um com seus próprios pensamentos. Mas ambos sabiam que a caçada agora não poderia mais seguir seu ritmo normal. Ou melhor, Carlos sabia, e Aline sempre soube. Depois de mais uns dois minutos, ela respondeu.
– Você me diz –
            Carlos freiou o carro com violência, fazendo-o parar quase no meio da estrada. Não havia qualquer outro automóvel na rua para se importar.
– Nem vem com essa. A hora é agora, e é bom você decidir isso sem fazer mais joguinhos. A filha da puta ta com a sua família agora, e se o Guilherme estiver lá também, você sabe o que eu vou fazer – disse ele, raivoso, as palavras saindo rápido da boca.
– É, eu sei – respondeu ela, simplesmente. Parecia não se importar com nada daquilo.
– E aí? De que lado você vai ficar? Porque eu não quero uma cadela atirando pelas minhas costas quando eu tiver invadindo a sua mansãozinha –
– Calma lá, ta legal? Pelo que a gente sabe, eles só pegaram a Lia. O Guilherme ainda deve ta solto por aí, podemos ir atrás dele –
– Do que isso te interessa, afinal? E nem pensa em me enrolar com essa história de que você ta fazendo isso por mim, que eu não acreditei da primeira vez, não vou engolir agora –
            Aline olhou friamente para o policial. Parecia estar calculando o que dizer, ou então se poderia contar algo que ainda não tinha dito. Era difícil adivinhar seus pensamentos, pois seus olhos não demonstravam muita coisa. Por fim, a Menegaro suspirou e baixou a cabeça.
– Eu sei que isso parece loucura mas... O que mais eu posso fazer? Ficar trancada na minha casa, como meu pai bem gostaria, fingindo que eu não sou uma prisioneira? Minha vida corre nessas ruas, é nelas que eu quero ficar. Gosto de enganar, de mentir, de oprimir, de persuadir, de intimidar, de matar. Foda-se, quem não gosta? Nada disso eu posso fazer dentro de casa. Merda Carlos, quando meu irmão morreu, eu tive que me esforçar pra não rir de felicidade. Era a minha oportunidade perfeita! Meu pai sempre disse que deixa os filhos viverem a vida deles, mas comigo sempre foi diferente. Aí, quando mataram o Jean, eu sabia que podia usar isso como desculpa pra sair do meu inferno e viver do jeito que eu gosto. Eu já tava te pesquisando antes, porque tinha um outro plano pra fugir. Outra morte que precisasse ser investigada. Mas eu dei sorte, sabe –
            Carlos escutou tudo sem sequer pensar em interromper. Apenas prestava atenção, tentando captar qualquer toque de mentira, ou uma emoção atuada. Aquela foi a pior desculpa que já ouviu desde que um imbecil lhe disse que seu cachorro engoliu as drogas, que deveriam ser seu pagamento. Mas ainda assim, por pior que a história lhe parecesse, Carlos acreditou nela. Nos olhos de Aline havia alguma coisa a mais, que fazia diferença da antiga frieza de antes, e não era a determinação brilhante que ele presenciara no dia em que se conheceram. Era uma emoção verdadeira, por mínima que fosse.
– Bom – disse ele calmamente, como se nada tivesse acontecido – acho melhor você se esconder –
– Por que? –
– Vamos invadir bem fundo no território dos Manenti. Existe um lugar ou dois que eu preciso investigar. Até acho que é bem mais provável que o merdinha esteja se escondendo por lá. Ele trabalhava pro Giuseppe, afinal –
            Aline passou para o banco de trás, onde permaneceu deitada, enquanto Carlos dirigia em direção a uma parte da ilha onde ela cresceu sabendo que jamais iria ver. Até certa parte do caminho, não tiveram nenhum problema. Ninguém jamais questiona um carro da polícia. Eles podem não estar acima das duas famílias, mas também não estão abaixo. Um policial tem suas próprias regras, seu território é aonde ele quiser ir, respeitando a vontade dos grandes chefes. Abaixo deles, todos estavam sujeitos à corrupção violenta. É temporada de caça em Tenemissa. Tudo o que se move é alvo.
Já era noite quando resolveram parar, não muito longe de seu destino. Sem poder confiar em nenhum motel que havia por aquela região, estacionaram em um beco escuro. Carlos fez questão de expulsar todos os ratos humanos antes de voltar para o carro, onde sua companheira o aguardava provocante no banco de trás. Ele se inclinou em sua direção, sorrindo. Foram tirando a roupa enquanto o policial grande demais tentava passar pelo meio dos dois bancos da frente. Após algum tempo, Aline dormia de um sono pesado, enquanto Carlos aproveitava de apenas um sono leve, não mais que um cochilo. Já era um instinto seu dormir atento quando não se achava em lugar seguro. Seus olhos podiam estar fechados, e sua respiração poderia ser profunda, mas, dentro de sua cabeça, seu cérebro já sabia que ao menor sinal de ruído, ele deveria acordar e comandar seu corpo para agarrar a pistola e virá-la na direção do ruído. E foi exatamente assim que aconteceu.
Já era madrugada quando se ouviram os primeiros disparos. Em um segundo, Carlos estava sentado, nu no banco de trás, com a pistola apontando para o nada na escuridão. Ele ainda não estava acordado, era apenas um reflexo de seu corpo, por isso demorou para perceber o que estava acontecendo. Aline acordou logo depois, e viu o homem que a tinha feito adormecer vestindo seu colete. Ela também ouvira os disparos, que eram muitos, então se apressou a vestir a roupa, embora não tivesse um colete. Carlos já saia silencioso do carro, a arma na mão, quando ela terminou de se vestir. Pelo barulho, deveria ser uma briga de famílias. Levou alguns minutos para eles verem a confusão de carros, e os homens do Manenti que causavam todo aquele barulho. Dava pra perceber de que lado eram apenas pelas roupas.
Carlos e Aline se aproximaram sorrateiramente. Ele fez sinal para que ela não atirasse. Tinha medo que a mulher resolvesse entrar na briga apenas para ajudar a sua família. Os dois jamais poderiam imaginar que não eram com os Menegaro que o pequeno grupo brigava, e sim com apenas três rebeldes. Isso eles só iriam descobrir depois que a maioria dos Manenti estivessem mortos, e a dupla fosse se esgueirar pelo beco escuro no qual o trio se escondeu. Carlos pegou uma metralhadora das mãos de um morto, e Aline se contentou com apenas outra pistola. O mar de corpos se estendia e acabava seguindo pelo beco, extremamente estratégico para resistir uma emboscada daquele tamanho. Vários metros à frente era visível, contra a luz da próxima rua, a silhueta de um homem carregando outro. Este foi o momento em que a dupla viu pela primeira vez seu escorregadio alvo, ainda que não soubessem disso: Guilherme Bardini.

domingo, 1 de abril de 2012

25 - O Beco da Diversão

            Gustavo sentiu que tremia enquanto tentava recarregar a pistola. Não havia notado antes, mas agora via claramente o buraco feito pela bala, e seu sangue que descia e se misturava com a sujeira da rua. Perto de onde estava escondido, Guilherme disparava protegido pela parede de uma esquina, enquanto gritava alguma coisa para... Para quem? Ah, sim! Para Évelin, mas onde ela estava? Gustavo agora não conseguia entender direito o que acontecia ao seu redor, mas também não iria ficar parado. Levantou-se o bastante para atirar por cima da lata de lixo em que ele se escondera atrás. Foi então que viu onde estava Évelin: correndo sem proteção nenhuma em direção ao grupo de Manenti que atirava neles. Ela corria, gritava e disparava uma metralhadora que Gustavo não fazia ideia de onde ela poderia ter conseguido. Era óbvio que eles iam morrer. Ficou claro no instante em que Matheus descobriu que estava sendo seguido. Sim, Matheus! Gustavo começou então a se lembrar o que estava fazendo ali. Precisava por sua cabeça em ordem, se quisesse dar um jeito naquela situação.
            Ele se escorou na lata de lixo, sem se importar. Deixou cair sua pistola no chão enquanto segurava o ferimento com ambas as mãos. Olhou para o alto, para o topo daqueles prédios velhos, onde várias pessoas espiavam o tiroteio pelas frestas da cortina. Aquilo era um grande festival para elas, o melhor entretenimento que poderiam ter.

            Foi depois de algumas semanas desde que o novato chegou. Muita gente falava dele, que conseguiu matar o filho do Menegaro. “Como você conseguiu?”, era o que todos queriam saber. “Não fui eu”, era o que ele sempre respondia, e então ficava calado, e ninguém conseguiu arrancar mais nada sobre o assunto. Eu já era um rato morto há dois anos, e conhecia bem o processo de aceitação. Guilherme ainda ia levar tempo pra se acostumar com a nova vida subterrânea, ou talvez ele fosse mesmo assim, calado. Tomava café como se estivesse fumando um cigarro, e isso ele fazia também, mas apenas quando estava sozinho. Ou ao menos era o que ele achava, pois lá embaixo ninguém nunca fica sozinho. Apesar de tudo o rapaz era boa companhia, e logo eu era o seu companheiro de atividades, sempre falando, ouvindo pouco. Ele parecia que tinha sempre alguma coisa muito importante na cabeça, e que não podia se distrair nunca. Quando Yohana o testou, ele resistiu. Coisa que poucos tinham feito até então. Não era uma questão de que se resistisse ou não passava no teste, era mais pra saber que tipo de pessoa os novatos eram. Ícaro dizia não se importar. Eu não sei, não ia gostar de ver minha namorada transando com todo cara novo que aparecia por aí. Mas pensando bem, ele também pegava as garotas que chegavam. Talvez fosse tudo mesmo profissional. Não entendo muito disso, eu sigo as ordens do “Tchê Ruivo”, como já dizia o Guilherme, e pra mim está ótimo. É muito bom saber que estou fazendo algo de útil pra livrar minha ilha desses filhos da puta. Eu tenho fé que o Ícaro vai conseguir, ele tem um plano. Ninguém sabe qual é, mas ele tem e eu não duvido.
            Aí ele me deu essa missão. Eu achei ótimo, porque uma missão é o único jeito de sentir o ar puro, andar pelas ruas de novo. Como o Guilherme tava muito nervoso de ficar alguns meses lá embaixo, eu resolvi levar ele junto. Podia ter escolhido outra pessoa, mas... Eu gosto dele. Foi difícil convencer o Ícaro, porque ele dizia que ainda podiam estar procurando pelo nosso mais novo assassino. Mas é besteira, ele morreu quando um botijão de gás explodiu seu prédio, como disse o jornal. Já a Évelin, essa eu fui obrigado a levar junto. Ela é uma desgraçada de uma matadora, mas é maluca. A gente nunca sabia quando ela ia se ofender com qualquer coisa e meter o pau em quem tivesse mais próximo, e a coisa sempre ficava feia. Ela com uma arma na mão então, eu não queria estar na frente.
            Mas sim, a missão. Um dos nossos camaradas tava encurralado, e a gente precisava levar ele pro buraco são e salvo depressa, antes que descobrissem onde ele tava escondido. Pelo visto o problema era Manenti, e o território que o coitado ta trabalhando... Puta lugar ruim, só malandro pra tudo quanto é lado, do tipo que se esconde na asa da família pra matar e roubar por diversão. A gente não podia deixar nosso informante lá, ainda mais que se ele fosse pego, podia acabar contando onde fica o esconderijo.
            Só quando a gente chegou lá é que percebemos que foi tudo uma armadilha. O cara já tinha dedurado a gente, por sorte nenhum informante de fora sabe a localização exata do esconderijo, mas o cara falou tudo o que sabia. Não ia demorar muito pros desgraçados descobrirem. Sorte nossa que o Guilherme reconheceu um cara da família Manenti, acho que ele falou que o nome dele era Marcos, e aí a gente viu que tava fudido. Eles viram a gente também e cara, se não fosse por isso... o traíra tava esperando na porta, ele ia fazer todo mundo ir direto pra ele, e então os Manenti só precisavam atirar pelas nossas costas.
            Mas não foi isso que aconteceu. O Guilherme me mostrou aquele tal de Marcos, e ele percebeu que tinha sido reconhecido. Gritou, e eu gritei também. Foi tiro pra tudo quanto é lado na hora. Eles com metralhadoras, a gente só tinha uma pistola de cada, e ainda assim derrubamos uns quatro antes dessa merda de bala furar a minha barriga.

            Gustavo sorriu. Conseguiu se lembrar de tudo, e estava claro o que precisava fazer. Devagar, enquanto a rua se iluminava com os clarões dos tiros, pegou sua pistola, verificou se a tinha carregado corretamente, e esperou. Não tentou mais forçar para esquecer a dor. Estava doendo, sim. Deixa doer. Com um impulso pulou para cima da lixeira, ficando em pé. Era um ângulo onde a cobertura dos carros não significava nada para ele, e logo atirava na cabeça daqueles que se escondiam atrás dos veículos parados na frente do beco. Guilherme viu o que ele estava fazendo, e correu para lhe dar cobertura. Enquanto o triunfante Gustavo dava três tiros nas costas de um Marcos que fugia, Guilherme pulava por cima do corpo de Évelin, pegando sua metralhadora que, ele tinha visto, ela roubara de um Manenti que se atrevera a dar a volta no beco, para pegá-los de surpresa. Ela ferozmente avançou no coitado, que nada podia fazer contra aquela louca. Foi horrível vê-la matando o homem a mordidas na cara e no pescoço, e logo ela corria com a metralhadora nas mãos, sangue escorrendo pelos cabelos. Por mais valente que fosse, Évelin não era a prova de balas, e seu corpo havia sido perfurado por pelo menos quatorze.
            Muito depressa, Guilherme se abaixou na frente do carro mais próximo, e deu a volta, pegando o que restara da gangue desprevenida. Era tudo ou nada, e ele apertou o gatilho e não soltou mais, até acabarem sua balas, muito depois de todos já estarem mortos, inclusive Matheus, cujo grito ecoou como de uma menina. Um verdadeiro vexame para um homem daquele tamanho.
            Cansado e nem um pouco feliz, Guilherme deixou a arma cair no chão. O traidor havia sumido, decerto fugira quando viu que corria risco de vida. De volta ao beco, Gustavo estava sentado na lixeira, sangrando gravemente, mas ainda sorria. A dor já havia afetado seu raciocínio.
– Calma, eu vou te levar de volta – disse Guilherme, descendo seu amigo da lixeira.
– A gente conseguiu cara, acabamos com todos esses filhos da puta – falou o outro, fraco mas feliz.
– É, a gente conseguiu – concordou Guilherme, puxando o braço do Herói do Beco por cima de seu ombro, e ajudando-o a caminhar de volta para casa.
            Das janelas as pessoas iam aos poucos voltando sua atenção para a tv. O show tinha acabado. Mas quem não se satisfez em ver a carnificina, e insistiu em permanecer olhando o sangue brilhar iluminando a rua escura, pôde ver o bônus ao final dos créditos: Um negro alto e musculoso, acompanhado de uma mulher mais alta ainda, de cabelos pretos lisos e compridos. Eles vieram cautelosos, provavelmente atraídos pelo barulho do tiroteio, e então seguiram os passos dos dois únicos sobreviventes da batalha.