sábado, 29 de outubro de 2011

3 - O Que Fazer

– A gente tem que dar um jeito de sair dessa ilha –
Lia quebrou o silêncio com a pergunta que, sabia, Guilherme estava prestes a fazer. Apesar disso a sala continuou silenciosa, como uma enorme teia de aranha na qual aquela pergunta era apenas mais uma mosca. A ansiedade pela resposta fez o silêncio parecer ainda mais opressor. Após um tempo incalculável Guilherme suspirou. O barulho súbito fez com que Lia se arrepiasse.
– Não tem como –
Parecia que o silêncio novamente ia reinar. Quando ninguém quer falar sobre a única coisa que se tem em mente, é impossível conversar. Lia não estava disposta a calar aquele assunto enquanto não tivesse algo a fazer. Algo mais “possível” em que se preocupar.
– Mas ninguém sabe ainda – insistiu Lia
– Só amanhã que começa a sair os barcos. Se até lá nem a polícia nem os Menegaro souberem do que vo... do que a gente fez, então nós saímos –
– Não é melhor roubar um barco? –
– E arriscar pra que? Amanhã saímos. Se fosse fácil roubar um barco por aqui, não haveria mais nenhum escorado no cais –
Eles se viraram para olhar um para o outro, tentando encontrar uma resposta milagrosa nos olhos.
– Como isso foi acontecer? – perguntou Lia
– Algo deu errado. Uma hora ou outra alguma coisa ia acontecer, sempre acontece. Com a gente a hora foi agora –

Lia parou para pensar. O assunto ainda não tinha acabado.

– E se não der certo? –
– Vai dar–
– Mas e se não der? Precisamos de um plano pra tirar a gente daqui caso a polícia descubra o corpo antes do amanhecer –
– Eu tava pensando nisso... acho que só tem uma saída. Pedir ajuda ao Giuseppe –
– Nada mais justo, fizemos um favor pra ele! –
– Não é bem assim. Matar o Jean vai significar guerra, e eu não duvido que a primeira coisa que o Giuseppe vai fazer quando descobrir é mandar a gente pra forca tentando evitar a briga –
– Então acabamos de ficar inimigos dos dois times, né? Não tem pra onde correr –
– Esqueceu de contar a polícia. Somos inimigos dos dois times e do juiz também –
A risada foi inevitável. Rir da própria desgraça parece improvável, mas acontece. Pode ser o primeiro sinal de loucura ou o último vestígio de sanidade. Para Guilherme e Lia, era a prova de que ainda podiam passar por aquilo juntos, e quem sabe um dia rir novamente quando se lembrassem.
– Mas ainda acho que posso convencer o Giussepe a me ajudar, se eu fizer ele achar que vai ser vantajoso pra ele... – continuou Guilherme
– Meio difícil, não? –
– O Giuseppe gosta de mandar, ta cheio de gente que sabe das coisas trabalhando pra ele, e tem a maioria do seu lado. Mas é burro, eu não seria o primeiro a convencer ele a ajudar alguém que não merecia –
– Teve gente que saiu daqui graças a ele? Não acredito! –
– Teve sim, mas não me disseram o nome – mentiu Guilherme
– Parece um sonho sair de Tenemissa... –
– A gente consegue –
– Aquele nosso plano poderia ter dado certo, e então a gente já teria passagem garantida pra fora –
– Acha mesmo isso? –
– Não, mas bem que você podia calar a boca ao invés de estragar meu pensamento positivo! –
Pouco tempo depois Lia e Guilherme foram dormir. Após um pouco de insistência, Lia conseguiu trocar o sofá pela cama, o que não adiantou. Por uma hora ambos só conseguiram cochilar, pois toda vez que dormiam acordavam de pesadelos muito semelhantes.
Nenhum dos dois poderia adivinhar, mas um dos pesadelos estava naquele momento se tornando realidade. A realidade na forma de um carro preto que estacionava na casa de Jean. A realidade na forma de um pai chorando sobre o corpo do filho.

domingo, 23 de outubro de 2011

2 - Onde é Seguro

Os últimos vestígios de verde sumiram em meio ao redemoinho de água. Guilherme e Lia continuaram lá, olhando para a privada vazia, esperando o vestido retornar como um monstro vingativo, mas ele não voltou.
– E a tesoura? –
– A gente enterra no vizinho –
– E... ele? –
– A gente deixa ai. Não tem como se livrar do... dele agora. Eu peguei o dinheiro, vão pensar que foi um assalto –
Com a cautela mais do que necessária, eles abriram a janela dos fundos, tremendo a cada rangido que ela fazia, olhando para os lados, esperando ver vizinhos ou até mesmo a gangue olhando para eles. Agachados como ladrões, correram até o muro do quintal e o pularam com facilidade. Com sorte não teria nenhum cachorro.
– Vamos enterrar aqui –
E eles cavaram. A terra entrando pelas unhas, os dedos batendo nas pedras, nada disso era notado. Só mantiveram os olhos o tempo todo na janela iluminada, o som que devia ser do jornal da madrugada.
– Pronto, vamos dar o fora daqui – sugeriu Guilherme, sua voz beirando a desespero
– Pra onde? –
– Pra minha casa, é seguro por enquanto –
– Você ta querendo que eu durma com você? –
– Tem um belo sofá lá –
– E sou eu quem vou dormir no sofá? – a voz de Lia subia um tom a cada palavra
– Tem um lugar melhor pra ir? –
Lia se calou, mas fez questão de continuar com a expressão dura durante todo o trajeto, que foi a caminhada mais longa que eles já fizeram juntos. Todos pareciam notá-los, seu olhares eram atraídos pelo casal nervoso, e algo dizia a Lia que eles poderiam sentir o cheiro do medo. Bêbados, arruaceiros, prostituas e homens que nunca diziam seus negócios em voz alta. Todos eles olhavam o casal e sabiam que eles tinham feito merda. Não sabiam o que, mas sabiam que era grave. Quando se vive na madrugada, o instinto se torna o sentido mais aguçado.
– Por que eles estão olhando pra nós? – perguntou Lia, as palavras mal saindo da boca
– Porque nós formamos um belo casal –
Apesar de todos os olhares, ninguém os incomodou, fora as habituais cantadas que nenhum bêbado que se preze poderia deixar de gritar para uma moça tão bonita.

– Porra Guilherme, o que que a gente faz agora? – Foi a primeira pergunta de lia quando chegaram ao apartamento sujo e apertado, único lugar onde Guilherme conseguia dormir de verdade.
– Por que você ta perguntando isso pra mim? Foi você quem deu a tesourada no panaca – respondeu Guilherme, de mal humor.
– Quem sabe se você não fosse tão burro, eu não teria feito isso! –
– Foi você quem não me disse nada sobre a família do cara! Vai dizer que namorou ele por dois meses e nem sabia o sobrenome? –
– O Jean sempre foi cuidadoso. E além do mais, você me disse que não tava mais trabalhando pro Giuseppe. Eu achei que pudesse confiar em você –
– Eu também pensei que não tava mais trabalhando pra ele, mas não é assim que funciona, tá bom? E mesmo que eu não tivesse, era sua função descobrir tudo o que pudesse do cara. Não tem como enganar otário por aqui sem saber da vida dele antes, ainda mais otário profissional –
Eles estavam novamente sem fôlego. Sem palavras. Não podiam brigar um com outro, mas era difícil se segurar. Com um susto Lia percebeu que havia um pouco de sangue na orelha de Guilherme. Devagar se aproximou dele, sua mão levantando para limpar o sangue, mas Guilherme a segurou pelo pulso.
– O que ce ta fazendo? –
– Calma, vou só limpar o sangue na sua orelha, só isso –
Devagar, ela usou um pouco da manga para limpar o sangue, os olhos sempre em contato com os de Guilherme.
– Pronto, respingou um pouco, só isso –
Eles se sentaram no sofá de três lugares, cada um em um canto, olhando para lados opostos, ambos sem saber no que pensar ou no que não pensar. Ambos sem saber o que poderia ser pior naquela situação. Eles gostavam da companhia um do outro, mas não poderiam admitir.

sábado, 15 de outubro de 2011

1 - Diga Adeus ao Vestido Verde

 
            Guilherme viu o sangue pingando das mãos de Lia. Seu rosto furioso era agora uma máscara de horror. Arrependimento e medo pintados de vermelho. A tesoura jazia no chão, imóvel, descansando após um trabalho bem feito.
– Vai lavar isso ai! –
            Ela parecia não estar ouvindo. Guilherme falou de novo, sussurrando desta vez: “Anda!”. Em um segundo houve uma mudança em seu olhar, como se entrasse em foco pela primeira vez desde que agarrou a tesoura. Olhou para as mãos e o vestido manchado de sangue. Não ia dar pra lavar aquilo tudo, mas ela foi ao banheiro mesmo assim. Enquanto tentava se livrar do suco de Jean, Guilherme vasculhava desesperado as gavetas.
– O que você está fazendo? –
– Procurando qualquer coisa útil que esse babaca possa ter deixado aqui –
            Mentira. A única coisa que Jean poderia ter deixado de “útil” para eles tinha um nome e Guilherme sabia disso: dinheiro. E ele veio embrulhado em quase todas as meias da última gaveta. O amargo cheiro que vinha junto não impediria ninguém de roubar aquelas notas. Não eram poucas.
            O barulho de Lia fechando a torneira apressou Guilherme, sem nenhum motivo. O curto vestido ainda parecia uma tela verde onde uma criança jogou tinta vermelha.
– Você vai ter que tirar essa coisa –
– O que? Mas eu estou sem sutiã! –
– Prefere sair assim? Procura por ai, do jeito que esse cara era, eu não duvido que tenha roupas das “amigas” dele espalhadas pela casa –
– Você quer que eu saia daqui parecendo uma puta? Já aproveito e escolho uma bolsa bem grande pra rodar por ai –
– Da pra calar a boca? Você por acaso esqueceu que acabou de... – Guilherme engoliu em seco, olhando para o corpo imóvel em cima da cama. Continuou a frase num sussurro – acabou de matar um cara? –
            Por um instante ele achou que Lia fosse chorar. Mas ela se manteve firme, e sua voz não tremeu quando disse
– Esta bem. Vira pra lá –
– Como se eu nunca tivesse te visto antes – disse Guilherme num sorriso, mas se virou mesmo assim. Quando ela o chamou, estava usando roupas masculinas, calça e camiseta que a pouco tempo pertenciam a uma pessoa viva.
– O que nós vamos fazer? – Ela o olhava suplicante, uma menina frágil e insegura esperando receber ordens. Essa foi a primeira vez que Guilherme a viu assim: frágil e insegura. Qualquer um que a conhecesse jamais poderia imaginar ver algum dia esse olhar em seu rosto. A brava Lia, sempre se lixando pra o que as pessoas achavam dela. Sempre mostrando o dedo do meio para o perigo. Essa era a verdadeira Lia, não aquela menina fraca parada em sua frente, o vestido verde aos seus pés.
– Fui eu quem te deu esse vestido – disse Guilherme, tentando não pensar na pergunta de Lia.
– Eu sei. Era o meu preferido –
            Ambos ficaram lá, apenas se olhando. Algo os prendia, como uma imensa corda em que cada ponta fora amarrada em um olho. Não havia como desviar. Eles prometeram que nunca mais iam ficar juntos, que iam ser apenas amigos, ou melhor, apenas sócios. E lá estavam eles, grudados pelo olhar. Um tão dependente do outro... uma pressão gigantesca se formando dentro deles. A vontade de gritar, de correr para o abraço quente e confortável.
            Ela desviou o olhar primeiro.
– Eu acho que a gente não devia sair pela porta. Não podemos ser vistos saindo daqui assim –
– É claro! Vamos sair pela janela dos fundos – retrucou Guilherme
– E depois? –
            Eles se encararam mais uma vez, mas com outros motivos, outras faces, um novo medo fazendo a pressão dentro deles. A vontade de gritar, de correr... de correr cada um na direção oposta.