domingo, 25 de dezembro de 2011

11 - A Rua de Neón


           As roupas curtas e a maquiagem exagerada das garotas nas esquinas mostravam a Lia o quanto ela estava perto de casa. Algumas ela conhecia, algumas eram novas. Todas tentavam parecer sedutoras para os homens que passavam de carro, mas nenhuma tinha qualquer vestígio de brilho nos olhos. Eram todos pares vazios de quem sabe que a vida não reserva mais nenhuma surpresa. Todas, porém, se endireitavam nos saltos altos quando viam Lia passando. Não importa quanto tempo passa, o rosto dela sempre será conhecido naquela região.
           Apesar disso Lia não abaixou a cabeça. Continuou com seu andar firme sem diminuir ou acelerar o ritmo. Passava por entre as prostitutas sem lhes dirigir o olhar, nem mesmo pelo canto do olho, e todas acabavam esquecendo que estavam no meio do trabalho. Era preciso algumas buzinas para despertá-las, mas já não era a mesma coisa. A atenção dos homens estava agora voltada para aquela garota tão linda, que passou por eles sem acenar, sem tentar seduzi-los. Naquele momento qualquer um deles poderia dar todo o seu dinheiro para tê-la, mas também sabiam que nenhum deles conseguiria. Eles também viram a diferença entre os olhos das prostitutas e os seus. A diferença entre a ausência de esperança e a pura obstinação.
           Apenas três mulheres de saia curta não aderiram ao movimento da massa. Três colunas maquiadas que bloqueavam a calçada por onde Lia passaria. Três garotas de programa que esperaram muito por aquele reencontro. Lia bem poderia tentar dar a volta ou mudar de rua, mas não o fez. Olhou nos olhos da líder do trio, que estava a um passo a frente das outras, e nada falou.
– Vejam só se não é a princesinha – disse a líder, colocando todo o desprezo que conseguiu na última palavra.
– Sai da minha frente, Carla – respondeu Lia, com o tom de voz de quem dá “bom dia”.
           As duas mulheres de trás começaram a rir, mas pararam quase imediatamente ao ver que Carla não fazia o mesmo. Darline e Roberta eram elas, que passaram a vida toda na sombra de uma prostituta com mais liderança. Era melhor do que tentar a vida sozinhas, já que nenhuma “casa especializada” as aceitou. Carla, por outro lado, era requisitada, mas seu orgulho a impedia de receber ordens.
– Ou o que você vai fazer? Não to vendo aquele seu namorado corno aqui pra te proteger – foi a resposta amarga.
– De vocês eu posso cuidar sozinha – retrucou Lia, tão séria que Carla teve de se esforçar para manter a cara de deboche. Darline e Roberta não conseguiram, e já demonstravam um leve ar de obediência por medo da punição.
– Você não consegue cuidar nem de você mesma! É só ver pra onde você está indo: não conseguiu fugir, agora vai voltar pra casa –
           Lia piscou. Não conseguiu pensar em uma resposta de imediato, o que deu a Carla motivos para desta vez rir com vontade. atrás dela,  suas duas seguidoras riam junto. Um coral de riso falso. três hienas humanas aproveitando do melhor que aquela vida poderia dar a elas: rir dos outros. É um alívio para o corpo cansado saber que, por pior que a vida seja, sempre vai haver alguém de quem podemos dar risada. A desgraça alheia nos dá forças. Carla, Darline e Roberta se sentiam fortes quando se colocavam acima de alguém.
    De certo Carla achou que aquilo já era vitória o bastante por uma noite, pois deu meia volta e saiu andando, liberando a passagem para que Lia continuasse seu caminho. Mas ela ficou lá, parada. Seus olhos já não mostravam mais obstinação, e sim dúvida. A sua volta a noite girava com tudo no lugar: bêbados, prostitutas e homens de carro. Ninguém mais prestava atenção naquela garota que há pouco parara a rua.
           De um beco escuro um mendigo chamava Lia para lhe fazer companhia. Aquilo a trouxe de volta de seus pensamentos e ela pode seguir em frente. Mas agora não mais de cabeça erguida.
           As ruas passavam invisíveis aos seus olhos, mas seus pés já sabiam a direção que devia tomar. Ela se guiava instintivamente olhando para os próprios sapatos.
Afinal, estava em casa.
           Durante a caminhada, ela se perguntava se poderia fazer mesmo aquilo. Se ia ser bem recebida. Se ia ficar segura. Mas acima de tudo se perguntava o que Guilherme diria se soubesse que ela estava ali. Retornando ao lugar de onde ele a tirara.
           “Ele já deve saber que eu estou aqui” pensou ela com desânimo. “Ele sabe que não há outro lugar que eu ainda possa ir”.
           Agora estava chegando mais perto, e a cada luz de néon ela se lembrava do nome da dona de cada bordel e de cada prostituta que lá trabalhava. Até que chegou a um dos maiores e mais procurados bordéis da região, o Castelo da Rainha. As luzes piscando lembravam a sua infância, e foi engolindo em seco que ela parou na frente da enorme construção. Não era tão grande antes, Lia tinha certeza, mas isso realmente não importava mais.
           “Lar doce lar... Jamais imaginei que fosse por os pés aqui de novo”

domingo, 18 de dezembro de 2011

10 - Aumente o Volume, Por Favor

        Toda a estranheza das ruas sempre foi normal. É normal se acostumar com a estranheza quando ela é a sua casa. O problema é quando se começa a estranhar aquilo que sempre esteve lá. Guilherme ia pensando nisso pelas ruas escuras. Era normal ser olhado por todos que se escondiam nos becos. Era normal até mesmo ser olhado pelas pessoas que se escondiam atrás das cortinas. Só que nada mais parecia normal para ele. Em cada olhar desconfiado, assustado, curioso ou até mesmo raivoso, ele via sua última aventura exposta. Via uma arma em cada bolso. Via uma tentativa em cada movimento. A sua mente já começava a brincar com ele, e ele nem fazia ideia de até onde aquilo poderia chegar.
        Não era possível adivinhar se a eles sabiam quem ele era, o que ele tinha feito. As vezes as notícias corriam rápido demais em Tenemissa. As vezes não. Os dedos de Guilherme roçavam nervosos no canivete de bolso: a única arma que ele tinha, contra uma possível emboscada reunindo mais de dez mendigos. É fácil fazer um exército, basta espalhar a notícia de que a cabeça de alguém está a prêmio, e a cidade inteira estará voltada para aquela pessoa. Mesmo os mais inocentes não podem negar seu profundo desejo por sangue, e no fim o prêmio é apenas uma desculpa: o que todos querem é descontar em uma única pessoa tudo o que já aconteceu em toda a sua vida. Se for pago pra fazer isso, melhor.
        Mais adiante havia um bar. Vozes gritavam e riam lá dentro. A única luz ainda acesa. Era o tipo de bar que abria com o pôr do sol e só fechava quando ele nascia de novo. Um ótimo lugar para alguém com contatos se informar e, quem sabe, cobrar favores. Guilherme precisava de um lugar seguro para dormir, não dava pra confiar em nenhum hoteleiro.
        Lá dentro, a confusão era como um almoço de domingo. Bebidas, cartas, bebidas, brigas, bebidas, queda-de-braço, bebidas, homens desmaiados no chão, bebidas, televisão...
Televisão
        Uma notícia urgente mostrava uma confusão muito maior do que a festinha do bar. O lar-doce-lar de Guilherme era manchete do jornal local. O sonho do síndico, ou talvez não, já que o prédio já quase não existia. O que existia era um bocado de concreto tentando não ceder a um apartamento inteiro que fazia força para baixo. Fumaça, fogo, pessoas gritando, curiosos sedentos por novidades e moleques fazendo caretas para as câmeras.
        Já dentro do bar, Guilherme tentava ouvir a notícia, junto com um grupo de bêbados. Cada vez chegavam mais. Vendo isso o dono aumentou o volume, e logo todo o bar estava quieto para ver e ouvir.
        ... Ainda não se sabe o que aconteceu, tudo indica um acidente envolvendo o último apartamento. Provavelmente explodiu o butijão de gás. Até agora ninguém saiu, e não podemos ver se há sobreviventes...
        Guilherme não se surpreendeu. Sabia que sua granada não explodiria apenas um possível perseguidor, mas também todos os seus vizinhos. Sua guerra particular havia começado, não podia parar para se arrepender por atos pequenos. Eram apenas mais pessoas sem vidas, morrendo oficialmente para os jornais.
        Os bombeiros estão a caminho, mas parece que o número de carros das pessoas que vieram para ver o acidente está interditando as ruas. Pedimos para que ninguém mais tente vir aqui de carro, ou o caminhão de bombeiros não conseguirá chegar. Espere! Tem alguém... há duas pessoas no topo tentando descer!
        A repórter começou a correr e o câmera tentava segui-la sem tirar o foco dos vultos em meio a fumaça. Seguiu-se um verdadeiro batalhão de pessoas gritando e amontoando o que quer que tivesse a volta para formar uma escada. A grande maioria queria ajudar. Um ou outro queria ser entrevistado pelo ato de heroísmo.
        Guilherme ficou apreensivo. Quando apareceram o homem negro e a mulher de cabelos compridos, ele não os reconheceu. Não eram inquilinos, eram as pessoas que acionaram a granada. Por isso sobreviveram: o teto não caiu em suas cabeças.
        Devagar, ainda muito confuso Guilherme tentou se desvencilhar do bando de bêbados a sua volta que tentavam assistir a notícia. Queria sair daquele lugar, antes que anunciassem seu nome como dono do apartamento ou qualquer coisa do tipo. Se sua casa explodiu, ele estava morto. Era melhor assim. Já se dirigia para a porta quando um brilho chamou a sua atenção. Era a luz refletida nos óculos de alguém que sentava sozinho na mesa do canto, meio copo de cerveja a sua frente. Aqueles óculos quadrados que Guilherme tão bem conhecia. Os olhos atrás deles se mantinham fixos em Guilherme desde o momento em que ele entrou no bar. Aqueles olhos capazes de acalmar ou deixar alguém desconfortável.
        Aqueles olhos verdes que deveriam estar vendo as paisagens de lugares muito distantes de Tenemissa, pois foram os primeiros olhos a escapar daquela ilha.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

9 - Fênix

        A primeira reação foi a tosse. Ao menos a primeira consciente. A dor, a confusão, os barulhos estranhos dentro de sua cabeça estavam lá muito antes de ele se dar conta de onde estava. De que ainda estava vivo. Sentiu o corpo dormente, pesado, tentou se mexer e não conseguiu. Com muito esforço abriu os olhos, não que houvesse muito para se ver, apenas a grande confusão cinza, que em sua visão desacostumada tomava por diferentes cores. Ouviu o crepitar de fogo em algum lugar próximo e subtamente se lembrou de onde estava e o que tinha acontecido: a porta, o fio, o inferno.
        Virou a cabeça tentando encontra-la com os olhos, mas a única coisa que conseguiu foi perceber que ainda estava fraco demais para esses movimentos bruscos. Tentou respirar fundo, mas a fumaça o deixou tonto. Tinha que fazer alguma coisa, mas era difícil se concentrar. O que conseguiu fazer foi gritar com a voz rouca e quase inaudível em meio ao caos que reinava ao redor.
– ALINE! –
        Tossiu de novo. Esperou um pouco mas ninguém respondeu. Ele se lembrou de ter derrubado ela com o corpo antes de cair, e foi quando se deu conta da sensação quente em sua perna direita. Ele estava encostado em alguma coisa viva. Com um susto combinado a um suspiro de alívio ele viu a face quase preta de cinzas de Aline, olhos fechados, mas respirando. Teve vontade de rir, mas achou que seus pulmões talvez não fossem aguentar. Em vez disso, começou a fazer um enorme esforço de mexer a perna direita. Seu corpo inteiro ainda estava dormente, e Carlos não fazia a menor ideia de quanto tempo levou para que ele finalmente conseguisse resultados positivos. Quando conseguiu, tentou pequenos chutes, embora não soubesse bem ao certo que parte do corpo de Aline estava chutando.
        “Foda-se”, pensou. “Tenho certeza de que ela já quebrou o que tinha de quebrar”.
        Continuou tentando, chutar e chamar. Chutar e chamar. Até que ela demonstrou sinal de vida. Com um gemido e uma tosse. Olhos fechados que tentanvam com todas as forças se abrirem. “Exatamente como eu”.
– O... O qu... COF! COF! O... O que que... –
– Aline, presta atenção! –
        Mesmo com ela mantendo os olhos fechados, Carlos pode ver que Aline tinha escutado e que estava atenta.
– O apartamento explodiu. Tem muitos escombros em cima da gente, mas tem mais em cima de você. Eu ainda não estou sentindo meu corpo muito bem, então não sei se eu quebrei alguma coisa. A gente vai ter que dar um jeito de sair daqui rápido, não dá pra adivinhar quem vai se arriscar a vir aqui primeiro –
– O... Ok –
        Fazendo muito mais esforço do que antes, Carlos tentou mexer o corpo todo, fazendo força para se levantar. Haviam pedaços de muitas coisas em cima dele. Por sorte nenhuma pegando fogo. Ele reconheceu bastante concreto, pedaços de madeira e pedaços de coisas que ele não fazia ideia de o que era. Provavelmente objetos do apartamento, todos estraçalhados. A cabeça do pênis pichado apontava para ele, descansando a centímetros de sua testa num pedaço chamuscado da porta. Mais uma ironia do destino.
        Aline também fazia força para se levantar, mas mal conseguia se mexer. Depois de um tempo, Carlos já estava de pé ajudando ela. Alguma força milagrosa movendo ele, uma vez que braço e perna esquerda estavam ambos quebrados, além de algumas costelas, mas ele ainda não estava consciente o bastante para sentir a dor.
        Vozes já se espalhavam ao redor deles quando passou o braço esquerdo de Aline por cima de seu pescoço. Ela tinha muito mais dificuldades de se mexer do que ele. Começaram a andar em meio a confusão, sem fazer a menor ideia de para onde estavam indo. Tiveram uma desagradável surpresa ao se deparar com uma queda considerável para eles. Tinham esquecido que estavam em cima de um prédio.
        Foi necessária a ajuda de algumas pessoas que estavam ao redor para chegar ao chão, pois a escadaria foi bloqueada pelos destroços. Fora da fumaça, eles puderam ver o estado do prédio: o último andar caiu em cima dos outros como se tivesse despencao do céu. Não conseguiram resgatar mais ninguém, pois os andares inferiores foram esmagados. Apenas algumas partes continuavam de pé. Onde Carlos e Aline desmaiaram era uma delas. Vendo aquilo eles souberam que sobreviveram por pura sorte.
– Isso vai ter troco – disse Carlos, antes de se virar e sair dali ajudando Aline, ambos ignorando as pessoas que diziam que era preciso esperar pela ambulância e, é claro, que era preciso dar entrevistas para o jornal.

sábado, 3 de dezembro de 2011

8 - A Mensagem de Marcos

        Marcos não conseguia conter o suor, nem a tremedeira causada pelo nervosismo. Todos o olhavam desconfiados. Andar nervoso na casa do chefe era quase suicídio, mas ele não tinha escolha. “Diabos, o que eles estão pensando, que eu to carregando uma bomba pra explodir na cara do chefe?”.
        Na verdade, era isso mesmo. Marcos carregava uma bomba que iria explodi-lo assim que Giuseppe ouvisse o barulho. Mas Giuseppe, é claro, não iria explodir junto. No máximo ia acabar queimado. Ninguém que trabalha para os Manenti é tão infeliz quanto aqueles que devem dar a notícia ruim para o senhor chefe, pois ele as vezes podia ser um pouco... incompreensível. De fato as histórias que os veteranos as vezes contavam sobre o que aconteceu com o último cara que deu uma notícia ruim ao Giuseppe assombrava Marcos mais do que o dinheiro lhe dava esperanças. “Por que então eu não simplesmente dou meia-volta e largo esse emprego kamikaze?”
        Ele sabia bem o porque. Ninguém dava meia-volta. Ninguém larga a família sem sofrer as consequências. E as consequências sempre deixam furos na camisa.
        “Aquele puto do Guilherme é que devia ter pensado nisso antes de matar o Jean. Agora por culpa daquele desgraçado sou eu quem vou ser morto. Ou será que eu to exagerando? Se o Manentão matasse mesmo todos que trouxessem notícias ruins metade desse filhos da puta não tariam aqui. isso é treta que esses vagabundos ficam armando porque não tem mais o que fazer”
        O pensamento deixou Marcos mais tranquilo, mas ele ainda suava. Suava e olhava para os lados, recebendo em troca de seu olhar medroso olhares desconfiados, mãos que apertavam um pouco mais o rifle. Dedos coçando para fazer alguma besteira.
– Tenho uma mensagem pro Giuseppe – As palavras saíram trêmulas da sua boca, e os guardas notaram e riram. Todos pareciam achar graça agora que sabiam o motivo do nervosismo. Um negro alto e musculoso tateou o corpo de Marcos a procura de armas, um pouco mais do que devia. As risadas estouravam. O negro alto e musculoso fazendo a revista já seria amedrontador o bastante, mas ainda havia o fato que todos sabiam: ele era gay, e era exatamente por isso que colocaram ele na revista.
– Entra... – Ouviu-se a voz grave, que procurava lembrar o nome de seu visitante
– Marcos – Respondeu o rapaz, prontamente.
– Tanto faz, o que você ta fazendo aqui? –
        Os lábios de Marcos agora pareciam estranhamente secos. Demorou um tempo para que ele conseguisse falar de novo. Giuseppe não o apressou, parecia cansado demais para se importar.
– O... o Guilherme... – Tentou falar Marcos, gaguejando um pouco.
– Sei, que que tem, ele saiu da linha? – Perguntou o Manentti, já parecendo um pouco mais interessado.
        A compreensão súbita de que Giuseppe já esperava alguma coisa do tipo deu a Marcos novas forças. Talvez se ele falasse bastante mal daquele puto do Guilherme antes de dar a notícia, quem sabe não ganhava um voto de confiança?
– É, aquele desgraçado filho duma puta. Eu sempre soube que ele tinha alguma coisa estranha –
– Anda logo – Disse Giuseppe, o tédio tomando conta da sua voz.
– Poisé, ele e aquela vadia que anda com ele, não lembro o nome. Eles fuderam pra valer com o senhor – Disse Marcos de uma só vez, um sorriso quase aparecendo no rosto pela oportunidade de criar um vínculo com o chefe. Nada melhor do que xingar o inimigo de um homem para ganhar a sua simpatia.
        Desta vez Giuseppe se ajeitou na cadeira. Esperava um erro, não que alguém fodesse com ele.
– Eles mataram o Jean –
        Por um instante a idéia pareceu não tomar forma na cabeça de Giuseppe, como se ele estivesse em choque, ou talvez apenas sonolento. Mas quando ele percebeu o que havia acontecido. Gritou com fúria o nome do seu braço direito, a cara já começando a ficar vermelha.
– MATHEUS! –
        E Matheus veio correndo, silencioso, mas correndo.
– PEGA O FILHO DA PUTA DO GUILHERME E AQUELA VACA DELE E TRÁS OS DOIS AQUI AGORA! –
– Vivos ou mortos? – Perguntou Matheus, a voz firme e calma, embora Marcos se surpreendesse com seu tom agudo. Nunca antes tinha o ouvido falar, e esperava que um armário ambulante tivesse uma voz a altura.
– Não sei! Digo, mortos! Não... –
        Por um tempo a cabeça vermelha se pôs a pensar, tentando perceber melhor o que havia acontecido e como lidar com a situação.
– Vivos. Traga eles vivos –
        Matheus saiu, deixando Giuseppe sozinho na sala, pois Marcos aproveitou a primeira oportunidade para sair silenciosamente, e dava graças a Deus por ainda estar vivo. Giuseppe não notou a sua ausência.