sábado, 26 de novembro de 2011

7 - A Luz que Embeleza a Cidade

– Sabe que eu achei brilhante aquela granada? –
Guilherme riu. Eles estavam andando por mais uma rua escura de Tenemissa, bêbados, drogados, ladrões e assassinos espreitavam, mas Guilherme ria. Ambos andavam levemente, como se tivessem se livrado de um peso. Era ótimo ter algo pra fazer, poder se mexer sem se perguntar “o que vem depois?”
– Vi isso num filme, só espero que funcione –
– Mas desde quando você tem uma granada? –
Guilherme parou de rir, ficou apenas com um leve sorriso congelando no rosto, olhando para cima. Sua boa e velha expressão nostálgica que Lia tanto conhecia.
– Meu pai me deu no meu aniversário de treze anos –
Lia riu, e encarou Guilherme, esperando ele admitir que foi apenas uma piada, mas ele não o fez.
– ele me disse que agora eu estava me tornando um homem, era preciso algo que simbolizasse isso: se eu quisesse, eu poderia explodir a granada num bosque apenas por diversão, mas então eu estaria explodindo a minha responsabilidade. Ele queria que eu cuidasse da granada como se fosse um ovo... sabendo que mais cedo ou mais tarde eu ia ter que chocar ela, mas tinha que ser por um bom motivo –
Lia silenciou, e Guilherme também. Ela sabia que o pai significava muito pra ele, e que aquele tinha sido o último aniversário que passaram juntos. A granada era, provavelmente, a única coisa que ele tinha para se recordar dele. Se ela chegasse a explodir, explodiria o apartamento inteiro, e nada sobraria da antiga vida de Guilherme. Essa era a prova de que agora não havia mais volta: ou eles escapavam de Tenemissa o morriam tentando.
– Você acha que vai piorar a nossa situação se aquela bomba matar alguém importante? –
– A nossa situação não pode piorar. Então o que temos a perder? –
– É mas... e se a bomba matar um Manenti? Ai não vai ter como pedir ajuda ao Giuseppe –
– Aí nós vamos até o papis Menegaro e nos entregamos a ele –
Lia parou, chocada. Aquilo não era uma piada, por mais que o tom fosse leve, Guilherme realmente quis dizer aquilo.
– O... o que... –
– Calma, pensa bem: nós nos entregamos aos Menegaro dizendo que fomos obrigados pelo Giuseppe a matar o Jean, e que depois fomos traídos. Que descobrimos que o Giuseppe tava usando a gente como bode expiatório, que ia nos mandar pra ele dizendo “encontrei os assassinos do seu filho” pra então fazer uma aliança –
– Uau! Isso é fantástico! –
– Tudo isso enquanto fazemos questão de afirmar o quanto a família Manenti está fraca e o quanto ela teme os Menegaro –
O rosto de Lia se iluminou, e pareceu iluminar junto toda aquela rua sombria, espantando os ratos, as moscas, os velhos jogados no chão e outros vermes que fugiam da luz. Mas o sorriso seguiu o olhar, e olhar apontava para a divisória. A rua não seguia mais reto. Esquerda ou direita. Ambas seriam escolhidas. Por um, pelo outro, pelos dois mas nenhum iria inteiramente. No fim eles ficariam ali, olhando a bifurcação por toda a eternidade, enquanto seus corpos vazios tomavam em conjunto a decisão de para que lado deveriam ir.
– Você vai ficar bem? – ele perguntou, sabendo que a pergunta era inútil e que não obteria resposta. Ainda assim ele perguntou, pois não tinha mais a certeza que uma vez já possuíra.
Eles poderiam ter ficado ali, olhando um para o outro, depois cada um para a sua rua, mas um barulho distante chamou a atenção de ambos para onde não imaginavam se voltar: o caminho de onde vieram.
A luz linda e poderosa de uma imensa bola de fogo subia pelos céus. A granada que explodiu o botijão de gás e fez os fogos de artifício mais bonitos que já se viram em Tenemissa. Queimavam e destruíam o que restava do apartamento no terceiro andar, invocando para as ruas centenas de meio-homens e meio-mulheres, as pessoas que viviam na escuridão. Também viam os pobres e oprimidos moradores de Tenemissa, criando finalmente coragem para abrir a janela de casa pela primeira vez desde que a guerra entre as famílias começou.
Enquanto todos se voltavam maravilhados para aquela deusa das chamas, duas pessoas voltavam suas costas à ela. Duas pessoas que se obrigavam agora a seguir caminhos distintos.

domingo, 20 de novembro de 2011

6 - O Apartamento no Terceiro Andar

– É aqui? – Perguntou Aline, olhando com desagrado para o prédio velho, cheio de rachaduras e com a pintura quase toda descascada.
– Tá com medo de se sujar? – Carlos não encarou ela. Ainda estava visivelmente zangado. “Por que diabos eu trouxe ela comigo?” era o que ele estava se perguntando. Durante toda a busca, Aline fez questão de aparecer aonde não deveria. Uma Menegaro ao lado dele estragava sua fama de neutro. Mesmo tentando explicar a ela, ela fazia questão de interferir, de botar medo nos contatos que Carlos demorou tanto para ganhar confiança. A briga de meia hora atrás ainda ressoava em sua mente, como uma música irritante que ele não conseguia parar de cantar.
É graças a essas pessoas que eu faço meu trabalho melhor que qualquer um, e você está arruinando tudo!
Não quer ser visto em minha companhia?
Você sabe muito bem que aqui não posso tomar lados. Não quero que ninguém veja uma Menegaro junto comigo!
Achei que você gostasse de mim... disse Aline, sem fazer o menor esforço pra esconder o sorriso irônico. Para ela aquilo tudo era apenas uma brincadeira. Carlos se perguntava se ela já teria esquecido tão cedo da morte do irmão. Provavelmente esse era o jeito dela de tentar esquecer Além do mais, ficar do lado da minha família só faz com que todos saibam que você está do lado mais forte
Eu não estou de lado nenhum. Eu faço o trabalho que eu aceitar pelo dinheiro de quem paga mais
Então você faz o que eu quiser

“Faz o que eu quiser! quem aquela vadia pensa que é?”. Carlos saiu do carro. Aline falava alguma coisa, mas ele simplesmente não conseguia ouvir, ou talvez não quisesse ouvir. Ignorou a voz dela e entrou no apartamento. Uma escadaria estreita estava logo a frente: subia um pouco, virava pro outro lado. Uma porta de madeira observava os intrusos tranquilamente ao final do primeiro lance, ignorando a pichação com o formato de um pênis que o filho do vizinho havia feito nela.
Carlos começou a subir. Tinha a vaga consciência de que Aline estava atrás dele. Não era surpresa, em nenhum momento ela ficou dentro do carro. Só pedia para que não encontrasse aquele tal de Guilherme esperando por ele na curva da escadaria.
Subiram o primeiro lance, depois o segundo. Só haviam três. A última porta aguardava no topo do último lance. Um pênis também servia de boas vindas nela, assim como em todas as outras porta. Carlos se sentiu um pouco desconfortável: nesta porta a maçaneta era o testículo direito do pênis. Aline riu quando percebeu o motivo de Carlos ter parado.
– Quem está com medo de se sujar agora? –
– Cala a boca! –
E ele então subiu, Aline rindo histericamente atrás. Uma veia latejava na têmpora de Carlos enquanto ele imaginava uma cena onde estaria estrangulando aquela mulher. Nunca antes tinha se incomodado tanto com a risada de alguém.
Antes de abrir a porta, ambos pararam. Ouvia-se um barulho de dentro do apartamento. Parecia voz de duas pessoas conversando. Não sabia dizer o que estavam falando, as vozes eram baixas.
– Parece que vamos ter que interromper eles –
Shhhhhh! Fala mais baixo!
Carlos encostou o ouvido na porta, preocupado, mas pelo visto o suposto casal que eles caçavam ainda estava conversando. Pode reconhecer a voz de um homem e de uma mulher, tinha de ser eles. Lentamente, ele sacou seu revólver, segurando-o com uma mão e com a outra segurou a maçaneta, esquecendo completamente a pichação. Mas Aline não havia esquecido.
Não tão forte! Vai machucar o coitadinho

Carlos apenas ignorou. Respirou fundo, afastou Aline com a mão, girou a maçaneta e abriu a porta com força, apontando a arma para dentro.
Durante o segundo em que ele fez isso, tomou consciência de três coisas: a porta estava aberta, um casal conversava em uma novela na tv e um fio branco, quase invisível, arrebentou quando a porta se abriu. Um fio branco que estava preso ao pino uma temida bola verde.
Carlos não esperou para ver o que aconteceria, na verdade, ele nem sequer olhou na direção da granada. No instante em que percebeu que o fio estava lá, saltou para trás, batendo com as costas em Aline e fazendo com que ambos rolassem escada abaixo enquanto o inferno parecia correr atrás deles na forma de uma imensa bola de fogo.

sábado, 12 de novembro de 2011

5 - Mudança de Planos

Lia viu quando Guilherme atendeu o telefone. Sabia que ele também não estava dormindo, mas não esperava vê-lo receber uma ligação justo de madrugada. Talvez fosse a confusão que se fazia em sua cabeça, ou a confusão que vinha não-se-sabe-de-onde, mas ela, ao invés de ficar preocupada com uma possível ligação de um Menegaro ou Manentti, ficou com ciúmes da possibilidade de ser a ligação de alguma puta qualquer. “O que eu estou fazendo?” se perguntou quando percebeu a loucura de seu pensamento. Em sua distração, não viu quando Guilherme desligou o telefone e a olhou com preocupação nos olhos.
– Tem um cara vindo pra cá –
– Quem? – perguntou Lia, mais confusa por sua repentina volta a realidade do que pela situação em si.
– Um policial fez umas perguntas prum cara que tava me devendo uma. Ele já deve ta chegando –
– Policial? Isso quer dizer que... –
– Eles já acharam o corpo. Não tem mais jeito de sair com os barcos –
Eles estavam novamente sem saída. As engrenagens de ambos os cérebros trabalhavam na maior velocidade possível para tentar encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que desmentisse aquele comentário. Mas nenhum dos dois conseguiu. Ficaram apenas lá, olhando para o chão. Guilherme ainda segurando o celular e Lia ainda sentada na cama, observando os pés descalços de Guilherme pela abertura da porta do quarto, que ficou aquele tempo todo aberta por via das dúvidas.
– Não importa mais, a gente tem que sair daqui – Conseguiu dizer Guilherme
– E ir pra onde? –
– Por aí, em alguma casa, ah sei lá! –
– Você ainda tem muitos amigos que te devem uma? –
Guilherme parou para pensar. Ainda podia contar com um ou dois amigos. Confiar, não. Confiança era uma piada em Tenemissa, e todos sabiam disso. O grande problema era Lia. É raro conseguir alguma ajuda quando se tem um alvo pintado na testa, ainda mais se você estiver acompanhado de uma estranha. Se ninguém consegue confiar de verdade em um velho amigo, um velho amigo procurado andando ao lado de uma provável ladra ou prostituta (pois era a essas alternativas que se resumiam as mulheres jovens e belas) merecia na verdade dois tiros de revólver: um de cumprimento e outro de despedida.
– Tenho, mas não acho que seria uma boa ideia... –
– Eu tenho pra onde ir, se não tiver escolha –
– É seguro? – perguntou Guilherme erguendo os olhos. Pergunta besta, Lia nem se deu ao trabalho de responder. Apenas sorriu com uma mistura de ironia e carinho.
– Ta certo, mas será que é bom a gente se separar? –
– E tem outra saída? Você vai procurar ajuda de um lado, eu de outro. Se um de nós conseguir alguma coisa, liga –
O que Lia disse não era na verdade um plano. Ela estava apenas afirmando o que os dois já sabiam, mas Guilherme não queria admitir: não havia outra escolha.
– Ta certo, mas quem você vai procurar? –
– Não se preocupa, eu sou tanto da rua quanto você –
– Eu só acho que... –
– Foi você quem me ensinou a me cuidar sozinha, Guilherme, não vai começar a se arrepender agora, vai? –
– Não – respondeu por fim Guilherme. Era verdade, e quem era ele para discutir? O pai dela? “malditas mulheres e sua capacidade de sempre ganhar uma discussão”. – Mas tira essa roupa, ta parecendo uma sapatona que faz street dance que eu conheço. Tem umas roupas suas no armário –
Lia sorriu. Ainda usava as roupas de Jean. Masculinas e grandes demais pra ela.
– Não tem um espelho aqui? –
– Só no banheiro –
– Já conheci putas que vivem melhor do que você. Onde você arranjou esse lixo? –
Guilherme riu. Estavam se dando bem, mas ignoravam o tempo que um policial como Carlos leva para encontrar uma dupla tão amadora como eles. Na verdade, eles ignoravam muitas coisas.

sábado, 5 de novembro de 2011

4 - O Verde Sempre Volta

– Parece que foi um assalto – disse o policial.
– Droga, Carlos! Não me interessa o que é que foi, só quero pegar o filho da puta que fez isso – respondeu o homem de cabelos grisalhos.
O policial olhou em volta, examinando cada detalhe. Primeiro o corpo, depois a cama, depois as gavetas... o quarto inteiro, a sala, a cozinha... o banheiro.
– Já deu de brincar de CSI? – perguntou o velho.
– Acho que você não tá procurando por um filho da puta, Hércules, mas pela própria puta –
– O que você disse? –
Carlos abaixou sua mão para a privada com um sorriso no rosto, ignorando as reclamações de nojo de Hércules. Lá dentro, uma ponta verde dançava no fundo, como uma sereia dos mares na qual alguém tentou dar descarga. O policial puxou, e o verde aumentou de tamanho. Ele continuou puxando e puxando até tirar do fiapo um vestido inteiro. A tela verde salpicada de vermelho abstrato. Uma arte linda e única digna de Jackson Pollock.
– Uma puta com classe, ainda por cima – finalizou Carlos, parecendo querer apresentar a obra recém descoberta.
Hércules olhava com repugnância o vestido, como se a própria dona ainda estivesse nele, zombando do velho que ainda tinha nos olhos a marca do choro.
– Não me interessa se é homem, mulher ou a sua mãe. Você vai pegar quem fez isso, e vai trazer pra mim antes do sol nascer –
– Calma lá, também não é assim. Sabe, tem muitas dificuldades em se rastrear alguém... tenho de molhar a mão das pessoas certas, mas não tenho dinheiro agora, sabe como é, sem dinheiro leva mais temp... –
– Pegue o quanto quiser, seu maldito policial, pode levar todo o meu dinheiro. Se você me trouxer a garota, arranjo um jeito de te dar mais ainda –
– Agradeço a gentileza – respondeu Carlos com o sorriso mais irônico do mundo – Já posso começar com você. Sabe se ele tava trabalhando em alguma coisa? –
– Não me meto nos negócios dos meus filhos. Contanto que eles consigam dinheiro, não me interessa como. Foi assim que eu criei eles, e é assim que devia ser com todo mundo –
– É claro, mas nem sua filha sabe? –
– A Aline? Talvez... Ela tá lá fora, vamos lá –
Enquanto andavam pela casa, Carlos ia examinando o vestido, sentindo uma estranha e irracional afeição por ele. Quando eles abriram a porta da frente, não foi necessário procurar Aline. Ela estava lá, parada em frente a porta, ansiosa esperando por notícias. As lágrimas ainda não haviam cessado. Era uma mulher muito bonita, reparou Carlos. Vindo de uma família como aquela, era de se admirar que não se parecia nem um pouco com uma prostituta. Parecia, na verdade, não ser filha de ninguém, tão independente era seu olhar, mesmo estando arrasada.
– Esse cara vai pegar quem fez isso, pai? –
– Vai sim, filha, mas vai precisar de sua ajuda –
Imediatamente a postura dela mudou, as lágrimas pararam de cair, o rosto se ergueu, orgulhoso como era normalmente, o olhar decisivo que devia ter amedrontado seus primeiros namorados, a expressão de quem está se concentrando para realizar um trabalho árduo. Carlos quase deixou escapar uma exclamação.
– O que eu posso fazer? – perguntou ela.
– Vo... Você sabe no que seu irmão estava trabalhando? –
Aline olhou para o pai, não estava indecisa, mas sabia que precisava de permissão para aquilo. Hércules acenou que sim com a cabeça.
– Ele tava mexendo com drogas, tudo quanto é tipo. Mas precisava de alguém que saísse da ilha com a intenção de voltar –
– Quem? –
– Não sei, só sei do plano, mas não me meti –
– Então eu vou falar com algumas pessoas, ver que informação eu consigo... –
– Eu vou com você – Interrompeu Aline, nitidamente escravizava o negro alto apenas com seu olhar.
Carlos a encarou sem piscar. Teria de dizer não. Não podia fazer seu trabalho direito com uma Menegaro sentada no banco do seu carro. A única alternativa que tinha era dizer pra ela que não podia ir, que iria atrapalhar.
– Tudo bem, pode vir – disse ele, sem saber como aquelas palavras saíram de sua boca.