– Sabe que eu achei brilhante aquela granada? –
Guilherme riu. Eles estavam andando por mais uma rua escura de Tenemissa, bêbados, drogados, ladrões e assassinos espreitavam, mas Guilherme ria. Ambos andavam levemente, como se tivessem se livrado de um peso. Era ótimo ter algo pra fazer, poder se mexer sem se perguntar “o que vem depois?”
– Vi isso num filme, só espero que funcione –
– Mas desde quando você tem uma granada? –
Guilherme parou de rir, ficou apenas com um leve sorriso congelando no rosto, olhando para cima. Sua boa e velha expressão nostálgica que Lia tanto conhecia.
– Meu pai me deu no meu aniversário de treze anos –
Lia riu, e encarou Guilherme, esperando ele admitir que foi apenas uma piada, mas ele não o fez.
– ele me disse que agora eu estava me tornando um homem, era preciso algo que simbolizasse isso: se eu quisesse, eu poderia explodir a granada num bosque apenas por diversão, mas então eu estaria explodindo a minha responsabilidade. Ele queria que eu cuidasse da granada como se fosse um ovo... sabendo que mais cedo ou mais tarde eu ia ter que chocar ela, mas tinha que ser por um bom motivo –
Lia silenciou, e Guilherme também. Ela sabia que o pai significava muito pra ele, e que aquele tinha sido o último aniversário que passaram juntos. A granada era, provavelmente, a única coisa que ele tinha para se recordar dele. Se ela chegasse a explodir, explodiria o apartamento inteiro, e nada sobraria da antiga vida de Guilherme. Essa era a prova de que agora não havia mais volta: ou eles escapavam de Tenemissa o morriam tentando.
– Você acha que vai piorar a nossa situação se aquela bomba matar alguém importante? –
– A nossa situação não pode piorar. Então o que temos a perder? –
– É mas... e se a bomba matar um Manenti? Ai não vai ter como pedir ajuda ao Giuseppe –
– Aí nós vamos até o papis Menegaro e nos entregamos a ele –
Lia parou, chocada. Aquilo não era uma piada, por mais que o tom fosse leve, Guilherme realmente quis dizer aquilo.
– O... o que... –
– Calma, pensa bem: nós nos entregamos aos Menegaro dizendo que fomos obrigados pelo Giuseppe a matar o Jean, e que depois fomos traídos. Que descobrimos que o Giuseppe tava usando a gente como bode expiatório, que ia nos mandar pra ele dizendo “encontrei os assassinos do seu filho” pra então fazer uma aliança –
– Uau! Isso é fantástico! –
– Tudo isso enquanto fazemos questão de afirmar o quanto a família Manenti está fraca e o quanto ela teme os Menegaro –
O rosto de Lia se iluminou, e pareceu iluminar junto toda aquela rua sombria, espantando os ratos, as moscas, os velhos jogados no chão e outros vermes que fugiam da luz. Mas o sorriso seguiu o olhar, e olhar apontava para a divisória. A rua não seguia mais reto. Esquerda ou direita. Ambas seriam escolhidas. Por um, pelo outro, pelos dois mas nenhum iria inteiramente. No fim eles ficariam ali, olhando a bifurcação por toda a eternidade, enquanto seus corpos vazios tomavam em conjunto a decisão de para que lado deveriam ir.
– Você vai ficar bem? – ele perguntou, sabendo que a pergunta era inútil e que não obteria resposta. Ainda assim ele perguntou, pois não tinha mais a certeza que uma vez já possuíra.
Eles poderiam ter ficado ali, olhando um para o outro, depois cada um para a sua rua, mas um barulho distante chamou a atenção de ambos para onde não imaginavam se voltar: o caminho de onde vieram.
A luz linda e poderosa de uma imensa bola de fogo subia pelos céus. A granada que explodiu o botijão de gás e fez os fogos de artifício mais bonitos que já se viram em Tenemissa. Queimavam e destruíam o que restava do apartamento no terceiro andar, invocando para as ruas centenas de meio-homens e meio-mulheres, as pessoas que viviam na escuridão. Também viam os pobres e oprimidos moradores de Tenemissa, criando finalmente coragem para abrir a janela de casa pela primeira vez desde que a guerra entre as famílias começou.
Enquanto todos se voltavam maravilhados para aquela deusa das chamas, duas pessoas voltavam suas costas à ela. Duas pessoas que se obrigavam agora a seguir caminhos distintos.
Guilherme riu. Eles estavam andando por mais uma rua escura de Tenemissa, bêbados, drogados, ladrões e assassinos espreitavam, mas Guilherme ria. Ambos andavam levemente, como se tivessem se livrado de um peso. Era ótimo ter algo pra fazer, poder se mexer sem se perguntar “o que vem depois?”
– Vi isso num filme, só espero que funcione –
– Mas desde quando você tem uma granada? –
Guilherme parou de rir, ficou apenas com um leve sorriso congelando no rosto, olhando para cima. Sua boa e velha expressão nostálgica que Lia tanto conhecia.
– Meu pai me deu no meu aniversário de treze anos –
Lia riu, e encarou Guilherme, esperando ele admitir que foi apenas uma piada, mas ele não o fez.
– ele me disse que agora eu estava me tornando um homem, era preciso algo que simbolizasse isso: se eu quisesse, eu poderia explodir a granada num bosque apenas por diversão, mas então eu estaria explodindo a minha responsabilidade. Ele queria que eu cuidasse da granada como se fosse um ovo... sabendo que mais cedo ou mais tarde eu ia ter que chocar ela, mas tinha que ser por um bom motivo –
Lia silenciou, e Guilherme também. Ela sabia que o pai significava muito pra ele, e que aquele tinha sido o último aniversário que passaram juntos. A granada era, provavelmente, a única coisa que ele tinha para se recordar dele. Se ela chegasse a explodir, explodiria o apartamento inteiro, e nada sobraria da antiga vida de Guilherme. Essa era a prova de que agora não havia mais volta: ou eles escapavam de Tenemissa o morriam tentando.
– Você acha que vai piorar a nossa situação se aquela bomba matar alguém importante? –
– A nossa situação não pode piorar. Então o que temos a perder? –
– É mas... e se a bomba matar um Manenti? Ai não vai ter como pedir ajuda ao Giuseppe –
– Aí nós vamos até o papis Menegaro e nos entregamos a ele –
Lia parou, chocada. Aquilo não era uma piada, por mais que o tom fosse leve, Guilherme realmente quis dizer aquilo.
– O... o que... –
– Calma, pensa bem: nós nos entregamos aos Menegaro dizendo que fomos obrigados pelo Giuseppe a matar o Jean, e que depois fomos traídos. Que descobrimos que o Giuseppe tava usando a gente como bode expiatório, que ia nos mandar pra ele dizendo “encontrei os assassinos do seu filho” pra então fazer uma aliança –
– Uau! Isso é fantástico! –
– Tudo isso enquanto fazemos questão de afirmar o quanto a família Manenti está fraca e o quanto ela teme os Menegaro –
O rosto de Lia se iluminou, e pareceu iluminar junto toda aquela rua sombria, espantando os ratos, as moscas, os velhos jogados no chão e outros vermes que fugiam da luz. Mas o sorriso seguiu o olhar, e olhar apontava para a divisória. A rua não seguia mais reto. Esquerda ou direita. Ambas seriam escolhidas. Por um, pelo outro, pelos dois mas nenhum iria inteiramente. No fim eles ficariam ali, olhando a bifurcação por toda a eternidade, enquanto seus corpos vazios tomavam em conjunto a decisão de para que lado deveriam ir.
– Você vai ficar bem? – ele perguntou, sabendo que a pergunta era inútil e que não obteria resposta. Ainda assim ele perguntou, pois não tinha mais a certeza que uma vez já possuíra.
Eles poderiam ter ficado ali, olhando um para o outro, depois cada um para a sua rua, mas um barulho distante chamou a atenção de ambos para onde não imaginavam se voltar: o caminho de onde vieram.
A luz linda e poderosa de uma imensa bola de fogo subia pelos céus. A granada que explodiu o botijão de gás e fez os fogos de artifício mais bonitos que já se viram em Tenemissa. Queimavam e destruíam o que restava do apartamento no terceiro andar, invocando para as ruas centenas de meio-homens e meio-mulheres, as pessoas que viviam na escuridão. Também viam os pobres e oprimidos moradores de Tenemissa, criando finalmente coragem para abrir a janela de casa pela primeira vez desde que a guerra entre as famílias começou.
Enquanto todos se voltavam maravilhados para aquela deusa das chamas, duas pessoas voltavam suas costas à ela. Duas pessoas que se obrigavam agora a seguir caminhos distintos.