sábado, 12 de novembro de 2011

5 - Mudança de Planos

Lia viu quando Guilherme atendeu o telefone. Sabia que ele também não estava dormindo, mas não esperava vê-lo receber uma ligação justo de madrugada. Talvez fosse a confusão que se fazia em sua cabeça, ou a confusão que vinha não-se-sabe-de-onde, mas ela, ao invés de ficar preocupada com uma possível ligação de um Menegaro ou Manentti, ficou com ciúmes da possibilidade de ser a ligação de alguma puta qualquer. “O que eu estou fazendo?” se perguntou quando percebeu a loucura de seu pensamento. Em sua distração, não viu quando Guilherme desligou o telefone e a olhou com preocupação nos olhos.
– Tem um cara vindo pra cá –
– Quem? – perguntou Lia, mais confusa por sua repentina volta a realidade do que pela situação em si.
– Um policial fez umas perguntas prum cara que tava me devendo uma. Ele já deve ta chegando –
– Policial? Isso quer dizer que... –
– Eles já acharam o corpo. Não tem mais jeito de sair com os barcos –
Eles estavam novamente sem saída. As engrenagens de ambos os cérebros trabalhavam na maior velocidade possível para tentar encontrar alguma coisa, qualquer coisa, que desmentisse aquele comentário. Mas nenhum dos dois conseguiu. Ficaram apenas lá, olhando para o chão. Guilherme ainda segurando o celular e Lia ainda sentada na cama, observando os pés descalços de Guilherme pela abertura da porta do quarto, que ficou aquele tempo todo aberta por via das dúvidas.
– Não importa mais, a gente tem que sair daqui – Conseguiu dizer Guilherme
– E ir pra onde? –
– Por aí, em alguma casa, ah sei lá! –
– Você ainda tem muitos amigos que te devem uma? –
Guilherme parou para pensar. Ainda podia contar com um ou dois amigos. Confiar, não. Confiança era uma piada em Tenemissa, e todos sabiam disso. O grande problema era Lia. É raro conseguir alguma ajuda quando se tem um alvo pintado na testa, ainda mais se você estiver acompanhado de uma estranha. Se ninguém consegue confiar de verdade em um velho amigo, um velho amigo procurado andando ao lado de uma provável ladra ou prostituta (pois era a essas alternativas que se resumiam as mulheres jovens e belas) merecia na verdade dois tiros de revólver: um de cumprimento e outro de despedida.
– Tenho, mas não acho que seria uma boa ideia... –
– Eu tenho pra onde ir, se não tiver escolha –
– É seguro? – perguntou Guilherme erguendo os olhos. Pergunta besta, Lia nem se deu ao trabalho de responder. Apenas sorriu com uma mistura de ironia e carinho.
– Ta certo, mas será que é bom a gente se separar? –
– E tem outra saída? Você vai procurar ajuda de um lado, eu de outro. Se um de nós conseguir alguma coisa, liga –
O que Lia disse não era na verdade um plano. Ela estava apenas afirmando o que os dois já sabiam, mas Guilherme não queria admitir: não havia outra escolha.
– Ta certo, mas quem você vai procurar? –
– Não se preocupa, eu sou tanto da rua quanto você –
– Eu só acho que... –
– Foi você quem me ensinou a me cuidar sozinha, Guilherme, não vai começar a se arrepender agora, vai? –
– Não – respondeu por fim Guilherme. Era verdade, e quem era ele para discutir? O pai dela? “malditas mulheres e sua capacidade de sempre ganhar uma discussão”. – Mas tira essa roupa, ta parecendo uma sapatona que faz street dance que eu conheço. Tem umas roupas suas no armário –
Lia sorriu. Ainda usava as roupas de Jean. Masculinas e grandes demais pra ela.
– Não tem um espelho aqui? –
– Só no banheiro –
– Já conheci putas que vivem melhor do que você. Onde você arranjou esse lixo? –
Guilherme riu. Estavam se dando bem, mas ignoravam o tempo que um policial como Carlos leva para encontrar uma dupla tão amadora como eles. Na verdade, eles ignoravam muitas coisas.

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