segunda-feira, 18 de junho de 2012

35 - Canção de Amor e de Paz



            De todas as coisas que o soldado esperava ver quando levasse Aline até a mansão, a última possibilidade em sua mente era de que presenciaria o ataque rebelde que estava se desenrolando naquele momento. Dezenas de Fascin atacavam o lugar mais protegido da ilha, e o pobre soldado se perguntava o que eles deixaram escapar. Com certeza, aquele esconderijo que eles dizimaram não era o único, embora, pelo número do exército atacante, era de se supor que as ruínas fossem a principal base de operações, e o resto era resto.
            Ainda assim, restos costumam incomodar. Eles irritam os seus olhos e entram como farpas em seus dedos. Não podem te machucar seriamente, mas sua insignificância eleva-se em um patamar de notoriedade quando nada mais importa, então é preciso se livrar dos restos.
– Fiquem aqui – disse o soldado para Aline e o médico, que tentava tranquilizá-la. Era um soldado bem treinado, como todos os Menegaro. Sua arma era mais poderosa, como a de todos os Menegaro. Ele não tinha medo de enfrentar um exército, se isso fizesse bem para a família. Como qualquer outro Menegaro. Mas com certeza não estava preparado para ouvir um segundo bater de portas no veículo que dirigira até ali, e, virando-se para ver o que aconteceu, se deparou com Aline, manca e sangrado, se apoiando na lateral do carro com uma pistola na mão. Seu rosto mostrava a dor que estava sentindo, mas também mostrava a fria ira de quem vê seu lar em chamas.
– Você vai me ajudar a entrar na minha casa, e vai lutar ao meu lado até esses pobres do caralho estarem todos no chão –
            Se fosse qualquer outra mulher, ou qualquer outro soldado, o corajoso homem tentaria insistir para que permanecesse no carro, que esperasse ao menos a ferida parar de sangrar. Mas como dizer não àquela mulher? Ela lhe enchia de admiração cada vez mais, e tudo que ele pôde fazer foi acenar que sim com a cabeça, e permitir que ela apoiasse um braço ao redor do ombro dele, a pistola firme na outra mão.
            E foi assim que os dois abriram caminho por detrás das linhas inimigas, penetrando pelos portões que foram previamente derrubados por Lia, e se dirigindo ilesos para dentro da mansão, onde nenhum rebelde teve sucesso em invadir.
– Chamem os médicos, aqui e agora! – foi a reação de Hércules, que sequer empunhava uma arma. Aparentava toda a confiança de quem sabia que seus homens poderiam protegê-lo, que aquilo não era nada além de uma imprevista praga. Eram só vermes em seu quintal, comendo suas alfaces. Não era uma ameaça real. Mas a sua filha ferida? Alguém iria pagar caro por aquilo.
– Minha querida, você está bem? –
– Nós acabamos com o esconderijo, pai. Esses aí do lado de fora são o que sobrou dos que fugiram. Os Fascin não são mais uma ameaça –
            Hércules sorriu. Uma imagem rara de se ver. Não durou muito tempo. Um informante que corria pelas escadas para alcançar o Poderoso Chefão trazia notícias mais perturbadoras do que um ataque de vermes. Enquanto Lia e Hércules trocavam informações sobre o sucesso da missão e o fracasso em conter uma única prisioneira, a porta da enfermaria particular da família foi escancarada, e uma figura sem fôlego se apoiou na parede antes de dar a notícia.
– Um espião... dos Manentti... Eles sabem do ataque... Tão vindo pra cá –
            Hércules entendeu o que estava acontecendo. O rival de sua vida inteira, Giuseppe, se aproveitaria do único momento de aparente fragilidade da família Menegaro para tentar derrubá-la. Não iria acontecer.
– Vem minha filha, nós vamos passear de barco –
– Senhor? – perguntou o soldado, pela primeira vez duvidando do pulso firme de seu chefe – Estamos abandonando a mansão? –
– Não “estamos”. Preciso levar minha filha para um lugar seguro, apenas eu, ela, os médicos e meus guarda-costas. Confio plenamente que você serão capazes de defender a mansão. Foi para isso que eu treinei vocês. Se está se sentindo inseguro, diga para todos que vão até o subsolo e abusem do nosso arsenal pesado. Vamos esmagar essa ilha se for preciso, mas não seremos derrotados –
            O informante, que apenas ouvia as notícias e as passava para seu chefe, não era de um alto cargo de confiança. Era apenas um garoto de recados e, por isso, não sabia o que era o tal de “subsolo”, e sempre pensou que os soldados já usassem as armas pesadas.
– Senhor... O que tem no subsolo? –
– Entre as armas militares importadas e os trajes especiais? Um tanque, meu caro rapaz, um tanque –

            “Vai ficar tudo bem”, Guilherme repetia sem parar, amparando Lia, ajudando-a em tudo o que podia. Ela estava feliz por ter Guilherme de volta, mas não gostava nem um pouco de seus óculos e sua nova expressão, da mesma forma como ele não gostava nem um pouco de sua aparência esquelética e quebradiça. Mas não podiam ignorar a história que tinham juntos, e continuariam juntos até o fim. Até o fim deles ou até o fim da ilha. Finalmente colocariam em prática o plano de fugir daquele lugar, embora a situação não fosse nem um pouco parecida com o que eles haviam imaginado. Não poderiam ter previsto tantas explosões e mortes, tanta guerra. Sangrenta Tenemissa sempre foi, mas sempre foi ao estilo de amigos esfaqueando amigos pelas costas, família brigando com família, vermes roubando matando e estuprando. As últimas batalhas fugiam completamente ao estilo de morte pacata e cruel que todos estavam acostumados. Sim, comparando com os últimos acontecimentos, pode-se pensar que a ilha de antes era pacata.
            “Mas já não importa mais”, pensou Guilherme. “Nós estamos saindo daqui, de um jeito ou de outro”. O plano agora era roubar um barco do lado Manentti da ilha, o porto oficial. Não ficava mais perto, mas, em compensação, o lado Menegaro tinha apenas o porto particular da mansão. Rodeados pelo oceano, quem tem domínio marítimo tem a vantagem, e esse é o único motivo pelo qual Hércules nunca conseguiu derrubar Giuseppe.
– A gente ta indo muito devagar – reclamou Lia.
– Calma, Lia, calma. Vamos encontrar um carro em algum lugar e podemos dirigir até o porto –
            Lia estremeceu diante daquela ideia, e Guilherme percebeu. Ela ainda estava traumatizada pelo acidente, mas sabia que não havia outra alternativa. Com o tempo, os dois perceberam juntos que a noite estava muito silenciosa. O que aconteceu com os barulhos de tiro? A batalha estava terminada, mas qual lado venceu? Lia se perguntava quem estivera lutando, enquanto Guilherme se convencia de que não importava mais qual lado perdera. Ele decidiu abandoná-los, como bem lhe lembrou o falecido Luiz. “Não sou um herói”, pensou, “Eu só quero sair daqui com Lia, e ninguém mais. Que diferença faz se os rebeldes ganharam ou não? To saindo daqui mesmo. E ainda por cima Luiz disse era só uma terceira família surgindo, então não era nada do que eu imaginei. Não tenho pelo que lamentar”.
– Guilherme... –
– O que foi? –
– Você acha que isso tudo teria acontecido se a gente não tivesse se separado? –
            Guilherme meditou por um momento se ela estava falando de quando eles seguiram por ruas opostas, logo após a explosão de seu apartamento, ou se ela havia voltado mais ao passado, para as brigas constantes, para quando o namoro dos dois não deu certo. Para quando eles decidiram que seriam apenas sócios. Provavelmente, ela se referia a ambas as situações.
– Se a gente não tivesse se separado, não chegaríamos tão longe –
            Lia percebeu que seu companheiro ficou em dúvidas sobre o que ela estava falando, e percebeu também que ele acabara de responder as duas perguntas que estavam subentendidas uma na outra.
– É verdade que tudo isso é culpa nossa? –
            Guilherme desacelerou o passo. Aquela pergunta era inocente demais. Mesmo em seu momento mais frágil, quando havia matado um homem pela primeira vez, Lia nunca foi tão inocente. Algo havia mudado nela, sim, mas, a despeito de sua aparência frágil, o espírito de Lia estava agora duro feito uma pedra. Não havia mais inocência naqueles lindos olhos, então... Ela o estava testando. E desde quando ele pensava tanto? Não era apenas um soldado que só sabia apertar o gatilho, como bem disse Luiz? E porque ele agora o citava tanto dentro de sua própria cabeça? Guilherme ajeitou os óculos quadrados com os dedos, empurrando-os mais para cima no nariz, num movimento tão característico que, se eles ainda tivessem lentes, elas brilhariam de forma singular, refletindo ideias fantásticas do cérebro calculista que se escondia atrás daqueles aros. Mas o cérebro não era mais o mesmo, e os aros não mais suportavam duas lentes.
– Isso tudo é culpa da ilha – respondeu Guilherme com simplicidade, mas sua voz saiu seca. Para quem olhasse aquele casal, nada de mais estaria acontecendo, embora uma dança complexa estivesse se desenrolando nas mentes conectadas daqueles dois indivíduos tão próximos, que estavam agora testando a que ponto sua distância se estendia. Eles não eram mais os mesmos, nenhum dos dois. Embora ambos fossem jovens adultos, uma voz mais velha lhes diria que tinham acabado de deixar sua infância para trás, e aquele momento provava isso. Guilherme e Lia amadureceram da forma mais dura possível, sentindo na carne a responsabilidade de um mundo insano, e procuravam em vão um no outro algo que lhes lembrassem de como era a vida antes daquilo.
“Ainda é a Lia”
“Ainda é o Guilherme”
“Só que ela está diferente, não parece mais a mesma”
“Só que ele está estranho, não parece mais ele mesmo”
            Como um romantismo às avessas, eles se olharam nos olhos pela primeira vez desde que aquele complicado balé de testes e desconfiança havia começado. Ambos tinham sentimentos duvidosos em relação ao outro agora, e precisavam colocar seu futuro à prova. A parte não dita do plano sempre foi que eles voltariam para os braços um do outro quando tudo estivesse terminado, mas, até lá, não poderiam cair em tentação. Só que o plano não era mais um plano, era só a corrida pela sobrevivência. Sócios ou não, eles precisavam fugir da ilha. Nunca houve a necessidade tão gritante quanto agora.
            E foi assim, como que por acaso, que seus lábios partidos se juntaram mais uma vez. Cada um sentindo na boca do outro o gosto de sangue, e sem nenhum nojo ou receio. O sangue só juntava à saliva mais da alma de cada um, como um contrato selado e carimbado, eles agora estavam novamente presos, grudados em seus corpos no meio da rua mal iluminada. Era o clímax máximo do suspense que haviam criado. A bailarina invisível não mais existia, porque toda a desconfiança agora precisava ser deixada de lado. Guilherme e Lia não mereciam e nem poderiam mais confiar um no outro, pois não conseguiam sequer confiar em si mesmos. Eles eram Tenemissianos de verdade, e toda e qualquer relação que viesse deles seria de uso e desfruto alheio, e nada mais.

            Algumas horas mais tarde, Hércules e Aline assistiam do conforto de seu barco uma série de explosões, enquanto discutiam táticas para serem passadas pelo celular. Felipe fora previamente avisado que não voltasse para a mansão, para sua própria segurança. Ao invés disso, ele e seus homens poderiam fazer um ótimo trabalho espionando as fronteiras descuidadas do território dos Manentti. Do outro lado da ilha, Giuseppe também acompanhava a batalha pelo celular, embora não pudesse ter a vista privilegiada de seu rival. Para os moradores da região, a ilha estava afundando. Ninguém se importava de verdade com eles, então não fazia diferença se um prédio repleto de pessoas fossem atingido sem querer por um tiro descuidado do tanque, ou de alguma bazuca. Tenemissa nunca vira uma briga de tamanha proporção. Ambos os lados estavam dando tudo de si, como se não houvesse mais nenhuma chance, nenhuma noite ou nenhuma ilha. Era a hora da verdade, e ninguém daria para trás.

            O policial gritava pelo rádio. Incapaz de acreditar no que ouvia, pedia mais informações. Uma guerra daquele tamanho poderia dizimar não apenas uma, mas as duas famílias juntas, e não importa quem fosse vencer, ambas ficariam sem dinheiro. E isso, para a polícia, é muito ruim. Guilherme e Lia se aproximavam sorrateiramente do homem fardado, enquanto este desligava o rádio e montava em sua adorada moto. Estava irritado demais com o que acabara de acontecer, e era orgulhoso e confiante. Ele não era páreo para aqueles dois veteranos de fugas impossíveis. Surgindo das profundezas de um beco, Lia se arrastou, suplicante, e o policial parou para olhar a figura esquelética que se aproximava. “Mais um verme”, ele pensou, se preparando para sair em disparada antes que ela chegasse perto. Ignorar ela sempre melhor. Antes que conseguisse dar a partida na moto, Guilherme o empurrou, e ele caiu aos pés de Lia que, sorrindo maliciosamente, cortou seu pescoço com a tesoura. Toda vez que ela fazia isso, se sentia um pouco mais completa, e por aquele instante Guilherme a temeu.
            Enquanto corriam velozes pelas ruas abandonadas as primeiras explosões se fizeram ouvir. Guilherme não desacelerou, mas olhou junto de Lia para trás, na direção da imensa bola de fogo que subia ao céu. Ambos se lembraram imediatamente daquela outra bola de fogo, que marcou o momento da separação e de quando toda aquela bagunça começou de verdade.
– Você ta indo devagar demais! –
– O QUE? – Gritou Guilherme em resposta, pos vento que passava veloz pelos seus ouvidos o impedia de entender o que Lia acabara de falar.
– DEIXA EU DIRIGIR – gritou Lia, lutando contra a força do vento no ouvido de Guilherme. Ele entendeu e desacelerou, parando a moto no meio do asfalto. Concordava que Lia era melhor piloto do que ele, mas tinha sérias dúvidas quanto a deixar dirigir uma pessoa que foi atacada e desmaiou duas vezes em seguida. Apesar disso, Lia não demonstrava sinais de que iria cair novamente. A adrenalina tomava conta de seu corpo, e logo as ruas passavam como borrões enquanto a moto viajava a mais de 150 km/h.

            Quando Pedro viu o tanque, seu coração parou de bater por quase um segundo. Definitivamente, eles não estavam preparados para aquilo. Enquanto se aproximavam da mansão, já se espalhava por todos os lados a clara mensagem de Hércules, em corpos de rebeldes que diziam “Não tente, você não vai conseguir vencê-lo”.
Mas eles chegaram até ali, tinham que continuar.

            O território dos Manentti estava indescritivelmente mal vigiado. Silencioso não estava, pois os anônimos moradores da ilha saiam de seus apartamentos para tentar descobrir o que estava acontecendo, que barulho era aquele e o que significavam aquelas explosões. Apesar disso, não se via um único delinquente da família tentando pôr ordem nas ruas. Foi fácil, para não dizer sem-graça, chegar até o porto. Guilherme e Lia se perguntaram por que tinham demorado tanto tempo planejando, planejando e fracassando em fazer algo tão simples. Foi quando ouviram nas conversas o motivo de tamanho desleixo: o confronto final estava acontecendo, naquele exato momento, na mansão Menegaro. Ninguém poderia pedir por oportunidade melhor. Ninguém sequer poderia sonhar ter tanta sorte. E Guilherme e Lia não foram os únicos a perceber. O porto em si não estava vazio por falta de seguranças, estava vazio por falta de seguranças vivos. A parcela ativa e inteligente daqueles moradores anônimos, que também sonhavam em um dia sair daquela ilha, não deixaria que o momento passasse em branco. Todos os barcos do porto estavam sendo tomados por cidadãos comuns, enquanto Giuseppe se trancafiava em sua sala-segura, com medo da rebelião chegar até ele. Ninguém se importou. A liberdade é mais urgente que a vingança, e Guilherme e Lia conseguiram se infiltrar em meio àquelas pessoas e pegar um lugar em um dos navios superlotados. A notícia não se espalhou por informação, e sim por curiosidade. Numa hora como aquelas, ninguém avisa o vizinho de que ele pode fugir para ter uma vida melhor, todos querem apenas garantir o seu lugar. Ainda assim, muita gente apareceu, e não demorou para que pessoas começassem a se atirar no mar, todos gritando e lutando por uma vaga para fora do inferno. Navios e barcos partiram apressados, tentando evitar uma superlotação. Cargas enormes foram atiradas ao mar. Nada daquilo seria necessário. Poderiam conseguir o que quisessem assim que chegassem ao paraíso onde, tinham certeza, seriam bem aceitos.

            Hércules caminhou sobre os destroços de sua linda mansão. Estava seguro agora, ele e o que restou de sua família. As forças inimigas foram repelidas, embora ele não tivesse mais suas próprias forças para contra-atacar. Tudo o que sobrou do império que com tanto empenho ele havia levantado a partir do pó, foi o próprio pó. Aline o consolava, dizendo que eles ainda podiam reconstruir tudo de novo, com mais força que antes. Giuseppe também estava sem nada, sem ter como continuar aquela briga. Giovanni Fascin sequer poderia se considerar um jogador nesse cabo-de-guerra. Eles ainda poderiam dar a volta por cima.
            Com as três famílias sem controle algum, sem dinheiro algum e sem respeito algum, os tenemissianos se deixaram respirar aliviados. Até mesmo a polícia não seria mais um problema tão grande, e os vermes se recolheriam para o fundo dos esgotos. Poderia aquela ilha viver um tempo de paz? Talvez, temporariamente. Era com pesar que todos sussurravam para seus filhos que ia ficar tudo bem, pois eles sabiam que logo tudo iria voltar a ser como era antes, e no fim nada nunca muda. Não importa que família ganhe ou perca. Se há duas, três ou apenas uma assumindo o controle total. Na prática, nunca fez a menor diferença.

            O dia já havia amanhecido quando o navio que Lia e Guilherme embarcaram encalhou em uma praia estranha. Como ninguém a bordo sabia da localização dos portos, tudo o que eles puderam fazer era, na base da tentativa e erro, lançar o navio para frente e torcer para que ele chegasse a algum lugar. Onde ele chegou, mais tarde eles descobririam, foi em uma praia entre Rio de Janeiro e São Paulo, embora jamais conseguissem dizer de certeza se Tenemissa fica mesmo na linha desses estados, pois não seguiram um rumo reto com o navio.
            O casal não teve pressa em sair. Deixaram o restante dos fugitivos se acotovelando, empurrando e correndo, enquanto as pessoas que passeavam pela praia viam a cena assustadas. Não levou muito tempo para juntar uma multidão que tirava fotos do navio encalhado na areia por falta de porto e de marinheiros competentes. Calmamente, Guilherme e Lia caminharam de mãos dadas, observando o novo mundo à sua volta, principalmente aquelas pessoas que não tinham no rosto a expressão que todo tenemissiano tem. Eles eram pessoas que nasceram com o poder de escolher seu próprio destino, livres de opressão e desfrutaram desde cedo as belezas de um mundo maravilhoso. Guilherme se encantou com eles, mas Lia teve receio. Não gostava daquelas pessoas.
– O que você acha que vai acontecer com a ilha? – Perguntou Lia, olhando para o vazio do horizonte.
– Que importa? Nós saímos – respondeu Guilherme, mas alguma coisa em seu tom de voz irritou Lia. Não era porque ele parecia não se importar, isso seria justo. Era justamente o contrário, como se ele estivesse escondendo uma afeição quase que paternal. Ambos permaneceram em silêncio, olhando para a direção de onde pensavam estar Tenemissa. Lia pensava em Magali, e se ela teria uma boa vida. Guilherme lutava contra pensamentos novos. Eles lhe eram estranhos, mas pareciam fazer todo o sentido do mundo. Lembrou de Carlos, o policial que tanto lhe caçara, que sobrevivera a sua armadilha da granada, e que morrera sem que Guilherme soubesse de um terço de sua história. Aquele policial lhe fez quase prometer que mataria Aline, uma mulher que ele nunca vira na vida, e que ainda por cima era filha de Hércules Menegaro. Guilherme sequer chegou a encontrá-la, e sentia como se deixasse alguma coisa para trás. E também havia Luiz. Seu melhor amigo, o homem que lhe ensinou tudo, que lhe ensinou a ser homem. Guilherme agora começava a compreender a última conversa dos dois, como se os pensamentos do falecido lhe invadissem a cabeça. Tudo fazia sentido, a Luiz estava certo em tentar matá-lo. Ele merecia, com certeza, mas ninguém morre em Tenemissa por merecer. Morre quem não é forte o bastante para matar primeiro. Então Guilherme tinha todo o direito de roubar os sonhos de Luiz, os planos de Luiz, os óculos de Luiz...
– No que você está pensando? – Perguntou Lia, intrigada e desconfiada.
– Nada – mentiu ele. Com um sorriso no rosto, ajeitou com o dedo os óculos sem lentes mais para cima do nariz, da mesma forma como Luiz costumava fazer. Em sua cabeça, ele se lembrava daquela antiga conversa no bar, onde seu amigo lhe contava sobre os motivos que o fizeram retornar à ilha. “lá fora é apenas um monte de cidades com um monte de pessoas” disse ele, e Guilherme agora via como ele tinha razão. O seu encantamento por aqueles humanos estranhos começava a se distorcer em repulsa. “Você pode ser livre sim, mas será livre sendo ninguém e fazendo nada. Aqui você pode estar preso, mas você está fazendo a sua própria história”. Luiz tinha razão. Ele sempre teve razão.
– Nada mesmo? – Insistiu Lia. Guilherme a puxou pelo braço e lhe deu mais um beijo, profundo, vívido. Afogava seu antigo eu na antiga paixão dos dois, que ainda parecia arder apesar da mútua desconfiança.
– Vem – disse ele, varrendo para longe seus pensamentos anteriores – nós temos que comemorar –
            E juntos eles caminharam, enquanto uma multidão se estendia pela praia para ver o fenômeno de diversos navios vindos de um lugar inexistente encalhar naquelas areias, deixando pessoas que não eram pessoas correrem livres para um maravilhoso mundo novo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

34 - A Garota Que Segura o Destino

            Nenhum dos três ousou se mexer por alguns segundos. O choque da reviravolta inesperada foi grande demais para Guilherme, que via desesperado o vulto de Lia desmaiada no chão, para Luiz, que não esperava uma atitude tão firme da frágil Élen, e ela mesma parecia não acreditar no que havia acabado de fazer. A arma tremia levemente em suas mãos, mas ainda assim não se desviava do alvo. Luiz avançou sorrindo para o seu indefeso ex-amigo, tomando o cuidado de parar não muito perto. Apesar de tudo, não confiava na pontaria de sua fiel companheira.
– Olha só quem apareceu pra festa! – Falou Luiz, a voz animada. Seu tom parecia embriagado, como se algo tomasse conta dele. Sua pele se rasgava em arranhões e ferimentos por ter saltado do carro em alta velocidade. Ainda assim, Luiz teve sorte de cair nos sacos de lixo daquele beco escuro.
– O que você ta fazendo, cara? Por que isso? E por que você tava com a Lia? –
– Ah, Lia. É claro que você só pensa nela. Você é o dono dela, não é? Você é o dono de tudo o que você quiser. Como um garoto estúpido conseguiu chegar tão longe? –
– Porra Luiz! Do que é que você ta falando? –
– Você acha que é melhor que qualquer um desses vermes que rastejam pelos becos? Você foi bom o bastante pra ser o homem de confiança do Manentti, mas fui eu quem te colocou lá dentro. Você foi bom o bastante pra tentar fugir da ilha, mas acabou ferrando com tudo, não foi? Não foi só o seu plano que voou pelos ares quando essa puta matou o Jean, foi o meu também! –
            Luiz agora gritava seu desabafo desesperado. Guilherme não podia fazer nada. Seus olhos apenas desviavam de Luiz para a arma nas mãos de Élen, e então para o vulto de Lia no chão.
– Eu iria ser o dono dessa porra toda aqui, caralho! Você se acha esperto por ter se juntado aos rebeldes? Esqueceu que foi eu quem te mandei pra lá? Aquela bichinha do Ícaro não passa de um pau mandado do Giovanni Fascin. Ah, mas claro, você não sabe quem é esse, não é? Você simplesmente não sabe de nada. Eu não trabalho pra Manentti nem pra Menegaro. Tem uma terceira família, que só tava usando essa ralé toda pra derrubar a ilha inteira. Mas você tinha que estragar tudo, não é mesmo? Você tinha que fazer tudo errado, mais uma vez. O idiota do Giovanni confiava em mim mais do que na própria mãe, e não ia demorar muito, ele estaria de joelhos na minha frente, implorando. A ilha inteira estaria implorando, não fosse o seu joguinho ridículo de fuga romântica –
            Guilherme estava perplexo, tentando entender o que acabara de ouvir. Não sabia dizer se tudo fazia mais sentido agora, ou se só havia piorado. Tenemissa sempre foi uma ilha pequena demais para grandes tramas mafiosas, bastava dois lados que se odiassem para manter o equilíbrio sombrio e mortal. Poucos passos além, Élen prestava atenção em tudo o que Luiz dizia. Ele parecia outra pessoa agora. Sua fisionomia distorcida de raiva lhe arrancava a beleza própria que ela tanto admirava. Era o tipo de homem que passava uma imagem tranquila de que tudo estava sob controle, porque ele é quem tinha o controle. A imagem que por detrás daqueles óculos quadrados um mundo de caminhos previamente calculados aguardava para leva-la a um destino glorioso. Toda essa ira não combinava com ele, e mais ainda não combinava com aqueles óculos.
– Você sempre se achou um herói, não é mesmo? Salvou seu pai. Salvou a Lia. Salvou os rebeldes. Mas seu pai só ficou vivo o bastante pra que você fizesse parte da família, e então mataram ele. A Lia? Fui eu quem salvou ela agora. E fui eu quem controlei, indiretamente, os rebeldes que você NÃO salvou. Ao contrário, você abandonou eles pra morrer. Você, Guilherme, se acha muito melhor que o resto desse bando todo, não é? Mas o seu cérebro é pequeno, igual ao de qualquer soldado de bosta. Você não vê as possibilidades, você só aperta o gatilho, e espera que tudo dê certo. Eu cansei de você. Eu cansei dessa ilha de retardados. Eu vou sair daqui, e quer saber de uma coisa? Eu vou levar Lia comigo! Não é demais isso? Você chegou tão longe pra ser passado pra trás pelo seu melhor amigo. E agora eu vou roubar seu plano, seus sonhos e a sua garota –
            Luiz deu um passo a frente com um sorriso lunático no rosto. Percebeu tarde demais seu erro, ao ouvir um soluço de choro que ele tão bem conhecia. Élen agora tremia tanto que mal conseguia fazer pontaria, seu rosto molhando em lágrimas. Luiz, como sempre, se esquecera completamente que ela estava presente. Matinha na mente a ideia de que estava seguro por ter um aliado segurando uma arma, e ignorou quem era este aliado. Não era de seu feitio ignorar, então o que estava acontecendo com ele? Guilherme também percebeu o erro, e percebeu que a garota não mais tinha a pontaria segura. Sem hesitar, pulou para cima de Luiz, rolando pelo chão com ele. Élen gritou, sem saber como poderia atirar, ou até mesmo em quem. No duro asfalto, os dois homens trocavam socos violentos. Luiz já estava bastante machucado por ter pulado do carro em alta velocidade, e Guilherme estava extremamente cansado pela noite de tiroteio. Ambos tinham a mente confusa, e já se esqueciam o porque de estarem brigando.
            Mas eles não pararam. Rolando algumas vezes, Luiz conseguiu ficar por cima de Guilherme, paralisando-o. Com uma frieza que se assemelhava a medo em sua expressão, apertava com as duas mãos o pescoço do outro, que tentava desesperadamente se libertar, ou retribuir a sufocação, mas suas mãos escorregavam no vazio e apenas acariciavam o rosto de Luiz. Até que seus dedos sentiram uma sensação diferente do suor quente e da pele machucada: a fria sensação do toque do metal. Guilherme agarrou com as forças que lhe sobravam o aro dos óculos quadrado de Luiz, e puxou com força para baixo. O barulho de vidro quebrando foi o bastante para distrair o homem que agora estava quase cego. Em sua mente, inevitavelmente ele repassou todo o seu plano, e como este se tornava inútil agora. Ele tinha um plano B, um C, e muitos outros, suficientes para quase preencher o alfabeto. Mas nenhum deles daria certo sem os óculos. Guilherme, que ainda sufocava, ergueu sua mão e enfiou dois dedos nos olhos de Luiz, que pulou para trás, gritando. Os dois homens se afastaram aos poucos, tentando se recuperar. Élen observava aos prantos, esquecendo-se completamente da arma em suas mãos. Guilherme a viu, e foi tomado por uma ideia. Virando as costas para o seu inimigo que agora tentava ficar de pé, o ex-rebelde rumou decisivo na direção da adolescente chorona. Esta então se lembrou de sua arma, e viu claramente o que iria acontecer: aquele rapaz tentaria tomar a pistola de suas mãos para matar o homem que ela tanto amou. Mas ainda amava? Sim, como não? O pobre coitado estava passando apenas por uma crise, era obrigação dela ajudá-lo em um momento difícil como aquele. Para isso, ela teria de matar essa pessoa que ela nunca vira na vida, e depois mataria também a garota desmaiada, para garantir que Luiz não a levaria consigo para fora da ilha. Apenas Élen poderia fugir junto dele, e os dois teriam uma ótima vida no verdadeiro Brasil que ela sempre quis conhecer.
            Foi raciocinando tudo isso que a garota ergueu sua arma e disparou. O barulho do tiro se juntou no céu com o barulho de todos os outros tiros que ecoavam perto dali. Acompanhado do barulho, ouviu-se em seguida um grito de dor, daquele que morreria tão em breve, sem acreditar no que havia lhe acontecido. A pobre Élen se arrependeria para o resto da vida por disparar a arma, pois seu alvo, Guilherme, já sabia que ela faria isso. Era esse o seu plano, ao se posicionar entre ela e Luiz, e pular para o lado no momento em que a garota fechou os olhos. Élen atirou no homem que amava, e ele nem conseguia reconhecer o que estava acontecendo ao seu redor. Ela largou a arma e foi correndo amparar Luiz, que tentava estancar o sangue que escorria do buraco em seu peito. Guilherme olhou para a cena com tristeza. Era tudo confuso demais para que ele conseguisse entender por que aquilo havia acontecido. Virou-se então para Lia, e com carinho levantou a sua cabeça, tentando acordá-la. O pranto de luto deu a todos os moradores do prédio onde o carro batera o sinal de que a luta terminara, pois todos observaram perplexos o que havia acabado de acontecer. Guilherme levou Lia até eles, e Magali a segurou no colo, passando mais uma vez um pano umedecido em sua face.
            Em meio ao caos que reinava naquela rua, um brilho em particular chamou a atenção de Guilherme. Era o vidro quebrado dos óculos quadrados, abandonados no meio do asfalto. Aquele brilho sempre tinha lhe despertado a curiosidade, quase como se fosse feito de um material especial. Caminhando lentamente em direção ao objeto, e ignorando a pobre garota que delirava de tristeza, Guilherme pegou os óculos do chão. Um pouco além pegou também a pistola e, com o cano desta, terminou de partir o que restava do vidro preso aos aros de metal. Eram ótimos óculos, agora sem lente nenhuma. Largando novamente a arma no asfalto, como se esta não fosse de mais nenhuma utilidade, Guilherme colocou, muito lentamente, os óculos no rosto. Parecia estar concluindo um ritual sagrado, embora nem ao menos soubesse o que estava fazendo. Quando se voltou para a multidão, Lia já estava acordada, e Magali a tinha contado o que acabar de acontecer. Vendo o novo homem dos óculos quadrados, a pobre garota teve um susto. Era como se Luiz tivesse se reencarnado no corpo de Guilherme. Sua expressão facial mudara completamente. Não mais um rapaz parado em pé no meio da rua, mas verdadeiramente um homem. Um homem muito mais velho do que sua idade, e ele agora estava pronto para tomar a sua verdadeira forma e assumir as consequências disto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

33 - Que Se Faça Tempestade

            O homem experiente sentia-se como que uma criança em frente ao seu rigoroso pai. Giuseppe Manentti era um homem grande, tanto em seu físico como em poder, e qualquer um poderia se sentir pequeno quando era chamado para a sua sala. Mas Pedro estava preparado para isso, se preparou por muito tempo, e a hora havia chegado.
– Sabe, eu realmente não consigo acreditar que o Matheus morreu. Ele era o meu melhor homem, o meu braço direito. É um cargo de confiança esse. E você, Pedro, esteve tanto tempo fora, espionando o meu rival, que eu cheguei a me perguntar se não teria mudado definitivamente de lado, e o espionado era eu –
            Pedro se colocou um passo à frente, as mãos atrás das costas, a cabeça levemente erguida para poder olhar para o seu chefe. Era a figura perfeita de um soldado prestando contas ao seu general.
– Não senhor, não mesmo. O Menegaro é um cara duro, difícil de enganar, precisei ficar lá mais tempo do que o planejado –
            Giuseppe, que estava de pé ao lado de sua mesa, mexendo em alguns papéis enquanto conversava com seu espião, sentou-se para ouvir melhor a história, e fez um sinal para que Pedro senta-se também.
– Bom, isso parece interessante. Como você conseguiu vir até aqui, afinal? E, principalmente, por que? Eu mandei você ficar lá e só me avisar por alguém o que estava acontecendo. Você não fez nem uma coisa, nem outra. Você não me manda avisos há semanas, e agora aparece aqui, do nada –
– É que... Bem, não consegui mais encontrar o seu informante. Então eu precisei vir, porque o que aconteceu agora é urgente, e eu achei, digo, eu sei que é mais importante te dar essa notícia do que continuar na casa –
– Que notícia? –
– Existe uma terceira família, os Fascin. Os Menegaro tavam caçando eles há tempos, e agora descobriram o esconderijo dos caras. Não sei bem quem é o chefe da família, mas tava usando a própria população pra montar um exército rebelde, sem eles saberem que só tavam sendo usados –
– E onde fica esse esconderijo? –
– Fica no lado contrário do porto, numa parte bem abandonada da ilha. Nem você nem o Menegaro se importam muito com o que acontece lá. Mas agora a coisa ficou preta. Parece que a filha do Hércules achou o esconderijo, e eles tão mandando bala, então uma boa parte dos Menegaro ta lá lutando, e tem outra coisa, o senhor lembra do Guilherme? –
– O traíra filho da puta? Lembro bem –
– Quem matou o Jean não foi bem ele, foi a namorada dele, uma tal de Lia. E o filho do Hércules capturou ela –
– E daí? Não é mais problema meu. Os Menegaro não foram atrás de mim pra acertar contas, o moleque morreu na explosão do próprio apartamento, pelo que eu sei –
– Poisé, poisé, só que não é bem assim, ele ainda ta vivo, e a tal da Lia escapou da mansão dos Menegaro –
– Ela o que? –
– Sim! E o Hércules mandou uma frota inteira atrás dela, o filho junto e tudo. Eu aproveitei então pra vir pra cá, e, chegando aqui, ligaram pra mim. Parece que os rebeldes tão atacando a mansão. Não vão conseguir, mas já serve de distração, Giuseppe –
– Você ta me dizendo que a mansão ta praticamente desprotegida e ainda por cima ta sob ataque? –
– Isso mesmo –
– Chama todos os homens disponíveis. Nós vamos invadir aquela bagaça e você, Pedro, vai ser meu novo líder –
            Pedro saiu rápido, o peito estufado de orgulho. Tinha batalhado desde cedo para chegar longe, e finalmente conseguiu chegar aonde queria: num cargo de confiança. A questão não era apenas o dinheiro. Ele se sentia agora no topo daquele mundo que sempre vira por baixo.

            Três tiros. Três malditas balas perfuraram o corpo do rebelde, e ele ainda lutava para se arrastar até sua arma, que caíra da sua mão quando lhe acertaram o ombro direito, depois de já terem acertado sua perna direita e uma de suas costelas. Mas ele era um rebelde, afinal de contas, e precisava continuar lutando. Os Menegaro já tinham tomado o lado de fora, e estavam agora invadindo o interior do esconderijo, o lugar que por tantos anos ele achou ser seguro.
            Cinco metros. Vamos, você consegue. Quatro metros. Não pode ser tão difícil. Três metros. Não tente lutar contra a dor, aceite ela. Dois metros. Está tão perto agora. Um metro. Você vai morrer como um herói. O metal não estava frio quando o rebelde lhe segurou com força. Continuava quente, prova de que a batalha ainda não havia terminado. Como estava se arrastando de barriga para baixo, precisou fazer um esforço para se virar e ver o que havia por perto. Ao fazer isso, foi surpreendido por um chute em sua mão, e a arma novamente voava pelos ares. “Desisto” pensou ele, “não vou me arrastar tudo aquilo de novo”.
– Pra onde o resto foi? –
            O rebelde deu uma boa olhada em quem havia lhe agredido. Era uma mulher alta, de olhar forte, e cabelos escuros e lisos. Sua beleza o paralisou por um instante, mas o brilho frio naquele olhar o fez despertar para a realidade: aquela mulher era pior do que qualquer carrasco, Menegaro ou Manentti.
– Eu... Eu não sei do que... –
            Aline enfiou a ponta do salto dentro do buraco de bala no ombro do homem caído, e este gritou desesperado.
– Eu sei que vocês têm uma rota de fuga. Meus homens acharam o túnel. Eu só quero saber por quais túneis os fugitivos foram –
            O rebelde se debateu, gritou, mas não disse uma única palavra. Aline continuou olhando para ele, o salto enfiado pela metade dentro do corpo daquele homem. Com uma certa delicadeza, como se estivesse curando aquele machucado, ela virou o pé, girando o salto dentro do buraco de bala e duplicando a dor que este estava causando.
– Nós vamos encontrar eles de um jeito ou de outro, a questão é só o quanto você vai sofrer antes que me diga –
            O soldado, que em nenhum momento usou suas mãos para tentar afastar o pé da torturadora, mostrou de forma rápida e precisa o porquê. Enquanto Aline mantinha sua atenção no rosto sofrido, as mãos dele lutavam para alcançar a faca de combate que tinha presa na cintura. Ao pegá-la, não perdeu tempo e a cravou na perna da mulher, atravessando-a. Ela gritou e caiu para trás, tirando o salto do ombro de seu agredido e agressor. Os soldados que estavam por perto ergueram suas armas simultaneamente e metralharam o que sobrou do homem que levara antes apenas três tiros. Ao constatar que ele estava definitivamente morto, os soldados correram até a filha do grande chefe e a carregaram até o carro mais próximo, chamando o médico de plantão que tinham trazido junto, para cuidar dos feridos da batalha. Aline gemia alto, tentando não chorar, mas a visão da lâmina atravessada em sua carne era desesperadora. Deram-lhe algo para que mordesse quando a faca fosse arrancada. Ela sabia muito bem o que ia acontecer. Já havia torturado muitas pessoas de formas parecidas, e era um de seus grandes prazeres sentir na mão a sensação da faca perfurando o osso. Só que agora era o seu osso, e não havia nada de prazeroso naquilo. O médico trabalhou como pôde, mas não havia mais sedativos ou analgésicos. Ele teve pena da pobre mulher quando pediu para um soldado puxar a faca. Rapidamente, enrolou gaze ao redor do ferimento, pressionando bem. Era tudo o que podia ser feito por enquanto, eles não estavam tão preparados como quando faziam um ataque previamente planejado. Com os berros da filha do chefe estimulando os que estavam por perto a fazer alguma coisa, um soldado empurrou o médico para dentro do carro, fechou a porta e tomou o acento do motorista. Iria leva-los até a mansão, lá outros médicos poderiam ajudar. Mas era com grande pesar que o soldado percebia aos poucos que, não importa qual fosse o resultado da batalha, não seria aquela mulher corajosa e inspiradora quem daria ordens cruéis que ele tão apaixonadamente obedeceria.

            O soldado agora tinha a postura de um comandante. Tendo sido oficialmente promovido para um cargo não oficial, Pedro não era mais o mesmo homem. Andando de um lado para o outro, a expressão dura como se estivesse fazendo força, fazia seu discurso improvisado para aquele bando de pessoas que não entendiam nada do que estava acontecendo. Eles não eram soldados, eram apenas trombadinhas com armas na mão. Pedro não se importou. Uma realidade diferente se deitava sobre seus olhos sonhadores e, se ele tivesse bastante força de vontade, a realidade se curvaria em seu favor, tornando-se aquilo que ele desejava.
– Então é isso. Nós vamos agarrar essa oportunidade, e derrubar de uma vez por todas aquela família de merda que ousa questionar a nossa autoridade – finalizou, dando ênfase a palavra “nossa”.
            Uma mulher que deveria ter entre trinta e quarenta anos, mas que se vestia como se tivesse dezesseis, coberta de tatuagens e mascando um chiclete, levantou o braço. Era a imagem deturbada de uma aluna do ensino médio. Pedro, que se retirava triunfante, parou para escutar o que aquela mulher tinha a dizer.
– O que foi, soldado? –
            A mulher fez uma careta. Mascou seu chiclete por mais alguns segundos, fez uma bolha e só depois de estourá-la decidiu falar.
– Soldado porra nenhuma, meu nome é Taiane, eu tenho dois filhos em casa e quero saber que é você vai fazer se essa merda toda for pro saco –
            Pedro ficou por alguns instantes sem saber o que dizer. Conseguiu, por fim, manter a pose de comandante, embora estivesse suando muito.
– Façam tudo direito, e nada vai dar errado. Nenhuma “merda” vai “pro saco”, isso eu posso garantir –
E então se retirou, preparando-se para o grande ataque que o eternizaria como o mais novo comandante de confiança da verdadeira e única família de Tenemissa.