segunda-feira, 11 de junho de 2012

34 - A Garota Que Segura o Destino

            Nenhum dos três ousou se mexer por alguns segundos. O choque da reviravolta inesperada foi grande demais para Guilherme, que via desesperado o vulto de Lia desmaiada no chão, para Luiz, que não esperava uma atitude tão firme da frágil Élen, e ela mesma parecia não acreditar no que havia acabado de fazer. A arma tremia levemente em suas mãos, mas ainda assim não se desviava do alvo. Luiz avançou sorrindo para o seu indefeso ex-amigo, tomando o cuidado de parar não muito perto. Apesar de tudo, não confiava na pontaria de sua fiel companheira.
– Olha só quem apareceu pra festa! – Falou Luiz, a voz animada. Seu tom parecia embriagado, como se algo tomasse conta dele. Sua pele se rasgava em arranhões e ferimentos por ter saltado do carro em alta velocidade. Ainda assim, Luiz teve sorte de cair nos sacos de lixo daquele beco escuro.
– O que você ta fazendo, cara? Por que isso? E por que você tava com a Lia? –
– Ah, Lia. É claro que você só pensa nela. Você é o dono dela, não é? Você é o dono de tudo o que você quiser. Como um garoto estúpido conseguiu chegar tão longe? –
– Porra Luiz! Do que é que você ta falando? –
– Você acha que é melhor que qualquer um desses vermes que rastejam pelos becos? Você foi bom o bastante pra ser o homem de confiança do Manentti, mas fui eu quem te colocou lá dentro. Você foi bom o bastante pra tentar fugir da ilha, mas acabou ferrando com tudo, não foi? Não foi só o seu plano que voou pelos ares quando essa puta matou o Jean, foi o meu também! –
            Luiz agora gritava seu desabafo desesperado. Guilherme não podia fazer nada. Seus olhos apenas desviavam de Luiz para a arma nas mãos de Élen, e então para o vulto de Lia no chão.
– Eu iria ser o dono dessa porra toda aqui, caralho! Você se acha esperto por ter se juntado aos rebeldes? Esqueceu que foi eu quem te mandei pra lá? Aquela bichinha do Ícaro não passa de um pau mandado do Giovanni Fascin. Ah, mas claro, você não sabe quem é esse, não é? Você simplesmente não sabe de nada. Eu não trabalho pra Manentti nem pra Menegaro. Tem uma terceira família, que só tava usando essa ralé toda pra derrubar a ilha inteira. Mas você tinha que estragar tudo, não é mesmo? Você tinha que fazer tudo errado, mais uma vez. O idiota do Giovanni confiava em mim mais do que na própria mãe, e não ia demorar muito, ele estaria de joelhos na minha frente, implorando. A ilha inteira estaria implorando, não fosse o seu joguinho ridículo de fuga romântica –
            Guilherme estava perplexo, tentando entender o que acabara de ouvir. Não sabia dizer se tudo fazia mais sentido agora, ou se só havia piorado. Tenemissa sempre foi uma ilha pequena demais para grandes tramas mafiosas, bastava dois lados que se odiassem para manter o equilíbrio sombrio e mortal. Poucos passos além, Élen prestava atenção em tudo o que Luiz dizia. Ele parecia outra pessoa agora. Sua fisionomia distorcida de raiva lhe arrancava a beleza própria que ela tanto admirava. Era o tipo de homem que passava uma imagem tranquila de que tudo estava sob controle, porque ele é quem tinha o controle. A imagem que por detrás daqueles óculos quadrados um mundo de caminhos previamente calculados aguardava para leva-la a um destino glorioso. Toda essa ira não combinava com ele, e mais ainda não combinava com aqueles óculos.
– Você sempre se achou um herói, não é mesmo? Salvou seu pai. Salvou a Lia. Salvou os rebeldes. Mas seu pai só ficou vivo o bastante pra que você fizesse parte da família, e então mataram ele. A Lia? Fui eu quem salvou ela agora. E fui eu quem controlei, indiretamente, os rebeldes que você NÃO salvou. Ao contrário, você abandonou eles pra morrer. Você, Guilherme, se acha muito melhor que o resto desse bando todo, não é? Mas o seu cérebro é pequeno, igual ao de qualquer soldado de bosta. Você não vê as possibilidades, você só aperta o gatilho, e espera que tudo dê certo. Eu cansei de você. Eu cansei dessa ilha de retardados. Eu vou sair daqui, e quer saber de uma coisa? Eu vou levar Lia comigo! Não é demais isso? Você chegou tão longe pra ser passado pra trás pelo seu melhor amigo. E agora eu vou roubar seu plano, seus sonhos e a sua garota –
            Luiz deu um passo a frente com um sorriso lunático no rosto. Percebeu tarde demais seu erro, ao ouvir um soluço de choro que ele tão bem conhecia. Élen agora tremia tanto que mal conseguia fazer pontaria, seu rosto molhando em lágrimas. Luiz, como sempre, se esquecera completamente que ela estava presente. Matinha na mente a ideia de que estava seguro por ter um aliado segurando uma arma, e ignorou quem era este aliado. Não era de seu feitio ignorar, então o que estava acontecendo com ele? Guilherme também percebeu o erro, e percebeu que a garota não mais tinha a pontaria segura. Sem hesitar, pulou para cima de Luiz, rolando pelo chão com ele. Élen gritou, sem saber como poderia atirar, ou até mesmo em quem. No duro asfalto, os dois homens trocavam socos violentos. Luiz já estava bastante machucado por ter pulado do carro em alta velocidade, e Guilherme estava extremamente cansado pela noite de tiroteio. Ambos tinham a mente confusa, e já se esqueciam o porque de estarem brigando.
            Mas eles não pararam. Rolando algumas vezes, Luiz conseguiu ficar por cima de Guilherme, paralisando-o. Com uma frieza que se assemelhava a medo em sua expressão, apertava com as duas mãos o pescoço do outro, que tentava desesperadamente se libertar, ou retribuir a sufocação, mas suas mãos escorregavam no vazio e apenas acariciavam o rosto de Luiz. Até que seus dedos sentiram uma sensação diferente do suor quente e da pele machucada: a fria sensação do toque do metal. Guilherme agarrou com as forças que lhe sobravam o aro dos óculos quadrado de Luiz, e puxou com força para baixo. O barulho de vidro quebrando foi o bastante para distrair o homem que agora estava quase cego. Em sua mente, inevitavelmente ele repassou todo o seu plano, e como este se tornava inútil agora. Ele tinha um plano B, um C, e muitos outros, suficientes para quase preencher o alfabeto. Mas nenhum deles daria certo sem os óculos. Guilherme, que ainda sufocava, ergueu sua mão e enfiou dois dedos nos olhos de Luiz, que pulou para trás, gritando. Os dois homens se afastaram aos poucos, tentando se recuperar. Élen observava aos prantos, esquecendo-se completamente da arma em suas mãos. Guilherme a viu, e foi tomado por uma ideia. Virando as costas para o seu inimigo que agora tentava ficar de pé, o ex-rebelde rumou decisivo na direção da adolescente chorona. Esta então se lembrou de sua arma, e viu claramente o que iria acontecer: aquele rapaz tentaria tomar a pistola de suas mãos para matar o homem que ela tanto amou. Mas ainda amava? Sim, como não? O pobre coitado estava passando apenas por uma crise, era obrigação dela ajudá-lo em um momento difícil como aquele. Para isso, ela teria de matar essa pessoa que ela nunca vira na vida, e depois mataria também a garota desmaiada, para garantir que Luiz não a levaria consigo para fora da ilha. Apenas Élen poderia fugir junto dele, e os dois teriam uma ótima vida no verdadeiro Brasil que ela sempre quis conhecer.
            Foi raciocinando tudo isso que a garota ergueu sua arma e disparou. O barulho do tiro se juntou no céu com o barulho de todos os outros tiros que ecoavam perto dali. Acompanhado do barulho, ouviu-se em seguida um grito de dor, daquele que morreria tão em breve, sem acreditar no que havia lhe acontecido. A pobre Élen se arrependeria para o resto da vida por disparar a arma, pois seu alvo, Guilherme, já sabia que ela faria isso. Era esse o seu plano, ao se posicionar entre ela e Luiz, e pular para o lado no momento em que a garota fechou os olhos. Élen atirou no homem que amava, e ele nem conseguia reconhecer o que estava acontecendo ao seu redor. Ela largou a arma e foi correndo amparar Luiz, que tentava estancar o sangue que escorria do buraco em seu peito. Guilherme olhou para a cena com tristeza. Era tudo confuso demais para que ele conseguisse entender por que aquilo havia acontecido. Virou-se então para Lia, e com carinho levantou a sua cabeça, tentando acordá-la. O pranto de luto deu a todos os moradores do prédio onde o carro batera o sinal de que a luta terminara, pois todos observaram perplexos o que havia acabado de acontecer. Guilherme levou Lia até eles, e Magali a segurou no colo, passando mais uma vez um pano umedecido em sua face.
            Em meio ao caos que reinava naquela rua, um brilho em particular chamou a atenção de Guilherme. Era o vidro quebrado dos óculos quadrados, abandonados no meio do asfalto. Aquele brilho sempre tinha lhe despertado a curiosidade, quase como se fosse feito de um material especial. Caminhando lentamente em direção ao objeto, e ignorando a pobre garota que delirava de tristeza, Guilherme pegou os óculos do chão. Um pouco além pegou também a pistola e, com o cano desta, terminou de partir o que restava do vidro preso aos aros de metal. Eram ótimos óculos, agora sem lente nenhuma. Largando novamente a arma no asfalto, como se esta não fosse de mais nenhuma utilidade, Guilherme colocou, muito lentamente, os óculos no rosto. Parecia estar concluindo um ritual sagrado, embora nem ao menos soubesse o que estava fazendo. Quando se voltou para a multidão, Lia já estava acordada, e Magali a tinha contado o que acabar de acontecer. Vendo o novo homem dos óculos quadrados, a pobre garota teve um susto. Era como se Luiz tivesse se reencarnado no corpo de Guilherme. Sua expressão facial mudara completamente. Não mais um rapaz parado em pé no meio da rua, mas verdadeiramente um homem. Um homem muito mais velho do que sua idade, e ele agora estava pronto para tomar a sua verdadeira forma e assumir as consequências disto.

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