segunda-feira, 4 de junho de 2012

33 - Que Se Faça Tempestade

            O homem experiente sentia-se como que uma criança em frente ao seu rigoroso pai. Giuseppe Manentti era um homem grande, tanto em seu físico como em poder, e qualquer um poderia se sentir pequeno quando era chamado para a sua sala. Mas Pedro estava preparado para isso, se preparou por muito tempo, e a hora havia chegado.
– Sabe, eu realmente não consigo acreditar que o Matheus morreu. Ele era o meu melhor homem, o meu braço direito. É um cargo de confiança esse. E você, Pedro, esteve tanto tempo fora, espionando o meu rival, que eu cheguei a me perguntar se não teria mudado definitivamente de lado, e o espionado era eu –
            Pedro se colocou um passo à frente, as mãos atrás das costas, a cabeça levemente erguida para poder olhar para o seu chefe. Era a figura perfeita de um soldado prestando contas ao seu general.
– Não senhor, não mesmo. O Menegaro é um cara duro, difícil de enganar, precisei ficar lá mais tempo do que o planejado –
            Giuseppe, que estava de pé ao lado de sua mesa, mexendo em alguns papéis enquanto conversava com seu espião, sentou-se para ouvir melhor a história, e fez um sinal para que Pedro senta-se também.
– Bom, isso parece interessante. Como você conseguiu vir até aqui, afinal? E, principalmente, por que? Eu mandei você ficar lá e só me avisar por alguém o que estava acontecendo. Você não fez nem uma coisa, nem outra. Você não me manda avisos há semanas, e agora aparece aqui, do nada –
– É que... Bem, não consegui mais encontrar o seu informante. Então eu precisei vir, porque o que aconteceu agora é urgente, e eu achei, digo, eu sei que é mais importante te dar essa notícia do que continuar na casa –
– Que notícia? –
– Existe uma terceira família, os Fascin. Os Menegaro tavam caçando eles há tempos, e agora descobriram o esconderijo dos caras. Não sei bem quem é o chefe da família, mas tava usando a própria população pra montar um exército rebelde, sem eles saberem que só tavam sendo usados –
– E onde fica esse esconderijo? –
– Fica no lado contrário do porto, numa parte bem abandonada da ilha. Nem você nem o Menegaro se importam muito com o que acontece lá. Mas agora a coisa ficou preta. Parece que a filha do Hércules achou o esconderijo, e eles tão mandando bala, então uma boa parte dos Menegaro ta lá lutando, e tem outra coisa, o senhor lembra do Guilherme? –
– O traíra filho da puta? Lembro bem –
– Quem matou o Jean não foi bem ele, foi a namorada dele, uma tal de Lia. E o filho do Hércules capturou ela –
– E daí? Não é mais problema meu. Os Menegaro não foram atrás de mim pra acertar contas, o moleque morreu na explosão do próprio apartamento, pelo que eu sei –
– Poisé, poisé, só que não é bem assim, ele ainda ta vivo, e a tal da Lia escapou da mansão dos Menegaro –
– Ela o que? –
– Sim! E o Hércules mandou uma frota inteira atrás dela, o filho junto e tudo. Eu aproveitei então pra vir pra cá, e, chegando aqui, ligaram pra mim. Parece que os rebeldes tão atacando a mansão. Não vão conseguir, mas já serve de distração, Giuseppe –
– Você ta me dizendo que a mansão ta praticamente desprotegida e ainda por cima ta sob ataque? –
– Isso mesmo –
– Chama todos os homens disponíveis. Nós vamos invadir aquela bagaça e você, Pedro, vai ser meu novo líder –
            Pedro saiu rápido, o peito estufado de orgulho. Tinha batalhado desde cedo para chegar longe, e finalmente conseguiu chegar aonde queria: num cargo de confiança. A questão não era apenas o dinheiro. Ele se sentia agora no topo daquele mundo que sempre vira por baixo.

            Três tiros. Três malditas balas perfuraram o corpo do rebelde, e ele ainda lutava para se arrastar até sua arma, que caíra da sua mão quando lhe acertaram o ombro direito, depois de já terem acertado sua perna direita e uma de suas costelas. Mas ele era um rebelde, afinal de contas, e precisava continuar lutando. Os Menegaro já tinham tomado o lado de fora, e estavam agora invadindo o interior do esconderijo, o lugar que por tantos anos ele achou ser seguro.
            Cinco metros. Vamos, você consegue. Quatro metros. Não pode ser tão difícil. Três metros. Não tente lutar contra a dor, aceite ela. Dois metros. Está tão perto agora. Um metro. Você vai morrer como um herói. O metal não estava frio quando o rebelde lhe segurou com força. Continuava quente, prova de que a batalha ainda não havia terminado. Como estava se arrastando de barriga para baixo, precisou fazer um esforço para se virar e ver o que havia por perto. Ao fazer isso, foi surpreendido por um chute em sua mão, e a arma novamente voava pelos ares. “Desisto” pensou ele, “não vou me arrastar tudo aquilo de novo”.
– Pra onde o resto foi? –
            O rebelde deu uma boa olhada em quem havia lhe agredido. Era uma mulher alta, de olhar forte, e cabelos escuros e lisos. Sua beleza o paralisou por um instante, mas o brilho frio naquele olhar o fez despertar para a realidade: aquela mulher era pior do que qualquer carrasco, Menegaro ou Manentti.
– Eu... Eu não sei do que... –
            Aline enfiou a ponta do salto dentro do buraco de bala no ombro do homem caído, e este gritou desesperado.
– Eu sei que vocês têm uma rota de fuga. Meus homens acharam o túnel. Eu só quero saber por quais túneis os fugitivos foram –
            O rebelde se debateu, gritou, mas não disse uma única palavra. Aline continuou olhando para ele, o salto enfiado pela metade dentro do corpo daquele homem. Com uma certa delicadeza, como se estivesse curando aquele machucado, ela virou o pé, girando o salto dentro do buraco de bala e duplicando a dor que este estava causando.
– Nós vamos encontrar eles de um jeito ou de outro, a questão é só o quanto você vai sofrer antes que me diga –
            O soldado, que em nenhum momento usou suas mãos para tentar afastar o pé da torturadora, mostrou de forma rápida e precisa o porquê. Enquanto Aline mantinha sua atenção no rosto sofrido, as mãos dele lutavam para alcançar a faca de combate que tinha presa na cintura. Ao pegá-la, não perdeu tempo e a cravou na perna da mulher, atravessando-a. Ela gritou e caiu para trás, tirando o salto do ombro de seu agredido e agressor. Os soldados que estavam por perto ergueram suas armas simultaneamente e metralharam o que sobrou do homem que levara antes apenas três tiros. Ao constatar que ele estava definitivamente morto, os soldados correram até a filha do grande chefe e a carregaram até o carro mais próximo, chamando o médico de plantão que tinham trazido junto, para cuidar dos feridos da batalha. Aline gemia alto, tentando não chorar, mas a visão da lâmina atravessada em sua carne era desesperadora. Deram-lhe algo para que mordesse quando a faca fosse arrancada. Ela sabia muito bem o que ia acontecer. Já havia torturado muitas pessoas de formas parecidas, e era um de seus grandes prazeres sentir na mão a sensação da faca perfurando o osso. Só que agora era o seu osso, e não havia nada de prazeroso naquilo. O médico trabalhou como pôde, mas não havia mais sedativos ou analgésicos. Ele teve pena da pobre mulher quando pediu para um soldado puxar a faca. Rapidamente, enrolou gaze ao redor do ferimento, pressionando bem. Era tudo o que podia ser feito por enquanto, eles não estavam tão preparados como quando faziam um ataque previamente planejado. Com os berros da filha do chefe estimulando os que estavam por perto a fazer alguma coisa, um soldado empurrou o médico para dentro do carro, fechou a porta e tomou o acento do motorista. Iria leva-los até a mansão, lá outros médicos poderiam ajudar. Mas era com grande pesar que o soldado percebia aos poucos que, não importa qual fosse o resultado da batalha, não seria aquela mulher corajosa e inspiradora quem daria ordens cruéis que ele tão apaixonadamente obedeceria.

            O soldado agora tinha a postura de um comandante. Tendo sido oficialmente promovido para um cargo não oficial, Pedro não era mais o mesmo homem. Andando de um lado para o outro, a expressão dura como se estivesse fazendo força, fazia seu discurso improvisado para aquele bando de pessoas que não entendiam nada do que estava acontecendo. Eles não eram soldados, eram apenas trombadinhas com armas na mão. Pedro não se importou. Uma realidade diferente se deitava sobre seus olhos sonhadores e, se ele tivesse bastante força de vontade, a realidade se curvaria em seu favor, tornando-se aquilo que ele desejava.
– Então é isso. Nós vamos agarrar essa oportunidade, e derrubar de uma vez por todas aquela família de merda que ousa questionar a nossa autoridade – finalizou, dando ênfase a palavra “nossa”.
            Uma mulher que deveria ter entre trinta e quarenta anos, mas que se vestia como se tivesse dezesseis, coberta de tatuagens e mascando um chiclete, levantou o braço. Era a imagem deturbada de uma aluna do ensino médio. Pedro, que se retirava triunfante, parou para escutar o que aquela mulher tinha a dizer.
– O que foi, soldado? –
            A mulher fez uma careta. Mascou seu chiclete por mais alguns segundos, fez uma bolha e só depois de estourá-la decidiu falar.
– Soldado porra nenhuma, meu nome é Taiane, eu tenho dois filhos em casa e quero saber que é você vai fazer se essa merda toda for pro saco –
            Pedro ficou por alguns instantes sem saber o que dizer. Conseguiu, por fim, manter a pose de comandante, embora estivesse suando muito.
– Façam tudo direito, e nada vai dar errado. Nenhuma “merda” vai “pro saco”, isso eu posso garantir –
E então se retirou, preparando-se para o grande ataque que o eternizaria como o mais novo comandante de confiança da verdadeira e única família de Tenemissa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário