Dois corpos estendiam-se sobre a cama do hotel, dividindo um cigarro. Ambos suados, cansados e completamente satisfeitos. A fumaça que subia vinha para ambos sempre precedida de um sorriso, movimento involuntário causado pela lembrança do último ato no qual dois estavam em si. Carlos e Aline mantiveram esse ritual em silêncio por alguns minutos. Ele não se preocupava mais com nada, estava exausto e feliz. Ela fingia a felicidade do outro com estrema facilidade, e só aguardava o momento certo para quebrar o rito de baforadas. Espreguiçou-se, completamente convincente, e chutou de leve com o pé o lençol enrolado e sujo.
– A gente não devia estar planejando pra onde ir? – perguntou Aline, após passar o cigarro para o seu parceiro.
– A gente já sabe pra onde ir. Vamos invadir o castelo e raptar a princesa – respondeu Carlos, sem pressa, após soprar um jato de fumaça. O sono começava a invadi-lo e estava fora de seus planos se levantar tão cedo.
– Mas não tem como saber se ela ainda está lá. Aliás, nem sabemos se ela chegou a ficar na casa da mãe – insistiu a bela mulher, usando propositalmente de sua voz mais sensual, carregada de falsa preguiça.
Carlos entregou o cigarro à Aline e virou-se para ela, deitando de lado. Ainda pensava no milagre que foi terem conseguido fazer o que fizeram depois de tantos ossos quebrados. Em sua mente sua boa e velha intuição lhe dizia que não era só isso, havia algo mais. Aquela mulher era para ele impossível de ser entendida, mas uma coisa era certa: ela não se apaixonara por ele. Tudo não podia passar de um truque. Mas um truque para que? Aline não ganha nada o ajudando, muito pelo contrário, ela só piora a sua situação com o pai, o segundo homem mais poderoso de Tenemissa, ou primeiro, talvez. Por onde quer que Carlos olhasse, não encontrava resposta. Decidiu não pensar mais nisso por enquanto. Iria apenas aproveitar que agora sua parceira o estava dando algo em troca. Literalmente.
– Se ela foi ou não, se está ou não, nada disso vai mudar se a gente se apressar agora. Se ela já saiu, algumas horas a mais ou a menos não vão fazer diferença. Se ela ainda está lá, não vai ser de madrugada que vai fugir. Esse é o horário nobre dos puteiros. E se ela nunca foi lá... Nem preciso dizer, né? – afirmou Carlos, categórico.
– É, mas agora é madrugada, o “horário nobre”. Se você dormir agora, a gente vai ter que esperar até amanhã de madrugada pra ir lá, ou já viu um puteiro abri de tarde? – retrucou Aline, perdendo a paciência de usar a voz anterior.
– Já. É até fácil achar um lugar que abre 24 horas. O Castelo da Rainha parece ser grande, deve ser assim também – respondeu Carlos, virando para o lado oposto e puxando o lençol dos pés de Aline por cima do corpo.
– Você é ridículo! Acha que é o único procurando por ela? Meu irmão não é tão inteligente como eu, mas ele vai descobrir uma hora ou outra o que eu te contei –
Carlos ignorou, fechando os olhos e permitindo que o sono chegasse. Não durou muito. Não durou quase nada. Sentiu que Aline levantava, e a tentação de abrir os olhos apareceu. Percebeu que ela se vestia, e a tentação de abrir os olhos cresceu. Ouvi-a pegar as chaves de seu carro, e a tentação de abrir os olhos venceu. Sentou-se a tempo de ver Aline pegar sua bolsa e desaparecer porta afora. Gritou chamando-a, mas ela ignorou. Praguejando alto enquanto se levantava e tentava vestir sua roupa da forma mais rápida possível, Carlos calçou os sapatos errado duas vezes, xingando mais alto a cada erro. Quase vestiu a calça ao contrário. Xingou mais. Saiu correndo pelos corredores enquanto tentava vestir a camisa sem desacelerar o passo. Estava com a cabeça encoberta e dois Andares ainda para correr quando reconheceu o barulho do motor de seu carro. Pessoas apareciam nos corredores tentando ver que confusão era aquela e quem estava fazendo todo aquele barulho, gritando todos aqueles palavrões. Elas abriam a porta prontas para reclamar, quando viam que a origem dos berros era um negro alto e musculoso, então não diziam nada, apenas viam quietas ele passar correndo, se perguntando qual o motivo daquilo tudo. Três pessoas tentaram fazê-lo parar, apenas para serem empurradas com força. Uma delas, um velho magro e careca, caiu sobre um vaso decorativo e quebrou o braço. Carlos não se importou. Ele não olhou para trás.
Dentro a viatura, Aline sorria enquanto tirava da ré para engatar a primeira marcha. Demorou-se de propósito, sabendo que o policial ia alcançá-la. Se quisesse mesmo ir sozinha, ele nem sequer teria acordado. Ele sabia disso. Ela sabia que ele sabia. Quando Carlos apareceu na sua frente, a camisa deixando o colete aparecer, ela pisou fundo antes de frear, apenas para rir do pulo que ele precisou dar pra trás para não ser atropelado. Quando ele seguiu para o lado esquerdo do carro, ela ameaçou sair, forçando-o a entender seu recado. Xingando ainda mais alto, ele rumou para o lado direito: o banco do carona. Antes de deixá-lo entrar, ela travou as portas, o que o fez puxar, várias vezes e em vão, a maçaneta do veículo. Quando ele finalmente se sentou, Aline gargalhava alto. Carlos esperou ela parar, uma veia em sua testa latejando significativamente.
– Já terminou de se divertir? – perguntou ele, a raiva transbordando de tal maneira em sua voz, que qualquer pessoa no lugar de Aline já teria saído correndo.
– Amor! Você acordou só pra me acompanhar? – Zombou ela, ainda rindo tão alto que o policial já não suportava de dor de cabeça.
– Escuta aqui vadia, se fizer isso de novo eu não vou pensar duas vezes. Eu vou descarregar essa arma nesse seu sorrisinho irritante – respondeu Carlos, com a pistola na mão, engatilhada.
– Lembrou de pegar a sua carteira amor? – ignorou Aline, falando no maior tom de sarcasmo que conseguia fazer.
– MAS QUE BOSTA! – gritou o homem mais furioso da ilha, antes de sair, batendo forte a porta da viatura, e ir pisando sorte de volta para o prédio simples, mas sem se importar de correr.
Ainda levaria vinte minutos antes que eles partissem. Mais seis pessoas seriam empurradas pelos corredores, incluindo o filho do velho, que tentou vingar a violência sofrida pelo pai. Seria preciso ameaçar o dono do lugar para deixa-lo sair sem pagar pelos estragos. No fim, Carlos só conseguiu sair de lá quando deu um tiro para cima, o que fez todos saírem correndo, desesperados, enquanto o policial, que ainda tinha vontade de atirar de verdade em alguém, finalmente pode se sentar tranquilo no banco do carona, deixando Aline dirigir.
– A gente não devia estar planejando pra onde ir? – perguntou Aline, após passar o cigarro para o seu parceiro.
– A gente já sabe pra onde ir. Vamos invadir o castelo e raptar a princesa – respondeu Carlos, sem pressa, após soprar um jato de fumaça. O sono começava a invadi-lo e estava fora de seus planos se levantar tão cedo.
– Mas não tem como saber se ela ainda está lá. Aliás, nem sabemos se ela chegou a ficar na casa da mãe – insistiu a bela mulher, usando propositalmente de sua voz mais sensual, carregada de falsa preguiça.
Carlos entregou o cigarro à Aline e virou-se para ela, deitando de lado. Ainda pensava no milagre que foi terem conseguido fazer o que fizeram depois de tantos ossos quebrados. Em sua mente sua boa e velha intuição lhe dizia que não era só isso, havia algo mais. Aquela mulher era para ele impossível de ser entendida, mas uma coisa era certa: ela não se apaixonara por ele. Tudo não podia passar de um truque. Mas um truque para que? Aline não ganha nada o ajudando, muito pelo contrário, ela só piora a sua situação com o pai, o segundo homem mais poderoso de Tenemissa, ou primeiro, talvez. Por onde quer que Carlos olhasse, não encontrava resposta. Decidiu não pensar mais nisso por enquanto. Iria apenas aproveitar que agora sua parceira o estava dando algo em troca. Literalmente.
– Se ela foi ou não, se está ou não, nada disso vai mudar se a gente se apressar agora. Se ela já saiu, algumas horas a mais ou a menos não vão fazer diferença. Se ela ainda está lá, não vai ser de madrugada que vai fugir. Esse é o horário nobre dos puteiros. E se ela nunca foi lá... Nem preciso dizer, né? – afirmou Carlos, categórico.
– É, mas agora é madrugada, o “horário nobre”. Se você dormir agora, a gente vai ter que esperar até amanhã de madrugada pra ir lá, ou já viu um puteiro abri de tarde? – retrucou Aline, perdendo a paciência de usar a voz anterior.
– Já. É até fácil achar um lugar que abre 24 horas. O Castelo da Rainha parece ser grande, deve ser assim também – respondeu Carlos, virando para o lado oposto e puxando o lençol dos pés de Aline por cima do corpo.
– Você é ridículo! Acha que é o único procurando por ela? Meu irmão não é tão inteligente como eu, mas ele vai descobrir uma hora ou outra o que eu te contei –
Carlos ignorou, fechando os olhos e permitindo que o sono chegasse. Não durou muito. Não durou quase nada. Sentiu que Aline levantava, e a tentação de abrir os olhos apareceu. Percebeu que ela se vestia, e a tentação de abrir os olhos cresceu. Ouvi-a pegar as chaves de seu carro, e a tentação de abrir os olhos venceu. Sentou-se a tempo de ver Aline pegar sua bolsa e desaparecer porta afora. Gritou chamando-a, mas ela ignorou. Praguejando alto enquanto se levantava e tentava vestir sua roupa da forma mais rápida possível, Carlos calçou os sapatos errado duas vezes, xingando mais alto a cada erro. Quase vestiu a calça ao contrário. Xingou mais. Saiu correndo pelos corredores enquanto tentava vestir a camisa sem desacelerar o passo. Estava com a cabeça encoberta e dois Andares ainda para correr quando reconheceu o barulho do motor de seu carro. Pessoas apareciam nos corredores tentando ver que confusão era aquela e quem estava fazendo todo aquele barulho, gritando todos aqueles palavrões. Elas abriam a porta prontas para reclamar, quando viam que a origem dos berros era um negro alto e musculoso, então não diziam nada, apenas viam quietas ele passar correndo, se perguntando qual o motivo daquilo tudo. Três pessoas tentaram fazê-lo parar, apenas para serem empurradas com força. Uma delas, um velho magro e careca, caiu sobre um vaso decorativo e quebrou o braço. Carlos não se importou. Ele não olhou para trás.
Dentro a viatura, Aline sorria enquanto tirava da ré para engatar a primeira marcha. Demorou-se de propósito, sabendo que o policial ia alcançá-la. Se quisesse mesmo ir sozinha, ele nem sequer teria acordado. Ele sabia disso. Ela sabia que ele sabia. Quando Carlos apareceu na sua frente, a camisa deixando o colete aparecer, ela pisou fundo antes de frear, apenas para rir do pulo que ele precisou dar pra trás para não ser atropelado. Quando ele seguiu para o lado esquerdo do carro, ela ameaçou sair, forçando-o a entender seu recado. Xingando ainda mais alto, ele rumou para o lado direito: o banco do carona. Antes de deixá-lo entrar, ela travou as portas, o que o fez puxar, várias vezes e em vão, a maçaneta do veículo. Quando ele finalmente se sentou, Aline gargalhava alto. Carlos esperou ela parar, uma veia em sua testa latejando significativamente.
– Já terminou de se divertir? – perguntou ele, a raiva transbordando de tal maneira em sua voz, que qualquer pessoa no lugar de Aline já teria saído correndo.
– Amor! Você acordou só pra me acompanhar? – Zombou ela, ainda rindo tão alto que o policial já não suportava de dor de cabeça.
– Escuta aqui vadia, se fizer isso de novo eu não vou pensar duas vezes. Eu vou descarregar essa arma nesse seu sorrisinho irritante – respondeu Carlos, com a pistola na mão, engatilhada.
– Lembrou de pegar a sua carteira amor? – ignorou Aline, falando no maior tom de sarcasmo que conseguia fazer.
– MAS QUE BOSTA! – gritou o homem mais furioso da ilha, antes de sair, batendo forte a porta da viatura, e ir pisando sorte de volta para o prédio simples, mas sem se importar de correr.
Ainda levaria vinte minutos antes que eles partissem. Mais seis pessoas seriam empurradas pelos corredores, incluindo o filho do velho, que tentou vingar a violência sofrida pelo pai. Seria preciso ameaçar o dono do lugar para deixa-lo sair sem pagar pelos estragos. No fim, Carlos só conseguiu sair de lá quando deu um tiro para cima, o que fez todos saírem correndo, desesperados, enquanto o policial, que ainda tinha vontade de atirar de verdade em alguém, finalmente pode se sentar tranquilo no banco do carona, deixando Aline dirigir.
Dessa vez, porém, ela não fez mais nenhuma piada.