domingo, 26 de fevereiro de 2012

20 - Que Caiam os Vizinhos

           Dois corpos estendiam-se sobre a cama do hotel, dividindo um cigarro. Ambos suados, cansados e completamente satisfeitos. A fumaça que subia vinha para ambos sempre precedida de um sorriso, movimento involuntário causado pela lembrança do último ato no qual dois estavam em si. Carlos e Aline mantiveram esse ritual em silêncio por alguns minutos. Ele não se preocupava mais com nada, estava exausto e feliz. Ela fingia a felicidade do outro com estrema facilidade, e só aguardava o momento certo para quebrar o rito de baforadas. Espreguiçou-se, completamente convincente, e chutou de leve com o pé o lençol enrolado e sujo.
– A gente não devia estar planejando pra onde ir? – perguntou Aline, após passar o cigarro para o seu parceiro.
– A gente já sabe pra onde ir. Vamos invadir o castelo e raptar a princesa – respondeu Carlos, sem pressa, após soprar um jato de fumaça. O sono começava a invadi-lo e estava fora de seus planos se levantar tão cedo.
– Mas não tem como saber se ela ainda está lá. Aliás, nem sabemos se ela chegou a ficar na casa da mãe – insistiu a bela mulher, usando propositalmente de sua voz mais sensual, carregada de falsa preguiça.
           Carlos entregou o cigarro à Aline e virou-se para ela, deitando de lado. Ainda pensava no milagre que foi terem conseguido fazer o que fizeram depois de tantos ossos quebrados. Em sua mente sua boa e velha intuição lhe dizia que não era só isso, havia algo mais. Aquela mulher era para ele impossível de ser entendida, mas uma coisa era certa: ela não se apaixonara por ele. Tudo não podia passar de um truque. Mas um truque para que? Aline não ganha nada o ajudando, muito pelo contrário, ela só piora a sua situação com o pai, o segundo homem mais poderoso de Tenemissa, ou primeiro, talvez. Por onde quer que Carlos olhasse, não encontrava resposta. Decidiu não pensar mais nisso por enquanto. Iria apenas aproveitar que agora sua parceira o estava dando algo em troca. Literalmente.
– Se ela foi ou não, se está ou não, nada disso vai mudar se a gente se apressar agora. Se ela já saiu, algumas horas a mais ou a menos não vão fazer diferença. Se ela ainda está lá, não vai ser de madrugada que vai fugir. Esse é o horário nobre dos puteiros. E se ela nunca foi lá... Nem preciso dizer, né? – afirmou Carlos, categórico.
– É, mas agora é madrugada, o “horário nobre”. Se você dormir agora, a gente vai ter que esperar até amanhã de madrugada pra ir lá, ou já viu um puteiro abri de tarde? – retrucou Aline, perdendo a paciência de usar a voz anterior.
– Já. É até fácil achar um lugar que abre 24 horas. O Castelo da Rainha parece ser grande, deve ser assim também – respondeu Carlos, virando para o lado oposto e puxando o lençol dos pés de Aline por cima do corpo.
– Você é ridículo! Acha que é o único procurando por ela? Meu irmão não é tão inteligente como eu, mas ele vai descobrir uma hora ou outra o que eu te contei –
           Carlos ignorou, fechando os olhos e permitindo que o sono chegasse. Não durou muito. Não durou quase nada. Sentiu que Aline levantava, e a tentação de abrir os olhos apareceu. Percebeu que ela se vestia, e a tentação de abrir os olhos cresceu. Ouvi-a pegar as chaves de seu carro, e a tentação de abrir os olhos venceu. Sentou-se a tempo de ver Aline pegar sua bolsa e desaparecer porta afora. Gritou chamando-a, mas ela ignorou. Praguejando alto enquanto se levantava e tentava vestir sua roupa da forma mais rápida possível, Carlos calçou os sapatos errado duas vezes, xingando mais alto a cada erro. Quase vestiu a calça ao contrário. Xingou mais. Saiu correndo pelos corredores enquanto tentava vestir a camisa sem desacelerar o passo. Estava com a cabeça encoberta e dois Andares ainda para correr quando reconheceu o barulho do motor de seu carro. Pessoas apareciam nos corredores tentando ver que confusão era aquela e quem estava fazendo todo aquele barulho, gritando todos aqueles palavrões. Elas abriam a porta prontas para reclamar, quando viam que a origem dos berros era um negro alto e musculoso, então não diziam nada, apenas viam quietas ele passar correndo, se perguntando qual o motivo daquilo tudo. Três pessoas tentaram fazê-lo parar, apenas para serem empurradas com força. Uma delas, um velho magro e careca, caiu sobre um vaso decorativo e quebrou o braço. Carlos não se importou. Ele não olhou para trás.
           Dentro a viatura, Aline sorria enquanto tirava da ré para engatar a primeira marcha. Demorou-se de propósito, sabendo que o policial ia alcançá-la. Se quisesse mesmo ir sozinha, ele nem sequer teria acordado. Ele sabia disso. Ela sabia que ele sabia. Quando Carlos apareceu na sua frente, a camisa deixando o colete aparecer, ela pisou fundo antes de frear, apenas para rir do pulo que ele precisou dar pra trás para não ser atropelado. Quando ele seguiu para o lado esquerdo do carro, ela ameaçou sair, forçando-o a entender seu recado. Xingando ainda mais alto, ele rumou para o lado direito: o banco do carona. Antes de deixá-lo entrar, ela travou as portas, o que o fez puxar, várias vezes e em vão, a maçaneta do veículo. Quando ele finalmente se sentou, Aline gargalhava alto. Carlos esperou ela parar, uma veia em sua testa latejando significativamente.
– Já terminou de se divertir? – perguntou ele, a raiva transbordando de tal maneira em sua voz, que qualquer pessoa no lugar de Aline já teria saído correndo.
– Amor! Você acordou só pra me acompanhar? – Zombou ela, ainda rindo tão alto que o policial já não suportava de dor de cabeça.
– Escuta aqui vadia, se fizer isso de novo eu não vou pensar duas vezes. Eu vou descarregar essa arma nesse seu sorrisinho irritante – respondeu Carlos, com a pistola na mão, engatilhada.
– Lembrou de pegar a sua carteira amor? – ignorou Aline, falando no maior tom de sarcasmo que conseguia fazer.
– MAS QUE BOSTA! – gritou o homem mais furioso da ilha, antes de sair, batendo forte a porta da viatura, e ir pisando sorte de volta para o prédio simples, mas sem se importar de correr.
           Ainda levaria vinte minutos antes que eles partissem. Mais seis pessoas seriam empurradas pelos corredores, incluindo o filho do velho, que tentou vingar a violência sofrida pelo pai. Seria preciso ameaçar o dono do lugar para deixa-lo sair sem pagar pelos estragos. No fim, Carlos só conseguiu sair de lá quando deu um tiro para cima, o que fez todos saírem correndo, desesperados, enquanto o policial, que ainda tinha vontade de atirar de verdade em alguém, finalmente pode se sentar tranquilo no banco do carona, deixando Aline dirigir.
            Dessa vez, porém, ela não fez mais nenhuma piada.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

19 - Mortos Vivem no Subsolo

           Formas difusas flutuavam na visão de Guilherme. Nenhum som ele ouvia, nem sequer tinha consciência plena de que algo estava acontecendo. Era apenas mais um sonho. Não foi, porém, o que continuou a pensar ao sentir a água fria escorrer do topo de sua cabeça, encharcando-lhe o rosto e descendo até as suas costas. Despertou assustado, sentindo um arrepio na coluna causado pelo frio do líquido. Logo na sua frente reconheceu Yohana, que segurava uma garrafa de água mineral pela metade. Ela não estava mais usando as roupas imundas com as quais se disfarçava de drogada, e sim um tipo de roupa preta de couro, que Guilherme só vira em filmes. Logo atrás dela um homem de longos cabelos vermelhos sorria. Guilherme o achou familiar, só não soube exatamente de onde o conhecia. Yohana se afastou para deixá-lo se aproximar do rapaz, que só agora tinha pela noção da sua situação. Estava amarrado em uma cadeira. Braços para trás, pernas juntas. Era, porém, uma cadeira simples de madeira, as cordas eram finas. Ele poderia se soltar facilmente, mas uma pequena figura parada na única porta do aposento sem janelas o olhava atentamente, suas mãos segurando firme uma escopeta.
– Então, você é o famoso Guilherme? – perguntou o homem que ainda sorria. Guilherme agora sabia quem aquele homem o lembrava: uma versão ruiva de Tchê Guevara.
– Famoso, eu? – perguntou inocentemente.
– É cara, qualquer um que mata os moradores de um prédio inteiro e passa na TV fica famoso, sabia? –
– Sabe como é, todo mundo já quis matar os vizinhos... Gente chata e barulhenta – respondeu Guilherme sorrindo.
           O Tchê de Tenemissa riu alto, Yohana sorriu e o baixinho da escopeta continuou encarando Guilherme seriamente. Ele não demonstrava ter qualquer tipo de senso de humor.
– Sabe, eu estou começando a gostar de você, cara. Você quer algo, e faz. Foda-se o resto. Se você não tivesse feito isso por uma boa causa, eu te mataria aqui e agora. Mas matar você seria um baita de um desperdício. Tem que ter coragem pra encarar nossa mulher-gato – disse o homem de cabelos compridos, colocando sua mão no ombro de Guilherme e apontando para Yohana ao final de sua fala. Guilherme entendeu a piada: ela usava roupas pretas coladas. Uma gata preta.
– Não tenho medo de mulher – disse, desafiante.
– E do que você tem medo? – Dessa vez foi Yohana quem perguntou.
– De viver aqui pra sempre. De nunca tentar fazer nada contra essa merda toda –
           O ruivo contornou a cadeira, ficando atrás de Guilherme de tal forma que ele não pudesse vê-lo. Colocou suas mãos sobre os ombros de seu prisioneiro e se aproximou de seu ouvido, sussurrando alto o bastante para que Yohana ainda o ouvisse, embora o baixinho que guardava a porta provavelmente não pudesse ouvir.
– E se eu te disser que posso te dar a oportunidade perfeita para isso? Que comigo, você pode conseguir lutar contra esse medo? O que você acha, hein, Guilherme? Quer me ajudar a fazer uma guerra que acabe com isso de uma vez por todas? Quer lutar ao meu lado fazendo nossa própria revolução? –
– Me parece bem interessante, mas não faço acordos com quem não sei o nome e, principalmente, com quem eu nunca apertei a mão – Disse Guilherme, também falando de forma que apenas o homem e Yohana pudessem ouvir. Ambos pareceram desconfortáveis, Guilherme percebeu pela expressão de Yohana e pela tensão súbita nas mãos do ruivo. Este contornou novamente a cadeira, parando na frente de Guilherme. Tirou um canivete do bolso e se abaixou para cortar as cordas que prendiam os pés de seu prisioneiro. O guarda na porta preparou o dedo no gatilho, caso Guilherme resolvesse fugir, mas ele não tinha essa intenção.
           Quando o homem dos cabelos compridos terminou de cortar ambas as cordas, guardou o canivete e se afastou três passos. Guilherme se pôs de pé, com um pouco de dificuldade, e estendeu sua mão. O homem ruivo fez o mesmo, e o aperto de mão aconteceu. Só então Guilherme reparou na única semelhança entre sua roupa, a roupa de Yohana e a roupa do guarda. Por mais diferentes que fossem, todas tinham costuradas ou coladas no peito a bandeira de Minas Gerais: LIBERTAS QUAE SERA TAMEN.
– Seja bem vindo, Guilherme, à Resistência! Meu nome é Ícaro, sou o líder da revolução –
– É um prazer conhecê-lo e lutar ao seu lado... Ícaro? Olha só, Yohana, Ícaro, eu vou ter que escolher um nome esquisito pra mim também? –
           Ícaro riu mais uma vez, era mesmo bem humorado. Ambos soltaram as mãos. Guilherme voltou a fitar a bandeira no peito do líder, e ele percebeu.
– As escolas de Tenemissa pulam de propósito todas as aulas de revoluções. É preciso conhecer alguém que leu os livros antes de serem recortados para conhecer tais coisas. Esta é a bandeira de Minas Gerais, um estado brasileiro. Há muito tempo eles tentaram fazer uma revolução, mas foram mortos. A bandeira que eles criaram agora é a bandeira oficial do estado – disse Ícaro, apontando para a figura no peito – Significa “liberdade ainda que tardia”. Você ficaria maluco se soubesse tudo que eles escondem de nós. Já ouviu falar de internet? Ou já viu algum canal de TV que não tenha a programação 100% gravada em Tenemissa?–
– Não. Como você sabe de tudo isso? –
– Conheço algumas pessoas que já saíram daqui, meu rapaz –
– Algumas? Mas eu pensei que só o... –
– Só o? O quem? Seja quem for, ou ele pensa que é mais do que realmente é, ou ta te enganando. Vem, vou te apresentar pro resto do grupo. É muita gente, sabe? E ninguém desconfia porque pra entrar aqui, tem que ta morto. Sorte sua ter conseguido isso antes de nos achar –
           E Guilherme foi junto de Ícaro e Yohana, conhecer seu sonho de infância: uma chance de lutar contra tudo aquilo que ele odiava na ilha.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

18 - Atentado ao Reino

            Um sorriso malicioso. Olhares que perseguiam sem piscar. Alguns arriscavam a tocá-la com suas mãos sujas, apenas para serem repelidos ou, dependendo do dia, receberem um tapa. Entre uma bebida e outra que Lia servia na mesa dos “cavalheiros”, olhava para a porta. Em sua imaginação Guilherme a escancarava triunfante, olhava a todos com ameaça nos olhos e faziam aqueles homens e mulheres se encolherem. Então ele a via, e sorria para ela.
– Sonhando acordada, Princesa? – Era Mellani. Sua face distorcida pelo sorriso que não lhe caia bem. Desde que Lia voltou para a casa da mãe, ela sempre aproveitava cada oportunidade para lhe fazer alguma piada. Fora ela quem sugeriu para Vanessa que colocasse a filha para trabalhar. É claro que Mellani imaginou algo além de ter Lia como sua garçonete, mas, ao que tudo indica, a Rainha estava feliz de ter sua filha de volta, e não queria perde-la outra vez. Lia, apesar de odiar cada segundo de seus novos dias, agradecia que sua mãe aprendeu a lição.
– Por que, Mellani? Vai mandar me estuprarem se eu dormir em pé? – perguntou Lia, sem emoção nenhuma na voz.
– E se eu fizer? – desafiou Mellani, confiante de sua importância no Castelo.
            Lia deu as costas para sua rival, virando-se para um homem de 43 anos, mas que aparentava 50. Gordo, careca, nunca fazia a barba e fedia muito. Um dos melhores clientes do Castelo, apelidado pelas meninas de Papai Noel.
– Senhor? O senhor acaba de ganhar uma noite especial com a nossa gerente, por conta da casa, como forma de agradecimento por sua lealdade ao nosso estabelecimento durante todos esses anos – Disse Lia no ouvido do homem, mas alto o bastante para que Mellani escutasse.
– Sua cadela! Eu não transo mais com ninguém aqui, sou a gerente. Vai você dar pra ele – respondeu a rival de Lia, chiando baixo, tentando controlar a raiva para que o velho não a escutasse. Não havia motivos para isso, ele era quase surdo.
– Eu devo avisar o nosso melhor cliente de que seu prêmio está... “indisposto”? E com isso perder a confiança dele? Talvez eu deva chamar a minha mãe aqui e contar pra ela como você se arrependeu de ter dado essa promoção para o papa... Para esse senhor –
            Mellani estava furiosa e, Lia tinha de admitir, isso a deixava muito mais bonita do que quando sorria. Sem falar uma palavra, ela chamou o homem com o olhar e se dirigiu até a escada que levava aos quartos.
– Isso foi genial, Lia! – disse uma voz radiante logo atrás da vitoriosa Princesa.
            Era Gabriela. Tinha acabado de vir de um dos quartos e, apesar de já ter trocado de roupa para o uniforme de garçonete, ainda parecia suar.
– Pegou o cara novo? – Perguntou Lia, sorrindo e ignorando o comentário da amiga.
– Dei sorte. Ele não é como esses velhos nojentos. Ai Lia, eu acho que ele gostou de mim! Quando nós entramos no quar... –
            Gabriela interrompeu sua fala junto com todos dentro do bordel. Ouviu-se o som de vários carros freiando bruscamente em frente ao Castelo, e vozes de homens gritando. Lia e Gabriela, que estavam próximas à entrada se esgueiraram até uma janela modificada para ver quem vinha sem ser visto. Tinha apenas um buraco na parte inferior do vidro para os clientes aprovados pagarem adiantado.
            Lá fora uma confusão de carros e homens. Para quem nasceu em Tenemissa, era fácil distinguir: haviam representantes das duas famílias ali. Os que pareciam ser Menegaro, pelos ternos preto com branco, estacionaram seus carros logo na entrada. Atrás deles, um pouco atrasados, um pequeno exército de marginais: os Manetti. Não se entendia muita coisa, mas Lia teve certeza de ouvir alguém gritar para um jovem baixo, porém intimidante: “manda essa ralé pro inferno, Felipe”.
            A frase deve ter saído mais alto do que planejado, pois o outro lado ouviu e levantou em sincronia perfeita as suas armas. Lia e Gabriela correram, sem parar para ver a janela que explodia atrás. Todos os seguranças do Castelo se posicionaram, mas não sabiam em quem atirar. No meio da confusão, as duas amigas atravessaram pessoas que não sabiam se corriam ou se abaixavam. Algumas apenas despencavam, derrubadas pelos tiros de sabe-se lá quem. Lia corria na frente segurando a mão de Gabriela, até que sentiu-a puxar para trás. Em um segundo a garota de sonhos doces, mas sem perspectivas de vê-los sendo realizados tombou no chão, soltando inconscientemente a mão de Lia. Esta paralisou, sem poder acreditar no que via. Enquanto pessoas morriam e o castelo desmoronava a sua volta, ela estava parada, no meio da boate, seus olhos desviando da expressão de medo no rosto de Gabriela para os dois buracos em seu peito.
– GABRIELA! –
            Lia se abaixou, segurando novamente a mão da amiga, mas ela não parecia estar mais reconhecendo coisa alguma. Sua boca tremia, e não era possível saber se tentava falar algo.  Subitamente, parou de se mexer. Lia nem reparou que o barulho dos tiros havia cessado. Sua mente voava longe e voltava sem aviso para o presente. Duas adolescente rindo. Lindos olhos castanhos vidrados. A despedida entre as amigas, quando Guilherme veio tirá-la de seu inferno. O sangue manchando a camisa de Gabriela. O sangue escorrendo da tesoura. O sangue de Gabriela nas mãos de Lia. O vestido verde manchado de sangue.
            Lia ainda conseguiu pensar em sua mãe. Se perguntou se ela teria sobrevivido. Se lembrou que, muito provavelmente, Mellani não correu nenhum risco por que Lia a fez ir para o segundo andar. Por que Mellani poderia sobreviver e Gabriela não? Por que aqueles lindos olhos castanhos não refletiam mais nenhum sonho impossível? “Se o Guilherme veio te salvar, talvez eu também arranje um cara que me salve daqui um dia”, dizia ela, várias vezes ao dia. Ainda assim, Lia não chorou. Permaneceu perplexa e imóvel enquanto o mundo desabava ao seu redor, mas nenhuma lágrima caiu de seu rosto. Nem sequer reparou quando um homem a segurou por debaixo de seus braços e a arrastou para fora dali. Apenas lamentou não poder mais olhar aqueles olhos castanhos.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

17 - Maravilhoso X-Salada

– Achou que era uma armadilha? –
            Carlos observava Aline com atenção, agora consciente de que ela poderia estar ou não atuando. Precisava tomar cuidado com ela. Aquela mulher acabou se tornando o ponto fraco do policial.
– É claro, e ainda to achando. Sem ofensas –
– Não ofendi. Ainda bem que você ainda tá com a cabeça no lugar –
            Eles estavam sentados a uma mesa pequena de um bar pequeno, mas muito frequentado. Havia casais por toda a volta, seria fácil para Carlos sumir na multidão caso Aline estivesse mesmo armando uma cilada para ele. Enquanto os dois conversavam, um garçom chegou trazendo um x-salada tamanho gigante, e o entregou a Carlos, que começou a comer sem se importar com o olhar de nojo de Aline.
– Você vai mesmo comer isso? –
            Carlos não esperou terminar de mastigar para responder, o que só piorou o olhar que Aline lançava ao prato em sua frente.
– Esse aqui não é o seu castelo, princesa. Aqui isso é comida, e das melhores –
            Para a surpresa do policial, Aline sorriu satisfeita. Ignorando o fato de que ele continuava mastigando, ela se debruçou sobre a mesa para poder falar mais baixo e continuar sendo ouvida.
– É exatamente sobre isso que eu vim falar com você. Aposto como nesses dois meses parado você não conseguiu nada do paradeiro do Guilherme e da garota dele, não é? –
– Dá um tempo, eu tava no hospital! Não tenho metade dos médicos da ilha na minha casa vinte e quatro horas por dia pra me atender. Desse lado a história é outra –
– Tanto faz, eu me machuquei bem mais que você e não fiquei parada, reclamando da vida feito uma velha. Eu fiz a minha pesquisa –
– Descobriu aonde que ta o moleque? –
– Não, mas eu descobri quem é a vadia dele, e onde ela pode ter ido –
– Quem? –
– O nome dela é Lia. Ela é filha de uma dona de bordel, um lugar chamado de Castelo da Rainha. A garota é conhecida por lá como Princesa –
– Já ouvi falar do lugar, dizem que é um dos melhores –
– Eu fui mais a fundo e consegui descobrir mais. Parece que a tal da Rainha queria que a filha virasse puta, pra saber como é a vida dura que a mãe teve, antes de assumir o puteiro. A garota não quis, e acabou fugindo. Conversei com algumas pessoas, e acho que ela não fugiu sozinha –
– O príncipe encantado foi lá salvar a princesa do seu castelo cruel? –
– Acho que sim. O caso desses dois é mais antigo que assassinato do meu irmão. Ela deve ter virado uma golpista, mas pelo visto era boa, quase não consegui nada sobre ela –
– Não me admira que o Jean caiu –
– O Jean não pode ter caído. Se eles conseguissem enganar ele, já estariam fora da ilha agora. Um dos dois matou o meu irmão, só pode ser porque ele descobriu tudo –
– Você levou dois meses pra descobrir só isso? Se meus contatos não tivessem se cagando de medo de mim por sua culpa, eu já teria pego esse casalzinho –
– Não vem com essas desculpas. Se você fosse bom mesmo já teria feito o seu trabalho –
– Se eu não sou bom mesmo, então por que você ta aqui, hein? Quem foi que o seu papaizinho mandou dessa vez que não pode te deixar ir junto?
– O meu irmão mais velho, Felipe. Ele não me deixaria ir junto. A gente não se dá muito bem –
– Eu acho que ele não ia gostar muito de mim também. Só pra eu saber, o que um Menegaro faria se me visse investigando esse caso? –
– Te mataria. Meu pai ainda ta puto contigo, ele ta só querendo uma desculpa pra mandar alguém te matar. Se o Felipe te ver, ele não vai pensar duas vezes –
– E se eu ver ele, e puxar o gatilho primeiro, o que você vai fazer? –
            Aline não soube responder. Apenas baixou a cabeça, pensativa. Carlos sabia que aquilo era pressionar demais alguém, mas também sabia que precisava pôr ela de um lado só. De nada serviria sua ajuda se no fim ela o impedisse por amor ao irmão.
– Eu espero sinceramente que você não atire. Não me peça pra ficar contra a minha família – respondeu finalmente ela, levantando a cabeça e mostrando olhos mais brilhantes que o normal.
– Você já está contra a sua família. Escolheu isso quando decidiu vir comigo. Pra mim já deu de ter dois lados, ou melhor, qualquer lado. Eu agora declaro guerra a tudo e a todos, e foda-se o que vai acontecer comigo. Cansei disso tudo, de ter que aguentar essa gente que acha que é meu chefe. Vou caçar o Guilherme porque é isso que eu quero, e vou matar quantos filhos da puta eu encontrar no caminho, Manentti ou Menegaro. Se quiser sair, a hora é agora –
            Aline se levantou de imediato. Estava se dirigindo para a porta quando parou de repente. Ficou lá, parada, de costas para Carlos por pelo menos cinco minutos. Voltou então e sentou-se novamente.
– Vou ficar do seu lado. Mas não me peça para atirar na minha família –
– Por que diabos você quer tanto ficar nesse caso? Não consigo entender isso –
            Aline debruçou-se sobre a mesa e beijou Carlos com intensidade. Voltou então a se sentar. Não estava corada, nem demonstrava o menor sinal de ter feito algo que significava muito, embora não parecesse. Em seu olhar só havia a mesma obstinação de sempre. Estava disposta a ir contra a própria família apenas porque queria aquele homem, e nada mais. Ou seria isso que ela queria que Carlos pensasse? O policial já não tinha mais certeza de nada, e se perguntava se algum dia teria certeza de qualquer coisa que envolvesse aquela mulher.
            Quando saíram da mesa, metade do x-salada permaneceu no prato. Ambos caminharam em silêncio. Carlos, confuso demais para falar, enquanto Aline se divertia silenciosamente da confusão mental de Carlos. Ela agora tinha um homem poderoso e decidido nas mãos. Músculos e cérebro que faziam os outros se curvarem e implorarem por sua vida, agora estavam curvados e confusos diante do enigma esguio e atraente. Só o fato de ela permanecer em silêncio já poderia ser considerado uma traição, um ato impiedoso e cruel depois de ter embaralhado a vida daquele homem com um simples beijo. Carlos nunca se deixava embaralhar. Se algo o deixava confuso, ele atirava primeiro e perguntava depois. E tudo pelo dinheiro. Agora lá estava ele, caçando um jovem casal por motivo nenhum, e se deixando domar por uma mulher, justo uma mulher, este ser que ele sempre subjugou.
            Apesar disso, ele não se importava. Poderia fazer tudo como sempre fez, e não haveria nenhum risco. Mas já passou o tempo de não correr riscos. Carlos tinha 43 anos, embora aparentasse 30, e coçava em sua barba a vontade de jogar para o alto todas as regras. Se fosse para morrer assim, ao menos ele estaria aproveitando do melhor que uma jovem moça poderia lhe dar.