domingo, 12 de fevereiro de 2012

18 - Atentado ao Reino

            Um sorriso malicioso. Olhares que perseguiam sem piscar. Alguns arriscavam a tocá-la com suas mãos sujas, apenas para serem repelidos ou, dependendo do dia, receberem um tapa. Entre uma bebida e outra que Lia servia na mesa dos “cavalheiros”, olhava para a porta. Em sua imaginação Guilherme a escancarava triunfante, olhava a todos com ameaça nos olhos e faziam aqueles homens e mulheres se encolherem. Então ele a via, e sorria para ela.
– Sonhando acordada, Princesa? – Era Mellani. Sua face distorcida pelo sorriso que não lhe caia bem. Desde que Lia voltou para a casa da mãe, ela sempre aproveitava cada oportunidade para lhe fazer alguma piada. Fora ela quem sugeriu para Vanessa que colocasse a filha para trabalhar. É claro que Mellani imaginou algo além de ter Lia como sua garçonete, mas, ao que tudo indica, a Rainha estava feliz de ter sua filha de volta, e não queria perde-la outra vez. Lia, apesar de odiar cada segundo de seus novos dias, agradecia que sua mãe aprendeu a lição.
– Por que, Mellani? Vai mandar me estuprarem se eu dormir em pé? – perguntou Lia, sem emoção nenhuma na voz.
– E se eu fizer? – desafiou Mellani, confiante de sua importância no Castelo.
            Lia deu as costas para sua rival, virando-se para um homem de 43 anos, mas que aparentava 50. Gordo, careca, nunca fazia a barba e fedia muito. Um dos melhores clientes do Castelo, apelidado pelas meninas de Papai Noel.
– Senhor? O senhor acaba de ganhar uma noite especial com a nossa gerente, por conta da casa, como forma de agradecimento por sua lealdade ao nosso estabelecimento durante todos esses anos – Disse Lia no ouvido do homem, mas alto o bastante para que Mellani escutasse.
– Sua cadela! Eu não transo mais com ninguém aqui, sou a gerente. Vai você dar pra ele – respondeu a rival de Lia, chiando baixo, tentando controlar a raiva para que o velho não a escutasse. Não havia motivos para isso, ele era quase surdo.
– Eu devo avisar o nosso melhor cliente de que seu prêmio está... “indisposto”? E com isso perder a confiança dele? Talvez eu deva chamar a minha mãe aqui e contar pra ela como você se arrependeu de ter dado essa promoção para o papa... Para esse senhor –
            Mellani estava furiosa e, Lia tinha de admitir, isso a deixava muito mais bonita do que quando sorria. Sem falar uma palavra, ela chamou o homem com o olhar e se dirigiu até a escada que levava aos quartos.
– Isso foi genial, Lia! – disse uma voz radiante logo atrás da vitoriosa Princesa.
            Era Gabriela. Tinha acabado de vir de um dos quartos e, apesar de já ter trocado de roupa para o uniforme de garçonete, ainda parecia suar.
– Pegou o cara novo? – Perguntou Lia, sorrindo e ignorando o comentário da amiga.
– Dei sorte. Ele não é como esses velhos nojentos. Ai Lia, eu acho que ele gostou de mim! Quando nós entramos no quar... –
            Gabriela interrompeu sua fala junto com todos dentro do bordel. Ouviu-se o som de vários carros freiando bruscamente em frente ao Castelo, e vozes de homens gritando. Lia e Gabriela, que estavam próximas à entrada se esgueiraram até uma janela modificada para ver quem vinha sem ser visto. Tinha apenas um buraco na parte inferior do vidro para os clientes aprovados pagarem adiantado.
            Lá fora uma confusão de carros e homens. Para quem nasceu em Tenemissa, era fácil distinguir: haviam representantes das duas famílias ali. Os que pareciam ser Menegaro, pelos ternos preto com branco, estacionaram seus carros logo na entrada. Atrás deles, um pouco atrasados, um pequeno exército de marginais: os Manetti. Não se entendia muita coisa, mas Lia teve certeza de ouvir alguém gritar para um jovem baixo, porém intimidante: “manda essa ralé pro inferno, Felipe”.
            A frase deve ter saído mais alto do que planejado, pois o outro lado ouviu e levantou em sincronia perfeita as suas armas. Lia e Gabriela correram, sem parar para ver a janela que explodia atrás. Todos os seguranças do Castelo se posicionaram, mas não sabiam em quem atirar. No meio da confusão, as duas amigas atravessaram pessoas que não sabiam se corriam ou se abaixavam. Algumas apenas despencavam, derrubadas pelos tiros de sabe-se lá quem. Lia corria na frente segurando a mão de Gabriela, até que sentiu-a puxar para trás. Em um segundo a garota de sonhos doces, mas sem perspectivas de vê-los sendo realizados tombou no chão, soltando inconscientemente a mão de Lia. Esta paralisou, sem poder acreditar no que via. Enquanto pessoas morriam e o castelo desmoronava a sua volta, ela estava parada, no meio da boate, seus olhos desviando da expressão de medo no rosto de Gabriela para os dois buracos em seu peito.
– GABRIELA! –
            Lia se abaixou, segurando novamente a mão da amiga, mas ela não parecia estar mais reconhecendo coisa alguma. Sua boca tremia, e não era possível saber se tentava falar algo.  Subitamente, parou de se mexer. Lia nem reparou que o barulho dos tiros havia cessado. Sua mente voava longe e voltava sem aviso para o presente. Duas adolescente rindo. Lindos olhos castanhos vidrados. A despedida entre as amigas, quando Guilherme veio tirá-la de seu inferno. O sangue manchando a camisa de Gabriela. O sangue escorrendo da tesoura. O sangue de Gabriela nas mãos de Lia. O vestido verde manchado de sangue.
            Lia ainda conseguiu pensar em sua mãe. Se perguntou se ela teria sobrevivido. Se lembrou que, muito provavelmente, Mellani não correu nenhum risco por que Lia a fez ir para o segundo andar. Por que Mellani poderia sobreviver e Gabriela não? Por que aqueles lindos olhos castanhos não refletiam mais nenhum sonho impossível? “Se o Guilherme veio te salvar, talvez eu também arranje um cara que me salve daqui um dia”, dizia ela, várias vezes ao dia. Ainda assim, Lia não chorou. Permaneceu perplexa e imóvel enquanto o mundo desabava ao seu redor, mas nenhuma lágrima caiu de seu rosto. Nem sequer reparou quando um homem a segurou por debaixo de seus braços e a arrastou para fora dali. Apenas lamentou não poder mais olhar aqueles olhos castanhos.

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