segunda-feira, 18 de junho de 2012

35 - Canção de Amor e de Paz



            De todas as coisas que o soldado esperava ver quando levasse Aline até a mansão, a última possibilidade em sua mente era de que presenciaria o ataque rebelde que estava se desenrolando naquele momento. Dezenas de Fascin atacavam o lugar mais protegido da ilha, e o pobre soldado se perguntava o que eles deixaram escapar. Com certeza, aquele esconderijo que eles dizimaram não era o único, embora, pelo número do exército atacante, era de se supor que as ruínas fossem a principal base de operações, e o resto era resto.
            Ainda assim, restos costumam incomodar. Eles irritam os seus olhos e entram como farpas em seus dedos. Não podem te machucar seriamente, mas sua insignificância eleva-se em um patamar de notoriedade quando nada mais importa, então é preciso se livrar dos restos.
– Fiquem aqui – disse o soldado para Aline e o médico, que tentava tranquilizá-la. Era um soldado bem treinado, como todos os Menegaro. Sua arma era mais poderosa, como a de todos os Menegaro. Ele não tinha medo de enfrentar um exército, se isso fizesse bem para a família. Como qualquer outro Menegaro. Mas com certeza não estava preparado para ouvir um segundo bater de portas no veículo que dirigira até ali, e, virando-se para ver o que aconteceu, se deparou com Aline, manca e sangrado, se apoiando na lateral do carro com uma pistola na mão. Seu rosto mostrava a dor que estava sentindo, mas também mostrava a fria ira de quem vê seu lar em chamas.
– Você vai me ajudar a entrar na minha casa, e vai lutar ao meu lado até esses pobres do caralho estarem todos no chão –
            Se fosse qualquer outra mulher, ou qualquer outro soldado, o corajoso homem tentaria insistir para que permanecesse no carro, que esperasse ao menos a ferida parar de sangrar. Mas como dizer não àquela mulher? Ela lhe enchia de admiração cada vez mais, e tudo que ele pôde fazer foi acenar que sim com a cabeça, e permitir que ela apoiasse um braço ao redor do ombro dele, a pistola firme na outra mão.
            E foi assim que os dois abriram caminho por detrás das linhas inimigas, penetrando pelos portões que foram previamente derrubados por Lia, e se dirigindo ilesos para dentro da mansão, onde nenhum rebelde teve sucesso em invadir.
– Chamem os médicos, aqui e agora! – foi a reação de Hércules, que sequer empunhava uma arma. Aparentava toda a confiança de quem sabia que seus homens poderiam protegê-lo, que aquilo não era nada além de uma imprevista praga. Eram só vermes em seu quintal, comendo suas alfaces. Não era uma ameaça real. Mas a sua filha ferida? Alguém iria pagar caro por aquilo.
– Minha querida, você está bem? –
– Nós acabamos com o esconderijo, pai. Esses aí do lado de fora são o que sobrou dos que fugiram. Os Fascin não são mais uma ameaça –
            Hércules sorriu. Uma imagem rara de se ver. Não durou muito tempo. Um informante que corria pelas escadas para alcançar o Poderoso Chefão trazia notícias mais perturbadoras do que um ataque de vermes. Enquanto Lia e Hércules trocavam informações sobre o sucesso da missão e o fracasso em conter uma única prisioneira, a porta da enfermaria particular da família foi escancarada, e uma figura sem fôlego se apoiou na parede antes de dar a notícia.
– Um espião... dos Manentti... Eles sabem do ataque... Tão vindo pra cá –
            Hércules entendeu o que estava acontecendo. O rival de sua vida inteira, Giuseppe, se aproveitaria do único momento de aparente fragilidade da família Menegaro para tentar derrubá-la. Não iria acontecer.
– Vem minha filha, nós vamos passear de barco –
– Senhor? – perguntou o soldado, pela primeira vez duvidando do pulso firme de seu chefe – Estamos abandonando a mansão? –
– Não “estamos”. Preciso levar minha filha para um lugar seguro, apenas eu, ela, os médicos e meus guarda-costas. Confio plenamente que você serão capazes de defender a mansão. Foi para isso que eu treinei vocês. Se está se sentindo inseguro, diga para todos que vão até o subsolo e abusem do nosso arsenal pesado. Vamos esmagar essa ilha se for preciso, mas não seremos derrotados –
            O informante, que apenas ouvia as notícias e as passava para seu chefe, não era de um alto cargo de confiança. Era apenas um garoto de recados e, por isso, não sabia o que era o tal de “subsolo”, e sempre pensou que os soldados já usassem as armas pesadas.
– Senhor... O que tem no subsolo? –
– Entre as armas militares importadas e os trajes especiais? Um tanque, meu caro rapaz, um tanque –

            “Vai ficar tudo bem”, Guilherme repetia sem parar, amparando Lia, ajudando-a em tudo o que podia. Ela estava feliz por ter Guilherme de volta, mas não gostava nem um pouco de seus óculos e sua nova expressão, da mesma forma como ele não gostava nem um pouco de sua aparência esquelética e quebradiça. Mas não podiam ignorar a história que tinham juntos, e continuariam juntos até o fim. Até o fim deles ou até o fim da ilha. Finalmente colocariam em prática o plano de fugir daquele lugar, embora a situação não fosse nem um pouco parecida com o que eles haviam imaginado. Não poderiam ter previsto tantas explosões e mortes, tanta guerra. Sangrenta Tenemissa sempre foi, mas sempre foi ao estilo de amigos esfaqueando amigos pelas costas, família brigando com família, vermes roubando matando e estuprando. As últimas batalhas fugiam completamente ao estilo de morte pacata e cruel que todos estavam acostumados. Sim, comparando com os últimos acontecimentos, pode-se pensar que a ilha de antes era pacata.
            “Mas já não importa mais”, pensou Guilherme. “Nós estamos saindo daqui, de um jeito ou de outro”. O plano agora era roubar um barco do lado Manentti da ilha, o porto oficial. Não ficava mais perto, mas, em compensação, o lado Menegaro tinha apenas o porto particular da mansão. Rodeados pelo oceano, quem tem domínio marítimo tem a vantagem, e esse é o único motivo pelo qual Hércules nunca conseguiu derrubar Giuseppe.
– A gente ta indo muito devagar – reclamou Lia.
– Calma, Lia, calma. Vamos encontrar um carro em algum lugar e podemos dirigir até o porto –
            Lia estremeceu diante daquela ideia, e Guilherme percebeu. Ela ainda estava traumatizada pelo acidente, mas sabia que não havia outra alternativa. Com o tempo, os dois perceberam juntos que a noite estava muito silenciosa. O que aconteceu com os barulhos de tiro? A batalha estava terminada, mas qual lado venceu? Lia se perguntava quem estivera lutando, enquanto Guilherme se convencia de que não importava mais qual lado perdera. Ele decidiu abandoná-los, como bem lhe lembrou o falecido Luiz. “Não sou um herói”, pensou, “Eu só quero sair daqui com Lia, e ninguém mais. Que diferença faz se os rebeldes ganharam ou não? To saindo daqui mesmo. E ainda por cima Luiz disse era só uma terceira família surgindo, então não era nada do que eu imaginei. Não tenho pelo que lamentar”.
– Guilherme... –
– O que foi? –
– Você acha que isso tudo teria acontecido se a gente não tivesse se separado? –
            Guilherme meditou por um momento se ela estava falando de quando eles seguiram por ruas opostas, logo após a explosão de seu apartamento, ou se ela havia voltado mais ao passado, para as brigas constantes, para quando o namoro dos dois não deu certo. Para quando eles decidiram que seriam apenas sócios. Provavelmente, ela se referia a ambas as situações.
– Se a gente não tivesse se separado, não chegaríamos tão longe –
            Lia percebeu que seu companheiro ficou em dúvidas sobre o que ela estava falando, e percebeu também que ele acabara de responder as duas perguntas que estavam subentendidas uma na outra.
– É verdade que tudo isso é culpa nossa? –
            Guilherme desacelerou o passo. Aquela pergunta era inocente demais. Mesmo em seu momento mais frágil, quando havia matado um homem pela primeira vez, Lia nunca foi tão inocente. Algo havia mudado nela, sim, mas, a despeito de sua aparência frágil, o espírito de Lia estava agora duro feito uma pedra. Não havia mais inocência naqueles lindos olhos, então... Ela o estava testando. E desde quando ele pensava tanto? Não era apenas um soldado que só sabia apertar o gatilho, como bem disse Luiz? E porque ele agora o citava tanto dentro de sua própria cabeça? Guilherme ajeitou os óculos quadrados com os dedos, empurrando-os mais para cima no nariz, num movimento tão característico que, se eles ainda tivessem lentes, elas brilhariam de forma singular, refletindo ideias fantásticas do cérebro calculista que se escondia atrás daqueles aros. Mas o cérebro não era mais o mesmo, e os aros não mais suportavam duas lentes.
– Isso tudo é culpa da ilha – respondeu Guilherme com simplicidade, mas sua voz saiu seca. Para quem olhasse aquele casal, nada de mais estaria acontecendo, embora uma dança complexa estivesse se desenrolando nas mentes conectadas daqueles dois indivíduos tão próximos, que estavam agora testando a que ponto sua distância se estendia. Eles não eram mais os mesmos, nenhum dos dois. Embora ambos fossem jovens adultos, uma voz mais velha lhes diria que tinham acabado de deixar sua infância para trás, e aquele momento provava isso. Guilherme e Lia amadureceram da forma mais dura possível, sentindo na carne a responsabilidade de um mundo insano, e procuravam em vão um no outro algo que lhes lembrassem de como era a vida antes daquilo.
“Ainda é a Lia”
“Ainda é o Guilherme”
“Só que ela está diferente, não parece mais a mesma”
“Só que ele está estranho, não parece mais ele mesmo”
            Como um romantismo às avessas, eles se olharam nos olhos pela primeira vez desde que aquele complicado balé de testes e desconfiança havia começado. Ambos tinham sentimentos duvidosos em relação ao outro agora, e precisavam colocar seu futuro à prova. A parte não dita do plano sempre foi que eles voltariam para os braços um do outro quando tudo estivesse terminado, mas, até lá, não poderiam cair em tentação. Só que o plano não era mais um plano, era só a corrida pela sobrevivência. Sócios ou não, eles precisavam fugir da ilha. Nunca houve a necessidade tão gritante quanto agora.
            E foi assim, como que por acaso, que seus lábios partidos se juntaram mais uma vez. Cada um sentindo na boca do outro o gosto de sangue, e sem nenhum nojo ou receio. O sangue só juntava à saliva mais da alma de cada um, como um contrato selado e carimbado, eles agora estavam novamente presos, grudados em seus corpos no meio da rua mal iluminada. Era o clímax máximo do suspense que haviam criado. A bailarina invisível não mais existia, porque toda a desconfiança agora precisava ser deixada de lado. Guilherme e Lia não mereciam e nem poderiam mais confiar um no outro, pois não conseguiam sequer confiar em si mesmos. Eles eram Tenemissianos de verdade, e toda e qualquer relação que viesse deles seria de uso e desfruto alheio, e nada mais.

            Algumas horas mais tarde, Hércules e Aline assistiam do conforto de seu barco uma série de explosões, enquanto discutiam táticas para serem passadas pelo celular. Felipe fora previamente avisado que não voltasse para a mansão, para sua própria segurança. Ao invés disso, ele e seus homens poderiam fazer um ótimo trabalho espionando as fronteiras descuidadas do território dos Manentti. Do outro lado da ilha, Giuseppe também acompanhava a batalha pelo celular, embora não pudesse ter a vista privilegiada de seu rival. Para os moradores da região, a ilha estava afundando. Ninguém se importava de verdade com eles, então não fazia diferença se um prédio repleto de pessoas fossem atingido sem querer por um tiro descuidado do tanque, ou de alguma bazuca. Tenemissa nunca vira uma briga de tamanha proporção. Ambos os lados estavam dando tudo de si, como se não houvesse mais nenhuma chance, nenhuma noite ou nenhuma ilha. Era a hora da verdade, e ninguém daria para trás.

            O policial gritava pelo rádio. Incapaz de acreditar no que ouvia, pedia mais informações. Uma guerra daquele tamanho poderia dizimar não apenas uma, mas as duas famílias juntas, e não importa quem fosse vencer, ambas ficariam sem dinheiro. E isso, para a polícia, é muito ruim. Guilherme e Lia se aproximavam sorrateiramente do homem fardado, enquanto este desligava o rádio e montava em sua adorada moto. Estava irritado demais com o que acabara de acontecer, e era orgulhoso e confiante. Ele não era páreo para aqueles dois veteranos de fugas impossíveis. Surgindo das profundezas de um beco, Lia se arrastou, suplicante, e o policial parou para olhar a figura esquelética que se aproximava. “Mais um verme”, ele pensou, se preparando para sair em disparada antes que ela chegasse perto. Ignorar ela sempre melhor. Antes que conseguisse dar a partida na moto, Guilherme o empurrou, e ele caiu aos pés de Lia que, sorrindo maliciosamente, cortou seu pescoço com a tesoura. Toda vez que ela fazia isso, se sentia um pouco mais completa, e por aquele instante Guilherme a temeu.
            Enquanto corriam velozes pelas ruas abandonadas as primeiras explosões se fizeram ouvir. Guilherme não desacelerou, mas olhou junto de Lia para trás, na direção da imensa bola de fogo que subia ao céu. Ambos se lembraram imediatamente daquela outra bola de fogo, que marcou o momento da separação e de quando toda aquela bagunça começou de verdade.
– Você ta indo devagar demais! –
– O QUE? – Gritou Guilherme em resposta, pos vento que passava veloz pelos seus ouvidos o impedia de entender o que Lia acabara de falar.
– DEIXA EU DIRIGIR – gritou Lia, lutando contra a força do vento no ouvido de Guilherme. Ele entendeu e desacelerou, parando a moto no meio do asfalto. Concordava que Lia era melhor piloto do que ele, mas tinha sérias dúvidas quanto a deixar dirigir uma pessoa que foi atacada e desmaiou duas vezes em seguida. Apesar disso, Lia não demonstrava sinais de que iria cair novamente. A adrenalina tomava conta de seu corpo, e logo as ruas passavam como borrões enquanto a moto viajava a mais de 150 km/h.

            Quando Pedro viu o tanque, seu coração parou de bater por quase um segundo. Definitivamente, eles não estavam preparados para aquilo. Enquanto se aproximavam da mansão, já se espalhava por todos os lados a clara mensagem de Hércules, em corpos de rebeldes que diziam “Não tente, você não vai conseguir vencê-lo”.
Mas eles chegaram até ali, tinham que continuar.

            O território dos Manentti estava indescritivelmente mal vigiado. Silencioso não estava, pois os anônimos moradores da ilha saiam de seus apartamentos para tentar descobrir o que estava acontecendo, que barulho era aquele e o que significavam aquelas explosões. Apesar disso, não se via um único delinquente da família tentando pôr ordem nas ruas. Foi fácil, para não dizer sem-graça, chegar até o porto. Guilherme e Lia se perguntaram por que tinham demorado tanto tempo planejando, planejando e fracassando em fazer algo tão simples. Foi quando ouviram nas conversas o motivo de tamanho desleixo: o confronto final estava acontecendo, naquele exato momento, na mansão Menegaro. Ninguém poderia pedir por oportunidade melhor. Ninguém sequer poderia sonhar ter tanta sorte. E Guilherme e Lia não foram os únicos a perceber. O porto em si não estava vazio por falta de seguranças, estava vazio por falta de seguranças vivos. A parcela ativa e inteligente daqueles moradores anônimos, que também sonhavam em um dia sair daquela ilha, não deixaria que o momento passasse em branco. Todos os barcos do porto estavam sendo tomados por cidadãos comuns, enquanto Giuseppe se trancafiava em sua sala-segura, com medo da rebelião chegar até ele. Ninguém se importou. A liberdade é mais urgente que a vingança, e Guilherme e Lia conseguiram se infiltrar em meio àquelas pessoas e pegar um lugar em um dos navios superlotados. A notícia não se espalhou por informação, e sim por curiosidade. Numa hora como aquelas, ninguém avisa o vizinho de que ele pode fugir para ter uma vida melhor, todos querem apenas garantir o seu lugar. Ainda assim, muita gente apareceu, e não demorou para que pessoas começassem a se atirar no mar, todos gritando e lutando por uma vaga para fora do inferno. Navios e barcos partiram apressados, tentando evitar uma superlotação. Cargas enormes foram atiradas ao mar. Nada daquilo seria necessário. Poderiam conseguir o que quisessem assim que chegassem ao paraíso onde, tinham certeza, seriam bem aceitos.

            Hércules caminhou sobre os destroços de sua linda mansão. Estava seguro agora, ele e o que restou de sua família. As forças inimigas foram repelidas, embora ele não tivesse mais suas próprias forças para contra-atacar. Tudo o que sobrou do império que com tanto empenho ele havia levantado a partir do pó, foi o próprio pó. Aline o consolava, dizendo que eles ainda podiam reconstruir tudo de novo, com mais força que antes. Giuseppe também estava sem nada, sem ter como continuar aquela briga. Giovanni Fascin sequer poderia se considerar um jogador nesse cabo-de-guerra. Eles ainda poderiam dar a volta por cima.
            Com as três famílias sem controle algum, sem dinheiro algum e sem respeito algum, os tenemissianos se deixaram respirar aliviados. Até mesmo a polícia não seria mais um problema tão grande, e os vermes se recolheriam para o fundo dos esgotos. Poderia aquela ilha viver um tempo de paz? Talvez, temporariamente. Era com pesar que todos sussurravam para seus filhos que ia ficar tudo bem, pois eles sabiam que logo tudo iria voltar a ser como era antes, e no fim nada nunca muda. Não importa que família ganhe ou perca. Se há duas, três ou apenas uma assumindo o controle total. Na prática, nunca fez a menor diferença.

            O dia já havia amanhecido quando o navio que Lia e Guilherme embarcaram encalhou em uma praia estranha. Como ninguém a bordo sabia da localização dos portos, tudo o que eles puderam fazer era, na base da tentativa e erro, lançar o navio para frente e torcer para que ele chegasse a algum lugar. Onde ele chegou, mais tarde eles descobririam, foi em uma praia entre Rio de Janeiro e São Paulo, embora jamais conseguissem dizer de certeza se Tenemissa fica mesmo na linha desses estados, pois não seguiram um rumo reto com o navio.
            O casal não teve pressa em sair. Deixaram o restante dos fugitivos se acotovelando, empurrando e correndo, enquanto as pessoas que passeavam pela praia viam a cena assustadas. Não levou muito tempo para juntar uma multidão que tirava fotos do navio encalhado na areia por falta de porto e de marinheiros competentes. Calmamente, Guilherme e Lia caminharam de mãos dadas, observando o novo mundo à sua volta, principalmente aquelas pessoas que não tinham no rosto a expressão que todo tenemissiano tem. Eles eram pessoas que nasceram com o poder de escolher seu próprio destino, livres de opressão e desfrutaram desde cedo as belezas de um mundo maravilhoso. Guilherme se encantou com eles, mas Lia teve receio. Não gostava daquelas pessoas.
– O que você acha que vai acontecer com a ilha? – Perguntou Lia, olhando para o vazio do horizonte.
– Que importa? Nós saímos – respondeu Guilherme, mas alguma coisa em seu tom de voz irritou Lia. Não era porque ele parecia não se importar, isso seria justo. Era justamente o contrário, como se ele estivesse escondendo uma afeição quase que paternal. Ambos permaneceram em silêncio, olhando para a direção de onde pensavam estar Tenemissa. Lia pensava em Magali, e se ela teria uma boa vida. Guilherme lutava contra pensamentos novos. Eles lhe eram estranhos, mas pareciam fazer todo o sentido do mundo. Lembrou de Carlos, o policial que tanto lhe caçara, que sobrevivera a sua armadilha da granada, e que morrera sem que Guilherme soubesse de um terço de sua história. Aquele policial lhe fez quase prometer que mataria Aline, uma mulher que ele nunca vira na vida, e que ainda por cima era filha de Hércules Menegaro. Guilherme sequer chegou a encontrá-la, e sentia como se deixasse alguma coisa para trás. E também havia Luiz. Seu melhor amigo, o homem que lhe ensinou tudo, que lhe ensinou a ser homem. Guilherme agora começava a compreender a última conversa dos dois, como se os pensamentos do falecido lhe invadissem a cabeça. Tudo fazia sentido, a Luiz estava certo em tentar matá-lo. Ele merecia, com certeza, mas ninguém morre em Tenemissa por merecer. Morre quem não é forte o bastante para matar primeiro. Então Guilherme tinha todo o direito de roubar os sonhos de Luiz, os planos de Luiz, os óculos de Luiz...
– No que você está pensando? – Perguntou Lia, intrigada e desconfiada.
– Nada – mentiu ele. Com um sorriso no rosto, ajeitou com o dedo os óculos sem lentes mais para cima do nariz, da mesma forma como Luiz costumava fazer. Em sua cabeça, ele se lembrava daquela antiga conversa no bar, onde seu amigo lhe contava sobre os motivos que o fizeram retornar à ilha. “lá fora é apenas um monte de cidades com um monte de pessoas” disse ele, e Guilherme agora via como ele tinha razão. O seu encantamento por aqueles humanos estranhos começava a se distorcer em repulsa. “Você pode ser livre sim, mas será livre sendo ninguém e fazendo nada. Aqui você pode estar preso, mas você está fazendo a sua própria história”. Luiz tinha razão. Ele sempre teve razão.
– Nada mesmo? – Insistiu Lia. Guilherme a puxou pelo braço e lhe deu mais um beijo, profundo, vívido. Afogava seu antigo eu na antiga paixão dos dois, que ainda parecia arder apesar da mútua desconfiança.
– Vem – disse ele, varrendo para longe seus pensamentos anteriores – nós temos que comemorar –
            E juntos eles caminharam, enquanto uma multidão se estendia pela praia para ver o fenômeno de diversos navios vindos de um lugar inexistente encalhar naquelas areias, deixando pessoas que não eram pessoas correrem livres para um maravilhoso mundo novo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

34 - A Garota Que Segura o Destino

            Nenhum dos três ousou se mexer por alguns segundos. O choque da reviravolta inesperada foi grande demais para Guilherme, que via desesperado o vulto de Lia desmaiada no chão, para Luiz, que não esperava uma atitude tão firme da frágil Élen, e ela mesma parecia não acreditar no que havia acabado de fazer. A arma tremia levemente em suas mãos, mas ainda assim não se desviava do alvo. Luiz avançou sorrindo para o seu indefeso ex-amigo, tomando o cuidado de parar não muito perto. Apesar de tudo, não confiava na pontaria de sua fiel companheira.
– Olha só quem apareceu pra festa! – Falou Luiz, a voz animada. Seu tom parecia embriagado, como se algo tomasse conta dele. Sua pele se rasgava em arranhões e ferimentos por ter saltado do carro em alta velocidade. Ainda assim, Luiz teve sorte de cair nos sacos de lixo daquele beco escuro.
– O que você ta fazendo, cara? Por que isso? E por que você tava com a Lia? –
– Ah, Lia. É claro que você só pensa nela. Você é o dono dela, não é? Você é o dono de tudo o que você quiser. Como um garoto estúpido conseguiu chegar tão longe? –
– Porra Luiz! Do que é que você ta falando? –
– Você acha que é melhor que qualquer um desses vermes que rastejam pelos becos? Você foi bom o bastante pra ser o homem de confiança do Manentti, mas fui eu quem te colocou lá dentro. Você foi bom o bastante pra tentar fugir da ilha, mas acabou ferrando com tudo, não foi? Não foi só o seu plano que voou pelos ares quando essa puta matou o Jean, foi o meu também! –
            Luiz agora gritava seu desabafo desesperado. Guilherme não podia fazer nada. Seus olhos apenas desviavam de Luiz para a arma nas mãos de Élen, e então para o vulto de Lia no chão.
– Eu iria ser o dono dessa porra toda aqui, caralho! Você se acha esperto por ter se juntado aos rebeldes? Esqueceu que foi eu quem te mandei pra lá? Aquela bichinha do Ícaro não passa de um pau mandado do Giovanni Fascin. Ah, mas claro, você não sabe quem é esse, não é? Você simplesmente não sabe de nada. Eu não trabalho pra Manentti nem pra Menegaro. Tem uma terceira família, que só tava usando essa ralé toda pra derrubar a ilha inteira. Mas você tinha que estragar tudo, não é mesmo? Você tinha que fazer tudo errado, mais uma vez. O idiota do Giovanni confiava em mim mais do que na própria mãe, e não ia demorar muito, ele estaria de joelhos na minha frente, implorando. A ilha inteira estaria implorando, não fosse o seu joguinho ridículo de fuga romântica –
            Guilherme estava perplexo, tentando entender o que acabara de ouvir. Não sabia dizer se tudo fazia mais sentido agora, ou se só havia piorado. Tenemissa sempre foi uma ilha pequena demais para grandes tramas mafiosas, bastava dois lados que se odiassem para manter o equilíbrio sombrio e mortal. Poucos passos além, Élen prestava atenção em tudo o que Luiz dizia. Ele parecia outra pessoa agora. Sua fisionomia distorcida de raiva lhe arrancava a beleza própria que ela tanto admirava. Era o tipo de homem que passava uma imagem tranquila de que tudo estava sob controle, porque ele é quem tinha o controle. A imagem que por detrás daqueles óculos quadrados um mundo de caminhos previamente calculados aguardava para leva-la a um destino glorioso. Toda essa ira não combinava com ele, e mais ainda não combinava com aqueles óculos.
– Você sempre se achou um herói, não é mesmo? Salvou seu pai. Salvou a Lia. Salvou os rebeldes. Mas seu pai só ficou vivo o bastante pra que você fizesse parte da família, e então mataram ele. A Lia? Fui eu quem salvou ela agora. E fui eu quem controlei, indiretamente, os rebeldes que você NÃO salvou. Ao contrário, você abandonou eles pra morrer. Você, Guilherme, se acha muito melhor que o resto desse bando todo, não é? Mas o seu cérebro é pequeno, igual ao de qualquer soldado de bosta. Você não vê as possibilidades, você só aperta o gatilho, e espera que tudo dê certo. Eu cansei de você. Eu cansei dessa ilha de retardados. Eu vou sair daqui, e quer saber de uma coisa? Eu vou levar Lia comigo! Não é demais isso? Você chegou tão longe pra ser passado pra trás pelo seu melhor amigo. E agora eu vou roubar seu plano, seus sonhos e a sua garota –
            Luiz deu um passo a frente com um sorriso lunático no rosto. Percebeu tarde demais seu erro, ao ouvir um soluço de choro que ele tão bem conhecia. Élen agora tremia tanto que mal conseguia fazer pontaria, seu rosto molhando em lágrimas. Luiz, como sempre, se esquecera completamente que ela estava presente. Matinha na mente a ideia de que estava seguro por ter um aliado segurando uma arma, e ignorou quem era este aliado. Não era de seu feitio ignorar, então o que estava acontecendo com ele? Guilherme também percebeu o erro, e percebeu que a garota não mais tinha a pontaria segura. Sem hesitar, pulou para cima de Luiz, rolando pelo chão com ele. Élen gritou, sem saber como poderia atirar, ou até mesmo em quem. No duro asfalto, os dois homens trocavam socos violentos. Luiz já estava bastante machucado por ter pulado do carro em alta velocidade, e Guilherme estava extremamente cansado pela noite de tiroteio. Ambos tinham a mente confusa, e já se esqueciam o porque de estarem brigando.
            Mas eles não pararam. Rolando algumas vezes, Luiz conseguiu ficar por cima de Guilherme, paralisando-o. Com uma frieza que se assemelhava a medo em sua expressão, apertava com as duas mãos o pescoço do outro, que tentava desesperadamente se libertar, ou retribuir a sufocação, mas suas mãos escorregavam no vazio e apenas acariciavam o rosto de Luiz. Até que seus dedos sentiram uma sensação diferente do suor quente e da pele machucada: a fria sensação do toque do metal. Guilherme agarrou com as forças que lhe sobravam o aro dos óculos quadrado de Luiz, e puxou com força para baixo. O barulho de vidro quebrando foi o bastante para distrair o homem que agora estava quase cego. Em sua mente, inevitavelmente ele repassou todo o seu plano, e como este se tornava inútil agora. Ele tinha um plano B, um C, e muitos outros, suficientes para quase preencher o alfabeto. Mas nenhum deles daria certo sem os óculos. Guilherme, que ainda sufocava, ergueu sua mão e enfiou dois dedos nos olhos de Luiz, que pulou para trás, gritando. Os dois homens se afastaram aos poucos, tentando se recuperar. Élen observava aos prantos, esquecendo-se completamente da arma em suas mãos. Guilherme a viu, e foi tomado por uma ideia. Virando as costas para o seu inimigo que agora tentava ficar de pé, o ex-rebelde rumou decisivo na direção da adolescente chorona. Esta então se lembrou de sua arma, e viu claramente o que iria acontecer: aquele rapaz tentaria tomar a pistola de suas mãos para matar o homem que ela tanto amou. Mas ainda amava? Sim, como não? O pobre coitado estava passando apenas por uma crise, era obrigação dela ajudá-lo em um momento difícil como aquele. Para isso, ela teria de matar essa pessoa que ela nunca vira na vida, e depois mataria também a garota desmaiada, para garantir que Luiz não a levaria consigo para fora da ilha. Apenas Élen poderia fugir junto dele, e os dois teriam uma ótima vida no verdadeiro Brasil que ela sempre quis conhecer.
            Foi raciocinando tudo isso que a garota ergueu sua arma e disparou. O barulho do tiro se juntou no céu com o barulho de todos os outros tiros que ecoavam perto dali. Acompanhado do barulho, ouviu-se em seguida um grito de dor, daquele que morreria tão em breve, sem acreditar no que havia lhe acontecido. A pobre Élen se arrependeria para o resto da vida por disparar a arma, pois seu alvo, Guilherme, já sabia que ela faria isso. Era esse o seu plano, ao se posicionar entre ela e Luiz, e pular para o lado no momento em que a garota fechou os olhos. Élen atirou no homem que amava, e ele nem conseguia reconhecer o que estava acontecendo ao seu redor. Ela largou a arma e foi correndo amparar Luiz, que tentava estancar o sangue que escorria do buraco em seu peito. Guilherme olhou para a cena com tristeza. Era tudo confuso demais para que ele conseguisse entender por que aquilo havia acontecido. Virou-se então para Lia, e com carinho levantou a sua cabeça, tentando acordá-la. O pranto de luto deu a todos os moradores do prédio onde o carro batera o sinal de que a luta terminara, pois todos observaram perplexos o que havia acabado de acontecer. Guilherme levou Lia até eles, e Magali a segurou no colo, passando mais uma vez um pano umedecido em sua face.
            Em meio ao caos que reinava naquela rua, um brilho em particular chamou a atenção de Guilherme. Era o vidro quebrado dos óculos quadrados, abandonados no meio do asfalto. Aquele brilho sempre tinha lhe despertado a curiosidade, quase como se fosse feito de um material especial. Caminhando lentamente em direção ao objeto, e ignorando a pobre garota que delirava de tristeza, Guilherme pegou os óculos do chão. Um pouco além pegou também a pistola e, com o cano desta, terminou de partir o que restava do vidro preso aos aros de metal. Eram ótimos óculos, agora sem lente nenhuma. Largando novamente a arma no asfalto, como se esta não fosse de mais nenhuma utilidade, Guilherme colocou, muito lentamente, os óculos no rosto. Parecia estar concluindo um ritual sagrado, embora nem ao menos soubesse o que estava fazendo. Quando se voltou para a multidão, Lia já estava acordada, e Magali a tinha contado o que acabar de acontecer. Vendo o novo homem dos óculos quadrados, a pobre garota teve um susto. Era como se Luiz tivesse se reencarnado no corpo de Guilherme. Sua expressão facial mudara completamente. Não mais um rapaz parado em pé no meio da rua, mas verdadeiramente um homem. Um homem muito mais velho do que sua idade, e ele agora estava pronto para tomar a sua verdadeira forma e assumir as consequências disto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

33 - Que Se Faça Tempestade

            O homem experiente sentia-se como que uma criança em frente ao seu rigoroso pai. Giuseppe Manentti era um homem grande, tanto em seu físico como em poder, e qualquer um poderia se sentir pequeno quando era chamado para a sua sala. Mas Pedro estava preparado para isso, se preparou por muito tempo, e a hora havia chegado.
– Sabe, eu realmente não consigo acreditar que o Matheus morreu. Ele era o meu melhor homem, o meu braço direito. É um cargo de confiança esse. E você, Pedro, esteve tanto tempo fora, espionando o meu rival, que eu cheguei a me perguntar se não teria mudado definitivamente de lado, e o espionado era eu –
            Pedro se colocou um passo à frente, as mãos atrás das costas, a cabeça levemente erguida para poder olhar para o seu chefe. Era a figura perfeita de um soldado prestando contas ao seu general.
– Não senhor, não mesmo. O Menegaro é um cara duro, difícil de enganar, precisei ficar lá mais tempo do que o planejado –
            Giuseppe, que estava de pé ao lado de sua mesa, mexendo em alguns papéis enquanto conversava com seu espião, sentou-se para ouvir melhor a história, e fez um sinal para que Pedro senta-se também.
– Bom, isso parece interessante. Como você conseguiu vir até aqui, afinal? E, principalmente, por que? Eu mandei você ficar lá e só me avisar por alguém o que estava acontecendo. Você não fez nem uma coisa, nem outra. Você não me manda avisos há semanas, e agora aparece aqui, do nada –
– É que... Bem, não consegui mais encontrar o seu informante. Então eu precisei vir, porque o que aconteceu agora é urgente, e eu achei, digo, eu sei que é mais importante te dar essa notícia do que continuar na casa –
– Que notícia? –
– Existe uma terceira família, os Fascin. Os Menegaro tavam caçando eles há tempos, e agora descobriram o esconderijo dos caras. Não sei bem quem é o chefe da família, mas tava usando a própria população pra montar um exército rebelde, sem eles saberem que só tavam sendo usados –
– E onde fica esse esconderijo? –
– Fica no lado contrário do porto, numa parte bem abandonada da ilha. Nem você nem o Menegaro se importam muito com o que acontece lá. Mas agora a coisa ficou preta. Parece que a filha do Hércules achou o esconderijo, e eles tão mandando bala, então uma boa parte dos Menegaro ta lá lutando, e tem outra coisa, o senhor lembra do Guilherme? –
– O traíra filho da puta? Lembro bem –
– Quem matou o Jean não foi bem ele, foi a namorada dele, uma tal de Lia. E o filho do Hércules capturou ela –
– E daí? Não é mais problema meu. Os Menegaro não foram atrás de mim pra acertar contas, o moleque morreu na explosão do próprio apartamento, pelo que eu sei –
– Poisé, poisé, só que não é bem assim, ele ainda ta vivo, e a tal da Lia escapou da mansão dos Menegaro –
– Ela o que? –
– Sim! E o Hércules mandou uma frota inteira atrás dela, o filho junto e tudo. Eu aproveitei então pra vir pra cá, e, chegando aqui, ligaram pra mim. Parece que os rebeldes tão atacando a mansão. Não vão conseguir, mas já serve de distração, Giuseppe –
– Você ta me dizendo que a mansão ta praticamente desprotegida e ainda por cima ta sob ataque? –
– Isso mesmo –
– Chama todos os homens disponíveis. Nós vamos invadir aquela bagaça e você, Pedro, vai ser meu novo líder –
            Pedro saiu rápido, o peito estufado de orgulho. Tinha batalhado desde cedo para chegar longe, e finalmente conseguiu chegar aonde queria: num cargo de confiança. A questão não era apenas o dinheiro. Ele se sentia agora no topo daquele mundo que sempre vira por baixo.

            Três tiros. Três malditas balas perfuraram o corpo do rebelde, e ele ainda lutava para se arrastar até sua arma, que caíra da sua mão quando lhe acertaram o ombro direito, depois de já terem acertado sua perna direita e uma de suas costelas. Mas ele era um rebelde, afinal de contas, e precisava continuar lutando. Os Menegaro já tinham tomado o lado de fora, e estavam agora invadindo o interior do esconderijo, o lugar que por tantos anos ele achou ser seguro.
            Cinco metros. Vamos, você consegue. Quatro metros. Não pode ser tão difícil. Três metros. Não tente lutar contra a dor, aceite ela. Dois metros. Está tão perto agora. Um metro. Você vai morrer como um herói. O metal não estava frio quando o rebelde lhe segurou com força. Continuava quente, prova de que a batalha ainda não havia terminado. Como estava se arrastando de barriga para baixo, precisou fazer um esforço para se virar e ver o que havia por perto. Ao fazer isso, foi surpreendido por um chute em sua mão, e a arma novamente voava pelos ares. “Desisto” pensou ele, “não vou me arrastar tudo aquilo de novo”.
– Pra onde o resto foi? –
            O rebelde deu uma boa olhada em quem havia lhe agredido. Era uma mulher alta, de olhar forte, e cabelos escuros e lisos. Sua beleza o paralisou por um instante, mas o brilho frio naquele olhar o fez despertar para a realidade: aquela mulher era pior do que qualquer carrasco, Menegaro ou Manentti.
– Eu... Eu não sei do que... –
            Aline enfiou a ponta do salto dentro do buraco de bala no ombro do homem caído, e este gritou desesperado.
– Eu sei que vocês têm uma rota de fuga. Meus homens acharam o túnel. Eu só quero saber por quais túneis os fugitivos foram –
            O rebelde se debateu, gritou, mas não disse uma única palavra. Aline continuou olhando para ele, o salto enfiado pela metade dentro do corpo daquele homem. Com uma certa delicadeza, como se estivesse curando aquele machucado, ela virou o pé, girando o salto dentro do buraco de bala e duplicando a dor que este estava causando.
– Nós vamos encontrar eles de um jeito ou de outro, a questão é só o quanto você vai sofrer antes que me diga –
            O soldado, que em nenhum momento usou suas mãos para tentar afastar o pé da torturadora, mostrou de forma rápida e precisa o porquê. Enquanto Aline mantinha sua atenção no rosto sofrido, as mãos dele lutavam para alcançar a faca de combate que tinha presa na cintura. Ao pegá-la, não perdeu tempo e a cravou na perna da mulher, atravessando-a. Ela gritou e caiu para trás, tirando o salto do ombro de seu agredido e agressor. Os soldados que estavam por perto ergueram suas armas simultaneamente e metralharam o que sobrou do homem que levara antes apenas três tiros. Ao constatar que ele estava definitivamente morto, os soldados correram até a filha do grande chefe e a carregaram até o carro mais próximo, chamando o médico de plantão que tinham trazido junto, para cuidar dos feridos da batalha. Aline gemia alto, tentando não chorar, mas a visão da lâmina atravessada em sua carne era desesperadora. Deram-lhe algo para que mordesse quando a faca fosse arrancada. Ela sabia muito bem o que ia acontecer. Já havia torturado muitas pessoas de formas parecidas, e era um de seus grandes prazeres sentir na mão a sensação da faca perfurando o osso. Só que agora era o seu osso, e não havia nada de prazeroso naquilo. O médico trabalhou como pôde, mas não havia mais sedativos ou analgésicos. Ele teve pena da pobre mulher quando pediu para um soldado puxar a faca. Rapidamente, enrolou gaze ao redor do ferimento, pressionando bem. Era tudo o que podia ser feito por enquanto, eles não estavam tão preparados como quando faziam um ataque previamente planejado. Com os berros da filha do chefe estimulando os que estavam por perto a fazer alguma coisa, um soldado empurrou o médico para dentro do carro, fechou a porta e tomou o acento do motorista. Iria leva-los até a mansão, lá outros médicos poderiam ajudar. Mas era com grande pesar que o soldado percebia aos poucos que, não importa qual fosse o resultado da batalha, não seria aquela mulher corajosa e inspiradora quem daria ordens cruéis que ele tão apaixonadamente obedeceria.

            O soldado agora tinha a postura de um comandante. Tendo sido oficialmente promovido para um cargo não oficial, Pedro não era mais o mesmo homem. Andando de um lado para o outro, a expressão dura como se estivesse fazendo força, fazia seu discurso improvisado para aquele bando de pessoas que não entendiam nada do que estava acontecendo. Eles não eram soldados, eram apenas trombadinhas com armas na mão. Pedro não se importou. Uma realidade diferente se deitava sobre seus olhos sonhadores e, se ele tivesse bastante força de vontade, a realidade se curvaria em seu favor, tornando-se aquilo que ele desejava.
– Então é isso. Nós vamos agarrar essa oportunidade, e derrubar de uma vez por todas aquela família de merda que ousa questionar a nossa autoridade – finalizou, dando ênfase a palavra “nossa”.
            Uma mulher que deveria ter entre trinta e quarenta anos, mas que se vestia como se tivesse dezesseis, coberta de tatuagens e mascando um chiclete, levantou o braço. Era a imagem deturbada de uma aluna do ensino médio. Pedro, que se retirava triunfante, parou para escutar o que aquela mulher tinha a dizer.
– O que foi, soldado? –
            A mulher fez uma careta. Mascou seu chiclete por mais alguns segundos, fez uma bolha e só depois de estourá-la decidiu falar.
– Soldado porra nenhuma, meu nome é Taiane, eu tenho dois filhos em casa e quero saber que é você vai fazer se essa merda toda for pro saco –
            Pedro ficou por alguns instantes sem saber o que dizer. Conseguiu, por fim, manter a pose de comandante, embora estivesse suando muito.
– Façam tudo direito, e nada vai dar errado. Nenhuma “merda” vai “pro saco”, isso eu posso garantir –
E então se retirou, preparando-se para o grande ataque que o eternizaria como o mais novo comandante de confiança da verdadeira e única família de Tenemissa.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

32 - Se For Dirigir, Não Bata

            Guilherme caminhava rápido, mas sem fazer barulho. Em nenhum momento tirou os dedos do gatilho de seu mais novo brinquedo: a poderosa e pesada metralhadora. Deveria ter sido mais fácil para o falecido policial carregá-la, mas Guilherme não tinha músculos treinados. Ele se afastava cada vez mais do foco do tiroteio, mas também estava ficando cansado. Ainda assim, parar para descansar agora seria burrice, pois nunca se sabe quem pode estar por perto. Mesmo em um dia comum, jamais deve-se descansar nas ruas. Elas foram feitas para testar os nervos e a coragem. A postura deve ser sempre a de quem expõe um perigo maior do que está exposto. Existem regras invisíveis que todos sabem.
            Talvez tenha sido o cansaço, ou talvez o carro estivesse veloz demais. Guilherme quase não o viu a tempo. Os faróis estavam desligados, e o som do tiroteio abafava o barulho do motor. O automóvel rasgou as ruas em uma velocidade desesperada, e teria atropelado Guilherme se este não tivesse largado a metralhadora e pulado para o lado. Sorte sua que não estava no meio da estrada, e sim terminando de atravessar, ou jamais teria pulado o suficiente. O veículo assassino freou tarde demais, derrapando na pista e indo colidir com uma parede na próxima quadra. O estrago foi feio. Guilherme não se importava nem um pouco. Já teria sumido dali se não fosse por uma leve sensação... ou seria uma visão? Tinha quase certeza de ter visto, mas não poderia ser. O carro passou rápido demais para que ele pudesse reparar em quem estava lá dentro. Mas também houve o grito, isso não se podia negar. Ele ouviu o grito e poderia jurar que... Será verdade? Agora não havia mais volta, a curiosidade não permitira que o ex-rebelde deixasse o local sem ao menos ver antes quem estava lá dentro. E foi o que ele fez.
            Toda a parede do prédio estava arrebentada. O carro não colidira de frente, mas sim arrastou os tijolos baratos para junto de si com a fúria de um raio. Por alguns metros, era possível ver o interior do térreo, onde alguns moradores já se reuniam, observando com mórbida curiosidade o veículo retorcido logo à frente. Este se encontrava em tal estado que era difícil de acreditar que alguém poderia ter sobrevivido. Ainda assim, Guilherme precisava ter certeza. Tossindo em meio a fumaça, ele se aproximou. Outros homens vieram ajudar, e juntos, logo eles conseguiram arrancar a porta que não mais conseguia abrir. Esta era a porta de trás, e de dentro dela caiu um corpo. Era Júnior, a única pessoa que conseguia traduzir as ideias brilhantes de Fernanda, que nunca abrira a boca na vida. O carro estava completamente destruído pelo lado esquerdo, e o motorista deveria ter sido esmagado. Se houvesse um motorista. Fora o morto, três garotas estavam desmaiadas e feridas nos demais assentos. Guilherme reconheceu com espanto que aquela que sentava no banco do carona era a própria Lia. Então não foi mera ilusão, ele realmente ouvira a sua voz, embora ainda não tivesse certeza se seria possível tê-la visto no instante em que o veículo quase o atropelou. Ignorando completamente as outras sobreviventes, Guilherme se jogou para dentro do carro, lutando contra tijolos, poeira e corpos inconscientes para alcançar a única garota que ocupava sua mente. Puxou-a para fora do carro e tentou acordá-la. De algum lugar, uma mulher lhe trouxe água, que ele agradecido derramou no rosto de Lia.
            Ela acordou, confusa. Só então Guilherme reparou bem em sua fisionomia atual. Não se parecia nem um pouco com a imagem de Lia que ele estava acostumado a ver. Ela estava magra demais, a ponto de deixar evidente os ossos do crânio. Seu rosto estava coberto de hematomas, alguns dentes lhe faltavam e seu cabelo parecia ter sido arrancado em muitos pedaços. Não era mais a bela Lia, era um esqueleto que continuava vivo, assombrando a imagem daquela mulher que deveria inspirar apenas sonhos agradáveis.
            Tarde demais para pensar nisso. Com um pouco de esforço, Lia reconheceu Guilherme a sua frente, e sorriu para ele, o que só evidenciou mais o seu estado sofrido. Este não conseguiu retribuir o sorriso, mas passou o braço por detrás da cabeça dela, levantando seu corpo e a abraçou. Ainda era Lia. Ela iria, aos poucos, voltar a ser como era. Ainda era Lia.
            Quando a soltou, ela olhou para a cena dramática do acidente. Homens trabalhavam no carro, agora pegando tudo aquilo que poderiam reaproveitar, enquanto suas mulheres cuidavam dos feridos. Júnior tinha sido jogado em um canto, os bolsos já revirados. Lia percebeu então o que havia acontecido, e foi quando ela reparou que Luiz não estava em lugar algum. Mas havia Magali, e esta estava acordando. Sua amiga, ou talvez até mesmo mãe, precisava de uma palavra de consolo, e Lia foi dá-la. Agachou-se ao seu lado e tomou o pano das mãos de uma das mulheres, cuidando de sua protetora como ela havia cuidado antes da infeliz prisioneira. Entre uma coisa e outra, Lia lhe diria que tudo poderia voltar ao normal agora, não fazia diferença. Ela podia se mudar com os seus filhos para o território dos Manentti, ou algo do tipo. Todos estariam a salvo.
– E você? – Perguntou ela.
            Lia olhou para trás, observando Guilherme e deixando que Magali acompanhasse seu olhar. Ela sabia da história dos dois. Lia contou tudo a ela.
– Nós temos pra onde ir. Nós vamos fugir dessa ilha, ou morrer tentando –
            Magali passou a mão no rosto deformado de Lia, com carinho. Já a tomava por filha, mesmo depois de ter-lhe infligido tanta dor nas sessões quase que diárias de tortura. Mas ambas sabiam que aquilo foi só para manter a máscara. E depois da incrível fuga que arquitetaram e concluíram, quem poderia duvidar do afeto verdadeiro e recíproco?
            Enquanto isso, Guilherme não devolveria o olhar esperançoso de Lia, pois estava prestando atenção em outra coisa. Um detalhe que parecia ter passado despercebido. O motorista com certeza pulou do carro antes deste bater contra a parede, mesmo isso parecendo suicídio. Logo, deveria estar pouco atrás de onde estavam. Guilherme poderia muito bem ter passado por ele sem perceber, distraído demais com a confusão de fumaça e sons. Seus instintos lhe diziam que ele deveria se preparar, que tinha que ter uma arma. Infelizmente, a metralhadora fora esmagada pelo carro quando Guilherme a largou para pular pela sua vida. Agora tudo o que tinha era sua percepção do que havia a sua volta, e não deveria deixar a guarda baixar. Rumou cauteloso em direção ao primeiro beco. Este estava escuro demais para saber se alguém se escondia ali. Não sem antes entrar e verificar cada canto sujo. Ele entrou, e Lia percebeu. A essa altura as outras sobreviventes já estavam conscientes, e Élen procurava desesperada por Luiz, enquanto Fernanda se debruçava por cima do corpo de Júnior, o único que a compreendia, e lhe encarava os olhos vazios, o nariz e queixo quebrados, o sangue que escorria suavemente. Lia seguiu Guilherme, entrando também no beco. Não querendo ficar perto daquelas pessoas estranhas, Élen foi atrás.
            O que elas viram foi dois homens que se encaravam. Nenhum deles podia ver o rosto do outro, então não sabiam se tratar de um encontro entre melhores amigos, e ambos ignoravam as duas mulheres paradas na entrada do beco.
– Você é o motorista? – Perguntou Guilherme, quebrando o silêncio perturbador. Luiz reconheceu com espanto a quem pertencia aquela voz. Em sua mente um turbilhão de escolhas possíveis flutuavam como pequenos balões de diversas cores, e ele tentava em vão agarrar qualquer um deles. Quando finalmente conseguiu, era um balão vermelho que ele guardou em seu subconsciente por muitos anos: o da inveja, misturado com a luxúria, a cobiça e uma generosa dose de ira. Guilherme tinha Lia, e eles iriam fugir juntos, enquanto Luiz havia apostado no homem errado para erguer uma ilha só para si. Confuso, o homem dos óculos quadrados fez um movimento rápido com a mão para pegar sua pistola, considerando o fato de que, sendo ele quem era, Guilherme não reagiria a tempo, pois confiava em seu melhor amigo.
            O que Luiz esqueceu é que Guilherme não sabia quem estava a sua frente. Por puro reflexo, ele agarrou o braço direito de Luiz, e se posicionou de costas contra o inimigo. Empurrando sua cintura contra a do homem nas sombras, Guilherme inclinou o corpo para frente, arremessando o adversário para a rua um pouco mais iluminada, fazendo com que este deixasse cair a sua pistola perto de onde as duas mulheres observavam tudo. Guilherme saiu do beco, só então reconhecendo Luiz enquanto este se levantava, surpreso. Será que seu amigo não o havia reconhecido? Porque ele dirigia um carro com Lia e tantas outras pessoas? Estando perto do tiroteio, ele poderia muito bem ser agora um Menegaro, então estaria apenas seguindo ordens? Mas Luiz o olhava com rancor e não demonstrava qualquer sinal de que não reconhecera antes o homem que tentara matar. Por mais que aquilo o deixasse perplexo, Guilherme tinha de admitir: Luiz não mais era seu amigo. Agora ele era só mais um filho da puta.
            E ambos teriam avançado e se matado a socos, não fosse pelo barulho de uma arma engatilhando. Os homens olharam na direção de onde uma mulher permanecia caída no chão, enquanto outra segurava firmemente uma pistola. Era Élen, que parecia ter nocauteado Lia enquanto esta se distraia para pegar a arma, e agora a adolescente protegeria seu amado Luiz matando Guilherme e quem mais fosse preciso matar para que ela tivesse seu final feliz.

terça-feira, 22 de maio de 2012

31 - O Homem dos Óculos Quadrados

            Luiz deu a ordem, e todos seguiram para a frota de carros simples. Os braços tensos e nervosos erguiam as armas, algumas boas, outras mais simples que os próprios carros. Os Fascin não eram baixo nível como os Manentti, mas também não eram ricos como os Menegaro. Eles nem chegavam a ser um meio-termo, eram apenas a união de pequenas oportunidades, chances que passavam despercebidas pelos olhos exigentes de Hércules e o olhar destreinado e distraído de Giuseppe. As oportunidades dão carros, dão armas, dão homens dispostos a lutar. O que mais alguém poderia querer, quando a intenção é derrubar uma ilha inteira? A sorte é coisa rara, deve-se sempre aproveitar seus momentos de generosidade.
– O que aconteceu, Lu? – Perguntou uma garota de cabelos extremamente curtos, dois piercings na sobrancelha, um na língua e diversos outros espalhados pelo corpo magricela. Ela se mantinha próxima do homem dos óculos quadrados, sempre próxima, esperando um carinho como se fosse um pagamento, ou até mesmo uma caridade.
– Cala a boca e entra logo no carro, Élen – respondeu Luiz, zangado apenas de ouvir a voz da menina submissa. Ele a tinha, e dela usufruía quando quisesse, a hora que quisesse. Mas, quando não queria, não gostava de tê-la por perto. Lhe irritava a postura de escrava a qual ela se submetia. A pobre coitada não deveria ter mais que quatorze anos, e achava que alcançaria o mundo puxando o saco de gângsters com boa reputação. Garotas como ela cedo ou tarde cansavam os seus donos, e eles a atiravam para a rua, para os cachorros, para os puteiros. Mas Élen era nova, e Luiz a treinou como um soldado. Era assim que ele gostaria que ela se visse: como um soldado, quando na verdade ela só lutava para impressioná-lo, para que ele notasse como ela era dedicada. “O que eu fiz pra essa garota gostar tanto assim de mim?”
– Eu vou junto com você no seu carro? – Perguntou Élen, deixando a voz um pouco mais fina, como se falasse com um bebê, enquanto tentava esfregar seu corpo no de Luiz.
– Não, retardada, você vai junto com a Fernanda e o Júnior. Quantas vezes eu vou ter que te falar? Será que você não presta atenção em nada do que eu te digo? –
            Élen se afastou, magoada. Seus olhos já lacrimejavam, então baixou a cabeça, resmungou um “desculpa” em voz baixa e soluçada e saiu correndo em direção ao carro que já a esperava. Luiz não se deixou abalar, apenas repassou os últimos detalhes da informação que acabara de receber para o seu homem de confiança, Valdinei, e seguiram para o carro, dando a partida e liderando uma considerável frota. Afinal, aquela era mais uma das raras oportunidades que a sorte proporcionava, e a família emergente não poderia desperdiçar essa chance.
– Quer dizer então que a Lia fugiu, e a mansão está desprotegida? – Perguntou Valdinei, enquanto dirigia, apenas para puxar de volta o assunto.
– É, isso mesmo. Mas eu já te falei, a gente não vai pra mansão. O Giovanni já mandou um grupo três vezes maior que o nosso pra fazer a história acontecer. Nós vamos é atrás dos que foram perseguir a prisioneira –
– Olha Luiz, sem querer me meter mas... Você não acha isso perda de tempo? Quer dizer, foda-se a prisioneira! Eu to sabendo que foi ela que matou o Jean, mas e daí? O cara tava disfarçado, ninguém sabia que ele era filho do Hércules, qualquer um poderia ter matado ele. A gente tem é que ir com tudo no chefão e mandar o cara pra lua –
– Valdinei, ordens são ordens. Além do mais, o filho mais velho do Hércules ta nessa perseguição, e as ordens são pra capturar ele vivo. Se a batalha ficar difícil no território dos Menegaro, a gente leva o Felipe e pode tentar negociar a vida dele. É assim que o papai Giovanni age: sempre com dois planos na manga –
            O motorista se calou. Não concordava com aquilo, mas tinha que admitir que fazia sentido. Mais cedo, um informante tinha dado a notícia de que Lia escapou da mansão, feito inédito e extraordinário. Agora, todos os informantes estavam alerta, e, quando a perseguição passava na rua deles, Luiz era informado. Ao que isso acontecia, ele ligava para Júnior, que estava dois carros atrás, junto da irritante Élen e da quieta Fernanda. Esta tinha em mãos um mapa, e, na cabeça, um cérebro brilhante. Conforme marcava os pontos em que a perseguição fora vista, já adiantava para onde Lia deveria estar indo, ainda que fossem ruas aleatórias. Ela não sabia pra onde ir, mas Fernanda sabia para onde ela poderia estar indo. Marcava, apontava para Júnior, o único que a entendia, ligando logo em seguida para Luiz, que apontava as direções para Valdinei, que comandava a frota de carros, enquanto Élen choramingava no estofado.
            Desta forma, eles formaram um plano, e este levou um tempo, mas foi um sucesso. Conseguiram contornar a perseguição, dando uma imensa e acelerada volta pela ilha, apenas para chegar à rua em que Lia e Magali aceleravam o carro. Mas eles não chegaram pelo lado dos perseguidores: eles vieram na contra mão. Mais de trinta carros fechavam com facilidade a estrada, mas estes se apertaram para deixar uma passagem livre no meio, um sinal para Lia de que eles vieram ajudar. Esta passou por eles agradecida, enquanto Magali gritava de alegria. Todos aqueles anos em que torturara pessoas, com a esperança de que o velho no supermercado fizesse mesmo parte de algo maior, não foi em vão. Havia algo maior, pessoas dispostas a lutar que vieram até ali para salvá-las.
            Após o carro já quase em chamas ter passado em segurança, os Fascin fecharam novamente a rua. Seus carros não eram blindados, como os carros dos Menegaro, e nem suas armas eram tão potentes, mas eles ainda tinham a maioria, e tinham o desespero. A desvantagem muitas vezes é a marca da vitória, quando esta está do lado da defesa. Quando se luta por uma causa, e não pela vida, é uma mão invisível que aperta o gatilho e dispara a fúria divina contra os inimigos daquele que tem fé. Mas fé todos temos, e todos os gatilhos disparam morte.
            A batalha foi difícil para ambos os lados, mesmo quando Magali trouxe a pequena amostra do arsenal dos Menegaro para os soldados convictos que seguiam Luiz e seu chefe invisível Giovanni. A nova raça era inexperiente demais. Aos poucos, Fascin por Fascin foi derrubado, e Luiz recuou. Seus homens davam a vida para que ele se salvasse e buscasse abrigo nos carros que ficaram para trás. Lia e Magali, que também lutavam na linha de frente, fugiram quando viram que não havia mais esperança. Júnior, Fernanda e Élen já estavam na retaguarda desde o começo do tiroteio.
– Entrem no carro, rápido! – Disse Luiz para estes que o cercavam. Élen chorava de alegria por estar junto com ele sem ter de escutar nenhuma reclamação, mas ele nem a notou no meio do grupo. Cinco lugares, seis pessoas. Não era hora de medir conforto. Apenas sobreviveriam o bastante para fugir e contar o que aconteceu. Se estes eram os homens mandados para perseguir uma prisioneira, Luiz teve pena de seus companheiros que lutariam contra aqueles que defendem a mansão. Os Menegaro eram mesmo mais fortes do que foi estipulado. Ninguém estava pronto para enfrentar o todo-poderoso Hércules.
            Ao ver o carro sair depressa, o que restava do exército não soube mais o que fazer, se ficava ou se corria, ou para onde corria. Foi um massacre.

– Lu, pra onde a gente ta indo? –
            Luiz percebeu então quem estava a bordo, enquanto ignorava completamente a pergunta. Reconheceu a dupla inseparável Júnior e Fernanda, era realmente bom tê-los a bordo. Reconheceu a dona da voz amedrontada, e não era de todo ruim que ela tivesse vindo. A pobre Élen era nova demais para morrer daquele jeito. Havia uma mulher feia e com o rosto sofrido, roupa de empregada suja de sangue. Luiz não sabia quem ela era, mas com certeza poderia ser uma soldado útil. E havia Lia. Luiz já a conhecia, dos tempos em que Tenemissa ainda era apenas tensa e cruel, e não uma zona de guerra triangular. Ela e Guilherme eram mesmo um casal promissor. Ele, seu melhor amigo, seu aprendiz, matou pela primeira vez para proteger o pai: uma facada nas costas do Manentti que viera cobrar o que o velho Bardini devia ao Giuseppe. Eis que começou a brilhante carreira: ao invés de mandar matar aquele moleque que o desafiara, o dono da família mais poderosa da época decidiu que Guilherme seria um belo adendo ao seu crescente exército. O jovem Bardini foi treinado, a dívida do seu pai, perdoada. Meses depois o velho estaria morto, e pela sua vida inteira Guilherme se perguntaria se não teria sido tal perdão uma mentira meramente política. Ainda assim ele continuou firme, até encontrar Lia. Ah, Lia. Luiz entendia muito bem como aquela garota poderia mudar de tal forma a vida de um rapaz prodígio. Os sonhos que ele tinha com ela o perturbavam na época em que a amizade com Guilherme ainda era importante. Antes de sua “fuga”. Luiz riu sozinho ao se lembrar. Mais difícil do que fugir da ilha, é fingir que fugiu, fazer todos acreditarem e manter a farsa por anos. Sair nunca foi um objetivo tão grandioso. Fugir é para os covardes, mentir é para quem pode e sabe. E Luiz se manteve muito bem assim. Mas é claro, alguém tinha que estragar com tudo. E que puta coincidência ser justo o casal maravilha a fazer isso! Os olhos por detrás dos óculos mal continham sua euforia e ira, enquanto deixava seus pensamentos vagarem para oportunidades, teias de coincidências e planos futuros, quando o seu celular tocou. Tudo estava tão certo! Com aquelas poucas pessoas, Luiz poderia escapar em meio ao caos que reinava sobre a ilha. Seria altamente irônico: ele escapando com Lia, ao invés de Guilherme. E não seria uma fuga. Ele jamais foge, isso é para covardes. O homem de óculos quadrados não é covarde, ele apenas estaria expandindo seus horizontes, procurando ilhas maiores para dominar sutilmente, escalando montanhas de pessoas poderosas, enquanto elas eram deixadas para trás sem saber quem as havia traído. Nada disso precisava acontecer, se o plano tivesse seguido seu rumo. Giovanni teria a ilha para si, e Luiz a tiraria dele. Mas agora a ilha era passado, e novas oportunidades haveriam de aparecer para quem tivesse a coragem de explorá-las.
            Após o telefone tocar algumas vezes, todos já o olhavam apreensivos. Lia, que sentava no banco do carona, fez menção de pegar o celular, quando Luiz reagiu e jogou o aparelho pela janela. Este se espatifou no asfalto, tirando do grupo a chance de saber o que estava por vir. Pois eles se dirigiam para o esconderijo, onde Luiz poderia falar com Ícaro, quem sabe fazê-lo se tornar seu aliado. Ninguém poderia imaginar que, naquele momento, o esconderijo estava sendo derrubado de fora para dentro.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

30 - Balas Furam Ideias

             Depois de tanto desespero, era irônico que Gustavo morresse sem ter ninguém ao seu lado. Pessoas corriam para todas as direções, gritando ordens ou pedindo por ajuda, armas, piedade. Nenhum Menegaro se atreveu a invadir as ruínas, mas os rebeldes estavam cercados. Havia apenas o alçapão, e uma saída emergencial, que aguardou anos para ser usada justamente naquela ocasião. Um pequeno túnel pelo qual os tenemissianos revolucionários poderiam escolher esquerda ou direita: entrar no combate a partir de uma rua escura, pegando o inimigo desprevenido, ou fugir por um labirinto de túneis de esgoto para encontrar outro lugar seguro.
            Ícaro liderava poucos rebeldes que não quiseram lutar e foram para a direita. O plano sempre fora esse: se descobertos, a maioria lutava, e uma minoria seria levada para longe, para manter aceso o fogo que aquelas pessoas carregavam. Na frente corriam mulheres e suas crianças, pois muitas tiveram filhos no subsolo. Todos eram tidos como filhos da esperança por uma ilha justa. Alguns pais corriam também, mas outros atiravam e tombavam no campo de batalha que fora deixado para trás. “De qualquer forma” pesavam eles enquanto viam seus companheiros morrer, “eu nunca tive mesmo esperanças de ter uma família, de ser um bom pai”. A grande maioria dos tenemissianos teria pensamentos mais egoístas em seu glorioso leito de morte, mas não aquelas pessoas. Viver como ratos, conviver com a realidade de serem homens e mulheres mortos, tudo aquilo só os fez mais humanos. Provavelmente, eram as únicas pessoas na ilha inteira em que alguém poderia confiar. E neles era confiada a vida de muitas pessoas.
            Entre túneis secretos e túneis de esgoto, o grupo de fugitivos chegou até um ponto em que não havia mais saída. Era uma ampla sala vazia, um pouco mais alta que os corredores, de forma que a escura e putrefata água que os cercava não alcançava o chão elevado. Ícaro esperou que todos chegassem e se acomodassem, sentando no chão como podiam, então parou em pé na frente daquele povo assustado, e fez o seu discurso.
– Hoje aconteceu o que nós mais temíamos! No desespero por ajudar nosso querido amigo Gustavo, Guilherme não foi cauteloso, e nem foram os guardas, e eis que o resultado foi o pior possível. Descobriram nosso esconderijo. Como não sabemos o que aconteceu nessa missão em que Gustavo e, muito provavelmente, Évelin morreram, não podemos afirmar se a nossa rebeldia foi descoberta ou se foi tudo um mero acaso. Mas isso não importa agora. Nossos soldados, nossos amigos, as pessoas com quem nós temos convivido durante todo esse sofrimento, estão agora lá fora, morrendo por nós. E o que nós estamos fazendo? Nós estamos mantendo unida a esperança! Nem que leve décadas a mais do que sonhávamos, mas nós ainda conseguiremos revidar. Nós vamos derrubar esse filhos da puta que levaram tudo que é nosso, e vamos reivindicar Tenemissa, a ilha que será só nossa, para que todos possamos viver livres! –
            Ao contrário do que o homem com a postura encorajadora esperava, ninguém gritou. Ninguém levantou os braços, nem sequer concordou com a cabeça. Todos olhavam apenas desolados para o ruivo que via agora a sua ruína. Alguns nem sequer se deram ao trabalho de olhar para ele, mas mantinham o rosto voltado para o chão, ou para a sua criança. Ficavam em silêncio, encarando o medo nos olhos uns dos outros, ou murmuravam baixinho palavras de consolo. Ninguém mais queria lutar. Ícaro deixou aos poucos sua postura demonstrar o quanto estava decepcionado. Ninguém se importou. Com os passos ecoando incrivelmente alto, ele saiu. Ninguém foi atrás dele. Mais tarde, o ex-revolucionário se encontraria com seu verdadeiro chefe, Giovanni Fascin, e lhe contaria tudo o que aconteceu. O plano brilhante daquele chefão anônimo da futura máfia, indo por água abaixo. Não mais a terceira família representava perigo, não por hora. Um homem como o Fascin sempre tinha um segundo plano, mesmo que isso significasse alguns anos de espera, o que não poderia acontecer. Após acabar com os rebeldes, os Menegaro poderiam muito bem acabar com o Manenti. Talvez em menos de dois anos. Era preciso agir. Era preciso se mostrar e declarar guerra, e, para isso, Giovanni se juntaria ao burro e futuramente desesperado Giuseppe. Tudo ainda poderia correr como planejado. Apenas por isso, Ícaro não foi morto. Ele seria útil nessa nova e arriscada jogada.
– Mas, e os rebeldes? Um número não muito grande, mas significativo ainda está vivo... – perguntou Ícaro, após receber suas novas ordens.
– Deixa isso pra lá. Se eles morrem ou vivem, não nos diz mais respeito – respondeu Fascin.

            Durante a batalha, Guilherme não pegou nem a saída da esquerda, nem a da direita. Ele foi atrás de Yohana, saindo pelo alçapão para enfrentar quem quer que estivesse invadindo. Ele viu aquela inacreditável mulher se jogar na frente do inimigo, dando sua vida por uma oportunidade de revanche. Não foi em vão.
            A ruína não era apenas um bom esconderijo, era um lugar estratégico para se defender, ainda mais de noite. Quem não a conhecia, jamais poderia dizer para onde um guardião poderia ir quando desaparecia atrás de uma coluna qualquer. Mas, para quem conhecia, a mistura de casa aos pedaços, enormes blocos quebrados de concreto pelo jardim que, ele mesmo, era uma pequena selva, aquilo tudo representava inúmeros esconderijos, todos interligados, e a grande maioria com uma boa visão para a rua da frente. Por isso a batalha foi tão difícil para os Menegaro. Eles não conheciam aquele terreno, e apenas uma pessoa mudando de lugar dava, para quem atacava, a impressão de ser um pequeno exército espalhado e escondido no escuro.
            Mas Guilherme não estava a fim de morrer em nome de um ideal. Ele queria sair daquele lugar, queria mudar de planos. Arranjaria outra forma de fugir de Tenemissa mas, primeiro, precisava encontrar Lia. Essa seria a parte difícil, se a ilha entrasse mesmo em uma guerra. Mas as chances de que aqueles soldados fossem bons o bastante para ostentar uma guerra contra a ilha inteira sempre pareceram poucas para Guilherme. Toda a confusão em breve estaria acabada, e logo ninguém sequer se lembraria de que algo de importante ameaçou acontecer. Nada nunca iria mudar, mas Guilherme não precisava ficar para confirmar isso. Esperou o momento certo, e este aconteceu quando os soldados que pegaram o túnel da esquerda saíram pela rua escura atirando nos carros. Por trás deles, os homens se dividiram, alguns atirando no jardim, outros na rua. Durante a confusão, Guilherme se arriscou sair pelo único lado do qual ninguém estava prestando atenção. A noite o cobriu como um manto, e ninguém o avistou. Guilherme poderia correr, mas ainda quis arriscar um pouco mais. Se infiltrou atrás dos carros, junto com os inimigos. Se aproximando cautelosamente de um Menegaro isolado, torceu o seu pescoço, e carregou o corpo para o beco mais próximo, vestindo o seu terno. Agora estava seguro.
            Ao terminar de se vestir, Guilherme reparou que não estava sozinho. Um corpo se contorcia no escuro, gemendo baixo. Era um homem negro, alto e musculoso. Guilherme já o tinha visto, só não sabia aonde. Se aproximou cautelosamente, e este o viu, estremecendo.
– Guilherme – disse ele, baixinho.
– Como você sabe quem eu sou? – Perguntou Guilherme, segurando sua pistola, nervoso. Foi quando se lembrou de onde tinha visto aquele homem: era ele no noticiário quando seu apartamento explodiu. Fora ele quem acionara a granada, e, Guilherme se lembrava bem, estava acompanhada de uma bela mulher de cabelos negros.
– Policial... Menegaro... me pagaram – tentou falar Carlos, juntando todas as forças que tinha. A verdade é que aquele homem não havia reconhecido seu alvo, estava apenas perguntando a única coisa em sua mente para um homem estranho. Mas ainda tinha a cabeça no lugar, e percebeu de imediato que ao menos, havia alcançado sua presa antes de dar o último suspiro.
– Aquela mulher, ela é Menegaro? –
– Sim, Aline. Filha do Hércules. Lia... Com eles – neste momento, o policial foi obrigado a parar por um acesso de tosse, de onde cuspiu o sangue que tanto tentava lhe escapar. Ele empurrou, aos poucos, a metralhadora que estava embaixo de seu corpo em direção à Guilherme. Este a pegou, e encarou seu perseguidor do alto.
– O que você quer que eu faça? –
            Carlos se esforçou para olhar para o alto, e tomou fôlego para que não precisasse parar no meio da frase, agora que estava prestes a dizer suas últimas palavras.
– Mata aquela vaca –
– Vou fazer o possível – respondeu Guilherme, segurando a metralhadora com firmeza. Aos seus pés, jazia um homem que não mais respirava.

domingo, 29 de abril de 2012

29 - Despeça-se dos Nossos Amigos Queridos

            Os vermes tinham curiosidade o bastante para virar a cabeça e ver aquele homem que sangrava ser carregado para dentro das ruínas do que antes fora uma casa símbolo de poder. Ainda assim, ninguém parecia se importar com aquilo. De sangue e de água, oferendas jorram pelos esgotos. Quase todos os viciados jogados naquele chão sujo já haviam visto alguém morrer de forma violenta. Alguns até mesmo já tinham matado. Mas agora não mais representavam perigo algum. Não passavam de pessoas sem vontade própria, escravas de todos os tipos de droga que podiam comprar. Isso era o que Guilherme pensou quando passou por eles pela primeira vez, mas agora ele já sabia. Não havia nenhum verme de verdade, eram apenas atores mortos. Todos da resistência têm o seu turno, sua vez de se fantasiar e fingir que levantar é algo difícil. Ficar um dia inteiro jogados no chão, apenas para manter as aparências. Foi isso que assegurou que aquele esconderijo permanecesse intacto por tanto tempo. E agora, esse tempo estava acabando.
            O alçapão secreto foi aberto sem perguntas. Tudo estava sendo feito muito depressa. Estavam perdendo Gustavo. Até mesmo aqueles que deveriam permanecer deitados, e fingir desinteresse extremo, não resistiram. Levantaram-se e foram atrás para ver o que aconteceria com um dos homens mais divertidos dentre eles, pobres esquecidos. Talvez tenha sido esse o erro. Estavam todos distraídos demais para prestar atenção no casal que se aproximava: um negro alto e musculoso vinha na frente, e uma elegante mulher caminhava atrás, cautelosa. Era o trabalho de Guilherme se certificar de que não estavam sendo seguidos, mas quem poderia culpá-lo? Ele ainda teria que ser interrogado, contar como foi que aquilo aconteceu, por que a missão foi um fracasso. Por que somente ele voltara são e salvo.
            Mas não eram essas as questões em sua cabeça, vendo seu mais novo amigo ser colocado em uma maca improvisada, com pessoas nervosas ao redor falando coisas demais para serem entendidas. Tudo aquilo era muito mais confuso que o próprio tiroteio. A batalha ainda tinha um sentido lógico: eram os aliados do seu lado, e os inimigos de outro. Mas ali estava Gustavo, com seus aliados se aglomerando em um círculo a sua volta. E onde estava o inimigo? Contra o que aquelas pessoas poderiam lutar, quando o estrago já estava feito? O herói estava completamente branco já fazia algum tempo, e ninguém parecia saber exatamente como reverter aquela situação. Eles não tinham equipamentos médicos. Eles não tinham nem mesmo médicos. Ícaro, Guilherme e Yohana permaneciam lado a lado, observando toda aquela loucura, quando se ouviram estampidos que fizeram todos esquecerem do morto que lutava para sobreviver.

            O policial se arriscou. Não poderia deixar de ver até onde aquilo ia dar. Sentia-se mais confiante com sua nova e poderosa arma. Aline, logo atrás, não parecia nem um pouco satisfeita em ter sido metida no tiroteio, mas agora não havia mais volta. Ao contrário de Guilherme, o policial percebeu a farsa do bando rebelde assim que penetrou nos jardins por um muro lateral. Se fosse um dia normal, talvez ele tivesse sido enganado, mas jamais uma pessoa que em minuto está caindo aos pedaços se levantaria tão depressa. Foi o que aconteceu com vários dos atores. Eles se levantavam e corriam para a casa. Com certeza aquilo era um comportamento incomum, devido ao homem ferido que Guilherme carregara. Era uma oportunidade única, Carlos sabia disso. Não podia desperdiçá-la indo embora. Precisava agir. E agiu.
            Logo todos corriam para fora do esconderijo, empunhando suas armas, mas já era tarde. O policial apertava o gatilho com uma fúria enlouquecedora, e não iria parar até que tivesse matado seu alvo. Este corria atrás de Yohana, que foi a primeira a se mobilizar quando ouviu o tiro. Guilherme imaginava ainda que Ícaro estaria logo atrás dele, e que ele saberia o que fazer, que comandaria aquele exército que tanto treinava para uma batalha. Mas Ícaro sumira silenciosamente, quando tudo o que havia ao redor era barulho.
            Enquanto isso uma dupla havia encurralado centenas de soldados. Carlos e Aline estavam dentro da casa. Eles esperaram para que a maioria dos vigias se rendesse à curiosidade, então mataram os que permaneceram em serviço silenciosamente. A intenção era ver até onde conseguiriam chegar, e então segurar o máximo possível a inevitável revanche daquelas pessoas, pois Carlos já chamara reforços policiais e, sem que ele soubesse, Aline também chamara os seus próprios reforços. Mas seus objetivos eram diferentes, e por isso Aline não se arriscou muito em nenhum momento. Ainda assim, sua própria cautela quase a traiu. Quando ela resistiu a entrar na casa, um dos vigias ainda estava vivo do lado de fora, e a viu. Ele se aproximou o bastante para que pudesse fazer pontaria, pois não carregava uma arma com a qual tivesse muita confiança, e foi enquanto se movia que Carlos apareceu do lado de fora novamente, dando ordens para que Aline entrasse. No momento de dúvida, em que o soldado não sabia se voltava para o seu esconderijo, se atirava dali mesmo e em quem, o policial o avistou. Não precisou pensar, pois já tinha a arma na mão, e o outro não conseguiu se mover a tempo. Os poucos tiros que saíram do cano da metralhadora ecoaram alto, se multiplicando pelos prédios da rua e por dentro das paredes do subsolo. Carlos e Aline correram para dentro da casa. Ele já notara para onde os outros tinham ido, então fazia uma boa ideia de em que direção ficava o esconderijo. Para a sorte deles, é quase impossível sair de dentro de um alçapão com alguém mirando diretamente nele, e foi assim que eles conseguiram evitar de serem massacrados por um exército inteiro.

            Yohana empurrava a fila que se fazia na escada. Logo muitos caiam. Não por ela, mas porque quem tentou sair acabava morto, derrubando os outros. Ela parecia não se importar. Viu o alçapão aberto, e percebeu o que estava acontecendo. Alguém estava esperando eles saírem para então atirar. Gritou ordens para que todos se amontoassem perto dela, e eles fizeram, sem questionar se sobreviveriam a o que quer que aquela mulher estivesse planejando.
– Quando eu for, todos vocês vão ao mesmo tempo! –
            E ela foi. Não saiu como os outros, ou como qualquer pessoa normal sairia de um alçapão. Ela saltou da escada direto para o piso térreo, em uma bela demonstração circense, que confundiu o policial por tempo o bastante para que os outros saíssem, mas não por tempo o bastante para que ela própria deixasse de virar um alvo. Carlos metralhou toda a sala da esquerda para a direita, atingindo primeiro Yohana, que morreu antes de tombar no chão. Mas a massa de pessoas que saiam atirando era grande demais, e o policial teve que fugir. Ouvia carros chegando, e sentia a sorte que tinha de que seus companheiros chegaram bem na hora certa.
            Mas nenhum policial se importou de atender ao chamado de Carlos. Os carros que chegavam eram todos Menegaro, e Aline já estava entre eles. Ele nem viu quando que ela se separou dele, mas imaginava que foi enquanto atirava. Ainda assim não parou pra pensar, apenas correu para detrás da cobertura que os automóveis ofereciam. Correu para perto da mulher que o enganou.
– Acho que eles são muitos, ainda bem que você chamou eles – disse Carlos, ofegante da corrida.
– Não foi por você que eu chamei eles. A gente já tava tentando encontrar esse lugar há um bom tempo. Meu pai te contratou para encontrar o Guilherme, e te dispensou quando você falhou. Mas quando desconfiamos que ele poderia ter vindo pra cá, meu pai disse que eu deveria me juntar a você, que você poderia encontrar o esconderijo, se pensasse que isso não era um trabalho pago, mas apenas uma vingança pessoal sua –
– O... o que? Do que você ta falando? –
– Existe uma terceira família, Carlos, os Fascin. Eles estão usando os rebeldes, mentindo pra eles, dizendo que vão lutar por liberdade, para que não precisem sujar as mãos. Eles querem derrubar as duas famílias ao mesmo tempo –
            Carlos parou para pensar naquilo tudo. De dentro da casa, os rebeldes se espalhavam. Havia uma parcela que escapava por uma saída de emergência, tentando não ser pegos pela emboscada para então contra-atacar. A dupla então resolveu sair dos limites do fogo cruzado, indo conversar em um beco próximo.
– Então esse era o seu motivo? Era isso o tempo todo? –
– Fala sério, você ta o que, triste por ter sido usado? Que tipo de policial você é? –
– Ta, eu entendi. Só estou um pouco surpreso. O que vem agora? –
– Agora nós vamos acabar com eles, e, depois vamos por um fim nos Manenti – respondeu Aline, se afastando devagar.
– E a gente? –
            Aline parou, de costas. Com seu corpo contra a Luz, Carlos só podia ver seu vulto. E o vulto virou-se para ele e riu.
– Você não se apaixonou de verdade, se apaixonou? –
            Carlos ficou em silêncio. Sentia-se extremamente burro. Toda a sua vida fora cauteloso, e agora tinha sido enganado.
– Adeus Carlos – disse Aline, e o policial viu sua silhueta se mexer de forma suspeita. Antes que ele pudesse reagir, a mulher sacou sua pistola e atirou no peito do policial. Apenas mais um tiro em meio a tantos outros. E Carlos caiu, sozinho no escuro, se perguntando o que poderia ter feito para que seu destino tivesse sido diferente. Sua assassina estava prestes a abandoná-lo, quando se lembrou da imagem do homem negro vestindo um colete. Apontou novamente a arma para o policial e apertou o gatilho mais uma vez, e outra. Não acertou a sua cabeça, apenas decidiu furar o colete. Ela queria que ele sofresse, que morresse aos poucos. Vingança? Não. Rancor? Não. Aquele homem não tinha feito nada que a fizesse ter raiva dele. Aline gostava de Carlos, de verdade. Ela só gostava mais de matar do que dele.