domingo, 29 de abril de 2012

29 - Despeça-se dos Nossos Amigos Queridos

            Os vermes tinham curiosidade o bastante para virar a cabeça e ver aquele homem que sangrava ser carregado para dentro das ruínas do que antes fora uma casa símbolo de poder. Ainda assim, ninguém parecia se importar com aquilo. De sangue e de água, oferendas jorram pelos esgotos. Quase todos os viciados jogados naquele chão sujo já haviam visto alguém morrer de forma violenta. Alguns até mesmo já tinham matado. Mas agora não mais representavam perigo algum. Não passavam de pessoas sem vontade própria, escravas de todos os tipos de droga que podiam comprar. Isso era o que Guilherme pensou quando passou por eles pela primeira vez, mas agora ele já sabia. Não havia nenhum verme de verdade, eram apenas atores mortos. Todos da resistência têm o seu turno, sua vez de se fantasiar e fingir que levantar é algo difícil. Ficar um dia inteiro jogados no chão, apenas para manter as aparências. Foi isso que assegurou que aquele esconderijo permanecesse intacto por tanto tempo. E agora, esse tempo estava acabando.
            O alçapão secreto foi aberto sem perguntas. Tudo estava sendo feito muito depressa. Estavam perdendo Gustavo. Até mesmo aqueles que deveriam permanecer deitados, e fingir desinteresse extremo, não resistiram. Levantaram-se e foram atrás para ver o que aconteceria com um dos homens mais divertidos dentre eles, pobres esquecidos. Talvez tenha sido esse o erro. Estavam todos distraídos demais para prestar atenção no casal que se aproximava: um negro alto e musculoso vinha na frente, e uma elegante mulher caminhava atrás, cautelosa. Era o trabalho de Guilherme se certificar de que não estavam sendo seguidos, mas quem poderia culpá-lo? Ele ainda teria que ser interrogado, contar como foi que aquilo aconteceu, por que a missão foi um fracasso. Por que somente ele voltara são e salvo.
            Mas não eram essas as questões em sua cabeça, vendo seu mais novo amigo ser colocado em uma maca improvisada, com pessoas nervosas ao redor falando coisas demais para serem entendidas. Tudo aquilo era muito mais confuso que o próprio tiroteio. A batalha ainda tinha um sentido lógico: eram os aliados do seu lado, e os inimigos de outro. Mas ali estava Gustavo, com seus aliados se aglomerando em um círculo a sua volta. E onde estava o inimigo? Contra o que aquelas pessoas poderiam lutar, quando o estrago já estava feito? O herói estava completamente branco já fazia algum tempo, e ninguém parecia saber exatamente como reverter aquela situação. Eles não tinham equipamentos médicos. Eles não tinham nem mesmo médicos. Ícaro, Guilherme e Yohana permaneciam lado a lado, observando toda aquela loucura, quando se ouviram estampidos que fizeram todos esquecerem do morto que lutava para sobreviver.

            O policial se arriscou. Não poderia deixar de ver até onde aquilo ia dar. Sentia-se mais confiante com sua nova e poderosa arma. Aline, logo atrás, não parecia nem um pouco satisfeita em ter sido metida no tiroteio, mas agora não havia mais volta. Ao contrário de Guilherme, o policial percebeu a farsa do bando rebelde assim que penetrou nos jardins por um muro lateral. Se fosse um dia normal, talvez ele tivesse sido enganado, mas jamais uma pessoa que em minuto está caindo aos pedaços se levantaria tão depressa. Foi o que aconteceu com vários dos atores. Eles se levantavam e corriam para a casa. Com certeza aquilo era um comportamento incomum, devido ao homem ferido que Guilherme carregara. Era uma oportunidade única, Carlos sabia disso. Não podia desperdiçá-la indo embora. Precisava agir. E agiu.
            Logo todos corriam para fora do esconderijo, empunhando suas armas, mas já era tarde. O policial apertava o gatilho com uma fúria enlouquecedora, e não iria parar até que tivesse matado seu alvo. Este corria atrás de Yohana, que foi a primeira a se mobilizar quando ouviu o tiro. Guilherme imaginava ainda que Ícaro estaria logo atrás dele, e que ele saberia o que fazer, que comandaria aquele exército que tanto treinava para uma batalha. Mas Ícaro sumira silenciosamente, quando tudo o que havia ao redor era barulho.
            Enquanto isso uma dupla havia encurralado centenas de soldados. Carlos e Aline estavam dentro da casa. Eles esperaram para que a maioria dos vigias se rendesse à curiosidade, então mataram os que permaneceram em serviço silenciosamente. A intenção era ver até onde conseguiriam chegar, e então segurar o máximo possível a inevitável revanche daquelas pessoas, pois Carlos já chamara reforços policiais e, sem que ele soubesse, Aline também chamara os seus próprios reforços. Mas seus objetivos eram diferentes, e por isso Aline não se arriscou muito em nenhum momento. Ainda assim, sua própria cautela quase a traiu. Quando ela resistiu a entrar na casa, um dos vigias ainda estava vivo do lado de fora, e a viu. Ele se aproximou o bastante para que pudesse fazer pontaria, pois não carregava uma arma com a qual tivesse muita confiança, e foi enquanto se movia que Carlos apareceu do lado de fora novamente, dando ordens para que Aline entrasse. No momento de dúvida, em que o soldado não sabia se voltava para o seu esconderijo, se atirava dali mesmo e em quem, o policial o avistou. Não precisou pensar, pois já tinha a arma na mão, e o outro não conseguiu se mover a tempo. Os poucos tiros que saíram do cano da metralhadora ecoaram alto, se multiplicando pelos prédios da rua e por dentro das paredes do subsolo. Carlos e Aline correram para dentro da casa. Ele já notara para onde os outros tinham ido, então fazia uma boa ideia de em que direção ficava o esconderijo. Para a sorte deles, é quase impossível sair de dentro de um alçapão com alguém mirando diretamente nele, e foi assim que eles conseguiram evitar de serem massacrados por um exército inteiro.

            Yohana empurrava a fila que se fazia na escada. Logo muitos caiam. Não por ela, mas porque quem tentou sair acabava morto, derrubando os outros. Ela parecia não se importar. Viu o alçapão aberto, e percebeu o que estava acontecendo. Alguém estava esperando eles saírem para então atirar. Gritou ordens para que todos se amontoassem perto dela, e eles fizeram, sem questionar se sobreviveriam a o que quer que aquela mulher estivesse planejando.
– Quando eu for, todos vocês vão ao mesmo tempo! –
            E ela foi. Não saiu como os outros, ou como qualquer pessoa normal sairia de um alçapão. Ela saltou da escada direto para o piso térreo, em uma bela demonstração circense, que confundiu o policial por tempo o bastante para que os outros saíssem, mas não por tempo o bastante para que ela própria deixasse de virar um alvo. Carlos metralhou toda a sala da esquerda para a direita, atingindo primeiro Yohana, que morreu antes de tombar no chão. Mas a massa de pessoas que saiam atirando era grande demais, e o policial teve que fugir. Ouvia carros chegando, e sentia a sorte que tinha de que seus companheiros chegaram bem na hora certa.
            Mas nenhum policial se importou de atender ao chamado de Carlos. Os carros que chegavam eram todos Menegaro, e Aline já estava entre eles. Ele nem viu quando que ela se separou dele, mas imaginava que foi enquanto atirava. Ainda assim não parou pra pensar, apenas correu para detrás da cobertura que os automóveis ofereciam. Correu para perto da mulher que o enganou.
– Acho que eles são muitos, ainda bem que você chamou eles – disse Carlos, ofegante da corrida.
– Não foi por você que eu chamei eles. A gente já tava tentando encontrar esse lugar há um bom tempo. Meu pai te contratou para encontrar o Guilherme, e te dispensou quando você falhou. Mas quando desconfiamos que ele poderia ter vindo pra cá, meu pai disse que eu deveria me juntar a você, que você poderia encontrar o esconderijo, se pensasse que isso não era um trabalho pago, mas apenas uma vingança pessoal sua –
– O... o que? Do que você ta falando? –
– Existe uma terceira família, Carlos, os Fascin. Eles estão usando os rebeldes, mentindo pra eles, dizendo que vão lutar por liberdade, para que não precisem sujar as mãos. Eles querem derrubar as duas famílias ao mesmo tempo –
            Carlos parou para pensar naquilo tudo. De dentro da casa, os rebeldes se espalhavam. Havia uma parcela que escapava por uma saída de emergência, tentando não ser pegos pela emboscada para então contra-atacar. A dupla então resolveu sair dos limites do fogo cruzado, indo conversar em um beco próximo.
– Então esse era o seu motivo? Era isso o tempo todo? –
– Fala sério, você ta o que, triste por ter sido usado? Que tipo de policial você é? –
– Ta, eu entendi. Só estou um pouco surpreso. O que vem agora? –
– Agora nós vamos acabar com eles, e, depois vamos por um fim nos Manenti – respondeu Aline, se afastando devagar.
– E a gente? –
            Aline parou, de costas. Com seu corpo contra a Luz, Carlos só podia ver seu vulto. E o vulto virou-se para ele e riu.
– Você não se apaixonou de verdade, se apaixonou? –
            Carlos ficou em silêncio. Sentia-se extremamente burro. Toda a sua vida fora cauteloso, e agora tinha sido enganado.
– Adeus Carlos – disse Aline, e o policial viu sua silhueta se mexer de forma suspeita. Antes que ele pudesse reagir, a mulher sacou sua pistola e atirou no peito do policial. Apenas mais um tiro em meio a tantos outros. E Carlos caiu, sozinho no escuro, se perguntando o que poderia ter feito para que seu destino tivesse sido diferente. Sua assassina estava prestes a abandoná-lo, quando se lembrou da imagem do homem negro vestindo um colete. Apontou novamente a arma para o policial e apertou o gatilho mais uma vez, e outra. Não acertou a sua cabeça, apenas decidiu furar o colete. Ela queria que ele sofresse, que morresse aos poucos. Vingança? Não. Rancor? Não. Aquele homem não tinha feito nada que a fizesse ter raiva dele. Aline gostava de Carlos, de verdade. Ela só gostava mais de matar do que dele.

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