Após a euforia, veio o silêncio. Ou quase isso. Apenas o barulho de líquido derramando ecoava pela pequena sala do subsolo. E Lia permanecia quieta, esperando. Precisava saber se sua vingança não tinha sido ouvida pelo guarda que esperava a sua vez do lado de fora.
Com muita cautela, ela pegou a pistola do homem morto no chão que por tanto tempo havia se tornado sua cama. Na parede ele havia deixado seu rifle escorado, descansando inocentemente, pois era um rifle para a segurança da casa, e nunca precisou ser usado. As armas dos soldados que iam para a rua eram todas sujas com o sangue da alma de suas vítimas, mas aquele rifle não. Ele era apenas uma criança, que não tinha ideia nenhuma do que viria em seu futuro. Mas Lia nem sequer tentou pegá-lo. Era pesado demais para ela que, ainda por cima, mal sabia atirar. A pistola serviria mais como uma emergência, sua verdadeira arma mortal era a tesoura na mão esquerda. E foi segurando-a com demasiada força que Lia passou por cima do corpo, pisando descalça em seu sangue, e se dirigiu à escada, única saída do seu “quarto”.
O porão de tortura nada mais era do que um antigo depósito da garagem, antes de ter seu uso trocado para algo mais útil. No último canto da imensidão branca, onde os Menegaro guardavam dezenas de veículos, um guarda esperava pacientemente do lado de uma porta muito discreta, que, não fosse por ela estar sempre acompanhada de homens armados, ninguém jamais notaria. Não quando se há tantos automóveis impressionantes em todo o redor para chamar a atenção.
Abrindo a porta, viria um lance não muito grande, mas também não tão pequeno de escadas. É uma descida quase vertical, e a paredes são muito estreitas. De fora, a impressão é que se vai cair ao tentar descer. De dentro, a impressão é que jamais alguém que passou por tantas torturas conseguiria subir. Mas Lia não mataria uma pessoa para desistir por uma escada. Pé por pé, ela subiu, sempre parando para ouvir. Estava tudo muito silencioso. Como ela não gritara durante o último ato do guarda morto, não deveria haver nenhum motivo para o sentinela do lado de fora desconfiar de algo. Eles já estavam acostumados com a total entrega da sua presa fácil, e foi por isso que Lia tomou coragem para fugir. Ser subestimado é uma oportunidade perfeita quando se está preso.
Leandro, o guarda, ouviu os últimos passos da escada. Seu companheiro estava demorando um pouco, normalmente ele era mais rápido. Deveria ter se cansado, ou ficado tonto na subida. Isso era completamente normal. Quando a porta se abriu, o sentinela virou-se sorrindo, prestes a fazer alguma piada, como sempre fazia, tornando esse hábito tão repetitivo que teria sido mais engraçado se em algum momento ele não falasse nada. E é claro, Lia estava certa. A surpresa é mesmo uma grande arma. Ao ver a garota que ele jugava semi-morta aparecer na sua frente, com uma pistola em uma mão e uma tesoura ensanguentada em outra, Leandro ficou sem ação por dois segundos. Foi todo o tempo que Lia precisava. Com rapidez, ela passou por detrás do guarda e apontou o revólver para a cabeça dele.
– Acho bom você não tentar fazer nada – disse ela, em tom baixo, no ouvido do homem que pela vida inteira nunca precisou temer uma mulher. Agora via o risco que corria de ser morto justamente pelas mãos daquela que ele mais fez sofrer.
– Vai atirar em mim? E então o que, vai atirar em todos os outros guardas que vierem ver o que está acontecendo? – desafiou Leandro, mas Lia sentiu sua voz tremendo. Era tudo o que precisava.
– Você só viu a pistola, né? Nem percebeu que a minha tesoura ta prestes a furar o seu precioso amiguinho, e sabe como eu quero tanto fazer isso! –
O guarda olhou para baixo, nervoso. A garota mantinha a tesoura ensanguentada firmemente apontada para o meio de suas calças. Ele suou frio. A cada minuto se arrependia mais e mais por tudo o que tinha feito a ela. Com as pernas tremendo, ele se deixou conduzir. Ela o estava levando de volta para a sala onde estava presa. O que faria com ele lá embaixo? Seria melhor tentar se livrar agora? Se ele deixasse, ela o mataria silenciosamente no depósito e nenhum guarda viria por ajuda. Mas, se ele se mexesse, ela o acertaria com a tesoura. Descendo as escadas o guarda chegou a conclusão de que não vale a pena perder o pinto apenas para que a prisioneira fosse recapturada. Se fosse para morrer, ele morreria inteiro.
Mas ele pensou duas vezes quando viu o corpo do seu companheiro. Ela faria a mesma coisa, com certeza. No fundo do estômago, Leandro já saboreava a mesma sensação de entrega que ele e os outros tinham feita aquela garota sentir. Não havia nada a ser feito, a não ser esperar. E a espera é a pior parte.
Lia não sentiu pena. Não pensou duas vezes. Ela estava se divertindo. As lágrimas caindo do rosto de sua futura vítima faziam com que ela sentisse vontade de rir. Ainda assim, não se permitiu isso. Algo a dizia que rir quando se está prestes a matar alguém é falta de respeito. Por isso sua expressão ficou o mais séria possível, e até o guarda acreditou que ela não estava gostando de fazer isso, mas era obrigada a fazê-lo. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Até um tempo atrás, ter matado Jean a atormentava em sonhos. Tirar uma vida pela primeira vez... Ela sempre teve esperanças de nunca precisar passar por isso. Mas esses pensamentos eram de antes do que aconteceu com Gabriela. Eram de antes da tortura. Eram de antes do estupro. Lia não mais se importava. Quando via qualquer um dos capangas do Menegaro, ela se lembrava dos olhos castanhos da sua melhor amiga, no momento em que eles deixavam de ser vivos e sonhadores. E então tudo o que ela podia desejar era pegar sua tesoura e tirar deles tudo o que tiraram dela.
Foi o que ela fez novamente. O segundo corpo caiu estirado em cima do primeiro. Sangue por cima de sangue se mistura, tornando cada elixir próprio da vida de dois homens um único líquido sem valor se não pela lembrança. Marcas da violência não pertencem a ninguém: é apenas sangue e nada mais. Lia ficou lá, observando os corpos que agora ela clamara para si, enquanto esperava Magali aparecer. Sua protetora sabia exatamente o que ela tinha feito. O plano foi todo dela. Afinal, até mesmo a tesoura foi ela quem conseguiu. Agora juntas elas fugiriam, e Magali saberia para onde ir. Lia confiava sua vida nela, e como poderia fazer diferente?
Ainda assim, demorou alguns minutos para que a outra aparecesse, seu uniforme de empregada sujo de sangue. Assim como Lia, ela também carregava uma pistola, mas esta era silenciada. A fuga já tinha começado. Sem perder tempo, elas correram para o carro que já tinham escolhido previamente: um esportivo blindado, perfeito para o plano. Tudo estava perfeito, afinal. Magali roubara as chaves e muito dinheiro, uma bolsa com armas e outra com munição. Lia sabia dirigir e muito bem, coisa que sua amiga não poderia fazer sozinha.
Mas antes mesmo de entrarem no carro, vários homens armados apareceram, cercando a garagem. No meio daquele labirinto de automóveis, eles não conseguiam ver onde as duas estavam, e não podiam arriscar disparar naquela coleção multimilionária. Essa foi a sorte de Lia e Magali, que conseguiram chegar até o carro planejado, entrar sem fazer barulho e então dar a partida, dedurando a posição de ambas. Mas já era tarde demais para os guardas, que não sabiam se atiravam ou não. Com muita destreza, Lia escapou da garagem, sem se importar com quem aparecesse na frente do carro. No instante em que saiu, os guardas tiveram a certeza de que podiam atirar, e foi o que fizeram. A blindagem era boa, mas as armas também, e elas eram muitas. O antes belo esportivo parecia agora um carro abandonado, repleto de furos, ainda que nenhum representasse grande perigo para as mulheres que estavam lá dentro. Nem mesmo o grande portão de ferro as impediu de sair, quando o carro acelerou em sua direção, arrebentando-o.
Mas nem mesmo quando saiu dos terrenos da mansão Lia se permitiu relaxar. Mais de vinte carros arrancavam da garagem para persegui-las, e ainda seria um longo caminho até sair do território inimigo.
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