O homem de boa aparência mandou que chamassem seu fiel braço direito, Ícaro. Este já sabia o que estava por vir. Era apenas uma entrevista de rotina, onde ele reportava tudo sobre o plano da resistência para o Chefe Invisível. Ainda assim, o ruivo não parava de arrumar os cabelos, nervoso. Neste dia, pela primeira vez, não trazia boas notícias. Foi até mesmo desencorajador ver o sorriso do manda-chuva, que lhe dava as boas vindas.
– Ícaro! Meu caro amigo, sente-se – disse Giovanni Fascin
E Ícaro se sentou. E Ícaro tomou coragem para contar o que aconteceu. E o que aconteceu lhe custou o cargo, que não mais poderia existir, e quase lhe custou a vida. E ainda havia um peso na consciência que lhe dizia que tudo aquilo foi merecido. Ele fez merda deixando Guilherme sair numa missão. Agora tudo estava arruinado.
Não era nada fácil carregar um peso morto. Gustavo estava prestes a desmaiar, e não mais andava. Guilherme tinha que carrega-lo, o que só fazia dos dois alvos ainda mais fáceis para outra emboscada, mesmo que muito improvável. Eles não conseguiram matar todos, um ou dois fugiram, de certeza, mas um zumbido no ouvido de Guilherme lhe dizia que eles não estavam sozinhos. Confiar nos instintos não é apenas um dom, é uma arte. Quem sabe dela usar pode atravessar a ilha ileso, tomando as ruas certas sempre, com o olhar confiante e atento para o que quer que se mexa.
Seria mesmo uma grande pena se, depois de tudo, Gustavo morresse no caminho. Eles só não foram massacrados pelo seu ato de heroísmo. Mas e então, o que acontece depois? Ele morre, os Manenti descobrem onde fica o esconderijo, e tudo pelo que um dia se lutou voa pelos ares e sucumbe para o esquecimento, escoando pelos esgotos. Guilherme não conseguia entender. Tinha achado ótimo a ideia de lutar por um ideal mas, na prática, não havia o menor sentido. Apenas conseguiam fazer a verdadeira luta aqueles que se sacrificavam, então por que lutar? Foi sentindo o peso cada vez mais sem vida de seu companheiro de briga que Guilherme decidiu que não era aquilo que ele queria. Que, quando chegasse a hora, ele viraria as costas para os seus companheiros sem pensar duas vezes, e fugiria com Lia para longe dali. Isso é a coisa certa a se fazer, não há do que se arrepender depois.
Força. Nojo. Humilhação. Desespero. Arrependimento e novamente força. Finalmente a simples entrega, rezando para que tudo acabe. Foi assim com Lia todas as vezes, em tudo o que faziam com ela, várias vezes por dia. Não fosse por Magali, a prisioneira dos Menegaro já teria esquecido o que significa a palavra “humano”. Mas ter uma amiga, ainda mais por dentro das linhas inimigas, um apoio tão forte que a fez finalmente saber como é se sentir uma filha amada por uma mãe, a deu forças para revidar. Todos já a consideravam semi-morta. Faziam apostas para ver quantos dias mais ela sobreviveria. Ninguém sabia que, embora seu estado deplorável dos primeiros dias fosse genuíno, ela agora estava novamente cheia de forças e esperanças. Para quem não tem nada, isso é simplesmente tudo. Lia viu nos olhos dos soldados que eles não a consideravam mais uma possível ameaça. Eles baixaram a guarda muitas e muitas vezes, e ela não fez nada. Simplesmente se deixou cair, e eles acreditavam em sua falta de força. Eles acreditavam que ela já estava pronta para morrer.
Mas ela nunca esteve. Até mesmo um soldado uma vez viu Magali a ajudando, mas não a dedurou. Apenas comentou, rindo: “deixa ela, essa aí já ta morta mesmo, nem tem mais jeito”. E foi justamente esse soldado que viu a morta se levantar, quando ele já estava tonto e satisfeito, e a viu pegar uma tesoura, e vingar o sangue escorrido de sua carne espirrando o sangue do pescoço do desavisado estuprador. Não, não era apenas um tesoura, era A tesoura. Quando Magali ouviu, fascinada, a história de como Lia matou Jean e enterrou a arma do crime, ela deu o seu jeitinho. Em menos de uma semana, já tinha a tesoura em mãos. Poucos dias depois, surgiu a oportunidade de escondê-la no porão.
Lia adorou a ideia. Segundo sua mais nova protetora, aquele simples objeto simbolizava a queda de toda a opressão. A história já tinha se espalhado, e todos agora já esperava pela imagem da tesoura velha, enferrujada, com antigas marcas de sangue. Lia daria a eles exatamente o que eles queriam ver: sangue novo sendo derramado pela arma que causou o apocalipse pessoal de Tenemissa.
O policial e a Menegaro se mantiveram afastados o tempo todo. Carlos sabia que alguém que sobreviveu aquele tiroteio deveria ter sentidos de aço, então era melhor não arriscar. Aquele rapaz combinava com a descrição de Guilherme. Poderia muito bem ser ele, e isso era uma coincidência tremenda. Se fosse mesmo seu alvo, com certeza, ele jamais entraria em um lugar qualquer carregando um homem ferido, então tinha de estar se dirigindo ao seu esconderijo. E se ele tinha duas pessoas dispostas a se sacrificar em um tiroteio, no esconderijo deveria haver mais. Quem sabe quantos? Eles não poderiam entrar lá se fossem muitos, mas ao menos já saberiam onde é.
A grande surpresa foi quando viu o jovem carregar o seu companheiro para dentro de uma casa quase demolida, repleta de viciados. É claro, quem jamais desconfiaria de um esconderijo onde não há como se esconder? Mas aquilo não fazia sentido, uma hora ou outra, deveria aparecer algum viciado com cérebro o bastante para denunciar aquelas pessoas, se elas morassem mesmo entre eles. E como eles conseguiam guardar armas naquele lugar? E comida? A curiosidade matava o policial. Talvez por isso ele não percebeu que Aline mandava, discretamente, uma mensagem do seu celular para o seu irmão, Felipe. Isso era o tipo de coisa que ele jamais deixaria passar, se as circunstâncias fossem outras. Mas lá estavam os dois, depois de meses sem pistas nenhumas, prestes a encontrar o esconderijo do homem que matou o filho de Hércules Menegaro. O policial já nem sequer precisava mais caçar o rapaz, mas simplesmente não poderia deixar viver alguém que quase o matou com uma granada, que fez um prédio cair em cima dele e ainda por cima, por culpa disso, o fez perder contato com o homem que mais lhe pagava bem: o pai da linda mulher que, propositalmente, estava aos poucos ficando para trás dos passos ansiosos de Carlos. Ela o traíra, como sempre soube que ia fazer, e que mesmo ele já desconfiava disso.
Agora era só esperar a festa começar.
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