– E então? – perguntou Carlos.
O casal seguiu silencioso durante alguns minutos, cada um com seus próprios pensamentos. Mas ambos sabiam que a caçada agora não poderia mais seguir seu ritmo normal. Ou melhor, Carlos sabia, e Aline sempre soube. Depois de mais uns dois minutos, ela respondeu.
– Você me diz –
Carlos freiou o carro com violência, fazendo-o parar quase no meio da estrada. Não havia qualquer outro automóvel na rua para se importar.
– Nem vem com essa. A hora é agora, e é bom você decidir isso sem fazer mais joguinhos. A filha da puta ta com a sua família agora, e se o Guilherme estiver lá também, você sabe o que eu vou fazer – disse ele, raivoso, as palavras saindo rápido da boca.
– É, eu sei – respondeu ela, simplesmente. Parecia não se importar com nada daquilo.
– E aí? De que lado você vai ficar? Porque eu não quero uma cadela atirando pelas minhas costas quando eu tiver invadindo a sua mansãozinha –
– Calma lá, ta legal? Pelo que a gente sabe, eles só pegaram a Lia. O Guilherme ainda deve ta solto por aí, podemos ir atrás dele –
– Do que isso te interessa, afinal? E nem pensa em me enrolar com essa história de que você ta fazendo isso por mim, que eu não acreditei da primeira vez, não vou engolir agora –
Aline olhou friamente para o policial. Parecia estar calculando o que dizer, ou então se poderia contar algo que ainda não tinha dito. Era difícil adivinhar seus pensamentos, pois seus olhos não demonstravam muita coisa. Por fim, a Menegaro suspirou e baixou a cabeça.
– Eu sei que isso parece loucura mas... O que mais eu posso fazer? Ficar trancada na minha casa, como meu pai bem gostaria, fingindo que eu não sou uma prisioneira? Minha vida corre nessas ruas, é nelas que eu quero ficar. Gosto de enganar, de mentir, de oprimir, de persuadir, de intimidar, de matar. Foda-se, quem não gosta? Nada disso eu posso fazer dentro de casa. Merda Carlos, quando meu irmão morreu, eu tive que me esforçar pra não rir de felicidade. Era a minha oportunidade perfeita! Meu pai sempre disse que deixa os filhos viverem a vida deles, mas comigo sempre foi diferente. Aí, quando mataram o Jean, eu sabia que podia usar isso como desculpa pra sair do meu inferno e viver do jeito que eu gosto. Eu já tava te pesquisando antes, porque tinha um outro plano pra fugir. Outra morte que precisasse ser investigada. Mas eu dei sorte, sabe –
Carlos escutou tudo sem sequer pensar em interromper. Apenas prestava atenção, tentando captar qualquer toque de mentira, ou uma emoção atuada. Aquela foi a pior desculpa que já ouviu desde que um imbecil lhe disse que seu cachorro engoliu as drogas, que deveriam ser seu pagamento. Mas ainda assim, por pior que a história lhe parecesse, Carlos acreditou nela. Nos olhos de Aline havia alguma coisa a mais, que fazia diferença da antiga frieza de antes, e não era a determinação brilhante que ele presenciara no dia em que se conheceram. Era uma emoção verdadeira, por mínima que fosse.
– Bom – disse ele calmamente, como se nada tivesse acontecido – acho melhor você se esconder –
– Por que? –
– Vamos invadir bem fundo no território dos Manenti. Existe um lugar ou dois que eu preciso investigar. Até acho que é bem mais provável que o merdinha esteja se escondendo por lá. Ele trabalhava pro Giuseppe, afinal –
Aline passou para o banco de trás, onde permaneceu deitada, enquanto Carlos dirigia em direção a uma parte da ilha onde ela cresceu sabendo que jamais iria ver. Até certa parte do caminho, não tiveram nenhum problema. Ninguém jamais questiona um carro da polícia. Eles podem não estar acima das duas famílias, mas também não estão abaixo. Um policial tem suas próprias regras, seu território é aonde ele quiser ir, respeitando a vontade dos grandes chefes. Abaixo deles, todos estavam sujeitos à corrupção violenta. É temporada de caça em Tenemissa. Tudo o que se move é alvo.
Já era noite quando resolveram parar, não muito longe de seu destino. Sem poder confiar em nenhum motel que havia por aquela região, estacionaram em um beco escuro. Carlos fez questão de expulsar todos os ratos humanos antes de voltar para o carro, onde sua companheira o aguardava provocante no banco de trás. Ele se inclinou em sua direção, sorrindo. Foram tirando a roupa enquanto o policial grande demais tentava passar pelo meio dos dois bancos da frente. Após algum tempo, Aline dormia de um sono pesado, enquanto Carlos aproveitava de apenas um sono leve, não mais que um cochilo. Já era um instinto seu dormir atento quando não se achava em lugar seguro. Seus olhos podiam estar fechados, e sua respiração poderia ser profunda, mas, dentro de sua cabeça, seu cérebro já sabia que ao menor sinal de ruído, ele deveria acordar e comandar seu corpo para agarrar a pistola e virá-la na direção do ruído. E foi exatamente assim que aconteceu.
Já era madrugada quando se ouviram os primeiros disparos. Em um segundo, Carlos estava sentado, nu no banco de trás, com a pistola apontando para o nada na escuridão. Ele ainda não estava acordado, era apenas um reflexo de seu corpo, por isso demorou para perceber o que estava acontecendo. Aline acordou logo depois, e viu o homem que a tinha feito adormecer vestindo seu colete. Ela também ouvira os disparos, que eram muitos, então se apressou a vestir a roupa, embora não tivesse um colete. Carlos já saia silencioso do carro, a arma na mão, quando ela terminou de se vestir. Pelo barulho, deveria ser uma briga de famílias. Levou alguns minutos para eles verem a confusão de carros, e os homens do Manenti que causavam todo aquele barulho. Dava pra perceber de que lado eram apenas pelas roupas.
Carlos e Aline se aproximaram sorrateiramente. Ele fez sinal para que ela não atirasse. Tinha medo que a mulher resolvesse entrar na briga apenas para ajudar a sua família. Os dois jamais poderiam imaginar que não eram com os Menegaro que o pequeno grupo brigava, e sim com apenas três rebeldes. Isso eles só iriam descobrir depois que a maioria dos Manenti estivessem mortos, e a dupla fosse se esgueirar pelo beco escuro no qual o trio se escondeu. Carlos pegou uma metralhadora das mãos de um morto, e Aline se contentou com apenas outra pistola. O mar de corpos se estendia e acabava seguindo pelo beco, extremamente estratégico para resistir uma emboscada daquele tamanho. Vários metros à frente era visível, contra a luz da próxima rua, a silhueta de um homem carregando outro. Este foi o momento em que a dupla viu pela primeira vez seu escorregadio alvo, ainda que não soubessem disso: Guilherme Bardini.
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