Guilherme caminhava rápido, mas sem fazer barulho. Em nenhum momento tirou os dedos do gatilho de seu mais novo brinquedo: a poderosa e pesada metralhadora. Deveria ter sido mais fácil para o falecido policial carregá-la, mas Guilherme não tinha músculos treinados. Ele se afastava cada vez mais do foco do tiroteio, mas também estava ficando cansado. Ainda assim, parar para descansar agora seria burrice, pois nunca se sabe quem pode estar por perto. Mesmo em um dia comum, jamais deve-se descansar nas ruas. Elas foram feitas para testar os nervos e a coragem. A postura deve ser sempre a de quem expõe um perigo maior do que está exposto. Existem regras invisíveis que todos sabem.
Talvez tenha sido o cansaço, ou talvez o carro estivesse veloz demais. Guilherme quase não o viu a tempo. Os faróis estavam desligados, e o som do tiroteio abafava o barulho do motor. O automóvel rasgou as ruas em uma velocidade desesperada, e teria atropelado Guilherme se este não tivesse largado a metralhadora e pulado para o lado. Sorte sua que não estava no meio da estrada, e sim terminando de atravessar, ou jamais teria pulado o suficiente. O veículo assassino freou tarde demais, derrapando na pista e indo colidir com uma parede na próxima quadra. O estrago foi feio. Guilherme não se importava nem um pouco. Já teria sumido dali se não fosse por uma leve sensação... ou seria uma visão? Tinha quase certeza de ter visto, mas não poderia ser. O carro passou rápido demais para que ele pudesse reparar em quem estava lá dentro. Mas também houve o grito, isso não se podia negar. Ele ouviu o grito e poderia jurar que... Será verdade? Agora não havia mais volta, a curiosidade não permitira que o ex-rebelde deixasse o local sem ao menos ver antes quem estava lá dentro. E foi o que ele fez.
Toda a parede do prédio estava arrebentada. O carro não colidira de frente, mas sim arrastou os tijolos baratos para junto de si com a fúria de um raio. Por alguns metros, era possível ver o interior do térreo, onde alguns moradores já se reuniam, observando com mórbida curiosidade o veículo retorcido logo à frente. Este se encontrava em tal estado que era difícil de acreditar que alguém poderia ter sobrevivido. Ainda assim, Guilherme precisava ter certeza. Tossindo em meio a fumaça, ele se aproximou. Outros homens vieram ajudar, e juntos, logo eles conseguiram arrancar a porta que não mais conseguia abrir. Esta era a porta de trás, e de dentro dela caiu um corpo. Era Júnior, a única pessoa que conseguia traduzir as ideias brilhantes de Fernanda, que nunca abrira a boca na vida. O carro estava completamente destruído pelo lado esquerdo, e o motorista deveria ter sido esmagado. Se houvesse um motorista. Fora o morto, três garotas estavam desmaiadas e feridas nos demais assentos. Guilherme reconheceu com espanto que aquela que sentava no banco do carona era a própria Lia. Então não foi mera ilusão, ele realmente ouvira a sua voz, embora ainda não tivesse certeza se seria possível tê-la visto no instante em que o veículo quase o atropelou. Ignorando completamente as outras sobreviventes, Guilherme se jogou para dentro do carro, lutando contra tijolos, poeira e corpos inconscientes para alcançar a única garota que ocupava sua mente. Puxou-a para fora do carro e tentou acordá-la. De algum lugar, uma mulher lhe trouxe água, que ele agradecido derramou no rosto de Lia.
Ela acordou, confusa. Só então Guilherme reparou bem em sua fisionomia atual. Não se parecia nem um pouco com a imagem de Lia que ele estava acostumado a ver. Ela estava magra demais, a ponto de deixar evidente os ossos do crânio. Seu rosto estava coberto de hematomas, alguns dentes lhe faltavam e seu cabelo parecia ter sido arrancado em muitos pedaços. Não era mais a bela Lia, era um esqueleto que continuava vivo, assombrando a imagem daquela mulher que deveria inspirar apenas sonhos agradáveis.
Tarde demais para pensar nisso. Com um pouco de esforço, Lia reconheceu Guilherme a sua frente, e sorriu para ele, o que só evidenciou mais o seu estado sofrido. Este não conseguiu retribuir o sorriso, mas passou o braço por detrás da cabeça dela, levantando seu corpo e a abraçou. Ainda era Lia. Ela iria, aos poucos, voltar a ser como era. Ainda era Lia.
Quando a soltou, ela olhou para a cena dramática do acidente. Homens trabalhavam no carro, agora pegando tudo aquilo que poderiam reaproveitar, enquanto suas mulheres cuidavam dos feridos. Júnior tinha sido jogado em um canto, os bolsos já revirados. Lia percebeu então o que havia acontecido, e foi quando ela reparou que Luiz não estava em lugar algum. Mas havia Magali, e esta estava acordando. Sua amiga, ou talvez até mesmo mãe, precisava de uma palavra de consolo, e Lia foi dá-la. Agachou-se ao seu lado e tomou o pano das mãos de uma das mulheres, cuidando de sua protetora como ela havia cuidado antes da infeliz prisioneira. Entre uma coisa e outra, Lia lhe diria que tudo poderia voltar ao normal agora, não fazia diferença. Ela podia se mudar com os seus filhos para o território dos Manentti, ou algo do tipo. Todos estariam a salvo.
– E você? – Perguntou ela.
Lia olhou para trás, observando Guilherme e deixando que Magali acompanhasse seu olhar. Ela sabia da história dos dois. Lia contou tudo a ela.
– Nós temos pra onde ir. Nós vamos fugir dessa ilha, ou morrer tentando –
Magali passou a mão no rosto deformado de Lia, com carinho. Já a tomava por filha, mesmo depois de ter-lhe infligido tanta dor nas sessões quase que diárias de tortura. Mas ambas sabiam que aquilo foi só para manter a máscara. E depois da incrível fuga que arquitetaram e concluíram, quem poderia duvidar do afeto verdadeiro e recíproco?
Enquanto isso, Guilherme não devolveria o olhar esperançoso de Lia, pois estava prestando atenção em outra coisa. Um detalhe que parecia ter passado despercebido. O motorista com certeza pulou do carro antes deste bater contra a parede, mesmo isso parecendo suicídio. Logo, deveria estar pouco atrás de onde estavam. Guilherme poderia muito bem ter passado por ele sem perceber, distraído demais com a confusão de fumaça e sons. Seus instintos lhe diziam que ele deveria se preparar, que tinha que ter uma arma. Infelizmente, a metralhadora fora esmagada pelo carro quando Guilherme a largou para pular pela sua vida. Agora tudo o que tinha era sua percepção do que havia a sua volta, e não deveria deixar a guarda baixar. Rumou cauteloso em direção ao primeiro beco. Este estava escuro demais para saber se alguém se escondia ali. Não sem antes entrar e verificar cada canto sujo. Ele entrou, e Lia percebeu. A essa altura as outras sobreviventes já estavam conscientes, e Élen procurava desesperada por Luiz, enquanto Fernanda se debruçava por cima do corpo de Júnior, o único que a compreendia, e lhe encarava os olhos vazios, o nariz e queixo quebrados, o sangue que escorria suavemente. Lia seguiu Guilherme, entrando também no beco. Não querendo ficar perto daquelas pessoas estranhas, Élen foi atrás.
O que elas viram foi dois homens que se encaravam. Nenhum deles podia ver o rosto do outro, então não sabiam se tratar de um encontro entre melhores amigos, e ambos ignoravam as duas mulheres paradas na entrada do beco.
– Você é o motorista? – Perguntou Guilherme, quebrando o silêncio perturbador. Luiz reconheceu com espanto a quem pertencia aquela voz. Em sua mente um turbilhão de escolhas possíveis flutuavam como pequenos balões de diversas cores, e ele tentava em vão agarrar qualquer um deles. Quando finalmente conseguiu, era um balão vermelho que ele guardou em seu subconsciente por muitos anos: o da inveja, misturado com a luxúria, a cobiça e uma generosa dose de ira. Guilherme tinha Lia, e eles iriam fugir juntos, enquanto Luiz havia apostado no homem errado para erguer uma ilha só para si. Confuso, o homem dos óculos quadrados fez um movimento rápido com a mão para pegar sua pistola, considerando o fato de que, sendo ele quem era, Guilherme não reagiria a tempo, pois confiava em seu melhor amigo.
O que Luiz esqueceu é que Guilherme não sabia quem estava a sua frente. Por puro reflexo, ele agarrou o braço direito de Luiz, e se posicionou de costas contra o inimigo. Empurrando sua cintura contra a do homem nas sombras, Guilherme inclinou o corpo para frente, arremessando o adversário para a rua um pouco mais iluminada, fazendo com que este deixasse cair a sua pistola perto de onde as duas mulheres observavam tudo. Guilherme saiu do beco, só então reconhecendo Luiz enquanto este se levantava, surpreso. Será que seu amigo não o havia reconhecido? Porque ele dirigia um carro com Lia e tantas outras pessoas? Estando perto do tiroteio, ele poderia muito bem ser agora um Menegaro, então estaria apenas seguindo ordens? Mas Luiz o olhava com rancor e não demonstrava qualquer sinal de que não reconhecera antes o homem que tentara matar. Por mais que aquilo o deixasse perplexo, Guilherme tinha de admitir: Luiz não mais era seu amigo. Agora ele era só mais um filho da puta.
E ambos teriam avançado e se matado a socos, não fosse pelo barulho de uma arma engatilhando. Os homens olharam na direção de onde uma mulher permanecia caída no chão, enquanto outra segurava firmemente uma pistola. Era Élen, que parecia ter nocauteado Lia enquanto esta se distraia para pegar a arma, e agora a adolescente protegeria seu amado Luiz matando Guilherme e quem mais fosse preciso matar para que ela tivesse seu final feliz.