segunda-feira, 28 de maio de 2012

32 - Se For Dirigir, Não Bata

            Guilherme caminhava rápido, mas sem fazer barulho. Em nenhum momento tirou os dedos do gatilho de seu mais novo brinquedo: a poderosa e pesada metralhadora. Deveria ter sido mais fácil para o falecido policial carregá-la, mas Guilherme não tinha músculos treinados. Ele se afastava cada vez mais do foco do tiroteio, mas também estava ficando cansado. Ainda assim, parar para descansar agora seria burrice, pois nunca se sabe quem pode estar por perto. Mesmo em um dia comum, jamais deve-se descansar nas ruas. Elas foram feitas para testar os nervos e a coragem. A postura deve ser sempre a de quem expõe um perigo maior do que está exposto. Existem regras invisíveis que todos sabem.
            Talvez tenha sido o cansaço, ou talvez o carro estivesse veloz demais. Guilherme quase não o viu a tempo. Os faróis estavam desligados, e o som do tiroteio abafava o barulho do motor. O automóvel rasgou as ruas em uma velocidade desesperada, e teria atropelado Guilherme se este não tivesse largado a metralhadora e pulado para o lado. Sorte sua que não estava no meio da estrada, e sim terminando de atravessar, ou jamais teria pulado o suficiente. O veículo assassino freou tarde demais, derrapando na pista e indo colidir com uma parede na próxima quadra. O estrago foi feio. Guilherme não se importava nem um pouco. Já teria sumido dali se não fosse por uma leve sensação... ou seria uma visão? Tinha quase certeza de ter visto, mas não poderia ser. O carro passou rápido demais para que ele pudesse reparar em quem estava lá dentro. Mas também houve o grito, isso não se podia negar. Ele ouviu o grito e poderia jurar que... Será verdade? Agora não havia mais volta, a curiosidade não permitira que o ex-rebelde deixasse o local sem ao menos ver antes quem estava lá dentro. E foi o que ele fez.
            Toda a parede do prédio estava arrebentada. O carro não colidira de frente, mas sim arrastou os tijolos baratos para junto de si com a fúria de um raio. Por alguns metros, era possível ver o interior do térreo, onde alguns moradores já se reuniam, observando com mórbida curiosidade o veículo retorcido logo à frente. Este se encontrava em tal estado que era difícil de acreditar que alguém poderia ter sobrevivido. Ainda assim, Guilherme precisava ter certeza. Tossindo em meio a fumaça, ele se aproximou. Outros homens vieram ajudar, e juntos, logo eles conseguiram arrancar a porta que não mais conseguia abrir. Esta era a porta de trás, e de dentro dela caiu um corpo. Era Júnior, a única pessoa que conseguia traduzir as ideias brilhantes de Fernanda, que nunca abrira a boca na vida. O carro estava completamente destruído pelo lado esquerdo, e o motorista deveria ter sido esmagado. Se houvesse um motorista. Fora o morto, três garotas estavam desmaiadas e feridas nos demais assentos. Guilherme reconheceu com espanto que aquela que sentava no banco do carona era a própria Lia. Então não foi mera ilusão, ele realmente ouvira a sua voz, embora ainda não tivesse certeza se seria possível tê-la visto no instante em que o veículo quase o atropelou. Ignorando completamente as outras sobreviventes, Guilherme se jogou para dentro do carro, lutando contra tijolos, poeira e corpos inconscientes para alcançar a única garota que ocupava sua mente. Puxou-a para fora do carro e tentou acordá-la. De algum lugar, uma mulher lhe trouxe água, que ele agradecido derramou no rosto de Lia.
            Ela acordou, confusa. Só então Guilherme reparou bem em sua fisionomia atual. Não se parecia nem um pouco com a imagem de Lia que ele estava acostumado a ver. Ela estava magra demais, a ponto de deixar evidente os ossos do crânio. Seu rosto estava coberto de hematomas, alguns dentes lhe faltavam e seu cabelo parecia ter sido arrancado em muitos pedaços. Não era mais a bela Lia, era um esqueleto que continuava vivo, assombrando a imagem daquela mulher que deveria inspirar apenas sonhos agradáveis.
            Tarde demais para pensar nisso. Com um pouco de esforço, Lia reconheceu Guilherme a sua frente, e sorriu para ele, o que só evidenciou mais o seu estado sofrido. Este não conseguiu retribuir o sorriso, mas passou o braço por detrás da cabeça dela, levantando seu corpo e a abraçou. Ainda era Lia. Ela iria, aos poucos, voltar a ser como era. Ainda era Lia.
            Quando a soltou, ela olhou para a cena dramática do acidente. Homens trabalhavam no carro, agora pegando tudo aquilo que poderiam reaproveitar, enquanto suas mulheres cuidavam dos feridos. Júnior tinha sido jogado em um canto, os bolsos já revirados. Lia percebeu então o que havia acontecido, e foi quando ela reparou que Luiz não estava em lugar algum. Mas havia Magali, e esta estava acordando. Sua amiga, ou talvez até mesmo mãe, precisava de uma palavra de consolo, e Lia foi dá-la. Agachou-se ao seu lado e tomou o pano das mãos de uma das mulheres, cuidando de sua protetora como ela havia cuidado antes da infeliz prisioneira. Entre uma coisa e outra, Lia lhe diria que tudo poderia voltar ao normal agora, não fazia diferença. Ela podia se mudar com os seus filhos para o território dos Manentti, ou algo do tipo. Todos estariam a salvo.
– E você? – Perguntou ela.
            Lia olhou para trás, observando Guilherme e deixando que Magali acompanhasse seu olhar. Ela sabia da história dos dois. Lia contou tudo a ela.
– Nós temos pra onde ir. Nós vamos fugir dessa ilha, ou morrer tentando –
            Magali passou a mão no rosto deformado de Lia, com carinho. Já a tomava por filha, mesmo depois de ter-lhe infligido tanta dor nas sessões quase que diárias de tortura. Mas ambas sabiam que aquilo foi só para manter a máscara. E depois da incrível fuga que arquitetaram e concluíram, quem poderia duvidar do afeto verdadeiro e recíproco?
            Enquanto isso, Guilherme não devolveria o olhar esperançoso de Lia, pois estava prestando atenção em outra coisa. Um detalhe que parecia ter passado despercebido. O motorista com certeza pulou do carro antes deste bater contra a parede, mesmo isso parecendo suicídio. Logo, deveria estar pouco atrás de onde estavam. Guilherme poderia muito bem ter passado por ele sem perceber, distraído demais com a confusão de fumaça e sons. Seus instintos lhe diziam que ele deveria se preparar, que tinha que ter uma arma. Infelizmente, a metralhadora fora esmagada pelo carro quando Guilherme a largou para pular pela sua vida. Agora tudo o que tinha era sua percepção do que havia a sua volta, e não deveria deixar a guarda baixar. Rumou cauteloso em direção ao primeiro beco. Este estava escuro demais para saber se alguém se escondia ali. Não sem antes entrar e verificar cada canto sujo. Ele entrou, e Lia percebeu. A essa altura as outras sobreviventes já estavam conscientes, e Élen procurava desesperada por Luiz, enquanto Fernanda se debruçava por cima do corpo de Júnior, o único que a compreendia, e lhe encarava os olhos vazios, o nariz e queixo quebrados, o sangue que escorria suavemente. Lia seguiu Guilherme, entrando também no beco. Não querendo ficar perto daquelas pessoas estranhas, Élen foi atrás.
            O que elas viram foi dois homens que se encaravam. Nenhum deles podia ver o rosto do outro, então não sabiam se tratar de um encontro entre melhores amigos, e ambos ignoravam as duas mulheres paradas na entrada do beco.
– Você é o motorista? – Perguntou Guilherme, quebrando o silêncio perturbador. Luiz reconheceu com espanto a quem pertencia aquela voz. Em sua mente um turbilhão de escolhas possíveis flutuavam como pequenos balões de diversas cores, e ele tentava em vão agarrar qualquer um deles. Quando finalmente conseguiu, era um balão vermelho que ele guardou em seu subconsciente por muitos anos: o da inveja, misturado com a luxúria, a cobiça e uma generosa dose de ira. Guilherme tinha Lia, e eles iriam fugir juntos, enquanto Luiz havia apostado no homem errado para erguer uma ilha só para si. Confuso, o homem dos óculos quadrados fez um movimento rápido com a mão para pegar sua pistola, considerando o fato de que, sendo ele quem era, Guilherme não reagiria a tempo, pois confiava em seu melhor amigo.
            O que Luiz esqueceu é que Guilherme não sabia quem estava a sua frente. Por puro reflexo, ele agarrou o braço direito de Luiz, e se posicionou de costas contra o inimigo. Empurrando sua cintura contra a do homem nas sombras, Guilherme inclinou o corpo para frente, arremessando o adversário para a rua um pouco mais iluminada, fazendo com que este deixasse cair a sua pistola perto de onde as duas mulheres observavam tudo. Guilherme saiu do beco, só então reconhecendo Luiz enquanto este se levantava, surpreso. Será que seu amigo não o havia reconhecido? Porque ele dirigia um carro com Lia e tantas outras pessoas? Estando perto do tiroteio, ele poderia muito bem ser agora um Menegaro, então estaria apenas seguindo ordens? Mas Luiz o olhava com rancor e não demonstrava qualquer sinal de que não reconhecera antes o homem que tentara matar. Por mais que aquilo o deixasse perplexo, Guilherme tinha de admitir: Luiz não mais era seu amigo. Agora ele era só mais um filho da puta.
            E ambos teriam avançado e se matado a socos, não fosse pelo barulho de uma arma engatilhando. Os homens olharam na direção de onde uma mulher permanecia caída no chão, enquanto outra segurava firmemente uma pistola. Era Élen, que parecia ter nocauteado Lia enquanto esta se distraia para pegar a arma, e agora a adolescente protegeria seu amado Luiz matando Guilherme e quem mais fosse preciso matar para que ela tivesse seu final feliz.

terça-feira, 22 de maio de 2012

31 - O Homem dos Óculos Quadrados

            Luiz deu a ordem, e todos seguiram para a frota de carros simples. Os braços tensos e nervosos erguiam as armas, algumas boas, outras mais simples que os próprios carros. Os Fascin não eram baixo nível como os Manentti, mas também não eram ricos como os Menegaro. Eles nem chegavam a ser um meio-termo, eram apenas a união de pequenas oportunidades, chances que passavam despercebidas pelos olhos exigentes de Hércules e o olhar destreinado e distraído de Giuseppe. As oportunidades dão carros, dão armas, dão homens dispostos a lutar. O que mais alguém poderia querer, quando a intenção é derrubar uma ilha inteira? A sorte é coisa rara, deve-se sempre aproveitar seus momentos de generosidade.
– O que aconteceu, Lu? – Perguntou uma garota de cabelos extremamente curtos, dois piercings na sobrancelha, um na língua e diversos outros espalhados pelo corpo magricela. Ela se mantinha próxima do homem dos óculos quadrados, sempre próxima, esperando um carinho como se fosse um pagamento, ou até mesmo uma caridade.
– Cala a boca e entra logo no carro, Élen – respondeu Luiz, zangado apenas de ouvir a voz da menina submissa. Ele a tinha, e dela usufruía quando quisesse, a hora que quisesse. Mas, quando não queria, não gostava de tê-la por perto. Lhe irritava a postura de escrava a qual ela se submetia. A pobre coitada não deveria ter mais que quatorze anos, e achava que alcançaria o mundo puxando o saco de gângsters com boa reputação. Garotas como ela cedo ou tarde cansavam os seus donos, e eles a atiravam para a rua, para os cachorros, para os puteiros. Mas Élen era nova, e Luiz a treinou como um soldado. Era assim que ele gostaria que ela se visse: como um soldado, quando na verdade ela só lutava para impressioná-lo, para que ele notasse como ela era dedicada. “O que eu fiz pra essa garota gostar tanto assim de mim?”
– Eu vou junto com você no seu carro? – Perguntou Élen, deixando a voz um pouco mais fina, como se falasse com um bebê, enquanto tentava esfregar seu corpo no de Luiz.
– Não, retardada, você vai junto com a Fernanda e o Júnior. Quantas vezes eu vou ter que te falar? Será que você não presta atenção em nada do que eu te digo? –
            Élen se afastou, magoada. Seus olhos já lacrimejavam, então baixou a cabeça, resmungou um “desculpa” em voz baixa e soluçada e saiu correndo em direção ao carro que já a esperava. Luiz não se deixou abalar, apenas repassou os últimos detalhes da informação que acabara de receber para o seu homem de confiança, Valdinei, e seguiram para o carro, dando a partida e liderando uma considerável frota. Afinal, aquela era mais uma das raras oportunidades que a sorte proporcionava, e a família emergente não poderia desperdiçar essa chance.
– Quer dizer então que a Lia fugiu, e a mansão está desprotegida? – Perguntou Valdinei, enquanto dirigia, apenas para puxar de volta o assunto.
– É, isso mesmo. Mas eu já te falei, a gente não vai pra mansão. O Giovanni já mandou um grupo três vezes maior que o nosso pra fazer a história acontecer. Nós vamos é atrás dos que foram perseguir a prisioneira –
– Olha Luiz, sem querer me meter mas... Você não acha isso perda de tempo? Quer dizer, foda-se a prisioneira! Eu to sabendo que foi ela que matou o Jean, mas e daí? O cara tava disfarçado, ninguém sabia que ele era filho do Hércules, qualquer um poderia ter matado ele. A gente tem é que ir com tudo no chefão e mandar o cara pra lua –
– Valdinei, ordens são ordens. Além do mais, o filho mais velho do Hércules ta nessa perseguição, e as ordens são pra capturar ele vivo. Se a batalha ficar difícil no território dos Menegaro, a gente leva o Felipe e pode tentar negociar a vida dele. É assim que o papai Giovanni age: sempre com dois planos na manga –
            O motorista se calou. Não concordava com aquilo, mas tinha que admitir que fazia sentido. Mais cedo, um informante tinha dado a notícia de que Lia escapou da mansão, feito inédito e extraordinário. Agora, todos os informantes estavam alerta, e, quando a perseguição passava na rua deles, Luiz era informado. Ao que isso acontecia, ele ligava para Júnior, que estava dois carros atrás, junto da irritante Élen e da quieta Fernanda. Esta tinha em mãos um mapa, e, na cabeça, um cérebro brilhante. Conforme marcava os pontos em que a perseguição fora vista, já adiantava para onde Lia deveria estar indo, ainda que fossem ruas aleatórias. Ela não sabia pra onde ir, mas Fernanda sabia para onde ela poderia estar indo. Marcava, apontava para Júnior, o único que a entendia, ligando logo em seguida para Luiz, que apontava as direções para Valdinei, que comandava a frota de carros, enquanto Élen choramingava no estofado.
            Desta forma, eles formaram um plano, e este levou um tempo, mas foi um sucesso. Conseguiram contornar a perseguição, dando uma imensa e acelerada volta pela ilha, apenas para chegar à rua em que Lia e Magali aceleravam o carro. Mas eles não chegaram pelo lado dos perseguidores: eles vieram na contra mão. Mais de trinta carros fechavam com facilidade a estrada, mas estes se apertaram para deixar uma passagem livre no meio, um sinal para Lia de que eles vieram ajudar. Esta passou por eles agradecida, enquanto Magali gritava de alegria. Todos aqueles anos em que torturara pessoas, com a esperança de que o velho no supermercado fizesse mesmo parte de algo maior, não foi em vão. Havia algo maior, pessoas dispostas a lutar que vieram até ali para salvá-las.
            Após o carro já quase em chamas ter passado em segurança, os Fascin fecharam novamente a rua. Seus carros não eram blindados, como os carros dos Menegaro, e nem suas armas eram tão potentes, mas eles ainda tinham a maioria, e tinham o desespero. A desvantagem muitas vezes é a marca da vitória, quando esta está do lado da defesa. Quando se luta por uma causa, e não pela vida, é uma mão invisível que aperta o gatilho e dispara a fúria divina contra os inimigos daquele que tem fé. Mas fé todos temos, e todos os gatilhos disparam morte.
            A batalha foi difícil para ambos os lados, mesmo quando Magali trouxe a pequena amostra do arsenal dos Menegaro para os soldados convictos que seguiam Luiz e seu chefe invisível Giovanni. A nova raça era inexperiente demais. Aos poucos, Fascin por Fascin foi derrubado, e Luiz recuou. Seus homens davam a vida para que ele se salvasse e buscasse abrigo nos carros que ficaram para trás. Lia e Magali, que também lutavam na linha de frente, fugiram quando viram que não havia mais esperança. Júnior, Fernanda e Élen já estavam na retaguarda desde o começo do tiroteio.
– Entrem no carro, rápido! – Disse Luiz para estes que o cercavam. Élen chorava de alegria por estar junto com ele sem ter de escutar nenhuma reclamação, mas ele nem a notou no meio do grupo. Cinco lugares, seis pessoas. Não era hora de medir conforto. Apenas sobreviveriam o bastante para fugir e contar o que aconteceu. Se estes eram os homens mandados para perseguir uma prisioneira, Luiz teve pena de seus companheiros que lutariam contra aqueles que defendem a mansão. Os Menegaro eram mesmo mais fortes do que foi estipulado. Ninguém estava pronto para enfrentar o todo-poderoso Hércules.
            Ao ver o carro sair depressa, o que restava do exército não soube mais o que fazer, se ficava ou se corria, ou para onde corria. Foi um massacre.

– Lu, pra onde a gente ta indo? –
            Luiz percebeu então quem estava a bordo, enquanto ignorava completamente a pergunta. Reconheceu a dupla inseparável Júnior e Fernanda, era realmente bom tê-los a bordo. Reconheceu a dona da voz amedrontada, e não era de todo ruim que ela tivesse vindo. A pobre Élen era nova demais para morrer daquele jeito. Havia uma mulher feia e com o rosto sofrido, roupa de empregada suja de sangue. Luiz não sabia quem ela era, mas com certeza poderia ser uma soldado útil. E havia Lia. Luiz já a conhecia, dos tempos em que Tenemissa ainda era apenas tensa e cruel, e não uma zona de guerra triangular. Ela e Guilherme eram mesmo um casal promissor. Ele, seu melhor amigo, seu aprendiz, matou pela primeira vez para proteger o pai: uma facada nas costas do Manentti que viera cobrar o que o velho Bardini devia ao Giuseppe. Eis que começou a brilhante carreira: ao invés de mandar matar aquele moleque que o desafiara, o dono da família mais poderosa da época decidiu que Guilherme seria um belo adendo ao seu crescente exército. O jovem Bardini foi treinado, a dívida do seu pai, perdoada. Meses depois o velho estaria morto, e pela sua vida inteira Guilherme se perguntaria se não teria sido tal perdão uma mentira meramente política. Ainda assim ele continuou firme, até encontrar Lia. Ah, Lia. Luiz entendia muito bem como aquela garota poderia mudar de tal forma a vida de um rapaz prodígio. Os sonhos que ele tinha com ela o perturbavam na época em que a amizade com Guilherme ainda era importante. Antes de sua “fuga”. Luiz riu sozinho ao se lembrar. Mais difícil do que fugir da ilha, é fingir que fugiu, fazer todos acreditarem e manter a farsa por anos. Sair nunca foi um objetivo tão grandioso. Fugir é para os covardes, mentir é para quem pode e sabe. E Luiz se manteve muito bem assim. Mas é claro, alguém tinha que estragar com tudo. E que puta coincidência ser justo o casal maravilha a fazer isso! Os olhos por detrás dos óculos mal continham sua euforia e ira, enquanto deixava seus pensamentos vagarem para oportunidades, teias de coincidências e planos futuros, quando o seu celular tocou. Tudo estava tão certo! Com aquelas poucas pessoas, Luiz poderia escapar em meio ao caos que reinava sobre a ilha. Seria altamente irônico: ele escapando com Lia, ao invés de Guilherme. E não seria uma fuga. Ele jamais foge, isso é para covardes. O homem de óculos quadrados não é covarde, ele apenas estaria expandindo seus horizontes, procurando ilhas maiores para dominar sutilmente, escalando montanhas de pessoas poderosas, enquanto elas eram deixadas para trás sem saber quem as havia traído. Nada disso precisava acontecer, se o plano tivesse seguido seu rumo. Giovanni teria a ilha para si, e Luiz a tiraria dele. Mas agora a ilha era passado, e novas oportunidades haveriam de aparecer para quem tivesse a coragem de explorá-las.
            Após o telefone tocar algumas vezes, todos já o olhavam apreensivos. Lia, que sentava no banco do carona, fez menção de pegar o celular, quando Luiz reagiu e jogou o aparelho pela janela. Este se espatifou no asfalto, tirando do grupo a chance de saber o que estava por vir. Pois eles se dirigiam para o esconderijo, onde Luiz poderia falar com Ícaro, quem sabe fazê-lo se tornar seu aliado. Ninguém poderia imaginar que, naquele momento, o esconderijo estava sendo derrubado de fora para dentro.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

30 - Balas Furam Ideias

             Depois de tanto desespero, era irônico que Gustavo morresse sem ter ninguém ao seu lado. Pessoas corriam para todas as direções, gritando ordens ou pedindo por ajuda, armas, piedade. Nenhum Menegaro se atreveu a invadir as ruínas, mas os rebeldes estavam cercados. Havia apenas o alçapão, e uma saída emergencial, que aguardou anos para ser usada justamente naquela ocasião. Um pequeno túnel pelo qual os tenemissianos revolucionários poderiam escolher esquerda ou direita: entrar no combate a partir de uma rua escura, pegando o inimigo desprevenido, ou fugir por um labirinto de túneis de esgoto para encontrar outro lugar seguro.
            Ícaro liderava poucos rebeldes que não quiseram lutar e foram para a direita. O plano sempre fora esse: se descobertos, a maioria lutava, e uma minoria seria levada para longe, para manter aceso o fogo que aquelas pessoas carregavam. Na frente corriam mulheres e suas crianças, pois muitas tiveram filhos no subsolo. Todos eram tidos como filhos da esperança por uma ilha justa. Alguns pais corriam também, mas outros atiravam e tombavam no campo de batalha que fora deixado para trás. “De qualquer forma” pesavam eles enquanto viam seus companheiros morrer, “eu nunca tive mesmo esperanças de ter uma família, de ser um bom pai”. A grande maioria dos tenemissianos teria pensamentos mais egoístas em seu glorioso leito de morte, mas não aquelas pessoas. Viver como ratos, conviver com a realidade de serem homens e mulheres mortos, tudo aquilo só os fez mais humanos. Provavelmente, eram as únicas pessoas na ilha inteira em que alguém poderia confiar. E neles era confiada a vida de muitas pessoas.
            Entre túneis secretos e túneis de esgoto, o grupo de fugitivos chegou até um ponto em que não havia mais saída. Era uma ampla sala vazia, um pouco mais alta que os corredores, de forma que a escura e putrefata água que os cercava não alcançava o chão elevado. Ícaro esperou que todos chegassem e se acomodassem, sentando no chão como podiam, então parou em pé na frente daquele povo assustado, e fez o seu discurso.
– Hoje aconteceu o que nós mais temíamos! No desespero por ajudar nosso querido amigo Gustavo, Guilherme não foi cauteloso, e nem foram os guardas, e eis que o resultado foi o pior possível. Descobriram nosso esconderijo. Como não sabemos o que aconteceu nessa missão em que Gustavo e, muito provavelmente, Évelin morreram, não podemos afirmar se a nossa rebeldia foi descoberta ou se foi tudo um mero acaso. Mas isso não importa agora. Nossos soldados, nossos amigos, as pessoas com quem nós temos convivido durante todo esse sofrimento, estão agora lá fora, morrendo por nós. E o que nós estamos fazendo? Nós estamos mantendo unida a esperança! Nem que leve décadas a mais do que sonhávamos, mas nós ainda conseguiremos revidar. Nós vamos derrubar esse filhos da puta que levaram tudo que é nosso, e vamos reivindicar Tenemissa, a ilha que será só nossa, para que todos possamos viver livres! –
            Ao contrário do que o homem com a postura encorajadora esperava, ninguém gritou. Ninguém levantou os braços, nem sequer concordou com a cabeça. Todos olhavam apenas desolados para o ruivo que via agora a sua ruína. Alguns nem sequer se deram ao trabalho de olhar para ele, mas mantinham o rosto voltado para o chão, ou para a sua criança. Ficavam em silêncio, encarando o medo nos olhos uns dos outros, ou murmuravam baixinho palavras de consolo. Ninguém mais queria lutar. Ícaro deixou aos poucos sua postura demonstrar o quanto estava decepcionado. Ninguém se importou. Com os passos ecoando incrivelmente alto, ele saiu. Ninguém foi atrás dele. Mais tarde, o ex-revolucionário se encontraria com seu verdadeiro chefe, Giovanni Fascin, e lhe contaria tudo o que aconteceu. O plano brilhante daquele chefão anônimo da futura máfia, indo por água abaixo. Não mais a terceira família representava perigo, não por hora. Um homem como o Fascin sempre tinha um segundo plano, mesmo que isso significasse alguns anos de espera, o que não poderia acontecer. Após acabar com os rebeldes, os Menegaro poderiam muito bem acabar com o Manenti. Talvez em menos de dois anos. Era preciso agir. Era preciso se mostrar e declarar guerra, e, para isso, Giovanni se juntaria ao burro e futuramente desesperado Giuseppe. Tudo ainda poderia correr como planejado. Apenas por isso, Ícaro não foi morto. Ele seria útil nessa nova e arriscada jogada.
– Mas, e os rebeldes? Um número não muito grande, mas significativo ainda está vivo... – perguntou Ícaro, após receber suas novas ordens.
– Deixa isso pra lá. Se eles morrem ou vivem, não nos diz mais respeito – respondeu Fascin.

            Durante a batalha, Guilherme não pegou nem a saída da esquerda, nem a da direita. Ele foi atrás de Yohana, saindo pelo alçapão para enfrentar quem quer que estivesse invadindo. Ele viu aquela inacreditável mulher se jogar na frente do inimigo, dando sua vida por uma oportunidade de revanche. Não foi em vão.
            A ruína não era apenas um bom esconderijo, era um lugar estratégico para se defender, ainda mais de noite. Quem não a conhecia, jamais poderia dizer para onde um guardião poderia ir quando desaparecia atrás de uma coluna qualquer. Mas, para quem conhecia, a mistura de casa aos pedaços, enormes blocos quebrados de concreto pelo jardim que, ele mesmo, era uma pequena selva, aquilo tudo representava inúmeros esconderijos, todos interligados, e a grande maioria com uma boa visão para a rua da frente. Por isso a batalha foi tão difícil para os Menegaro. Eles não conheciam aquele terreno, e apenas uma pessoa mudando de lugar dava, para quem atacava, a impressão de ser um pequeno exército espalhado e escondido no escuro.
            Mas Guilherme não estava a fim de morrer em nome de um ideal. Ele queria sair daquele lugar, queria mudar de planos. Arranjaria outra forma de fugir de Tenemissa mas, primeiro, precisava encontrar Lia. Essa seria a parte difícil, se a ilha entrasse mesmo em uma guerra. Mas as chances de que aqueles soldados fossem bons o bastante para ostentar uma guerra contra a ilha inteira sempre pareceram poucas para Guilherme. Toda a confusão em breve estaria acabada, e logo ninguém sequer se lembraria de que algo de importante ameaçou acontecer. Nada nunca iria mudar, mas Guilherme não precisava ficar para confirmar isso. Esperou o momento certo, e este aconteceu quando os soldados que pegaram o túnel da esquerda saíram pela rua escura atirando nos carros. Por trás deles, os homens se dividiram, alguns atirando no jardim, outros na rua. Durante a confusão, Guilherme se arriscou sair pelo único lado do qual ninguém estava prestando atenção. A noite o cobriu como um manto, e ninguém o avistou. Guilherme poderia correr, mas ainda quis arriscar um pouco mais. Se infiltrou atrás dos carros, junto com os inimigos. Se aproximando cautelosamente de um Menegaro isolado, torceu o seu pescoço, e carregou o corpo para o beco mais próximo, vestindo o seu terno. Agora estava seguro.
            Ao terminar de se vestir, Guilherme reparou que não estava sozinho. Um corpo se contorcia no escuro, gemendo baixo. Era um homem negro, alto e musculoso. Guilherme já o tinha visto, só não sabia aonde. Se aproximou cautelosamente, e este o viu, estremecendo.
– Guilherme – disse ele, baixinho.
– Como você sabe quem eu sou? – Perguntou Guilherme, segurando sua pistola, nervoso. Foi quando se lembrou de onde tinha visto aquele homem: era ele no noticiário quando seu apartamento explodiu. Fora ele quem acionara a granada, e, Guilherme se lembrava bem, estava acompanhada de uma bela mulher de cabelos negros.
– Policial... Menegaro... me pagaram – tentou falar Carlos, juntando todas as forças que tinha. A verdade é que aquele homem não havia reconhecido seu alvo, estava apenas perguntando a única coisa em sua mente para um homem estranho. Mas ainda tinha a cabeça no lugar, e percebeu de imediato que ao menos, havia alcançado sua presa antes de dar o último suspiro.
– Aquela mulher, ela é Menegaro? –
– Sim, Aline. Filha do Hércules. Lia... Com eles – neste momento, o policial foi obrigado a parar por um acesso de tosse, de onde cuspiu o sangue que tanto tentava lhe escapar. Ele empurrou, aos poucos, a metralhadora que estava embaixo de seu corpo em direção à Guilherme. Este a pegou, e encarou seu perseguidor do alto.
– O que você quer que eu faça? –
            Carlos se esforçou para olhar para o alto, e tomou fôlego para que não precisasse parar no meio da frase, agora que estava prestes a dizer suas últimas palavras.
– Mata aquela vaca –
– Vou fazer o possível – respondeu Guilherme, segurando a metralhadora com firmeza. Aos seus pés, jazia um homem que não mais respirava.