terça-feira, 22 de maio de 2012

31 - O Homem dos Óculos Quadrados

            Luiz deu a ordem, e todos seguiram para a frota de carros simples. Os braços tensos e nervosos erguiam as armas, algumas boas, outras mais simples que os próprios carros. Os Fascin não eram baixo nível como os Manentti, mas também não eram ricos como os Menegaro. Eles nem chegavam a ser um meio-termo, eram apenas a união de pequenas oportunidades, chances que passavam despercebidas pelos olhos exigentes de Hércules e o olhar destreinado e distraído de Giuseppe. As oportunidades dão carros, dão armas, dão homens dispostos a lutar. O que mais alguém poderia querer, quando a intenção é derrubar uma ilha inteira? A sorte é coisa rara, deve-se sempre aproveitar seus momentos de generosidade.
– O que aconteceu, Lu? – Perguntou uma garota de cabelos extremamente curtos, dois piercings na sobrancelha, um na língua e diversos outros espalhados pelo corpo magricela. Ela se mantinha próxima do homem dos óculos quadrados, sempre próxima, esperando um carinho como se fosse um pagamento, ou até mesmo uma caridade.
– Cala a boca e entra logo no carro, Élen – respondeu Luiz, zangado apenas de ouvir a voz da menina submissa. Ele a tinha, e dela usufruía quando quisesse, a hora que quisesse. Mas, quando não queria, não gostava de tê-la por perto. Lhe irritava a postura de escrava a qual ela se submetia. A pobre coitada não deveria ter mais que quatorze anos, e achava que alcançaria o mundo puxando o saco de gângsters com boa reputação. Garotas como ela cedo ou tarde cansavam os seus donos, e eles a atiravam para a rua, para os cachorros, para os puteiros. Mas Élen era nova, e Luiz a treinou como um soldado. Era assim que ele gostaria que ela se visse: como um soldado, quando na verdade ela só lutava para impressioná-lo, para que ele notasse como ela era dedicada. “O que eu fiz pra essa garota gostar tanto assim de mim?”
– Eu vou junto com você no seu carro? – Perguntou Élen, deixando a voz um pouco mais fina, como se falasse com um bebê, enquanto tentava esfregar seu corpo no de Luiz.
– Não, retardada, você vai junto com a Fernanda e o Júnior. Quantas vezes eu vou ter que te falar? Será que você não presta atenção em nada do que eu te digo? –
            Élen se afastou, magoada. Seus olhos já lacrimejavam, então baixou a cabeça, resmungou um “desculpa” em voz baixa e soluçada e saiu correndo em direção ao carro que já a esperava. Luiz não se deixou abalar, apenas repassou os últimos detalhes da informação que acabara de receber para o seu homem de confiança, Valdinei, e seguiram para o carro, dando a partida e liderando uma considerável frota. Afinal, aquela era mais uma das raras oportunidades que a sorte proporcionava, e a família emergente não poderia desperdiçar essa chance.
– Quer dizer então que a Lia fugiu, e a mansão está desprotegida? – Perguntou Valdinei, enquanto dirigia, apenas para puxar de volta o assunto.
– É, isso mesmo. Mas eu já te falei, a gente não vai pra mansão. O Giovanni já mandou um grupo três vezes maior que o nosso pra fazer a história acontecer. Nós vamos é atrás dos que foram perseguir a prisioneira –
– Olha Luiz, sem querer me meter mas... Você não acha isso perda de tempo? Quer dizer, foda-se a prisioneira! Eu to sabendo que foi ela que matou o Jean, mas e daí? O cara tava disfarçado, ninguém sabia que ele era filho do Hércules, qualquer um poderia ter matado ele. A gente tem é que ir com tudo no chefão e mandar o cara pra lua –
– Valdinei, ordens são ordens. Além do mais, o filho mais velho do Hércules ta nessa perseguição, e as ordens são pra capturar ele vivo. Se a batalha ficar difícil no território dos Menegaro, a gente leva o Felipe e pode tentar negociar a vida dele. É assim que o papai Giovanni age: sempre com dois planos na manga –
            O motorista se calou. Não concordava com aquilo, mas tinha que admitir que fazia sentido. Mais cedo, um informante tinha dado a notícia de que Lia escapou da mansão, feito inédito e extraordinário. Agora, todos os informantes estavam alerta, e, quando a perseguição passava na rua deles, Luiz era informado. Ao que isso acontecia, ele ligava para Júnior, que estava dois carros atrás, junto da irritante Élen e da quieta Fernanda. Esta tinha em mãos um mapa, e, na cabeça, um cérebro brilhante. Conforme marcava os pontos em que a perseguição fora vista, já adiantava para onde Lia deveria estar indo, ainda que fossem ruas aleatórias. Ela não sabia pra onde ir, mas Fernanda sabia para onde ela poderia estar indo. Marcava, apontava para Júnior, o único que a entendia, ligando logo em seguida para Luiz, que apontava as direções para Valdinei, que comandava a frota de carros, enquanto Élen choramingava no estofado.
            Desta forma, eles formaram um plano, e este levou um tempo, mas foi um sucesso. Conseguiram contornar a perseguição, dando uma imensa e acelerada volta pela ilha, apenas para chegar à rua em que Lia e Magali aceleravam o carro. Mas eles não chegaram pelo lado dos perseguidores: eles vieram na contra mão. Mais de trinta carros fechavam com facilidade a estrada, mas estes se apertaram para deixar uma passagem livre no meio, um sinal para Lia de que eles vieram ajudar. Esta passou por eles agradecida, enquanto Magali gritava de alegria. Todos aqueles anos em que torturara pessoas, com a esperança de que o velho no supermercado fizesse mesmo parte de algo maior, não foi em vão. Havia algo maior, pessoas dispostas a lutar que vieram até ali para salvá-las.
            Após o carro já quase em chamas ter passado em segurança, os Fascin fecharam novamente a rua. Seus carros não eram blindados, como os carros dos Menegaro, e nem suas armas eram tão potentes, mas eles ainda tinham a maioria, e tinham o desespero. A desvantagem muitas vezes é a marca da vitória, quando esta está do lado da defesa. Quando se luta por uma causa, e não pela vida, é uma mão invisível que aperta o gatilho e dispara a fúria divina contra os inimigos daquele que tem fé. Mas fé todos temos, e todos os gatilhos disparam morte.
            A batalha foi difícil para ambos os lados, mesmo quando Magali trouxe a pequena amostra do arsenal dos Menegaro para os soldados convictos que seguiam Luiz e seu chefe invisível Giovanni. A nova raça era inexperiente demais. Aos poucos, Fascin por Fascin foi derrubado, e Luiz recuou. Seus homens davam a vida para que ele se salvasse e buscasse abrigo nos carros que ficaram para trás. Lia e Magali, que também lutavam na linha de frente, fugiram quando viram que não havia mais esperança. Júnior, Fernanda e Élen já estavam na retaguarda desde o começo do tiroteio.
– Entrem no carro, rápido! – Disse Luiz para estes que o cercavam. Élen chorava de alegria por estar junto com ele sem ter de escutar nenhuma reclamação, mas ele nem a notou no meio do grupo. Cinco lugares, seis pessoas. Não era hora de medir conforto. Apenas sobreviveriam o bastante para fugir e contar o que aconteceu. Se estes eram os homens mandados para perseguir uma prisioneira, Luiz teve pena de seus companheiros que lutariam contra aqueles que defendem a mansão. Os Menegaro eram mesmo mais fortes do que foi estipulado. Ninguém estava pronto para enfrentar o todo-poderoso Hércules.
            Ao ver o carro sair depressa, o que restava do exército não soube mais o que fazer, se ficava ou se corria, ou para onde corria. Foi um massacre.

– Lu, pra onde a gente ta indo? –
            Luiz percebeu então quem estava a bordo, enquanto ignorava completamente a pergunta. Reconheceu a dupla inseparável Júnior e Fernanda, era realmente bom tê-los a bordo. Reconheceu a dona da voz amedrontada, e não era de todo ruim que ela tivesse vindo. A pobre Élen era nova demais para morrer daquele jeito. Havia uma mulher feia e com o rosto sofrido, roupa de empregada suja de sangue. Luiz não sabia quem ela era, mas com certeza poderia ser uma soldado útil. E havia Lia. Luiz já a conhecia, dos tempos em que Tenemissa ainda era apenas tensa e cruel, e não uma zona de guerra triangular. Ela e Guilherme eram mesmo um casal promissor. Ele, seu melhor amigo, seu aprendiz, matou pela primeira vez para proteger o pai: uma facada nas costas do Manentti que viera cobrar o que o velho Bardini devia ao Giuseppe. Eis que começou a brilhante carreira: ao invés de mandar matar aquele moleque que o desafiara, o dono da família mais poderosa da época decidiu que Guilherme seria um belo adendo ao seu crescente exército. O jovem Bardini foi treinado, a dívida do seu pai, perdoada. Meses depois o velho estaria morto, e pela sua vida inteira Guilherme se perguntaria se não teria sido tal perdão uma mentira meramente política. Ainda assim ele continuou firme, até encontrar Lia. Ah, Lia. Luiz entendia muito bem como aquela garota poderia mudar de tal forma a vida de um rapaz prodígio. Os sonhos que ele tinha com ela o perturbavam na época em que a amizade com Guilherme ainda era importante. Antes de sua “fuga”. Luiz riu sozinho ao se lembrar. Mais difícil do que fugir da ilha, é fingir que fugiu, fazer todos acreditarem e manter a farsa por anos. Sair nunca foi um objetivo tão grandioso. Fugir é para os covardes, mentir é para quem pode e sabe. E Luiz se manteve muito bem assim. Mas é claro, alguém tinha que estragar com tudo. E que puta coincidência ser justo o casal maravilha a fazer isso! Os olhos por detrás dos óculos mal continham sua euforia e ira, enquanto deixava seus pensamentos vagarem para oportunidades, teias de coincidências e planos futuros, quando o seu celular tocou. Tudo estava tão certo! Com aquelas poucas pessoas, Luiz poderia escapar em meio ao caos que reinava sobre a ilha. Seria altamente irônico: ele escapando com Lia, ao invés de Guilherme. E não seria uma fuga. Ele jamais foge, isso é para covardes. O homem de óculos quadrados não é covarde, ele apenas estaria expandindo seus horizontes, procurando ilhas maiores para dominar sutilmente, escalando montanhas de pessoas poderosas, enquanto elas eram deixadas para trás sem saber quem as havia traído. Nada disso precisava acontecer, se o plano tivesse seguido seu rumo. Giovanni teria a ilha para si, e Luiz a tiraria dele. Mas agora a ilha era passado, e novas oportunidades haveriam de aparecer para quem tivesse a coragem de explorá-las.
            Após o telefone tocar algumas vezes, todos já o olhavam apreensivos. Lia, que sentava no banco do carona, fez menção de pegar o celular, quando Luiz reagiu e jogou o aparelho pela janela. Este se espatifou no asfalto, tirando do grupo a chance de saber o que estava por vir. Pois eles se dirigiam para o esconderijo, onde Luiz poderia falar com Ícaro, quem sabe fazê-lo se tornar seu aliado. Ninguém poderia imaginar que, naquele momento, o esconderijo estava sendo derrubado de fora para dentro.

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