segunda-feira, 7 de maio de 2012

30 - Balas Furam Ideias

             Depois de tanto desespero, era irônico que Gustavo morresse sem ter ninguém ao seu lado. Pessoas corriam para todas as direções, gritando ordens ou pedindo por ajuda, armas, piedade. Nenhum Menegaro se atreveu a invadir as ruínas, mas os rebeldes estavam cercados. Havia apenas o alçapão, e uma saída emergencial, que aguardou anos para ser usada justamente naquela ocasião. Um pequeno túnel pelo qual os tenemissianos revolucionários poderiam escolher esquerda ou direita: entrar no combate a partir de uma rua escura, pegando o inimigo desprevenido, ou fugir por um labirinto de túneis de esgoto para encontrar outro lugar seguro.
            Ícaro liderava poucos rebeldes que não quiseram lutar e foram para a direita. O plano sempre fora esse: se descobertos, a maioria lutava, e uma minoria seria levada para longe, para manter aceso o fogo que aquelas pessoas carregavam. Na frente corriam mulheres e suas crianças, pois muitas tiveram filhos no subsolo. Todos eram tidos como filhos da esperança por uma ilha justa. Alguns pais corriam também, mas outros atiravam e tombavam no campo de batalha que fora deixado para trás. “De qualquer forma” pesavam eles enquanto viam seus companheiros morrer, “eu nunca tive mesmo esperanças de ter uma família, de ser um bom pai”. A grande maioria dos tenemissianos teria pensamentos mais egoístas em seu glorioso leito de morte, mas não aquelas pessoas. Viver como ratos, conviver com a realidade de serem homens e mulheres mortos, tudo aquilo só os fez mais humanos. Provavelmente, eram as únicas pessoas na ilha inteira em que alguém poderia confiar. E neles era confiada a vida de muitas pessoas.
            Entre túneis secretos e túneis de esgoto, o grupo de fugitivos chegou até um ponto em que não havia mais saída. Era uma ampla sala vazia, um pouco mais alta que os corredores, de forma que a escura e putrefata água que os cercava não alcançava o chão elevado. Ícaro esperou que todos chegassem e se acomodassem, sentando no chão como podiam, então parou em pé na frente daquele povo assustado, e fez o seu discurso.
– Hoje aconteceu o que nós mais temíamos! No desespero por ajudar nosso querido amigo Gustavo, Guilherme não foi cauteloso, e nem foram os guardas, e eis que o resultado foi o pior possível. Descobriram nosso esconderijo. Como não sabemos o que aconteceu nessa missão em que Gustavo e, muito provavelmente, Évelin morreram, não podemos afirmar se a nossa rebeldia foi descoberta ou se foi tudo um mero acaso. Mas isso não importa agora. Nossos soldados, nossos amigos, as pessoas com quem nós temos convivido durante todo esse sofrimento, estão agora lá fora, morrendo por nós. E o que nós estamos fazendo? Nós estamos mantendo unida a esperança! Nem que leve décadas a mais do que sonhávamos, mas nós ainda conseguiremos revidar. Nós vamos derrubar esse filhos da puta que levaram tudo que é nosso, e vamos reivindicar Tenemissa, a ilha que será só nossa, para que todos possamos viver livres! –
            Ao contrário do que o homem com a postura encorajadora esperava, ninguém gritou. Ninguém levantou os braços, nem sequer concordou com a cabeça. Todos olhavam apenas desolados para o ruivo que via agora a sua ruína. Alguns nem sequer se deram ao trabalho de olhar para ele, mas mantinham o rosto voltado para o chão, ou para a sua criança. Ficavam em silêncio, encarando o medo nos olhos uns dos outros, ou murmuravam baixinho palavras de consolo. Ninguém mais queria lutar. Ícaro deixou aos poucos sua postura demonstrar o quanto estava decepcionado. Ninguém se importou. Com os passos ecoando incrivelmente alto, ele saiu. Ninguém foi atrás dele. Mais tarde, o ex-revolucionário se encontraria com seu verdadeiro chefe, Giovanni Fascin, e lhe contaria tudo o que aconteceu. O plano brilhante daquele chefão anônimo da futura máfia, indo por água abaixo. Não mais a terceira família representava perigo, não por hora. Um homem como o Fascin sempre tinha um segundo plano, mesmo que isso significasse alguns anos de espera, o que não poderia acontecer. Após acabar com os rebeldes, os Menegaro poderiam muito bem acabar com o Manenti. Talvez em menos de dois anos. Era preciso agir. Era preciso se mostrar e declarar guerra, e, para isso, Giovanni se juntaria ao burro e futuramente desesperado Giuseppe. Tudo ainda poderia correr como planejado. Apenas por isso, Ícaro não foi morto. Ele seria útil nessa nova e arriscada jogada.
– Mas, e os rebeldes? Um número não muito grande, mas significativo ainda está vivo... – perguntou Ícaro, após receber suas novas ordens.
– Deixa isso pra lá. Se eles morrem ou vivem, não nos diz mais respeito – respondeu Fascin.

            Durante a batalha, Guilherme não pegou nem a saída da esquerda, nem a da direita. Ele foi atrás de Yohana, saindo pelo alçapão para enfrentar quem quer que estivesse invadindo. Ele viu aquela inacreditável mulher se jogar na frente do inimigo, dando sua vida por uma oportunidade de revanche. Não foi em vão.
            A ruína não era apenas um bom esconderijo, era um lugar estratégico para se defender, ainda mais de noite. Quem não a conhecia, jamais poderia dizer para onde um guardião poderia ir quando desaparecia atrás de uma coluna qualquer. Mas, para quem conhecia, a mistura de casa aos pedaços, enormes blocos quebrados de concreto pelo jardim que, ele mesmo, era uma pequena selva, aquilo tudo representava inúmeros esconderijos, todos interligados, e a grande maioria com uma boa visão para a rua da frente. Por isso a batalha foi tão difícil para os Menegaro. Eles não conheciam aquele terreno, e apenas uma pessoa mudando de lugar dava, para quem atacava, a impressão de ser um pequeno exército espalhado e escondido no escuro.
            Mas Guilherme não estava a fim de morrer em nome de um ideal. Ele queria sair daquele lugar, queria mudar de planos. Arranjaria outra forma de fugir de Tenemissa mas, primeiro, precisava encontrar Lia. Essa seria a parte difícil, se a ilha entrasse mesmo em uma guerra. Mas as chances de que aqueles soldados fossem bons o bastante para ostentar uma guerra contra a ilha inteira sempre pareceram poucas para Guilherme. Toda a confusão em breve estaria acabada, e logo ninguém sequer se lembraria de que algo de importante ameaçou acontecer. Nada nunca iria mudar, mas Guilherme não precisava ficar para confirmar isso. Esperou o momento certo, e este aconteceu quando os soldados que pegaram o túnel da esquerda saíram pela rua escura atirando nos carros. Por trás deles, os homens se dividiram, alguns atirando no jardim, outros na rua. Durante a confusão, Guilherme se arriscou sair pelo único lado do qual ninguém estava prestando atenção. A noite o cobriu como um manto, e ninguém o avistou. Guilherme poderia correr, mas ainda quis arriscar um pouco mais. Se infiltrou atrás dos carros, junto com os inimigos. Se aproximando cautelosamente de um Menegaro isolado, torceu o seu pescoço, e carregou o corpo para o beco mais próximo, vestindo o seu terno. Agora estava seguro.
            Ao terminar de se vestir, Guilherme reparou que não estava sozinho. Um corpo se contorcia no escuro, gemendo baixo. Era um homem negro, alto e musculoso. Guilherme já o tinha visto, só não sabia aonde. Se aproximou cautelosamente, e este o viu, estremecendo.
– Guilherme – disse ele, baixinho.
– Como você sabe quem eu sou? – Perguntou Guilherme, segurando sua pistola, nervoso. Foi quando se lembrou de onde tinha visto aquele homem: era ele no noticiário quando seu apartamento explodiu. Fora ele quem acionara a granada, e, Guilherme se lembrava bem, estava acompanhada de uma bela mulher de cabelos negros.
– Policial... Menegaro... me pagaram – tentou falar Carlos, juntando todas as forças que tinha. A verdade é que aquele homem não havia reconhecido seu alvo, estava apenas perguntando a única coisa em sua mente para um homem estranho. Mas ainda tinha a cabeça no lugar, e percebeu de imediato que ao menos, havia alcançado sua presa antes de dar o último suspiro.
– Aquela mulher, ela é Menegaro? –
– Sim, Aline. Filha do Hércules. Lia... Com eles – neste momento, o policial foi obrigado a parar por um acesso de tosse, de onde cuspiu o sangue que tanto tentava lhe escapar. Ele empurrou, aos poucos, a metralhadora que estava embaixo de seu corpo em direção à Guilherme. Este a pegou, e encarou seu perseguidor do alto.
– O que você quer que eu faça? –
            Carlos se esforçou para olhar para o alto, e tomou fôlego para que não precisasse parar no meio da frase, agora que estava prestes a dizer suas últimas palavras.
– Mata aquela vaca –
– Vou fazer o possível – respondeu Guilherme, segurando a metralhadora com firmeza. Aos seus pés, jazia um homem que não mais respirava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário