Guilherme não acreditou quando chegou ao endereço escrito no guardanapo. Muitas coisas passaram pela sua cabeça, como ter lido errado, ou ter mais endereços iguais aquele, ou ter sido enganado por Luiz, ou até mesmo que o tal “lugar seguro” já havia sido descoberto e destruído. Não pensou, porém, que estava certo. Foi mais por curiosidade do que por esperança que ele entrou no terreno acidentado de uma casa muito antiga, construída pedra por pedra e agora poucas paredes ainda se mantinham de pé. O caminho até a entrada deveria ser um jardim, mas agora não passava de um matagal com sinais claros de que era usado por drogados e mendigos. O lugar poderia ser considerado histórico se houvesse uma prefeitura em Tenemissa disposta a glorificar a cultura local.
Não foi de todo surpreso que Guilherme viu várias formas escuras dispersas pelo matagal, que recebia os fortes raios do sol do meio-dia. Os cacos que restavam do que na madrugada tinha sido homens e mulheres, velhos e crianças. Todos perdidos no mundo que não permitia a ninguém sair. O mesmo acontecia dentro das ruínas da casa. Corpos inconscientes se espalhavam pelo chão sujo, foi a primeira coisa que Guilherme reparou quando entrou pelo portal incrivelmente intacto, ao contrário do resto da construção. Talvez Guilherme pensava que não havia perigo andar no meio de tantas pessoas, pois estavam drogadas, ou ele simplesmente estava cansado demais para se importar. Caminhou muito e tinha o sono atrasado. Estava naquele momento imaginando em como aquela casa acabou naquele estado quando percebeu que as pessoas a sua volta mostravam sinais de vida. Alguns gemiam, outros se reviravam no chão, tentando vê-lo. Poucos tentaram levantar, e ninguém conseguiu.
A casa era grande, e quanto mais Guilherme penetrava nela, mais e mais drogados apareciam jogados pelo chão, todos tentando em vão se levantar. Incrivelmente todos pareciam se manter afastados de um único aposento, que, de longe, não demonstrava ser diferente dos demais. Guilherme rumou para o que poderia ter sido o quarto de uma empregada ou um depósito, por ser menor que os outros aposentos da casa. A primeira vista não havia nada, mas era perceptivelmente diferente. Foi quando Guilherme percebeu a diferença que soube que já tinha dado um passo em falso: ouviu o clique de uma arma sendo engatilhada logo atrás de sua cabeça. O quarto tinha menos pó que os outros, como se de vez em quando alguém precisasse limpá-lo. Em um segundo Guilherme soube exatamente o que era o esconderijo: um lugar subterrâneo, guardado por alguém que se disfarça de drogado, e atira em quem entrar sem permissão. Era por isso que precisavam limpar o quarto de vez em quando.
– Quem é você? – Perguntou uma voz feminina, carregada de intencional sensualidade.
– Pergunta interessante. Como quer que eu responda? – respondeu Guilherme, que não pôde evitar de sorrir ao dizer isso. Continuou sorrindo mesmo ao sentir o cano frio de um revólver na parte de trás de sua cabeça.
– A minha pistola gostou de você, sabia? –
– Eu sentiria muito medo se fosse um grandalhão me dizendo isso, mas uma mulher... A não ser que você seja um traveco –
Guilherme subitamente sentiu uma pancada seca que lhe parecia ter rachado seu crânio. A mulher o golpeara sem aviso e ele agora estava sentado no canto oposto do aposento, com sangue escorrendo dos cabelos e tendo de encarar os olhos escuros da bela estranha que agora apontava a arma para sua testa.
– Tenta isso de novo, babaca –
Guilherme não conseguiu pensar no que dizer. Ainda estava tentando entender como foi parar sentado no canto, quando a um segundo atrás estava de pé na entrada do quarto.
– Qual é o problema, tá com dodói, é? – disse ela, sentindo visível prazer naquilo. Socou a barriga de Guilherme com força que não demonstrava ter, e então segurou sua cabeça, forçando-o a encará-la nos olhos – Eu vou perguntar mais uma vez: quem é você? –
– Ouvi dizer que vocês tem uma ótima acomodação pra quem não tem mais pra onde ir – disse Guilherme, ignorando a pergunta e tentando em vão sorrir novamente.
– Olha aqui seu filho da puta, se você não me disser agora qual é o seu nome, eu vou atirar em você –
– Guilherme Bardini – Disse ele, desistindo de tentar sorrir.
A mulher pareceu confusa, e a dúvida se mostrou com clareza em seus olhos negros, que faziam jus a sua pele morena. Ela se afastou depressa, deixando Guilherme sentado. Ele reparou em como ela parecia estar tentando tomar uma decisão importante, e percebeu então o quanto a sua fama havia se espalhado. De repente ela parou, respirou fundo e voltou novamente para a figura sentada no canto, a arma ainda apontada.
– Ei, eu te disse meu nome, agora você tem que me dizer o seu –
– É Yohana – respondeu ela séria, antes de erguer a arma e descê-la velozmente na sua então já machucada vítima, fazendo-a tombar inerte no chão. Sangue se espalhava por todo o recinto. Yohana bufou: teriam que limpar o lugar mais uma vez. Sem nenhum cuidado, arrastou o corpo de Guilherme, e o fez entrar por um alçapão escondido na poeira. Antes de fechar a passagem secreta atrás de si, ela olhou para os lados. Alguns dos inquilinos tentavam ver o que estava acontecendo, ou ao menos se por de pé. Yohana sorriu: nenhum ser humano observou seu trabalho.
Não foi de todo surpreso que Guilherme viu várias formas escuras dispersas pelo matagal, que recebia os fortes raios do sol do meio-dia. Os cacos que restavam do que na madrugada tinha sido homens e mulheres, velhos e crianças. Todos perdidos no mundo que não permitia a ninguém sair. O mesmo acontecia dentro das ruínas da casa. Corpos inconscientes se espalhavam pelo chão sujo, foi a primeira coisa que Guilherme reparou quando entrou pelo portal incrivelmente intacto, ao contrário do resto da construção. Talvez Guilherme pensava que não havia perigo andar no meio de tantas pessoas, pois estavam drogadas, ou ele simplesmente estava cansado demais para se importar. Caminhou muito e tinha o sono atrasado. Estava naquele momento imaginando em como aquela casa acabou naquele estado quando percebeu que as pessoas a sua volta mostravam sinais de vida. Alguns gemiam, outros se reviravam no chão, tentando vê-lo. Poucos tentaram levantar, e ninguém conseguiu.
A casa era grande, e quanto mais Guilherme penetrava nela, mais e mais drogados apareciam jogados pelo chão, todos tentando em vão se levantar. Incrivelmente todos pareciam se manter afastados de um único aposento, que, de longe, não demonstrava ser diferente dos demais. Guilherme rumou para o que poderia ter sido o quarto de uma empregada ou um depósito, por ser menor que os outros aposentos da casa. A primeira vista não havia nada, mas era perceptivelmente diferente. Foi quando Guilherme percebeu a diferença que soube que já tinha dado um passo em falso: ouviu o clique de uma arma sendo engatilhada logo atrás de sua cabeça. O quarto tinha menos pó que os outros, como se de vez em quando alguém precisasse limpá-lo. Em um segundo Guilherme soube exatamente o que era o esconderijo: um lugar subterrâneo, guardado por alguém que se disfarça de drogado, e atira em quem entrar sem permissão. Era por isso que precisavam limpar o quarto de vez em quando.
– Quem é você? – Perguntou uma voz feminina, carregada de intencional sensualidade.
– Pergunta interessante. Como quer que eu responda? – respondeu Guilherme, que não pôde evitar de sorrir ao dizer isso. Continuou sorrindo mesmo ao sentir o cano frio de um revólver na parte de trás de sua cabeça.
– A minha pistola gostou de você, sabia? –
– Eu sentiria muito medo se fosse um grandalhão me dizendo isso, mas uma mulher... A não ser que você seja um traveco –
Guilherme subitamente sentiu uma pancada seca que lhe parecia ter rachado seu crânio. A mulher o golpeara sem aviso e ele agora estava sentado no canto oposto do aposento, com sangue escorrendo dos cabelos e tendo de encarar os olhos escuros da bela estranha que agora apontava a arma para sua testa.
– Tenta isso de novo, babaca –
Guilherme não conseguiu pensar no que dizer. Ainda estava tentando entender como foi parar sentado no canto, quando a um segundo atrás estava de pé na entrada do quarto.
– Qual é o problema, tá com dodói, é? – disse ela, sentindo visível prazer naquilo. Socou a barriga de Guilherme com força que não demonstrava ter, e então segurou sua cabeça, forçando-o a encará-la nos olhos – Eu vou perguntar mais uma vez: quem é você? –
– Ouvi dizer que vocês tem uma ótima acomodação pra quem não tem mais pra onde ir – disse Guilherme, ignorando a pergunta e tentando em vão sorrir novamente.
– Olha aqui seu filho da puta, se você não me disser agora qual é o seu nome, eu vou atirar em você –
– Guilherme Bardini – Disse ele, desistindo de tentar sorrir.
A mulher pareceu confusa, e a dúvida se mostrou com clareza em seus olhos negros, que faziam jus a sua pele morena. Ela se afastou depressa, deixando Guilherme sentado. Ele reparou em como ela parecia estar tentando tomar uma decisão importante, e percebeu então o quanto a sua fama havia se espalhado. De repente ela parou, respirou fundo e voltou novamente para a figura sentada no canto, a arma ainda apontada.
– Ei, eu te disse meu nome, agora você tem que me dizer o seu –
– É Yohana – respondeu ela séria, antes de erguer a arma e descê-la velozmente na sua então já machucada vítima, fazendo-a tombar inerte no chão. Sangue se espalhava por todo o recinto. Yohana bufou: teriam que limpar o lugar mais uma vez. Sem nenhum cuidado, arrastou o corpo de Guilherme, e o fez entrar por um alçapão escondido na poeira. Antes de fechar a passagem secreta atrás de si, ela olhou para os lados. Alguns dos inquilinos tentavam ver o que estava acontecendo, ou ao menos se por de pé. Yohana sorriu: nenhum ser humano observou seu trabalho.