sábado, 28 de janeiro de 2012

16 - O Patrimônio Cultural de Tenemissa

            Guilherme não acreditou quando chegou ao endereço escrito no guardanapo. Muitas coisas passaram pela sua cabeça, como ter lido errado, ou ter mais endereços iguais aquele, ou ter sido enganado por Luiz, ou até mesmo que o tal “lugar seguro” já havia sido descoberto e destruído. Não pensou, porém, que estava certo. Foi mais por curiosidade do que por esperança que ele entrou no terreno acidentado de uma casa muito antiga, construída pedra por pedra e agora poucas paredes ainda se mantinham de pé. O caminho até a entrada deveria ser um jardim, mas agora não passava de um matagal com sinais claros de que era usado por drogados e mendigos. O lugar poderia ser considerado histórico se houvesse uma prefeitura em Tenemissa disposta a glorificar a cultura local.
            Não foi de todo surpreso que Guilherme viu várias formas escuras dispersas pelo matagal, que recebia os fortes raios do sol do meio-dia. Os cacos que restavam do que na madrugada tinha sido homens e mulheres, velhos e crianças. Todos perdidos no mundo que não permitia a ninguém sair. O mesmo acontecia dentro das ruínas da casa. Corpos inconscientes se espalhavam pelo chão sujo, foi a primeira coisa que Guilherme reparou quando entrou pelo portal incrivelmente intacto, ao contrário do resto da construção. Talvez Guilherme pensava que não havia perigo andar no meio de tantas pessoas, pois estavam drogadas, ou ele simplesmente estava cansado demais para se importar. Caminhou muito e tinha o sono atrasado. Estava naquele momento imaginando em como aquela casa acabou naquele estado quando percebeu que as pessoas a sua volta mostravam sinais de vida. Alguns gemiam, outros se reviravam no chão, tentando vê-lo. Poucos tentaram levantar, e ninguém conseguiu.
            A casa era grande, e quanto mais Guilherme penetrava nela, mais e mais drogados apareciam jogados pelo chão, todos tentando em vão se levantar. Incrivelmente todos pareciam se manter afastados de um único aposento, que, de longe, não demonstrava ser diferente dos demais. Guilherme rumou para o que poderia ter sido o quarto de uma empregada ou um depósito, por ser menor que os outros aposentos da casa. A primeira vista não havia nada, mas era perceptivelmente diferente. Foi quando Guilherme percebeu a diferença que soube que já tinha dado um passo em falso: ouviu o clique de uma arma sendo engatilhada logo atrás de sua cabeça. O quarto tinha menos pó que os outros, como se de vez em quando alguém precisasse limpá-lo. Em um segundo Guilherme soube exatamente o que era o esconderijo: um lugar subterrâneo, guardado por alguém que se disfarça de drogado, e atira em quem entrar sem permissão. Era por isso que precisavam limpar o quarto de vez em quando.
– Quem é você? – Perguntou uma voz feminina, carregada de intencional sensualidade.
– Pergunta interessante. Como quer que eu responda? – respondeu Guilherme, que não pôde evitar de sorrir ao dizer isso. Continuou sorrindo mesmo ao sentir o cano frio de um revólver na parte de trás de sua cabeça.
– A minha pistola gostou de você, sabia? –
– Eu sentiria muito medo se fosse um grandalhão me dizendo isso, mas uma mulher... A não ser que você seja um traveco –
            Guilherme subitamente sentiu uma pancada seca que lhe parecia ter rachado seu crânio. A mulher o golpeara sem aviso e ele agora estava sentado no canto oposto do aposento, com sangue escorrendo dos cabelos e tendo de encarar os olhos escuros da bela estranha que agora apontava a arma para sua testa.
– Tenta isso de novo, babaca –
            Guilherme não conseguiu pensar no que dizer. Ainda estava tentando entender como foi parar sentado no canto, quando a um segundo atrás estava de pé na entrada do quarto.
– Qual é o problema, tá com dodói, é? – disse ela, sentindo visível prazer naquilo. Socou a barriga de Guilherme com força que não demonstrava ter, e então segurou sua cabeça, forçando-o a encará-la nos olhos – Eu vou perguntar mais uma vez: quem é você? –
– Ouvi dizer que vocês tem uma ótima acomodação pra quem não tem mais pra onde ir – disse Guilherme, ignorando a pergunta e tentando em vão sorrir novamente.
– Olha aqui seu filho da puta, se você não me disser agora qual é o seu nome, eu vou atirar em você –
– Guilherme Bardini – Disse ele, desistindo de tentar sorrir.
            A mulher pareceu confusa, e a dúvida se mostrou com clareza em seus olhos negros, que faziam jus a sua pele morena. Ela se afastou depressa, deixando Guilherme sentado. Ele reparou em como ela parecia estar tentando tomar uma decisão importante, e percebeu então o quanto a sua fama havia se espalhado. De repente ela parou, respirou fundo e voltou novamente para a figura sentada no canto, a arma ainda apontada.
– Ei, eu te disse meu nome, agora você tem que me dizer o seu –
– É Yohana – respondeu ela séria, antes de erguer a arma e descê-la velozmente na sua então já machucada vítima, fazendo-a tombar inerte no chão. Sangue se espalhava por todo o recinto. Yohana bufou: teriam que limpar o lugar mais uma vez. Sem nenhum cuidado, arrastou o corpo de Guilherme, e o fez entrar por um alçapão escondido na poeira. Antes de fechar a passagem secreta atrás de si, ela olhou para os lados. Alguns dos inquilinos tentavam ver o que estava acontecendo, ou ao menos se por de pé. Yohana sorriu: nenhum ser humano observou seu trabalho.

domingo, 22 de janeiro de 2012

15 - O Donzelo e a Loba Má

            Carlos pegou o celular ao ouvir e toque, parando para pensar se atendia ou não quando viu quem o chamava. Não estava de todo surpreso com a ligação, mas estava chocado por perceber que ficou feliz ao saber que era ela. Decidiu atender.
– Aline? – perguntou, ainda em dúvidas quanto ao motivo da ligação.
– O que você vai fazer? – perguntou ela, como se isso fosse uma saudação óbvia.
– Do que você está falando? –
            Ele sabia do que ela estava falando. A garota ficou tempo demais com ele, e era esperta. Já sabia qual seu próximo passo. Carlos só não conseguia entender qual era o interesse dela em seu trabalho, além de dedurá-lo para o pai. “Afinal, ela quase morreu por minha culpa, deve tá agora mesmo planejando como ferrar comigo”.
– Estou falando de qual é o plano, ou vai me dizer que você desistiu? – ela respondeu.
– Seu pai não vai mais me pagar pra pegar o moleque, por que eu iria atrás dele? – respondeu Carlos, tentando ser profissional.
– Sei, e eu vou simplesmente acreditar que isso não virou pessoal? – Alfinetou Aline. Carlos sentia o sarcasmo voando pelas ondas de rádio até chegar ao seu ouvido.
– Eu faço meu trabalho e é só – Foi o que conseguiu responder, mas já estava intrigado. Ela sabia mais do que aparentava.
– Olha aqui Carlos, não me trate como se eu fosse imbecil. Quem você acha que te indicou pro meu pai pra ir atrás do Guilherme? Eu pesquisei a sua vida, eu te conheço mais do que você mesmo e eu sei que isto é pessoal, assim como já foi outras vezes –
            Aquilo surpreendeu Carlos. Ele podia esperar muita coisa, mas nunca seria capaz de imaginar que aquela mulher fosse capaz de planejar tudo aquilo. Jamais pensaria que Aline é tão perigosa. Pensou então por um momento se, já que ela provavelmente era uma ótima atriz, o quanto ele conheceu dela de verdade. Muito pouco, concluiu, se lembrando do modo como ela espantou quase todos os seus contatos. Era tudo planejado.
– Eu não sei – foi o que conseguiu dizer, e era verdade. O tempo que perdeu por causa da explosão foi precioso demais, seria difícil agora localizar Guilherme e a garota, uma vez que ambos caminhavam pela madrugada. Poderiam estar encobertos, encurralados, terem sido descobertos ou até mesmo terem sido assassinados. Poderia ter acontecido qualquer coisa naquele período de tempo, e o único pensamento que ainda dava esperanças à Carlos é que, não importa onde ou como eles estivessem, eles jamais estariam seguros.
– Vai me dizer que você não pensou em falar com o Manentti? – Arriscou ela. Carlos conseguiu imaginá-la sorrindo para si mesma ao telefone.
– O que você disse? – Perguntou ele, a raiva começando a subir pela garganta.
– Olha só, eu sei que você não tem lados, não precisa... – Continuou Aline, sabendo exatamente o que estava fazendo com seu ex-parceiro.
– Eu não tenho lados, mas não sou um cachorro vira-lata! Não vou sair a procura de ninguém implorando por ajuda. Se eu for trabalhar pra ele, então vai ser porque ELE pediu a minha ajuda – Explodiu o policial. Pela parede barata do hotel, pode perceber su vizinho baixando o volume da televisão. Era melhor se controlar.
– Tá, tá, desculpa, sinto muito se feri seu orgulho – retrucou ela, em um tom sarcástico e cansado de quem está entediada com a conversa – Vai ir atrás dele por conta própria agora? –
– Vou, mas o que isso tem a ver com você? – disse Carlos. Havia esquecido completamente que devia manter a cautela quando falava com aquela mulher. “Deixei a guarda baixa e agora ela já sabe muito. Eu nem deveria ter atendido”
– O que você acha? Eu vou com você – respondeu ela, como se fosse a atitude mais sensata a se fazer.
– Vai à merda, isso sim. Você não vem comigo –
– Olha aqui seu idiota aquele Guilherme matou o meu irmão. Eu vou com você –
– Como se o seu pai já não tivesse encontrado outra pessoa pra fazer o serviço... Ah! Vai ver essa outra pessoa tem juízo e não deixou você ir junto atrapalhar a missão –
            Carlos ouviu Aline xingar baixo do outro lado da linha. Podia ser ela, podia ser apenas outra atuação. Ou podia ser que todas as atuações fossem mesmo ela, que não passava de uma mulher complicada.
– Meu pai arranjou sim, mas ele não vai me deixar sair daqui e se eu fosse com... Se eu não for com você ele vai saber onde eu estou –
– O que é que foi, ele mandou um ex-namorado seu ou algo assim? –
– Vai se foder –
– Acho lindo o modo como você se expressa – ironizou Carlos, já começando a se divertir. Antes que Aline pudesse responder ele deu o endereço de um bar que ficava a meia distância do seu hotel e desligou. Não podia arriscar dizer exatamente onde estava, e sentia que até mesmo aquele endereço era perigoso. Afinal, ela tinha todos os recursos dos Menegaro a sua disposição caso estivesse mentindo. Mas também, por que ela iria preparar uma armadilha para ele? Hércules o deixou escapar com vida, se o quisesse morto, teria feito isso na hora.
            Após desligar Carlos atirou o telefone em um canto e se jogou na cama. Não pretendia chegar adiantado para uma possível armadilha no bar, por mais remota que fosse essa possibilidade. Iria fazer tempo e, se Aline fosse mesmo fugir de casa para se encontrar com ele, ela que esperasse. Encontrou ao lado da cama alguns folders de bordéis próximos. Chamou a sua atenção um com fotos, com letras grandes e enfeitadas dizendo “ENTREGA A DOMISSÍLHO”. Carlos riu da piada e do erro, que chegava a ser pequeno perto de algumas frases em letras menores. Passeou o dedo pelas fotos se sentindo tentado. Seria uma bela vingança se atrasar para encontrar Aline porque estava transando com uma prostituta. Seria uma bela vingança, mas a dor em seus ossos lhe lembrou que não poderia agora e, provavelmente, nem em muito tempo. Carlos praguejou e jogou o folheto longe, mas ele revirou no ar e caiu novamente em cima da cama.
            O policial conseguiu ficar deitado cinco minutos olhando para o teto verde-limão descascado, e então pegou a sua jaqueta e saiu, inconformado com Aline, com o mundo e consigo mesmo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

14 - A Princesa Retorna ao Castelo

O lugar estava quase irreconhecível. Muito havia mudado durante esses anos todos, e, pelo visto, a Rainha vivia agora a era dourada de seu reinado. Havia pelo menos o dobro de fregueses que se amontoavam perto de um palco que parecia ser novo em folha, onde quatro garotas revezavam um único mastro de pole dance, enquanto outras tantas serviam bebidas ao amontoado de homens e perguntavam se eles já estavam prontos para subir para o segundo andar.
– O puteiro evoluiu enquanto você esteve fora –
            Lia se assustou ao reconhecer aquela voz. Virou-se de repente para a figura de minissaia que a encarava com desgosto, mas não totalmente surpresa. Ela já se preparava há anos para o reencontro com sua rival.
– Você ainda não se aposentou, cadela? – Perguntou Lia com desdém.
– Olha como fala comigo princesa! As coisas mudaram por aqui, eu sou a chefe agora – respondeu a loira.
– Então já tá se preparando pra substituir a minha mãe e se tornar a futura velhoca-dona-de-bordel, Mellani? –
– Se ela te ver falar falando assim... – Começou Mellani, mas foi interrompida.
– Mas ela não vai, e você não vai falar nada – Disse de repente outra voz conhecida, vinda direto das costas da loira. Esta se virou e encarou a mulher vestida de garçonete. Lia deu um passo para o lado para que pudesse ver bem a sua melhor e única amiga.
– Não espere ser protegida por muito mais tempo Gabriela – Retruco Mellani, em seguida se virando novamente para encarar Lia – o mesmo vale pra você – Saiu então, sumindo nas escadas que levam para o segundo andar.
            As duas amigas, agora livres, sorriram uma para a outra e se abraçaram. Quando se separaram, Gabriela segurou a mão de Lia e puxou-a em direção ao que parecia ser uma entrada para um quarto.
– Vem, vamos conversar – disse ela, enquanto corria.
            Lia seguiu-a até um dos quartos usados pelos clientes, no momento desocupado. Gabriela fechou a porta, o que diminuiu um pouco o barulho de música. Depois, ambas se sentaram na beirada da cama, uma vez que não havia cadeiras. Gabriela encarou Lia com o que parecia ser alegria e tristeza ao mesmo tempo.
– Não esperava ver você de volta aqui... – começou ela.
– Também não esperava voltar, mas não tive escolha – explicou Lia, tentando não revelar muita coisa.
– Você e o Guilherme brigaram, foi isso? – continuou, tentando adivinhar no que sua amiga havia se metido enquanto esteve fora.
– Não! Quer dizer... Nós não estamos mais junto, juntos sabe? Mas nós somos amigos agora e... –
– Nem vem que eu não estou acreditando em uma palavra só – interrompeu Gabriela, sorrindo amigavelmente.
– Tá, eu sei, é que é um pouco complicado, sabe? Eu e ele estamos trabalhando juntos agora, e não deu muito certo –
– Trabalhando em que? – Gabriela se mostrou um pouco apreensiva, e não pôde evitar de mostrar ansiedade na voz.
– Não posso dizer, desculpa. Só o que posso dizer é que a gente ta numa pior agora, e eu vim aqui porque é o único lugar que eu ainda posso contar. É o mais seguro por enquanto, até o Guilherme, sei lá, me resgatar de novo –
– Acho que nada é tão fácil na segunda vez – disse Gabriela, com um sorriso de desculpas.
            As duas olharam para a porta, esperando ela ser aberta a qualquer momento por Mellani ou até mesmo pela Rainha em pessoa.
– Como ela está? – perguntou Lia, desviando o olhar da porta.
– Desde que você fugiu ela não fala mais de você, como se você nunca tivesse existido. Se alguém te menciona, ela finge que não escuta e fica de mal humor por pelo menos três dias –
– Eu não sei se eu tenho coragem de falar com ela –
– Você tem que falar! Não importa o que aconteceu, ela é a sua mãe, e ficando aqui ou não você tem que fazer as pazes com ela –
– Gabriela, minha mãe queria que eu virasse uma puta! –
            Gabriela olhou para baixo envergonhada, as bochechas corando muito. Lia se esqueceu completamente da condição de sua amiga.
– Ai, desculpa, desculpa, eu não quis... eu me esqueci, desculpa Gabi! –
– Não, tudo bem. Eu sei que eu não to no topo da sociedade, não é mesmo? –
            Ambas silenciaram e tornaram a olhar para a porta. Desta vez, ela realmente se abriu, deixando um homem de aparentes 50 anos, careca e muito bêbado, surpreso ao encontrar as duas mulheres sentadas na cama. Ao seu lado uma das garotas de programa demonstrava igual surpresa.
– Eu vou receber um bônus? – indagou o velho, com um largo sorriso no rosto e uma voz cheia de entusiasmo. Lia e Gabriela se entreolharam, e saíram sem responder ao velho. Ao passar pela porta, Gabriela sussurrou no ouvido da garota de programa:
– Boa sorte! –
            E então saíram dando risadas. Ao virar o corredor, pararam imediatamente, adotando uma postura séria digna de quartel general. A Rainha as aguardava de braços cruzados, parecendo o chefe que avalia seu novo empregado que acaba de chegar atrasado. Não disse nada, porém, e Lia sentiu que sua mãe esperava que ela falasse.
– Oi Vanessa – foi o que conseguiu dizer, acenando timidamente.

domingo, 8 de janeiro de 2012

13 - Aquele que Viajou Para Outro Mundo

        Guilherme se sentou. Um sorriso apareceu logo abaixo dos óculos de seu melhor e único amigo. Guilherme sorriu de volta. Se virou para pedir um café e quando tornou a olhar para seu amigo este ainda sorria de leve.
– Que bom te ver aqui, Guilherme –
– Bom te ver também, Luiz –
        Ambos pararam quando a xícara de café chegou a mesa. Preto, quase fervendo, sem açúcar.
– Continua com esse vício? – perguntou Luiz
– Não dá pra mudar tudo – começou a dizer Guilherme, mas Luiz parou de sorrir e então ele já sabia o que seu amigo queria dizer – digo, não quero mudar tudo –
        Guilherme tomou um gole do café com cuidado. Água fervida e pelo menos quatro colheres do pó mais vagabundo do mercado. O pior café de Tenemissa.
– Aquela não é a sua casa? – perguntou Luiz, que parecia estar se divertindo.
– Era – disse Guilherme, após olhar com cuidado se não havia ninguém escutando.
– Relaxa, não tem ninguém especial aqui. É por isso que eu venho pra esse lugar –
        Guilherme concordou com mais um gole do café. Seus olhos ainda viravam rápido de um lado a outro do bar.
– Agora você me deixou sem esperanças. Disseram que você conseguiu fugir daqui e isso que me motivou... –
– Eu fugi. Eu vi o mundo lá de fora. Agora eu estou de volta –
        Desta vez Luiz bebeu um gole da sua cerveja, e Guilherme permaneceu parado, em estado de choque.
– Porque? – foi o que conseguiu dizer.
– Porque lá fora é apenas um monte de cidades com um monte de pessoas. Você pode ser livre sim, mas será livre sendo ninguém e fazendo nada. Aqui você pode estar preso, mas você está fazendo a sua própria história. Você pode ser você e isso te faz ser alguém, não apenas qualquer um. Você, por exemplo. Pelo que eu vejo, já está deixando uma bela marca nesta ilha – respondeu Luiz com entusiasmo.
– Eu me meti em alguns problemas tentando escapar –
– Manenti ou Menegaro? – foi a pergunta que ele fez com as sombrancelhas erguidas.
– Os dois. E a polícia também –
– Nossa! Se você conseguiu fazer isso, então não acho que sair seja um grande problema –
– Claro, basta apenas escalar o paredão sem ser visto, roubar um barco e depois navegar quilômetros até a costa sem que os vários navios que ficam ao redor da ilha me notem – disse Guilherme, a ironia transbordando em sua voz.
– Você não vai precisar se preocupar com esses detalhes se tiver bastante imaginação – respondeu Luiz, quase soletrando a última palavra.
– Você com certeza tem de sobra, se conseguiu escapar – alfinetou Guilherme, erguendo sua xícara.
– Eu não pretendo te contar como eu escapei, se é isso que você está sugerindo –
– Por que não? –
– Porque ninguém ainda descobriu. Esta é a minha verdadeira marca. Vão falar de mim para sempre como o primeiro a escapar que ninguém nunca soube como –
        Ambos tomaram um gole de sua bebida. dentro do bar a notícia já havia acabado e a confusão tomava novamente o seu lugar.
– Eu não quero ser lembrado. Só quero sair daqui – comentou Guilherme em voz baixa, mais para si do que para seu amigo.
– Sozinho? –
– Não. Vou levar Lia comigo –
        Os olhos verdes de Luiz brilharam. Seu antigo sorriso apareceu de novo e isso fez com que Guilherme se sentisse mais confortável.
– Vale muito mais a pena quando se tem uma garota, não é? –
– Nós não estamos mais... – Guilherme parou de falar. Era inútil tentar mentir – Você tem algum lugar que eu possa me esconder? – disse bruscamente, tentando mudar de assunto.
        Luiz terminou o resto de sua cerveja em um só gole, então se aproximou de Guilherme, inclinando o corpo sobre a mesa.
– Não posso te ajudar. Eu tenho um lado agora, e ajudar você acabaria comigo –
– Que lado? – Perguntou Guilherme, feliz que Luiz tivesse aceito a troca de assunto, mas ainda assim preocupado. Já esperava um “não”, mas não esperava que Luiz tivesse voltado para a máfia de vez.
– Mas sei onde você pode ficar – Continuou ele, ignorando a pergunta de Guilherme – há um lugar que só aceita foragidos. De ambos os lados. Eles já devem saber sobre você. Eles têm bons ouvidos –
– Onde fica? –
        Luiz pegou um guardanapo e tirou uma caneta do bolso. Guilherme ficou vendo ele anotar um endereço, e depois pegou o guardanapo.
– É melhor você ir agora, amigo –
        E Guilherme foi. Deixou na mesa metade do café na xícara, e ainda estava confuso demais para se lembrar de dar tchau para o amigo que ele pensou que jamais encontraria de novo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

12 - A Ira de Hércules


          Hércules observava imóvel os vários médicos comprados. Um fogo ardia em seus olhos frios, tornando sua expressão apavorante. Eles iam de Aline até Carlos, e de Carlos até Aline.
– Me fale de novo: como você conseguiu machucar tanto a minha filha? –
           Aline baixou os olhos. O perigo daquela viagem agora já estava claro para ela. Mas Carlos não se desviou do olhar incandescente de Hércules, e em momento algum demonstrou dor quando um médico ou outro mexia em seu corpo.
– Eu salvei a vida dela –
           Hércules se levantou devagar, pela primeira vez olhando para algum lugar que não fosse o quarto de hospital improvisado. Ele caminhou até a janela e lá permaneceu, olhando para fora. Carlos não se deixou enganar, a atenção daquele velho continuava cem por cento voltada para ele. Achou então que era uma boa hora para repetir os fatos.
– Aquele Guilherme preparou uma armadilha. Ele sabia que alguém iria até o apartamento dele –
           Hércules moveu a cabeça. Não chegou a se virar, mas deu a ideia a Carlos de que ele o observava pelo reflexo do vidro.
– Que ele implantou uma armadilha está mais do que óbvio. O que eu quero saber é: como você caiu? – disse ele, a pergunta estalando devagar, palavra por palavra.
           Carlos se incomodou. Pela primeira vez se permitiu um gemido quando um médico apertou uma de suas costelas fraturadas. Tinha vontade de dizer que era tudo culpa de Aline. Que se ela não tivesse ido junto e apavorado seus contatos, talvez Guilherme não soubesse que eles estava indo. Afinal, era mais do que óbvio que ele foi avisado com antecedência. Mas ele não podia deixar Hércules zangado. Com um aceno de mão ele poderia mandar qualquer médico ali envenená-lo ou coisa do tipo. Carlos já começava a se perguntar se eram todos médicos mesmo.
– Alguém deve ter avisado que ele vinha, se não fosse por isso eu... –
– Não foi isso que eu perguntei – disse Hércules, cortando a fala de Carlos. Agora já falava em um tom alto de ordem, ou então de quem questiona um erro grave de um empregado. Era isso que Carlos era para aquele homem: um empregado. O policial silenciou, nervoso.
– O que eu perguntei – continuou Hércules – foi COMO VOCÊ CAIU? – terminou ele, com um grito impressionante para alguém com aquela aparência tão velha.
           Carlos não conseguiu responder a tempo. Tentava desesperadamente pensar em alguma resposta que não envolvesse Aline. Afinal, fora ela quem atrapalhara tudo, quem irritara ele a ponto de não prever a armadilha. Era tudo culpa dela. Mas Carlos não poderia dizer aquilo, logo não tinha nada a dizer. Manteve o silêncio que foi a deixa para que Hércules continuasse gritando.
– TUDO O QUE EU PEDI FOI ALGUÉM CAPAZ DE LIDAR COM UM MOLEQUE! Você não só falhou como pôs em risco a vida da minha filha! – ele agora se aproximava de Carlos um passo a cada palavra – MAS NÃO! Você não é capaz nem de encontrar aquele miserável, muito menos de proteger alguém! Eu deveria ter mandado qualquer outro policial de merda, QUALQUER OUTRO! Da sua laia tem um monte querendo grana que SABE O QUE FAZ! –
           Hércules estava agora cara-a-cara com Carlos. Todos os médicos haviam se afastado depressa. Com a mão enrugada o velho segurou a camisa do negro alto, mostrando uma força impossível para alguém com aquela aparência, e o levantou. O levantou o bastante para que pudessem quase colar seus narizes. O fogo agora queimava os olhos de Hércules como uma fogueira de São João.
– Você... está... fora – disse ele, num sussurro que morria aos poucos, e então largou Carlos, que caiu gemendo.
– Saia da minha casa. Você nunca mais vai trabalhar para mim –
           Carlos demorou um tempo até conseguir sair, mancando e com o tratamento médico pela metade. Dali iria direto para um hospital, mas já planejava o que fazer em seguida.
           Hércules agora olhava para Aline. Se aproximou devagar e tocou seu rosto com delicadeza.
– Minha querida, desculpe por deixar você passar por isso –
           Ela nada disse, apenas o olhou com tristeza, sem conseguir evitar desviar os olhos para a porta por onde Carlos havia a pouco saído para nunca mais voltar. Hércules percebeu, mas nada disse. Se levantou e foi novamente de encontro à janela. Pediu um celular para um dos empregados e assim que o obteve discou um número, que atendeu quase imediatamente.
– Felipe, quero você aqui agora – disse ele ríspido.
– Sim, pai – respondeu a voz no telefone.
    O Menegaro então se virou para a sua filha, que já havia percebido o que ele pretendia fazer.
– Você não vai sair de casa até que seu irmão dê um jeito nisso. estamos entendidos? –
    Aline não respondeu. No meio do seu olhar desafiador havia medo, sentimento que seu pai sempre seria capaz de notar.
– Ótimo. Agora descanse bem, minha querida. Você se machucou muito nessa última aventura –
    E Hércules saiu, deixando Aline sozinha com os médicos, que recomeçaram seu trabalho. Em sua mente, milhares de planos se desenvolviam. Ela não deixaria aquela história acabar pelas mãos de Felipe, nem que tivesse que enfrentar o Todo-Poderoso-Seu-Pai.