domingo, 8 de janeiro de 2012

13 - Aquele que Viajou Para Outro Mundo

        Guilherme se sentou. Um sorriso apareceu logo abaixo dos óculos de seu melhor e único amigo. Guilherme sorriu de volta. Se virou para pedir um café e quando tornou a olhar para seu amigo este ainda sorria de leve.
– Que bom te ver aqui, Guilherme –
– Bom te ver também, Luiz –
        Ambos pararam quando a xícara de café chegou a mesa. Preto, quase fervendo, sem açúcar.
– Continua com esse vício? – perguntou Luiz
– Não dá pra mudar tudo – começou a dizer Guilherme, mas Luiz parou de sorrir e então ele já sabia o que seu amigo queria dizer – digo, não quero mudar tudo –
        Guilherme tomou um gole do café com cuidado. Água fervida e pelo menos quatro colheres do pó mais vagabundo do mercado. O pior café de Tenemissa.
– Aquela não é a sua casa? – perguntou Luiz, que parecia estar se divertindo.
– Era – disse Guilherme, após olhar com cuidado se não havia ninguém escutando.
– Relaxa, não tem ninguém especial aqui. É por isso que eu venho pra esse lugar –
        Guilherme concordou com mais um gole do café. Seus olhos ainda viravam rápido de um lado a outro do bar.
– Agora você me deixou sem esperanças. Disseram que você conseguiu fugir daqui e isso que me motivou... –
– Eu fugi. Eu vi o mundo lá de fora. Agora eu estou de volta –
        Desta vez Luiz bebeu um gole da sua cerveja, e Guilherme permaneceu parado, em estado de choque.
– Porque? – foi o que conseguiu dizer.
– Porque lá fora é apenas um monte de cidades com um monte de pessoas. Você pode ser livre sim, mas será livre sendo ninguém e fazendo nada. Aqui você pode estar preso, mas você está fazendo a sua própria história. Você pode ser você e isso te faz ser alguém, não apenas qualquer um. Você, por exemplo. Pelo que eu vejo, já está deixando uma bela marca nesta ilha – respondeu Luiz com entusiasmo.
– Eu me meti em alguns problemas tentando escapar –
– Manenti ou Menegaro? – foi a pergunta que ele fez com as sombrancelhas erguidas.
– Os dois. E a polícia também –
– Nossa! Se você conseguiu fazer isso, então não acho que sair seja um grande problema –
– Claro, basta apenas escalar o paredão sem ser visto, roubar um barco e depois navegar quilômetros até a costa sem que os vários navios que ficam ao redor da ilha me notem – disse Guilherme, a ironia transbordando em sua voz.
– Você não vai precisar se preocupar com esses detalhes se tiver bastante imaginação – respondeu Luiz, quase soletrando a última palavra.
– Você com certeza tem de sobra, se conseguiu escapar – alfinetou Guilherme, erguendo sua xícara.
– Eu não pretendo te contar como eu escapei, se é isso que você está sugerindo –
– Por que não? –
– Porque ninguém ainda descobriu. Esta é a minha verdadeira marca. Vão falar de mim para sempre como o primeiro a escapar que ninguém nunca soube como –
        Ambos tomaram um gole de sua bebida. dentro do bar a notícia já havia acabado e a confusão tomava novamente o seu lugar.
– Eu não quero ser lembrado. Só quero sair daqui – comentou Guilherme em voz baixa, mais para si do que para seu amigo.
– Sozinho? –
– Não. Vou levar Lia comigo –
        Os olhos verdes de Luiz brilharam. Seu antigo sorriso apareceu de novo e isso fez com que Guilherme se sentisse mais confortável.
– Vale muito mais a pena quando se tem uma garota, não é? –
– Nós não estamos mais... – Guilherme parou de falar. Era inútil tentar mentir – Você tem algum lugar que eu possa me esconder? – disse bruscamente, tentando mudar de assunto.
        Luiz terminou o resto de sua cerveja em um só gole, então se aproximou de Guilherme, inclinando o corpo sobre a mesa.
– Não posso te ajudar. Eu tenho um lado agora, e ajudar você acabaria comigo –
– Que lado? – Perguntou Guilherme, feliz que Luiz tivesse aceito a troca de assunto, mas ainda assim preocupado. Já esperava um “não”, mas não esperava que Luiz tivesse voltado para a máfia de vez.
– Mas sei onde você pode ficar – Continuou ele, ignorando a pergunta de Guilherme – há um lugar que só aceita foragidos. De ambos os lados. Eles já devem saber sobre você. Eles têm bons ouvidos –
– Onde fica? –
        Luiz pegou um guardanapo e tirou uma caneta do bolso. Guilherme ficou vendo ele anotar um endereço, e depois pegou o guardanapo.
– É melhor você ir agora, amigo –
        E Guilherme foi. Deixou na mesa metade do café na xícara, e ainda estava confuso demais para se lembrar de dar tchau para o amigo que ele pensou que jamais encontraria de novo.

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