domingo, 1 de janeiro de 2012

12 - A Ira de Hércules


          Hércules observava imóvel os vários médicos comprados. Um fogo ardia em seus olhos frios, tornando sua expressão apavorante. Eles iam de Aline até Carlos, e de Carlos até Aline.
– Me fale de novo: como você conseguiu machucar tanto a minha filha? –
           Aline baixou os olhos. O perigo daquela viagem agora já estava claro para ela. Mas Carlos não se desviou do olhar incandescente de Hércules, e em momento algum demonstrou dor quando um médico ou outro mexia em seu corpo.
– Eu salvei a vida dela –
           Hércules se levantou devagar, pela primeira vez olhando para algum lugar que não fosse o quarto de hospital improvisado. Ele caminhou até a janela e lá permaneceu, olhando para fora. Carlos não se deixou enganar, a atenção daquele velho continuava cem por cento voltada para ele. Achou então que era uma boa hora para repetir os fatos.
– Aquele Guilherme preparou uma armadilha. Ele sabia que alguém iria até o apartamento dele –
           Hércules moveu a cabeça. Não chegou a se virar, mas deu a ideia a Carlos de que ele o observava pelo reflexo do vidro.
– Que ele implantou uma armadilha está mais do que óbvio. O que eu quero saber é: como você caiu? – disse ele, a pergunta estalando devagar, palavra por palavra.
           Carlos se incomodou. Pela primeira vez se permitiu um gemido quando um médico apertou uma de suas costelas fraturadas. Tinha vontade de dizer que era tudo culpa de Aline. Que se ela não tivesse ido junto e apavorado seus contatos, talvez Guilherme não soubesse que eles estava indo. Afinal, era mais do que óbvio que ele foi avisado com antecedência. Mas ele não podia deixar Hércules zangado. Com um aceno de mão ele poderia mandar qualquer médico ali envenená-lo ou coisa do tipo. Carlos já começava a se perguntar se eram todos médicos mesmo.
– Alguém deve ter avisado que ele vinha, se não fosse por isso eu... –
– Não foi isso que eu perguntei – disse Hércules, cortando a fala de Carlos. Agora já falava em um tom alto de ordem, ou então de quem questiona um erro grave de um empregado. Era isso que Carlos era para aquele homem: um empregado. O policial silenciou, nervoso.
– O que eu perguntei – continuou Hércules – foi COMO VOCÊ CAIU? – terminou ele, com um grito impressionante para alguém com aquela aparência tão velha.
           Carlos não conseguiu responder a tempo. Tentava desesperadamente pensar em alguma resposta que não envolvesse Aline. Afinal, fora ela quem atrapalhara tudo, quem irritara ele a ponto de não prever a armadilha. Era tudo culpa dela. Mas Carlos não poderia dizer aquilo, logo não tinha nada a dizer. Manteve o silêncio que foi a deixa para que Hércules continuasse gritando.
– TUDO O QUE EU PEDI FOI ALGUÉM CAPAZ DE LIDAR COM UM MOLEQUE! Você não só falhou como pôs em risco a vida da minha filha! – ele agora se aproximava de Carlos um passo a cada palavra – MAS NÃO! Você não é capaz nem de encontrar aquele miserável, muito menos de proteger alguém! Eu deveria ter mandado qualquer outro policial de merda, QUALQUER OUTRO! Da sua laia tem um monte querendo grana que SABE O QUE FAZ! –
           Hércules estava agora cara-a-cara com Carlos. Todos os médicos haviam se afastado depressa. Com a mão enrugada o velho segurou a camisa do negro alto, mostrando uma força impossível para alguém com aquela aparência, e o levantou. O levantou o bastante para que pudessem quase colar seus narizes. O fogo agora queimava os olhos de Hércules como uma fogueira de São João.
– Você... está... fora – disse ele, num sussurro que morria aos poucos, e então largou Carlos, que caiu gemendo.
– Saia da minha casa. Você nunca mais vai trabalhar para mim –
           Carlos demorou um tempo até conseguir sair, mancando e com o tratamento médico pela metade. Dali iria direto para um hospital, mas já planejava o que fazer em seguida.
           Hércules agora olhava para Aline. Se aproximou devagar e tocou seu rosto com delicadeza.
– Minha querida, desculpe por deixar você passar por isso –
           Ela nada disse, apenas o olhou com tristeza, sem conseguir evitar desviar os olhos para a porta por onde Carlos havia a pouco saído para nunca mais voltar. Hércules percebeu, mas nada disse. Se levantou e foi novamente de encontro à janela. Pediu um celular para um dos empregados e assim que o obteve discou um número, que atendeu quase imediatamente.
– Felipe, quero você aqui agora – disse ele ríspido.
– Sim, pai – respondeu a voz no telefone.
    O Menegaro então se virou para a sua filha, que já havia percebido o que ele pretendia fazer.
– Você não vai sair de casa até que seu irmão dê um jeito nisso. estamos entendidos? –
    Aline não respondeu. No meio do seu olhar desafiador havia medo, sentimento que seu pai sempre seria capaz de notar.
– Ótimo. Agora descanse bem, minha querida. Você se machucou muito nessa última aventura –
    E Hércules saiu, deixando Aline sozinha com os médicos, que recomeçaram seu trabalho. Em sua mente, milhares de planos se desenvolviam. Ela não deixaria aquela história acabar pelas mãos de Felipe, nem que tivesse que enfrentar o Todo-Poderoso-Seu-Pai.

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