terça-feira, 17 de janeiro de 2012

14 - A Princesa Retorna ao Castelo

O lugar estava quase irreconhecível. Muito havia mudado durante esses anos todos, e, pelo visto, a Rainha vivia agora a era dourada de seu reinado. Havia pelo menos o dobro de fregueses que se amontoavam perto de um palco que parecia ser novo em folha, onde quatro garotas revezavam um único mastro de pole dance, enquanto outras tantas serviam bebidas ao amontoado de homens e perguntavam se eles já estavam prontos para subir para o segundo andar.
– O puteiro evoluiu enquanto você esteve fora –
            Lia se assustou ao reconhecer aquela voz. Virou-se de repente para a figura de minissaia que a encarava com desgosto, mas não totalmente surpresa. Ela já se preparava há anos para o reencontro com sua rival.
– Você ainda não se aposentou, cadela? – Perguntou Lia com desdém.
– Olha como fala comigo princesa! As coisas mudaram por aqui, eu sou a chefe agora – respondeu a loira.
– Então já tá se preparando pra substituir a minha mãe e se tornar a futura velhoca-dona-de-bordel, Mellani? –
– Se ela te ver falar falando assim... – Começou Mellani, mas foi interrompida.
– Mas ela não vai, e você não vai falar nada – Disse de repente outra voz conhecida, vinda direto das costas da loira. Esta se virou e encarou a mulher vestida de garçonete. Lia deu um passo para o lado para que pudesse ver bem a sua melhor e única amiga.
– Não espere ser protegida por muito mais tempo Gabriela – Retruco Mellani, em seguida se virando novamente para encarar Lia – o mesmo vale pra você – Saiu então, sumindo nas escadas que levam para o segundo andar.
            As duas amigas, agora livres, sorriram uma para a outra e se abraçaram. Quando se separaram, Gabriela segurou a mão de Lia e puxou-a em direção ao que parecia ser uma entrada para um quarto.
– Vem, vamos conversar – disse ela, enquanto corria.
            Lia seguiu-a até um dos quartos usados pelos clientes, no momento desocupado. Gabriela fechou a porta, o que diminuiu um pouco o barulho de música. Depois, ambas se sentaram na beirada da cama, uma vez que não havia cadeiras. Gabriela encarou Lia com o que parecia ser alegria e tristeza ao mesmo tempo.
– Não esperava ver você de volta aqui... – começou ela.
– Também não esperava voltar, mas não tive escolha – explicou Lia, tentando não revelar muita coisa.
– Você e o Guilherme brigaram, foi isso? – continuou, tentando adivinhar no que sua amiga havia se metido enquanto esteve fora.
– Não! Quer dizer... Nós não estamos mais junto, juntos sabe? Mas nós somos amigos agora e... –
– Nem vem que eu não estou acreditando em uma palavra só – interrompeu Gabriela, sorrindo amigavelmente.
– Tá, eu sei, é que é um pouco complicado, sabe? Eu e ele estamos trabalhando juntos agora, e não deu muito certo –
– Trabalhando em que? – Gabriela se mostrou um pouco apreensiva, e não pôde evitar de mostrar ansiedade na voz.
– Não posso dizer, desculpa. Só o que posso dizer é que a gente ta numa pior agora, e eu vim aqui porque é o único lugar que eu ainda posso contar. É o mais seguro por enquanto, até o Guilherme, sei lá, me resgatar de novo –
– Acho que nada é tão fácil na segunda vez – disse Gabriela, com um sorriso de desculpas.
            As duas olharam para a porta, esperando ela ser aberta a qualquer momento por Mellani ou até mesmo pela Rainha em pessoa.
– Como ela está? – perguntou Lia, desviando o olhar da porta.
– Desde que você fugiu ela não fala mais de você, como se você nunca tivesse existido. Se alguém te menciona, ela finge que não escuta e fica de mal humor por pelo menos três dias –
– Eu não sei se eu tenho coragem de falar com ela –
– Você tem que falar! Não importa o que aconteceu, ela é a sua mãe, e ficando aqui ou não você tem que fazer as pazes com ela –
– Gabriela, minha mãe queria que eu virasse uma puta! –
            Gabriela olhou para baixo envergonhada, as bochechas corando muito. Lia se esqueceu completamente da condição de sua amiga.
– Ai, desculpa, desculpa, eu não quis... eu me esqueci, desculpa Gabi! –
– Não, tudo bem. Eu sei que eu não to no topo da sociedade, não é mesmo? –
            Ambas silenciaram e tornaram a olhar para a porta. Desta vez, ela realmente se abriu, deixando um homem de aparentes 50 anos, careca e muito bêbado, surpreso ao encontrar as duas mulheres sentadas na cama. Ao seu lado uma das garotas de programa demonstrava igual surpresa.
– Eu vou receber um bônus? – indagou o velho, com um largo sorriso no rosto e uma voz cheia de entusiasmo. Lia e Gabriela se entreolharam, e saíram sem responder ao velho. Ao passar pela porta, Gabriela sussurrou no ouvido da garota de programa:
– Boa sorte! –
            E então saíram dando risadas. Ao virar o corredor, pararam imediatamente, adotando uma postura séria digna de quartel general. A Rainha as aguardava de braços cruzados, parecendo o chefe que avalia seu novo empregado que acaba de chegar atrasado. Não disse nada, porém, e Lia sentiu que sua mãe esperava que ela falasse.
– Oi Vanessa – foi o que conseguiu dizer, acenando timidamente.

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