domingo, 25 de março de 2012

24 - Bondosa Mãe

            Havia dez minutos que Magali encarava o pano molhado em cima da pia. Algo tão simples, uma dúvida tão cruel! Ela sabia o que seria de sua vida se tomasse a decisão mais difícil, mas sabia também o que seria da vida de seus filhos se não tomasse. Hércules poderia fazer dela o que quisesse, a pobre empregada já conhecia todos os métodos de tortura do velho. Presenciara todos, e até mesmo ajudou em alguns. Eles eram tudo aquilo que a impedia de dormir a noite, e por isso sua aparência feia a cansada. E talvez por essa aparência, ou pela ausência constante, ou até mesmo por medo do trabalho de sua mulher, seu marido a abandonou com três crianças para cuidar. Ou isso ou ele foi pego em algum beco, Magali nunca ouviu nenhuma notícia de seu paradeiro.
            Agora era apenas ela, as crianças e aquele pano molhado. Olhou para trás antes de agarrá-lo, juntamente com um copo d’água, e se dirigir ao porão.
– Me mandaram cuidar da prisioneira – foi o que ela respondeu aos brutamontes que cuidavam da porta. Como uma boa empregada, já muito antiga na casa dos Menegaro, Magali sabia muito bem quando seu chefe estava e quando não estava. Felipe? Ela o criou. Então tinha certeza: no momento Lia estava sozinha em sua prisão particular. Ainda assim desceu as escadas com cuidado, prestando muita atenção. Um guarda nunca fala, nunca comenta, por isso não havia perigo em mentir para eles. Mas se tivesse alguém com um pouco mais de cabeça cuidando da garota, ela não teria como esconder suas intenções. A ordem foi clara: deixem ela morrer aos poucos. Comida dia sim, dia não. Água, muito raramente. Pancadas de leve poderiam ser dadas a vontade. Pancadas mais pesadas, quatro vezes ao dia. Estupros apenas se não conflitassem com o trabalho de vigia. E assim estava Lia, em tais condições que mal conseguia andar.
            Quando Magali chegou, achou que a prisioneira tivesse conseguido escapar. Sentiu um frio na espinha, acompanhado de um sorriso tímido. Se Lia tivesse mesmo escapado, seria ótimo, mas então sobre quem cairia a culpa? Não precisou pensar muito sobre isso, pois não houve nenhuma fuga. O que poderia ser um trapo escuro jogado ao chão gemeu, assustando a empregada. Ela logo se recuperou e correu para socorrer a garota. Lia bebeu o copo d’água por completo, e Magali então começou a limpar seus ferimentos com o pano. Qualquer ajuda maior que essa seria perigoso para ambas, e Lia entendia muito bem. Estava grata pelo cuidado que, ela sabia perfeitamente, poderia custar a vida daquela mulher que ela nunca viu na vida.
– Isso menina, tenta se sentar. Conseguiu? Ótimo, agora deixa eu limpar esse sangue – falava a empregada, carregada de instinto maternal.
– Lia... Eu... Lia – Tentou falar a prisioneira, fraca demais devido a última vez que os guardas decidiram “checar” para ver se ela estava bem comportada.
– Sim, minha filha, eu sei. Você é a Lia. Eu sou Magali, e vou cuidar de você agora. Por favor, fique quietinha enquanto eu faço isso –
            E Lia obedeceu. Sentiu-se novamente criança, enquanto uma mulher que, de repente, ela começou a desejar que fosse sua verdadeira mãe cuidava de seus ferimentos. Logo, seria ela a ajudante das futuras torturas. Lia não imaginaria, mas Magali sabia muito bem qual seria seu papel em cada sessão. Tinha vontade de chorar ao pensar nisso, mas agora sabia que Lia iria entender. Ela não fazia por maldade, embora fosse convincente o bastante para não levantar suspeitas. Tinha um papel muito importante, e precisava se manter nele. Eram nas torturas que ela ficava sabendo de coisas que as “pessoas normais” de Tenemissa jamais imaginariam. Quando voltava para casa, parava para fazer compras num supermercado, onde um velho magro estava sempre sentado em uma cadeira. Inofensivo. Ou ao menos era isso que os espiões dos Menegaro deveriam achar, pois nunca o incomodaram. Como eles poderiam saber que era para ele que ela contava tudo o que ouvia na casa do temido Hércules? Para onde ele levava a informação, ela não sabia. Só sabia que estava ajudando, e que fazia parte de algo maior do que simplesmente se esconder e aceitar a derrota diante daquelas grandes famílias. O velho nunca lhe deu nenhuma informação em retorno. Ela lhe dava um pacote de amendoins, para disfarçar uma obra de caridade enquanto lhe contava o que sabia, e ele lhe dizia obrigado. Magali agora tinha vontade de contar tudo isso para Lia. Queria mostrar a ela que ainda havia esperança, que nem tudo estava perdido. Não conseguiu. Sabia que era arriscado demais.
– Quando as torturas começarem... – tentou explicar a empregada, mas Lia riu. Magali teve pena dela, mas ainda assim continuou. Precisava preparar a coitada para o que estava por vir.
– Sim, minha filha, as torturas ainda não começaram. Infelizmente, o pior ainda está por vir. Quando chegar a hora, eu estarei entre eles. Eu vou ajudar a te torturar. Ainda assim espero que você não conte o que estou fazendo aqui agora, que é o que eu farei sempre que possível –
– Por... que? Pra que arriscar tanto? – Perguntou Lia, que não sabia o que pensar quando imaginou aquela figura carinhosa torturando impiedosamente quem ela antes salvou.
– Porque você é a nossa esperança. Todos falam de você, Lia. A garota que matou um dos filhos do Menegaro. Você não faz ideia do que você criou. A tensão entre as duas famílias está cada vez maior, e uma guerra está para explodir. E isso é bom! Nós estávamos esperando por isso, é a nossa chance de acabar de vez com esse terror. Foi você quem deu o pontapé inicial para isso tudo, minha filha, e qualquer pessoa com coragem o bastante faria o mesmo que eu estou fazendo por você. Todos já sabem que você está aqui, então aguente firme, esse jogo ainda pode virar –
            E Magali deixou o porão, onde agora havia uma garota renovada. A empregada se sentia feliz por isso, apesar de saber que teve que mentir para alegrá-la. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

23 - Escombros do Reinado

            O sol já se mostrava radiante no horizonte quando Carlos e Aline encontraram o Castelo. Levaram muito mais tempo do que planejaram, pois as ruas eram todas repletas de bordéis com suas luzes de neon, o que dava a impressão para Aline, que dirigia, de que todas as ruas eram iguais. Não adiantava parar para pedir informação. Em qualquer lugar de Tenemissa, a informação custa caro. Quando vêm de uma prostituta, custa mais caro ainda e com a certeza de que a informação está errada: ela levará quem a ouvir para uma armadilha. Não há um único beco naquela ilha que não tenha alguém a espreita. Uma pessoa só daria uma informação correta se tivesse algum interesse por trás, algo que valesse mais do que o dinheiro da vítima de suas mentiras.
– O que diabos aconteceu aqui? –
            Foi a primeira reação de Carlos. O que antes deveria ser um dos bordéis mais caros daquele bairro era agora uma casa furada. Operários andavam de um lado para outro, como formigas sem direção. Tentavam em vão consertar o Castelo pisado por um gigante. Ao verem que o carro parou na frente, todos se mostraram apreensivos. Alguém gritou o nome Vanessa, e logo havia uma mulher intimidante caminhando decidida na direção do casal, que saiu do carro.
– Estamos fechados para reformas! Agora deem o fora daqui – gritou a mulher.
– Não somos clientes, sou policial e quero investigar o que está acontecendo aqui – disse Carlos, mostrando o distintivo. Vanessa torceu a boca, mas sabia que nada podia fazer.
– Não tem nada pra investigar aqui, e você sabe muito bem do que eu to falando –
– Eu to sendo pago pra isso, e você sabe muito bem do que eu to falando –
– Os dois estiveram aqui. Se você estivesse mesmo sendo pago saberia disso – disse Vanessa triunfante, virando as costas para o casal e indo em direção a ex-boate. Carlos e Aline saíram depressa do carro, alcançando a mulher na metade de seu percurso.
– Escuta aqui vadia, a gente ta tentando ajudar, se você ainda não percebeu – Era agora Aline falando, e Carlos já começava a se arrepender de ter deixado ela sair do carro. Vanessa virou-se com o rosto vermelho de raiva, os punhos cerrados.
– QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE VADIA? –
– Essa puta gorda na minha frente. Agora escuta bem direitinho: meu nome é Aline, sou filha de Hércules Menegaro e estou acompanhando este policial para investigar um caso muito importante. Se a minha família brigou com os trombadinhas na frente do seu puteiro, que se foda! Você vai nos dizer exatamente o que a gente quer saber ou o que sobrou dessa casa vai abaixo –
            Por pelo menos três minutos as duas mulheres ficaram paradas, se encarando. Carlos não sabia dizer qual das duas parecia estar com mais raiva, embora já conseguisse notar que a raiva de Aline era forjada. Talvez começasse a entender aquela mulher. No fim, Vanessa deu novamente as costas, mas agora de desistência. O policial sorriu quando seguiu sua companheira para dentro do bordel arruinado.
            Sangue, poeira e caos. Embora os corpos já tivessem sido retirados há muito, o chão ainda estava repleto de suas lembranças. Seus últimos momentos esparramados em crueldade líquida.
– Perdi muitas garotas e clientes naquela noite – disse Vanessa em tom triste. Parecia se importar mais com a morte dos clientes do que com “suas garotas”.
– Conte-nos exatamente o que aconteceu, desde o início – falou Carlos, pegando um bloco de notas para anotar.
– Nós estávamos em uma noite de trabalho normal. A casa estava cheia, como sempre. Eu não sei bem como tudo aconteceu, estava lá atrás cuidando dos meus negócios quando ouvi aquele barulho de pneus freando e, minutos depois, tiroteio. Estava quase vindo aqui ver o que era quando percebi que o barulho se aproximava, então fugi – relatou ela.
– Será que eu posso conversar com as suas garotas? Talvez alguma que tenha visto algo ou... –
– Minhas garotas estão descansando, eu conto a versão delas – interrompeu Vanessa.
            Carlos franziu a testa. Pela sua experiência já sabia o que estava por vir. Antes que Aline começasse a falar, fez um sinal para que ela se calasse, e outro para que Vanessa prosseguisse.
– Pois bem – Continuou a Rainha – Eu ouvi a versão de todas as minhas garotas, e o que elas disseram, em resumo, foi que viram as duas gangues brigando lá fora, aí uma delas pensou em usar o interior da casa como cobertura. Invadiram a boate! Os outros entraram e atiraram em todo mundo, sem saber quem era quem. Meus guardas tentaram impedir, mas foram os primeiros a levar bala –
– Me diga Vanessa... Alguém da sua família se feriu? – perguntou Carlos, sem tirar os olhos do bloco de notas, fingindo ser uma pergunta casual.
– Eu não tenho nenhuma família que não seja as meninas. Sim, elas se feriram, como eu já te disse – mentiu Vanessa, no mesmo tom de voz com que falara a narrativa anterior.
– E Lia? Sabemos que você tem uma filha – interrompeu Aline. Carlos não se importou, iria fazer a mesma pergunta. Ela só fora mais rápida.
– Minha filha me abandonou há muito tempo. Eu nunca mais quero ver aquela cadela na minha frente. Agora saiam da minha casa! Estamos tentando trabalhar aqui – explodiu por fim a Rainha, agitando os braços como se tentasse espantar moscas.
            Carlos saiu, empurrando Aline junto. Ela tentaria arrancar a verdade a força, e Carlos sabia por experiência própria que isso só geraria mais dor de cabeça no futuro. Quando voltaram para o carro, Carlos pegou o assento do motorista. Antes que pudesse dar a partida, três garotas de programa apareceram na janela.
– Foi mal meninas, mas eu já estou acompanhado – disse Carlos, apontando para Aline, que teve o bom senso de não desmentir o policial, mesmo não gostando de ser posta no lugar de uma prostituta.
– Você sabe que ela mentiu, não sabe? A puta dona do bordel. Ela mentiu pra vocês – disse a mulher que parecia ser a líder do bando.
– Mentiu sobre o que? – perguntou Carlos, se fazendo de desentendido. As vezes, essa é a melhor forma de arranjar informações de certas pessoas.
– Ah, qual é? Eu reconheço um policial quando vejo um – continuou a líder, as outras duas atrás paradas, de cabeça baixa, não pareciam ser capazes de falar sem ter permissão pra isso.
– E o que você pode me dizer que ela não me disse? –
– A princesinha estava aí. A filha dela, Lia. Nós ficamos de olho, e sabemos tudo o que aconteceu. A briga foi por ela. Os vencedores entraram e levaram a garota com eles. Eram Menegaro, aqueles filhos da puta –
            Carlos tirou três notas altas de dentro da carteira, entregando para a sorridente loira falsa de saia curta.
– Isso é tudo que eu preciso saber. Qual é o seu nome? –
– Pode me chamar de Carla, bonitão – disse a prostituta, colocando as três notas dentro da bolsa.
– Carla... Manteremos contato – terminou Carlos, dando a partida no carro e deixando o trio para trás.

domingo, 11 de março de 2012

22 - No Território de Yohana

            Guilherme não saberia dizer quantas vezes já sonhou que acordava, e então fazia alguma coisa apenas para descobrir que continuava dormindo. A sensação de que jamais iria acordar de verdade o deixava a beira do desespero. Desta vez, após sonhar que acordava sete vezes seguidas, ele sonhou que acordava em uma cama estranha, em algum lugar do subsolo, onde vivia como um rato em meio a outras pessoas que também fugiram.
Ao supostamente acordar, ele se deparou com uma bela mulher negra, que de alguma forma subiu em sua cama e foi isso que o acordou. Instintivamente ele sabia o nome dela, assim como sempre se sabe tudo instintivamente dentro dos sonhos. Seu nome era algo estranho, diferente, soava estrangeiro. Yohana? Sim, Yohana. Namorada daquele homem também estranho, que parecia ser uma versão ruiva de Tchê Guevara, o único líder revolucionário que as escolas proibiam o conhecimento, mas que todo tenemissiano conhecia. Mas como ele sabia da existência desse homem, se ele não estava ali? É claro, era tudo um sonho. Não há sentido em fazer perguntas para uma realidade sem nexo.
– Achei que você não iria acordar – disse Yohana, subindo cada vez mais em Guilherme, que sentiu seu toque muito real – O seu amiguinho acordou muito antes de você – continuou, desta vez falando no ouvido.
            Guilherme se mexeu instintivamente. A mulher tinha uma de suas mãos apoiada ao lado da cabeça de Guilherme, a outra entrava por dentro de sua calça. Subitamente ele despertou, como se alguém tivesse girado as engrenagens de seu cérebro e só então sua mente começou a trabalhar. Não estava sonhando. Ele realmente estava agora vivendo em meio aos rebeldes, treinando junto deles para realizar o fabuloso plano de derrubar as duas famílias de uma vez só, no melhor estilo Tenemissiano: na bala. Isso significava que Yohana era tão real quanto seu toque, o que fazia de Ícaro, o Tchê ruivo, mais real ainda. E com certeza mais perigoso.
            Assustado enquanto imaginava a reação de Ícaro caso visse sua namorada na cama de outro, Guilherme tentou se desvencilhar, mas Yohana o agarrou firme aonde ele não poderia se mexer. Lentamente, ela passou a língua de sua orelha para a sua boca, e o beijou. Guilherme novamente tentou fugir, mas sabia que ela era tão perigosa, ou até mesmo mais, do que o líder dos rebeldes. A pancada que ela lhe deu com a pistola em sua cabeça doeu por muitos dias. Ainda assim, ele não resistiu e retribuiu o beijo, esquecendo completamente o que poderia lhe acontecer.
            Por quanto tempo seus lábios estiveram colados, ele não conseguia imaginar. Mas em algum momento algo lhe deu forças para que se lembrasse de quem era, do que estava fazendo e o quanto era perigoso. A diferença. Yohana era boa, não havia dúvidas. Mas em meio ao demorado beijo Guilherme tinha flashes de outro beijo, de outra garota. A diferença era clara, e o fez lembrar de Lia de uma maneira que era quase como se ela estivesse ali presente. Lembrou-se de quando se conheceram, de como ele a resgatou do bordel da mãe, ambos fugindo numa noite de chuva, sem ter um destino certo. Lembrou-se de todas as brigas sem sentido, tão características de ambos. Lembrou-se então de quando decidiram se separar. Precisavam passar por cima de tudo e de todos, mas juntos brigavam demais, e nada dava certo. Para que desse, deveriam ser apenas sócios. Parceiros de trabalho e nada mais. Foi quando ela conheceu Jean, e se infiltrou em sua casa, ganhando sua confiança e compartilhando de sua cama. Conseguiu fazer parte do plano de tráfico de drogas, e poderia ter fugido sã e salva, mas manteve a promessa de parceria, e tentou incluir Guilherme no plano, dizendo ser irmão dela. Ela matou pela primeira vez para protegê-lo. Aquela tesoura estaria agora para sempre em seus pesadelos, assim como a faca que Guilherme usou aos 14 anos continuava a perseguí-lo. Foi lembrando de tudo isso que o jovem prisioneiro da fera negra sentiu que esta não mais o segurava com força, e de supetão a empurrou para fora de sua cama, quebrando o contato que os selava.
            Yohana olhou surpresa para ele. Não furiosa, nem ofendida. Apenas surpresa. Levou alguns minutos para se recompor, mas, todo o tempo, parecia estar estudando Guilherme de cima a baixo. Linguagem corporal era o seu forte, foi o que disseram alguns dos outros rebeldes, como Gustavo, sua atual dupla nas tarefas diárias.
– Não é medo que eu vejo nos seus olhos. O que o fez fazer isso? – perguntou ela, como se estivessem em uma entrevista de emprego.
– Sai daqui! – chiou Guilherme, tentando não chamar muita atenção.
            Ela levantou-se do chão e encarou o rapaz do alto, então sorriu.
– Ela é uma garota de sorte, com certeza. Vou fazer questão de avisar ao Ícaro que você é um soldado exemplar –
            Em seguida Yohana virou as costas para Guilherme e caminhou lentamente para a saída. No quarto, que mais parecia um depósito, vários outros refugiados estavam acordados, assistindo a cena. Os que mantinham os olhos em Guilherme, tinham uma firme expressão de aprovação. Alguns até de admiração.
– EI! Espera aí, volta aqui. Isso tudo foi um teste? – perguntou Guilherme, um pouco mais alto do que teria arriscado antes.
            Ela parou na entrada, mas não se virou nem fez questão de voltar. Apenas ergueu a cabeça, como se fosse falar para as paredes.
– A vida aqui é sempre um teste, soldado. Espero que você esteja o tempo todo preparado e atento para o que der e vier –
            Então ela saiu. Aos poucos, o resto dos rebeldes deitaram e adormeceram. Não havia mais anda para se ver. Nenhum deles dirigiu sequer uma palavra para Guilherme, que não conseguiu dormir pelo resto na noite, pensando no que tinha acontecido, e também no que estaria acontecendo com Lia. Teria ela voltado pro Castelo da Rainha? Se este fosse o lugar seguro ao qual ela se referiu, Guilherme só esperava que a mãe não a colocasse para trabalhar. Mas para onde mais ela poderia ir? Se havia outro lugar, então ele não a conhecia tão bem quanto pensava. Tinha de admitir, eles conheciam mesmo muito pouco do passado um do outro. Era natural para um tenemissiano não falar sobre sua vida. Tudo o que disser pode e será usado contra você.
            No dia seguinte a rotina do esconderijo continuou normal. Ícaro não parecia estar zangado com Guilherme, e este se perguntou se Yohana teria mesmo contado a ele sobre o tal “teste”, ou se aquilo não fazia parte dos planos do namorado. Tudo que Guilherme queria era que a revolução começasse logo. Não aguentava mais viver em um buraco. Tinha uma necessidade gigantesca de sair dali e fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Acima de tudo, queria correr atrás de notícias de Lia. Mas, por ora, teria que conter todo o seu entusiasmo e fingir que ser um rebelde era tudo o que ele planejava para o resto da sua vida.

segunda-feira, 5 de março de 2012

21 - O Poderoso Chefão

           Hércules olhava pela janela seu imenso jardim. Homens de preto circulavam por entre o verde, muitos carregando rifles ou metralhadoras. “Qual o preço que se paga para conseguir a paz?”, o velho e poderoso homem se perguntava. Coçava os dedos de nervosismo, querendo fazer alguma coisa. Queria dar alguma ordem qualquer, colocar todos aqueles homens em movimento, mas não podia deixar sua ansiosidade aparecer. Era um líder astuto, calmo a maior parte do tempo, apenas perdendo a paciência uma ou duas vezes, não era como o estúpido Giuseppe Manentti. Não, precisava manter a sua imagem, e era principalmente nos piores momentos que ela mais valia. Lentamente, virou-se para o serviçal no canto da sala, que esperava pacientemente o dia todo por uma ordem.
– Mande tocar aquela música – Disse Hércules, em tom casual.
           E o serviçal sumiu pela porta, incrivelmente rápido para alguém que não poderia correr sem desrespeitar as boas maneiras da casa. Não levou muito tempo para que os alto falantes dispostos no alto das paredes de toda a mansão começassem a tocar a trilha sonora de O Poderoso Chefão. Hércules se permitiu um sorriso. Voltou a fitar a vista de seu terreno pela janela, já não prestando mais atenção em coisa alguma. Pediu o celular para o mesmo serviçal assim que ele voltou. Este o trouxe, mas quando Hercule tentou digitar os números, viu que sua mão tremia. Estaria ele tão nervoso assim? Ou estaria ele sentindo os efeitos da idade? Muitas pessoas não acreditariam, mas Hércules tinha apenas 53 anos, e não sessenta ou setenta, como alguns chutariam. O stress de tentar ganhar o domínio absoluto de Tenemissa acabou com sua vitalidade, e ainda acabaria com sua vida, assim como acabou com a vida de Mariane, sua única esposa.
           Antes dele, os Manentti dominavam tudo, mas eles faziam um péssimo trabalho. Pessoas viviam escapando nas gerações passadas, e se não fosse os tributos que a ilha pagava ao governo brasileiro, Tenemissa já teria sido invadida e feito uma democracia. “Eu fiz um favor para essas pessoas. Meus homens não são cachorros vira-latas como os homens do Manentti. Eu imponho a disciplina, e não apenas espalho o terror. Em apenas uma vida, eu consegui derrubar quase metade do poder daqueles imbecis. Em minhas mãos, Tenemissa seria o lugar perfeito para meus filhos. Mas não tenho mais muito tempo, e já perdi Jean. Tenho que fazer algo, garantir que Felipe e Lia não sejam tocados, ou melhor, não sejam mortos pela imbecilidade de outros. Eu esvaziarei as tripas do assassino do meu filho, vou fazer dele um exemplo, e então vou invadir de uma vez a casa daquele palerma do Giuseppe, vou matá-lo e então meus descendentes poderão usufruir de uma ilha só deles”.
           Hércules estendeu a mão com o celular, ainda nenhum número havia sido digitado.
– Ligue para o Felipe – disse ao serviçal, que não questionou o motivo pelo qual seu chefe não ligava ele mesmo. Nem mesmo mudou a sua expressão. Apenas fez seu serviço e nada mais.
           Hércules recebeu em segundos o celular de volta, já chamando o número de seu filho. O empregado voltou ao seu lugar, conseguindo apenas ouvir as respostas de seu amo, mas com a astucidade de não o demonstrar.
– Filho, você encontrou sua irmã? – foi a primeira pergunta de Hércules. Nenhum “olá” foi dito.
           Pela expressão de desapontamento, o mordomo imaginou a resposta. Seria isso mesmo? Seu amo manteve essa mesma expressão o dia todo. Raras vezes ele o viu deixar sentimentos moldarem sua face. Uma perfeita estátua esculpida em rigor e eficiência: a ninguém seria permitido ler o que se passava em sua mente.
– Traga essa garota para cá, e então vamos ver o que a gente pode conseguir dela –
           Hércules desligou o celular e o entregou ao mordomo. Ele não olhou no rosto de seu criado, e o criado não tirou os olhos do paletó dele. Era terrivelmente desagradável encarar os olhos de fogo do Poderoso Chefão. Sem apressar o passo, o Menegaro se dirigiu ao corredor que levava até a escadaria principal. Logo mais desceu os degraus e caminhou pelo jardim de que tanto gostava de observar pela janela.
           Em cerca de meia-hora, um carro passou pelos portões. Hércules seguiu-o até a garagem, onde o filho o esperava, segurando uma bela jovem pelos braços. O chefe Menegaro se aproximou, viu que ela relutava e tentava se soltar. Inútil. Chegou mais perto dela e notou seu olhar de nojo. Estúpida. Ele já sabia quem era, e logo aquele seu velho fogo tomava conta mais uma vez de seu corpo. Quando ergueu o braço para segurar o rosto da garota, não mais tremia.
– Então é você a vadia que matou o meu filho? – Disse, e, mesmo com toda a excitação que o sacudia por dentro, ele não se deixou modificar. Nem expressão, nem voz.
           A garota tentou cuspir, mas Hércules previu o movimento e bateu o queixo dela contra os dentes. Ela gemeu de dor, mas não tentou abaixar a cabeça, continuou encarando o velho nos olhos.
– Me responde, sua puta, qual é o seu nome? –
            À menção da palavra “puta”, uma luz diferente surgiu nos olhos da jovem, beirando entre raiva e ofensiva aceitação. Hércules atingiu seu ponto fraco, e ele sabia disso. Mais uma vez ela se recusou a falar.
– O nome dela é Lia, pai. Encontramos ela escondida no puteiro da mãe. Eu perguntei por aí, era ela que tava com o Guilherme, mas eles se separaram depois que o moleque explodiu o apartamento. Chegamos junto dum bando de Manentti, liderados por um tal de Matheus. Cuidei deles, mas acho que o desgraçado conseguiu fugir –
– Obrigado Felipe, mas eu queria ouvir ela falar, não você. Me diga então, sua putinha, lembra disso? –
           E ao estalar os dedos, duas empregadas trouxeram o vestido verde. Lia empalideceu, e Hércules sorriu. Pegou o vestido e o segurou com o braço estendido. Com o outro, acendeu um isqueiro. Lia viu o verde manchado de sangue ser engolido pelas chamas, restando ao final apenas pó. Só então ela abaixou a cabeça e fechou os olhos. Hércules riu alto e então a esbofeteou.
– Levem ela lá pra baixo! Nós ainda vamos conversar muito antes de eu torrar ela como fiz com esse vestido! –