Havia dez minutos que Magali encarava o pano molhado em cima da pia. Algo tão simples, uma dúvida tão cruel! Ela sabia o que seria de sua vida se tomasse a decisão mais difícil, mas sabia também o que seria da vida de seus filhos se não tomasse. Hércules poderia fazer dela o que quisesse, a pobre empregada já conhecia todos os métodos de tortura do velho. Presenciara todos, e até mesmo ajudou em alguns. Eles eram tudo aquilo que a impedia de dormir a noite, e por isso sua aparência feia a cansada. E talvez por essa aparência, ou pela ausência constante, ou até mesmo por medo do trabalho de sua mulher, seu marido a abandonou com três crianças para cuidar. Ou isso ou ele foi pego em algum beco, Magali nunca ouviu nenhuma notícia de seu paradeiro.
Agora era apenas ela, as crianças e aquele pano molhado. Olhou para trás antes de agarrá-lo, juntamente com um copo d’água, e se dirigir ao porão.
– Me mandaram cuidar da prisioneira – foi o que ela respondeu aos brutamontes que cuidavam da porta. Como uma boa empregada, já muito antiga na casa dos Menegaro, Magali sabia muito bem quando seu chefe estava e quando não estava. Felipe? Ela o criou. Então tinha certeza: no momento Lia estava sozinha em sua prisão particular. Ainda assim desceu as escadas com cuidado, prestando muita atenção. Um guarda nunca fala, nunca comenta, por isso não havia perigo em mentir para eles. Mas se tivesse alguém com um pouco mais de cabeça cuidando da garota, ela não teria como esconder suas intenções. A ordem foi clara: deixem ela morrer aos poucos. Comida dia sim, dia não. Água, muito raramente. Pancadas de leve poderiam ser dadas a vontade. Pancadas mais pesadas, quatro vezes ao dia. Estupros apenas se não conflitassem com o trabalho de vigia. E assim estava Lia, em tais condições que mal conseguia andar.
Quando Magali chegou, achou que a prisioneira tivesse conseguido escapar. Sentiu um frio na espinha, acompanhado de um sorriso tímido. Se Lia tivesse mesmo escapado, seria ótimo, mas então sobre quem cairia a culpa? Não precisou pensar muito sobre isso, pois não houve nenhuma fuga. O que poderia ser um trapo escuro jogado ao chão gemeu, assustando a empregada. Ela logo se recuperou e correu para socorrer a garota. Lia bebeu o copo d’água por completo, e Magali então começou a limpar seus ferimentos com o pano. Qualquer ajuda maior que essa seria perigoso para ambas, e Lia entendia muito bem. Estava grata pelo cuidado que, ela sabia perfeitamente, poderia custar a vida daquela mulher que ela nunca viu na vida.
– Isso menina, tenta se sentar. Conseguiu? Ótimo, agora deixa eu limpar esse sangue – falava a empregada, carregada de instinto maternal.
– Lia... Eu... Lia – Tentou falar a prisioneira, fraca demais devido a última vez que os guardas decidiram “checar” para ver se ela estava bem comportada.
– Sim, minha filha, eu sei. Você é a Lia. Eu sou Magali, e vou cuidar de você agora. Por favor, fique quietinha enquanto eu faço isso –
E Lia obedeceu. Sentiu-se novamente criança, enquanto uma mulher que, de repente, ela começou a desejar que fosse sua verdadeira mãe cuidava de seus ferimentos. Logo, seria ela a ajudante das futuras torturas. Lia não imaginaria, mas Magali sabia muito bem qual seria seu papel em cada sessão. Tinha vontade de chorar ao pensar nisso, mas agora sabia que Lia iria entender. Ela não fazia por maldade, embora fosse convincente o bastante para não levantar suspeitas. Tinha um papel muito importante, e precisava se manter nele. Eram nas torturas que ela ficava sabendo de coisas que as “pessoas normais” de Tenemissa jamais imaginariam. Quando voltava para casa, parava para fazer compras num supermercado, onde um velho magro estava sempre sentado em uma cadeira. Inofensivo. Ou ao menos era isso que os espiões dos Menegaro deveriam achar, pois nunca o incomodaram. Como eles poderiam saber que era para ele que ela contava tudo o que ouvia na casa do temido Hércules? Para onde ele levava a informação, ela não sabia. Só sabia que estava ajudando, e que fazia parte de algo maior do que simplesmente se esconder e aceitar a derrota diante daquelas grandes famílias. O velho nunca lhe deu nenhuma informação em retorno. Ela lhe dava um pacote de amendoins, para disfarçar uma obra de caridade enquanto lhe contava o que sabia, e ele lhe dizia obrigado. Magali agora tinha vontade de contar tudo isso para Lia. Queria mostrar a ela que ainda havia esperança, que nem tudo estava perdido. Não conseguiu. Sabia que era arriscado demais.
– Quando as torturas começarem... – tentou explicar a empregada, mas Lia riu. Magali teve pena dela, mas ainda assim continuou. Precisava preparar a coitada para o que estava por vir.
– Sim, minha filha, as torturas ainda não começaram. Infelizmente, o pior ainda está por vir. Quando chegar a hora, eu estarei entre eles. Eu vou ajudar a te torturar. Ainda assim espero que você não conte o que estou fazendo aqui agora, que é o que eu farei sempre que possível –
– Por... que? Pra que arriscar tanto? – Perguntou Lia, que não sabia o que pensar quando imaginou aquela figura carinhosa torturando impiedosamente quem ela antes salvou.
– Porque você é a nossa esperança. Todos falam de você, Lia. A garota que matou um dos filhos do Menegaro. Você não faz ideia do que você criou. A tensão entre as duas famílias está cada vez maior, e uma guerra está para explodir. E isso é bom! Nós estávamos esperando por isso, é a nossa chance de acabar de vez com esse terror. Foi você quem deu o pontapé inicial para isso tudo, minha filha, e qualquer pessoa com coragem o bastante faria o mesmo que eu estou fazendo por você. Todos já sabem que você está aqui, então aguente firme, esse jogo ainda pode virar –
E Magali deixou o porão, onde agora havia uma garota renovada. A empregada se sentia feliz por isso, apesar de saber que teve que mentir para alegrá-la.