segunda-feira, 5 de março de 2012

21 - O Poderoso Chefão

           Hércules olhava pela janela seu imenso jardim. Homens de preto circulavam por entre o verde, muitos carregando rifles ou metralhadoras. “Qual o preço que se paga para conseguir a paz?”, o velho e poderoso homem se perguntava. Coçava os dedos de nervosismo, querendo fazer alguma coisa. Queria dar alguma ordem qualquer, colocar todos aqueles homens em movimento, mas não podia deixar sua ansiosidade aparecer. Era um líder astuto, calmo a maior parte do tempo, apenas perdendo a paciência uma ou duas vezes, não era como o estúpido Giuseppe Manentti. Não, precisava manter a sua imagem, e era principalmente nos piores momentos que ela mais valia. Lentamente, virou-se para o serviçal no canto da sala, que esperava pacientemente o dia todo por uma ordem.
– Mande tocar aquela música – Disse Hércules, em tom casual.
           E o serviçal sumiu pela porta, incrivelmente rápido para alguém que não poderia correr sem desrespeitar as boas maneiras da casa. Não levou muito tempo para que os alto falantes dispostos no alto das paredes de toda a mansão começassem a tocar a trilha sonora de O Poderoso Chefão. Hércules se permitiu um sorriso. Voltou a fitar a vista de seu terreno pela janela, já não prestando mais atenção em coisa alguma. Pediu o celular para o mesmo serviçal assim que ele voltou. Este o trouxe, mas quando Hercule tentou digitar os números, viu que sua mão tremia. Estaria ele tão nervoso assim? Ou estaria ele sentindo os efeitos da idade? Muitas pessoas não acreditariam, mas Hércules tinha apenas 53 anos, e não sessenta ou setenta, como alguns chutariam. O stress de tentar ganhar o domínio absoluto de Tenemissa acabou com sua vitalidade, e ainda acabaria com sua vida, assim como acabou com a vida de Mariane, sua única esposa.
           Antes dele, os Manentti dominavam tudo, mas eles faziam um péssimo trabalho. Pessoas viviam escapando nas gerações passadas, e se não fosse os tributos que a ilha pagava ao governo brasileiro, Tenemissa já teria sido invadida e feito uma democracia. “Eu fiz um favor para essas pessoas. Meus homens não são cachorros vira-latas como os homens do Manentti. Eu imponho a disciplina, e não apenas espalho o terror. Em apenas uma vida, eu consegui derrubar quase metade do poder daqueles imbecis. Em minhas mãos, Tenemissa seria o lugar perfeito para meus filhos. Mas não tenho mais muito tempo, e já perdi Jean. Tenho que fazer algo, garantir que Felipe e Lia não sejam tocados, ou melhor, não sejam mortos pela imbecilidade de outros. Eu esvaziarei as tripas do assassino do meu filho, vou fazer dele um exemplo, e então vou invadir de uma vez a casa daquele palerma do Giuseppe, vou matá-lo e então meus descendentes poderão usufruir de uma ilha só deles”.
           Hércules estendeu a mão com o celular, ainda nenhum número havia sido digitado.
– Ligue para o Felipe – disse ao serviçal, que não questionou o motivo pelo qual seu chefe não ligava ele mesmo. Nem mesmo mudou a sua expressão. Apenas fez seu serviço e nada mais.
           Hércules recebeu em segundos o celular de volta, já chamando o número de seu filho. O empregado voltou ao seu lugar, conseguindo apenas ouvir as respostas de seu amo, mas com a astucidade de não o demonstrar.
– Filho, você encontrou sua irmã? – foi a primeira pergunta de Hércules. Nenhum “olá” foi dito.
           Pela expressão de desapontamento, o mordomo imaginou a resposta. Seria isso mesmo? Seu amo manteve essa mesma expressão o dia todo. Raras vezes ele o viu deixar sentimentos moldarem sua face. Uma perfeita estátua esculpida em rigor e eficiência: a ninguém seria permitido ler o que se passava em sua mente.
– Traga essa garota para cá, e então vamos ver o que a gente pode conseguir dela –
           Hércules desligou o celular e o entregou ao mordomo. Ele não olhou no rosto de seu criado, e o criado não tirou os olhos do paletó dele. Era terrivelmente desagradável encarar os olhos de fogo do Poderoso Chefão. Sem apressar o passo, o Menegaro se dirigiu ao corredor que levava até a escadaria principal. Logo mais desceu os degraus e caminhou pelo jardim de que tanto gostava de observar pela janela.
           Em cerca de meia-hora, um carro passou pelos portões. Hércules seguiu-o até a garagem, onde o filho o esperava, segurando uma bela jovem pelos braços. O chefe Menegaro se aproximou, viu que ela relutava e tentava se soltar. Inútil. Chegou mais perto dela e notou seu olhar de nojo. Estúpida. Ele já sabia quem era, e logo aquele seu velho fogo tomava conta mais uma vez de seu corpo. Quando ergueu o braço para segurar o rosto da garota, não mais tremia.
– Então é você a vadia que matou o meu filho? – Disse, e, mesmo com toda a excitação que o sacudia por dentro, ele não se deixou modificar. Nem expressão, nem voz.
           A garota tentou cuspir, mas Hércules previu o movimento e bateu o queixo dela contra os dentes. Ela gemeu de dor, mas não tentou abaixar a cabeça, continuou encarando o velho nos olhos.
– Me responde, sua puta, qual é o seu nome? –
            À menção da palavra “puta”, uma luz diferente surgiu nos olhos da jovem, beirando entre raiva e ofensiva aceitação. Hércules atingiu seu ponto fraco, e ele sabia disso. Mais uma vez ela se recusou a falar.
– O nome dela é Lia, pai. Encontramos ela escondida no puteiro da mãe. Eu perguntei por aí, era ela que tava com o Guilherme, mas eles se separaram depois que o moleque explodiu o apartamento. Chegamos junto dum bando de Manentti, liderados por um tal de Matheus. Cuidei deles, mas acho que o desgraçado conseguiu fugir –
– Obrigado Felipe, mas eu queria ouvir ela falar, não você. Me diga então, sua putinha, lembra disso? –
           E ao estalar os dedos, duas empregadas trouxeram o vestido verde. Lia empalideceu, e Hércules sorriu. Pegou o vestido e o segurou com o braço estendido. Com o outro, acendeu um isqueiro. Lia viu o verde manchado de sangue ser engolido pelas chamas, restando ao final apenas pó. Só então ela abaixou a cabeça e fechou os olhos. Hércules riu alto e então a esbofeteou.
– Levem ela lá pra baixo! Nós ainda vamos conversar muito antes de eu torrar ela como fiz com esse vestido! –

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