segunda-feira, 19 de março de 2012

23 - Escombros do Reinado

            O sol já se mostrava radiante no horizonte quando Carlos e Aline encontraram o Castelo. Levaram muito mais tempo do que planejaram, pois as ruas eram todas repletas de bordéis com suas luzes de neon, o que dava a impressão para Aline, que dirigia, de que todas as ruas eram iguais. Não adiantava parar para pedir informação. Em qualquer lugar de Tenemissa, a informação custa caro. Quando vêm de uma prostituta, custa mais caro ainda e com a certeza de que a informação está errada: ela levará quem a ouvir para uma armadilha. Não há um único beco naquela ilha que não tenha alguém a espreita. Uma pessoa só daria uma informação correta se tivesse algum interesse por trás, algo que valesse mais do que o dinheiro da vítima de suas mentiras.
– O que diabos aconteceu aqui? –
            Foi a primeira reação de Carlos. O que antes deveria ser um dos bordéis mais caros daquele bairro era agora uma casa furada. Operários andavam de um lado para outro, como formigas sem direção. Tentavam em vão consertar o Castelo pisado por um gigante. Ao verem que o carro parou na frente, todos se mostraram apreensivos. Alguém gritou o nome Vanessa, e logo havia uma mulher intimidante caminhando decidida na direção do casal, que saiu do carro.
– Estamos fechados para reformas! Agora deem o fora daqui – gritou a mulher.
– Não somos clientes, sou policial e quero investigar o que está acontecendo aqui – disse Carlos, mostrando o distintivo. Vanessa torceu a boca, mas sabia que nada podia fazer.
– Não tem nada pra investigar aqui, e você sabe muito bem do que eu to falando –
– Eu to sendo pago pra isso, e você sabe muito bem do que eu to falando –
– Os dois estiveram aqui. Se você estivesse mesmo sendo pago saberia disso – disse Vanessa triunfante, virando as costas para o casal e indo em direção a ex-boate. Carlos e Aline saíram depressa do carro, alcançando a mulher na metade de seu percurso.
– Escuta aqui vadia, a gente ta tentando ajudar, se você ainda não percebeu – Era agora Aline falando, e Carlos já começava a se arrepender de ter deixado ela sair do carro. Vanessa virou-se com o rosto vermelho de raiva, os punhos cerrados.
– QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE VADIA? –
– Essa puta gorda na minha frente. Agora escuta bem direitinho: meu nome é Aline, sou filha de Hércules Menegaro e estou acompanhando este policial para investigar um caso muito importante. Se a minha família brigou com os trombadinhas na frente do seu puteiro, que se foda! Você vai nos dizer exatamente o que a gente quer saber ou o que sobrou dessa casa vai abaixo –
            Por pelo menos três minutos as duas mulheres ficaram paradas, se encarando. Carlos não sabia dizer qual das duas parecia estar com mais raiva, embora já conseguisse notar que a raiva de Aline era forjada. Talvez começasse a entender aquela mulher. No fim, Vanessa deu novamente as costas, mas agora de desistência. O policial sorriu quando seguiu sua companheira para dentro do bordel arruinado.
            Sangue, poeira e caos. Embora os corpos já tivessem sido retirados há muito, o chão ainda estava repleto de suas lembranças. Seus últimos momentos esparramados em crueldade líquida.
– Perdi muitas garotas e clientes naquela noite – disse Vanessa em tom triste. Parecia se importar mais com a morte dos clientes do que com “suas garotas”.
– Conte-nos exatamente o que aconteceu, desde o início – falou Carlos, pegando um bloco de notas para anotar.
– Nós estávamos em uma noite de trabalho normal. A casa estava cheia, como sempre. Eu não sei bem como tudo aconteceu, estava lá atrás cuidando dos meus negócios quando ouvi aquele barulho de pneus freando e, minutos depois, tiroteio. Estava quase vindo aqui ver o que era quando percebi que o barulho se aproximava, então fugi – relatou ela.
– Será que eu posso conversar com as suas garotas? Talvez alguma que tenha visto algo ou... –
– Minhas garotas estão descansando, eu conto a versão delas – interrompeu Vanessa.
            Carlos franziu a testa. Pela sua experiência já sabia o que estava por vir. Antes que Aline começasse a falar, fez um sinal para que ela se calasse, e outro para que Vanessa prosseguisse.
– Pois bem – Continuou a Rainha – Eu ouvi a versão de todas as minhas garotas, e o que elas disseram, em resumo, foi que viram as duas gangues brigando lá fora, aí uma delas pensou em usar o interior da casa como cobertura. Invadiram a boate! Os outros entraram e atiraram em todo mundo, sem saber quem era quem. Meus guardas tentaram impedir, mas foram os primeiros a levar bala –
– Me diga Vanessa... Alguém da sua família se feriu? – perguntou Carlos, sem tirar os olhos do bloco de notas, fingindo ser uma pergunta casual.
– Eu não tenho nenhuma família que não seja as meninas. Sim, elas se feriram, como eu já te disse – mentiu Vanessa, no mesmo tom de voz com que falara a narrativa anterior.
– E Lia? Sabemos que você tem uma filha – interrompeu Aline. Carlos não se importou, iria fazer a mesma pergunta. Ela só fora mais rápida.
– Minha filha me abandonou há muito tempo. Eu nunca mais quero ver aquela cadela na minha frente. Agora saiam da minha casa! Estamos tentando trabalhar aqui – explodiu por fim a Rainha, agitando os braços como se tentasse espantar moscas.
            Carlos saiu, empurrando Aline junto. Ela tentaria arrancar a verdade a força, e Carlos sabia por experiência própria que isso só geraria mais dor de cabeça no futuro. Quando voltaram para o carro, Carlos pegou o assento do motorista. Antes que pudesse dar a partida, três garotas de programa apareceram na janela.
– Foi mal meninas, mas eu já estou acompanhado – disse Carlos, apontando para Aline, que teve o bom senso de não desmentir o policial, mesmo não gostando de ser posta no lugar de uma prostituta.
– Você sabe que ela mentiu, não sabe? A puta dona do bordel. Ela mentiu pra vocês – disse a mulher que parecia ser a líder do bando.
– Mentiu sobre o que? – perguntou Carlos, se fazendo de desentendido. As vezes, essa é a melhor forma de arranjar informações de certas pessoas.
– Ah, qual é? Eu reconheço um policial quando vejo um – continuou a líder, as outras duas atrás paradas, de cabeça baixa, não pareciam ser capazes de falar sem ter permissão pra isso.
– E o que você pode me dizer que ela não me disse? –
– A princesinha estava aí. A filha dela, Lia. Nós ficamos de olho, e sabemos tudo o que aconteceu. A briga foi por ela. Os vencedores entraram e levaram a garota com eles. Eram Menegaro, aqueles filhos da puta –
            Carlos tirou três notas altas de dentro da carteira, entregando para a sorridente loira falsa de saia curta.
– Isso é tudo que eu preciso saber. Qual é o seu nome? –
– Pode me chamar de Carla, bonitão – disse a prostituta, colocando as três notas dentro da bolsa.
– Carla... Manteremos contato – terminou Carlos, dando a partida no carro e deixando o trio para trás.

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