Guilherme não saberia dizer quantas vezes já sonhou que acordava, e então fazia alguma coisa apenas para descobrir que continuava dormindo. A sensação de que jamais iria acordar de verdade o deixava a beira do desespero. Desta vez, após sonhar que acordava sete vezes seguidas, ele sonhou que acordava em uma cama estranha, em algum lugar do subsolo, onde vivia como um rato em meio a outras pessoas que também fugiram.
Ao supostamente acordar, ele se deparou com uma bela mulher negra, que de alguma forma subiu em sua cama e foi isso que o acordou. Instintivamente ele sabia o nome dela, assim como sempre se sabe tudo instintivamente dentro dos sonhos. Seu nome era algo estranho, diferente, soava estrangeiro. Yohana? Sim, Yohana. Namorada daquele homem também estranho, que parecia ser uma versão ruiva de Tchê Guevara, o único líder revolucionário que as escolas proibiam o conhecimento, mas que todo tenemissiano conhecia. Mas como ele sabia da existência desse homem, se ele não estava ali? É claro, era tudo um sonho. Não há sentido em fazer perguntas para uma realidade sem nexo.
– Achei que você não iria acordar – disse Yohana, subindo cada vez mais em Guilherme, que sentiu seu toque muito real – O seu amiguinho acordou muito antes de você – continuou, desta vez falando no ouvido.
Guilherme se mexeu instintivamente. A mulher tinha uma de suas mãos apoiada ao lado da cabeça de Guilherme, a outra entrava por dentro de sua calça. Subitamente ele despertou, como se alguém tivesse girado as engrenagens de seu cérebro e só então sua mente começou a trabalhar. Não estava sonhando. Ele realmente estava agora vivendo em meio aos rebeldes, treinando junto deles para realizar o fabuloso plano de derrubar as duas famílias de uma vez só, no melhor estilo Tenemissiano: na bala. Isso significava que Yohana era tão real quanto seu toque, o que fazia de Ícaro, o Tchê ruivo, mais real ainda. E com certeza mais perigoso.
Assustado enquanto imaginava a reação de Ícaro caso visse sua namorada na cama de outro, Guilherme tentou se desvencilhar, mas Yohana o agarrou firme aonde ele não poderia se mexer. Lentamente, ela passou a língua de sua orelha para a sua boca, e o beijou. Guilherme novamente tentou fugir, mas sabia que ela era tão perigosa, ou até mesmo mais, do que o líder dos rebeldes. A pancada que ela lhe deu com a pistola em sua cabeça doeu por muitos dias. Ainda assim, ele não resistiu e retribuiu o beijo, esquecendo completamente o que poderia lhe acontecer.
Por quanto tempo seus lábios estiveram colados, ele não conseguia imaginar. Mas em algum momento algo lhe deu forças para que se lembrasse de quem era, do que estava fazendo e o quanto era perigoso. A diferença. Yohana era boa, não havia dúvidas. Mas em meio ao demorado beijo Guilherme tinha flashes de outro beijo, de outra garota. A diferença era clara, e o fez lembrar de Lia de uma maneira que era quase como se ela estivesse ali presente. Lembrou-se de quando se conheceram, de como ele a resgatou do bordel da mãe, ambos fugindo numa noite de chuva, sem ter um destino certo. Lembrou-se de todas as brigas sem sentido, tão características de ambos. Lembrou-se então de quando decidiram se separar. Precisavam passar por cima de tudo e de todos, mas juntos brigavam demais, e nada dava certo. Para que desse, deveriam ser apenas sócios. Parceiros de trabalho e nada mais. Foi quando ela conheceu Jean, e se infiltrou em sua casa, ganhando sua confiança e compartilhando de sua cama. Conseguiu fazer parte do plano de tráfico de drogas, e poderia ter fugido sã e salva, mas manteve a promessa de parceria, e tentou incluir Guilherme no plano, dizendo ser irmão dela. Ela matou pela primeira vez para protegê-lo. Aquela tesoura estaria agora para sempre em seus pesadelos, assim como a faca que Guilherme usou aos 14 anos continuava a perseguí-lo. Foi lembrando de tudo isso que o jovem prisioneiro da fera negra sentiu que esta não mais o segurava com força, e de supetão a empurrou para fora de sua cama, quebrando o contato que os selava.
Yohana olhou surpresa para ele. Não furiosa, nem ofendida. Apenas surpresa. Levou alguns minutos para se recompor, mas, todo o tempo, parecia estar estudando Guilherme de cima a baixo. Linguagem corporal era o seu forte, foi o que disseram alguns dos outros rebeldes, como Gustavo, sua atual dupla nas tarefas diárias.
– Não é medo que eu vejo nos seus olhos. O que o fez fazer isso? – perguntou ela, como se estivessem em uma entrevista de emprego.
– Sai daqui! – chiou Guilherme, tentando não chamar muita atenção.
Ela levantou-se do chão e encarou o rapaz do alto, então sorriu.
– Ela é uma garota de sorte, com certeza. Vou fazer questão de avisar ao Ícaro que você é um soldado exemplar –
Em seguida Yohana virou as costas para Guilherme e caminhou lentamente para a saída. No quarto, que mais parecia um depósito, vários outros refugiados estavam acordados, assistindo a cena. Os que mantinham os olhos em Guilherme, tinham uma firme expressão de aprovação. Alguns até de admiração.
– EI! Espera aí, volta aqui. Isso tudo foi um teste? – perguntou Guilherme, um pouco mais alto do que teria arriscado antes.
Ela parou na entrada, mas não se virou nem fez questão de voltar. Apenas ergueu a cabeça, como se fosse falar para as paredes.
– A vida aqui é sempre um teste, soldado. Espero que você esteja o tempo todo preparado e atento para o que der e vier –
Então ela saiu. Aos poucos, o resto dos rebeldes deitaram e adormeceram. Não havia mais anda para se ver. Nenhum deles dirigiu sequer uma palavra para Guilherme, que não conseguiu dormir pelo resto na noite, pensando no que tinha acontecido, e também no que estaria acontecendo com Lia. Teria ela voltado pro Castelo da Rainha? Se este fosse o lugar seguro ao qual ela se referiu, Guilherme só esperava que a mãe não a colocasse para trabalhar. Mas para onde mais ela poderia ir? Se havia outro lugar, então ele não a conhecia tão bem quanto pensava. Tinha de admitir, eles conheciam mesmo muito pouco do passado um do outro. Era natural para um tenemissiano não falar sobre sua vida. Tudo o que disser pode e será usado contra você.
No dia seguinte a rotina do esconderijo continuou normal. Ícaro não parecia estar zangado com Guilherme, e este se perguntou se Yohana teria mesmo contado a ele sobre o tal “teste”, ou se aquilo não fazia parte dos planos do namorado. Tudo que Guilherme queria era que a revolução começasse logo. Não aguentava mais viver em um buraco. Tinha uma necessidade gigantesca de sair dali e fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Acima de tudo, queria correr atrás de notícias de Lia. Mas, por ora, teria que conter todo o seu entusiasmo e fingir que ser um rebelde era tudo o que ele planejava para o resto da sua vida.
– Achei que você não iria acordar – disse Yohana, subindo cada vez mais em Guilherme, que sentiu seu toque muito real – O seu amiguinho acordou muito antes de você – continuou, desta vez falando no ouvido.
Guilherme se mexeu instintivamente. A mulher tinha uma de suas mãos apoiada ao lado da cabeça de Guilherme, a outra entrava por dentro de sua calça. Subitamente ele despertou, como se alguém tivesse girado as engrenagens de seu cérebro e só então sua mente começou a trabalhar. Não estava sonhando. Ele realmente estava agora vivendo em meio aos rebeldes, treinando junto deles para realizar o fabuloso plano de derrubar as duas famílias de uma vez só, no melhor estilo Tenemissiano: na bala. Isso significava que Yohana era tão real quanto seu toque, o que fazia de Ícaro, o Tchê ruivo, mais real ainda. E com certeza mais perigoso.
Assustado enquanto imaginava a reação de Ícaro caso visse sua namorada na cama de outro, Guilherme tentou se desvencilhar, mas Yohana o agarrou firme aonde ele não poderia se mexer. Lentamente, ela passou a língua de sua orelha para a sua boca, e o beijou. Guilherme novamente tentou fugir, mas sabia que ela era tão perigosa, ou até mesmo mais, do que o líder dos rebeldes. A pancada que ela lhe deu com a pistola em sua cabeça doeu por muitos dias. Ainda assim, ele não resistiu e retribuiu o beijo, esquecendo completamente o que poderia lhe acontecer.
Por quanto tempo seus lábios estiveram colados, ele não conseguia imaginar. Mas em algum momento algo lhe deu forças para que se lembrasse de quem era, do que estava fazendo e o quanto era perigoso. A diferença. Yohana era boa, não havia dúvidas. Mas em meio ao demorado beijo Guilherme tinha flashes de outro beijo, de outra garota. A diferença era clara, e o fez lembrar de Lia de uma maneira que era quase como se ela estivesse ali presente. Lembrou-se de quando se conheceram, de como ele a resgatou do bordel da mãe, ambos fugindo numa noite de chuva, sem ter um destino certo. Lembrou-se de todas as brigas sem sentido, tão características de ambos. Lembrou-se então de quando decidiram se separar. Precisavam passar por cima de tudo e de todos, mas juntos brigavam demais, e nada dava certo. Para que desse, deveriam ser apenas sócios. Parceiros de trabalho e nada mais. Foi quando ela conheceu Jean, e se infiltrou em sua casa, ganhando sua confiança e compartilhando de sua cama. Conseguiu fazer parte do plano de tráfico de drogas, e poderia ter fugido sã e salva, mas manteve a promessa de parceria, e tentou incluir Guilherme no plano, dizendo ser irmão dela. Ela matou pela primeira vez para protegê-lo. Aquela tesoura estaria agora para sempre em seus pesadelos, assim como a faca que Guilherme usou aos 14 anos continuava a perseguí-lo. Foi lembrando de tudo isso que o jovem prisioneiro da fera negra sentiu que esta não mais o segurava com força, e de supetão a empurrou para fora de sua cama, quebrando o contato que os selava.
Yohana olhou surpresa para ele. Não furiosa, nem ofendida. Apenas surpresa. Levou alguns minutos para se recompor, mas, todo o tempo, parecia estar estudando Guilherme de cima a baixo. Linguagem corporal era o seu forte, foi o que disseram alguns dos outros rebeldes, como Gustavo, sua atual dupla nas tarefas diárias.
– Não é medo que eu vejo nos seus olhos. O que o fez fazer isso? – perguntou ela, como se estivessem em uma entrevista de emprego.
– Sai daqui! – chiou Guilherme, tentando não chamar muita atenção.
Ela levantou-se do chão e encarou o rapaz do alto, então sorriu.
– Ela é uma garota de sorte, com certeza. Vou fazer questão de avisar ao Ícaro que você é um soldado exemplar –
Em seguida Yohana virou as costas para Guilherme e caminhou lentamente para a saída. No quarto, que mais parecia um depósito, vários outros refugiados estavam acordados, assistindo a cena. Os que mantinham os olhos em Guilherme, tinham uma firme expressão de aprovação. Alguns até de admiração.
– EI! Espera aí, volta aqui. Isso tudo foi um teste? – perguntou Guilherme, um pouco mais alto do que teria arriscado antes.
Ela parou na entrada, mas não se virou nem fez questão de voltar. Apenas ergueu a cabeça, como se fosse falar para as paredes.
– A vida aqui é sempre um teste, soldado. Espero que você esteja o tempo todo preparado e atento para o que der e vier –
Então ela saiu. Aos poucos, o resto dos rebeldes deitaram e adormeceram. Não havia mais anda para se ver. Nenhum deles dirigiu sequer uma palavra para Guilherme, que não conseguiu dormir pelo resto na noite, pensando no que tinha acontecido, e também no que estaria acontecendo com Lia. Teria ela voltado pro Castelo da Rainha? Se este fosse o lugar seguro ao qual ela se referiu, Guilherme só esperava que a mãe não a colocasse para trabalhar. Mas para onde mais ela poderia ir? Se havia outro lugar, então ele não a conhecia tão bem quanto pensava. Tinha de admitir, eles conheciam mesmo muito pouco do passado um do outro. Era natural para um tenemissiano não falar sobre sua vida. Tudo o que disser pode e será usado contra você.
No dia seguinte a rotina do esconderijo continuou normal. Ícaro não parecia estar zangado com Guilherme, e este se perguntou se Yohana teria mesmo contado a ele sobre o tal “teste”, ou se aquilo não fazia parte dos planos do namorado. Tudo que Guilherme queria era que a revolução começasse logo. Não aguentava mais viver em um buraco. Tinha uma necessidade gigantesca de sair dali e fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Acima de tudo, queria correr atrás de notícias de Lia. Mas, por ora, teria que conter todo o seu entusiasmo e fingir que ser um rebelde era tudo o que ele planejava para o resto da sua vida.
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