domingo, 1 de abril de 2012

25 - O Beco da Diversão

            Gustavo sentiu que tremia enquanto tentava recarregar a pistola. Não havia notado antes, mas agora via claramente o buraco feito pela bala, e seu sangue que descia e se misturava com a sujeira da rua. Perto de onde estava escondido, Guilherme disparava protegido pela parede de uma esquina, enquanto gritava alguma coisa para... Para quem? Ah, sim! Para Évelin, mas onde ela estava? Gustavo agora não conseguia entender direito o que acontecia ao seu redor, mas também não iria ficar parado. Levantou-se o bastante para atirar por cima da lata de lixo em que ele se escondera atrás. Foi então que viu onde estava Évelin: correndo sem proteção nenhuma em direção ao grupo de Manenti que atirava neles. Ela corria, gritava e disparava uma metralhadora que Gustavo não fazia ideia de onde ela poderia ter conseguido. Era óbvio que eles iam morrer. Ficou claro no instante em que Matheus descobriu que estava sendo seguido. Sim, Matheus! Gustavo começou então a se lembrar o que estava fazendo ali. Precisava por sua cabeça em ordem, se quisesse dar um jeito naquela situação.
            Ele se escorou na lata de lixo, sem se importar. Deixou cair sua pistola no chão enquanto segurava o ferimento com ambas as mãos. Olhou para o alto, para o topo daqueles prédios velhos, onde várias pessoas espiavam o tiroteio pelas frestas da cortina. Aquilo era um grande festival para elas, o melhor entretenimento que poderiam ter.

            Foi depois de algumas semanas desde que o novato chegou. Muita gente falava dele, que conseguiu matar o filho do Menegaro. “Como você conseguiu?”, era o que todos queriam saber. “Não fui eu”, era o que ele sempre respondia, e então ficava calado, e ninguém conseguiu arrancar mais nada sobre o assunto. Eu já era um rato morto há dois anos, e conhecia bem o processo de aceitação. Guilherme ainda ia levar tempo pra se acostumar com a nova vida subterrânea, ou talvez ele fosse mesmo assim, calado. Tomava café como se estivesse fumando um cigarro, e isso ele fazia também, mas apenas quando estava sozinho. Ou ao menos era o que ele achava, pois lá embaixo ninguém nunca fica sozinho. Apesar de tudo o rapaz era boa companhia, e logo eu era o seu companheiro de atividades, sempre falando, ouvindo pouco. Ele parecia que tinha sempre alguma coisa muito importante na cabeça, e que não podia se distrair nunca. Quando Yohana o testou, ele resistiu. Coisa que poucos tinham feito até então. Não era uma questão de que se resistisse ou não passava no teste, era mais pra saber que tipo de pessoa os novatos eram. Ícaro dizia não se importar. Eu não sei, não ia gostar de ver minha namorada transando com todo cara novo que aparecia por aí. Mas pensando bem, ele também pegava as garotas que chegavam. Talvez fosse tudo mesmo profissional. Não entendo muito disso, eu sigo as ordens do “Tchê Ruivo”, como já dizia o Guilherme, e pra mim está ótimo. É muito bom saber que estou fazendo algo de útil pra livrar minha ilha desses filhos da puta. Eu tenho fé que o Ícaro vai conseguir, ele tem um plano. Ninguém sabe qual é, mas ele tem e eu não duvido.
            Aí ele me deu essa missão. Eu achei ótimo, porque uma missão é o único jeito de sentir o ar puro, andar pelas ruas de novo. Como o Guilherme tava muito nervoso de ficar alguns meses lá embaixo, eu resolvi levar ele junto. Podia ter escolhido outra pessoa, mas... Eu gosto dele. Foi difícil convencer o Ícaro, porque ele dizia que ainda podiam estar procurando pelo nosso mais novo assassino. Mas é besteira, ele morreu quando um botijão de gás explodiu seu prédio, como disse o jornal. Já a Évelin, essa eu fui obrigado a levar junto. Ela é uma desgraçada de uma matadora, mas é maluca. A gente nunca sabia quando ela ia se ofender com qualquer coisa e meter o pau em quem tivesse mais próximo, e a coisa sempre ficava feia. Ela com uma arma na mão então, eu não queria estar na frente.
            Mas sim, a missão. Um dos nossos camaradas tava encurralado, e a gente precisava levar ele pro buraco são e salvo depressa, antes que descobrissem onde ele tava escondido. Pelo visto o problema era Manenti, e o território que o coitado ta trabalhando... Puta lugar ruim, só malandro pra tudo quanto é lado, do tipo que se esconde na asa da família pra matar e roubar por diversão. A gente não podia deixar nosso informante lá, ainda mais que se ele fosse pego, podia acabar contando onde fica o esconderijo.
            Só quando a gente chegou lá é que percebemos que foi tudo uma armadilha. O cara já tinha dedurado a gente, por sorte nenhum informante de fora sabe a localização exata do esconderijo, mas o cara falou tudo o que sabia. Não ia demorar muito pros desgraçados descobrirem. Sorte nossa que o Guilherme reconheceu um cara da família Manenti, acho que ele falou que o nome dele era Marcos, e aí a gente viu que tava fudido. Eles viram a gente também e cara, se não fosse por isso... o traíra tava esperando na porta, ele ia fazer todo mundo ir direto pra ele, e então os Manenti só precisavam atirar pelas nossas costas.
            Mas não foi isso que aconteceu. O Guilherme me mostrou aquele tal de Marcos, e ele percebeu que tinha sido reconhecido. Gritou, e eu gritei também. Foi tiro pra tudo quanto é lado na hora. Eles com metralhadoras, a gente só tinha uma pistola de cada, e ainda assim derrubamos uns quatro antes dessa merda de bala furar a minha barriga.

            Gustavo sorriu. Conseguiu se lembrar de tudo, e estava claro o que precisava fazer. Devagar, enquanto a rua se iluminava com os clarões dos tiros, pegou sua pistola, verificou se a tinha carregado corretamente, e esperou. Não tentou mais forçar para esquecer a dor. Estava doendo, sim. Deixa doer. Com um impulso pulou para cima da lixeira, ficando em pé. Era um ângulo onde a cobertura dos carros não significava nada para ele, e logo atirava na cabeça daqueles que se escondiam atrás dos veículos parados na frente do beco. Guilherme viu o que ele estava fazendo, e correu para lhe dar cobertura. Enquanto o triunfante Gustavo dava três tiros nas costas de um Marcos que fugia, Guilherme pulava por cima do corpo de Évelin, pegando sua metralhadora que, ele tinha visto, ela roubara de um Manenti que se atrevera a dar a volta no beco, para pegá-los de surpresa. Ela ferozmente avançou no coitado, que nada podia fazer contra aquela louca. Foi horrível vê-la matando o homem a mordidas na cara e no pescoço, e logo ela corria com a metralhadora nas mãos, sangue escorrendo pelos cabelos. Por mais valente que fosse, Évelin não era a prova de balas, e seu corpo havia sido perfurado por pelo menos quatorze.
            Muito depressa, Guilherme se abaixou na frente do carro mais próximo, e deu a volta, pegando o que restara da gangue desprevenida. Era tudo ou nada, e ele apertou o gatilho e não soltou mais, até acabarem sua balas, muito depois de todos já estarem mortos, inclusive Matheus, cujo grito ecoou como de uma menina. Um verdadeiro vexame para um homem daquele tamanho.
            Cansado e nem um pouco feliz, Guilherme deixou a arma cair no chão. O traidor havia sumido, decerto fugira quando viu que corria risco de vida. De volta ao beco, Gustavo estava sentado na lixeira, sangrando gravemente, mas ainda sorria. A dor já havia afetado seu raciocínio.
– Calma, eu vou te levar de volta – disse Guilherme, descendo seu amigo da lixeira.
– A gente conseguiu cara, acabamos com todos esses filhos da puta – falou o outro, fraco mas feliz.
– É, a gente conseguiu – concordou Guilherme, puxando o braço do Herói do Beco por cima de seu ombro, e ajudando-o a caminhar de volta para casa.
            Das janelas as pessoas iam aos poucos voltando sua atenção para a tv. O show tinha acabado. Mas quem não se satisfez em ver a carnificina, e insistiu em permanecer olhando o sangue brilhar iluminando a rua escura, pôde ver o bônus ao final dos créditos: Um negro alto e musculoso, acompanhado de uma mulher mais alta ainda, de cabelos pretos lisos e compridos. Eles vieram cautelosos, provavelmente atraídos pelo barulho do tiroteio, e então seguiram os passos dos dois únicos sobreviventes da batalha.

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