sábado, 18 de fevereiro de 2012

19 - Mortos Vivem no Subsolo

           Formas difusas flutuavam na visão de Guilherme. Nenhum som ele ouvia, nem sequer tinha consciência plena de que algo estava acontecendo. Era apenas mais um sonho. Não foi, porém, o que continuou a pensar ao sentir a água fria escorrer do topo de sua cabeça, encharcando-lhe o rosto e descendo até as suas costas. Despertou assustado, sentindo um arrepio na coluna causado pelo frio do líquido. Logo na sua frente reconheceu Yohana, que segurava uma garrafa de água mineral pela metade. Ela não estava mais usando as roupas imundas com as quais se disfarçava de drogada, e sim um tipo de roupa preta de couro, que Guilherme só vira em filmes. Logo atrás dela um homem de longos cabelos vermelhos sorria. Guilherme o achou familiar, só não soube exatamente de onde o conhecia. Yohana se afastou para deixá-lo se aproximar do rapaz, que só agora tinha pela noção da sua situação. Estava amarrado em uma cadeira. Braços para trás, pernas juntas. Era, porém, uma cadeira simples de madeira, as cordas eram finas. Ele poderia se soltar facilmente, mas uma pequena figura parada na única porta do aposento sem janelas o olhava atentamente, suas mãos segurando firme uma escopeta.
– Então, você é o famoso Guilherme? – perguntou o homem que ainda sorria. Guilherme agora sabia quem aquele homem o lembrava: uma versão ruiva de Tchê Guevara.
– Famoso, eu? – perguntou inocentemente.
– É cara, qualquer um que mata os moradores de um prédio inteiro e passa na TV fica famoso, sabia? –
– Sabe como é, todo mundo já quis matar os vizinhos... Gente chata e barulhenta – respondeu Guilherme sorrindo.
           O Tchê de Tenemissa riu alto, Yohana sorriu e o baixinho da escopeta continuou encarando Guilherme seriamente. Ele não demonstrava ter qualquer tipo de senso de humor.
– Sabe, eu estou começando a gostar de você, cara. Você quer algo, e faz. Foda-se o resto. Se você não tivesse feito isso por uma boa causa, eu te mataria aqui e agora. Mas matar você seria um baita de um desperdício. Tem que ter coragem pra encarar nossa mulher-gato – disse o homem de cabelos compridos, colocando sua mão no ombro de Guilherme e apontando para Yohana ao final de sua fala. Guilherme entendeu a piada: ela usava roupas pretas coladas. Uma gata preta.
– Não tenho medo de mulher – disse, desafiante.
– E do que você tem medo? – Dessa vez foi Yohana quem perguntou.
– De viver aqui pra sempre. De nunca tentar fazer nada contra essa merda toda –
           O ruivo contornou a cadeira, ficando atrás de Guilherme de tal forma que ele não pudesse vê-lo. Colocou suas mãos sobre os ombros de seu prisioneiro e se aproximou de seu ouvido, sussurrando alto o bastante para que Yohana ainda o ouvisse, embora o baixinho que guardava a porta provavelmente não pudesse ouvir.
– E se eu te disser que posso te dar a oportunidade perfeita para isso? Que comigo, você pode conseguir lutar contra esse medo? O que você acha, hein, Guilherme? Quer me ajudar a fazer uma guerra que acabe com isso de uma vez por todas? Quer lutar ao meu lado fazendo nossa própria revolução? –
– Me parece bem interessante, mas não faço acordos com quem não sei o nome e, principalmente, com quem eu nunca apertei a mão – Disse Guilherme, também falando de forma que apenas o homem e Yohana pudessem ouvir. Ambos pareceram desconfortáveis, Guilherme percebeu pela expressão de Yohana e pela tensão súbita nas mãos do ruivo. Este contornou novamente a cadeira, parando na frente de Guilherme. Tirou um canivete do bolso e se abaixou para cortar as cordas que prendiam os pés de seu prisioneiro. O guarda na porta preparou o dedo no gatilho, caso Guilherme resolvesse fugir, mas ele não tinha essa intenção.
           Quando o homem dos cabelos compridos terminou de cortar ambas as cordas, guardou o canivete e se afastou três passos. Guilherme se pôs de pé, com um pouco de dificuldade, e estendeu sua mão. O homem ruivo fez o mesmo, e o aperto de mão aconteceu. Só então Guilherme reparou na única semelhança entre sua roupa, a roupa de Yohana e a roupa do guarda. Por mais diferentes que fossem, todas tinham costuradas ou coladas no peito a bandeira de Minas Gerais: LIBERTAS QUAE SERA TAMEN.
– Seja bem vindo, Guilherme, à Resistência! Meu nome é Ícaro, sou o líder da revolução –
– É um prazer conhecê-lo e lutar ao seu lado... Ícaro? Olha só, Yohana, Ícaro, eu vou ter que escolher um nome esquisito pra mim também? –
           Ícaro riu mais uma vez, era mesmo bem humorado. Ambos soltaram as mãos. Guilherme voltou a fitar a bandeira no peito do líder, e ele percebeu.
– As escolas de Tenemissa pulam de propósito todas as aulas de revoluções. É preciso conhecer alguém que leu os livros antes de serem recortados para conhecer tais coisas. Esta é a bandeira de Minas Gerais, um estado brasileiro. Há muito tempo eles tentaram fazer uma revolução, mas foram mortos. A bandeira que eles criaram agora é a bandeira oficial do estado – disse Ícaro, apontando para a figura no peito – Significa “liberdade ainda que tardia”. Você ficaria maluco se soubesse tudo que eles escondem de nós. Já ouviu falar de internet? Ou já viu algum canal de TV que não tenha a programação 100% gravada em Tenemissa?–
– Não. Como você sabe de tudo isso? –
– Conheço algumas pessoas que já saíram daqui, meu rapaz –
– Algumas? Mas eu pensei que só o... –
– Só o? O quem? Seja quem for, ou ele pensa que é mais do que realmente é, ou ta te enganando. Vem, vou te apresentar pro resto do grupo. É muita gente, sabe? E ninguém desconfia porque pra entrar aqui, tem que ta morto. Sorte sua ter conseguido isso antes de nos achar –
           E Guilherme foi junto de Ícaro e Yohana, conhecer seu sonho de infância: uma chance de lutar contra tudo aquilo que ele odiava na ilha.

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