– Achou que era uma armadilha? –
Carlos observava Aline com atenção, agora consciente de que ela poderia estar ou não atuando. Precisava tomar cuidado com ela. Aquela mulher acabou se tornando o ponto fraco do policial.
– É claro, e ainda to achando. Sem ofensas –
– Não ofendi. Ainda bem que você ainda tá com a cabeça no lugar –
Eles estavam sentados a uma mesa pequena de um bar pequeno, mas muito frequentado. Havia casais por toda a volta, seria fácil para Carlos sumir na multidão caso Aline estivesse mesmo armando uma cilada para ele. Enquanto os dois conversavam, um garçom chegou trazendo um x-salada tamanho gigante, e o entregou a Carlos, que começou a comer sem se importar com o olhar de nojo de Aline.
– Você vai mesmo comer isso? –
Carlos não esperou terminar de mastigar para responder, o que só piorou o olhar que Aline lançava ao prato em sua frente.
– Esse aqui não é o seu castelo, princesa. Aqui isso é comida, e das melhores –
Para a surpresa do policial, Aline sorriu satisfeita. Ignorando o fato de que ele continuava mastigando, ela se debruçou sobre a mesa para poder falar mais baixo e continuar sendo ouvida.
– É exatamente sobre isso que eu vim falar com você. Aposto como nesses dois meses parado você não conseguiu nada do paradeiro do Guilherme e da garota dele, não é? –
– Dá um tempo, eu tava no hospital! Não tenho metade dos médicos da ilha na minha casa vinte e quatro horas por dia pra me atender. Desse lado a história é outra –
– Tanto faz, eu me machuquei bem mais que você e não fiquei parada, reclamando da vida feito uma velha. Eu fiz a minha pesquisa –
– Descobriu aonde que ta o moleque? –
– Não, mas eu descobri quem é a vadia dele, e onde ela pode ter ido –
– Quem? –
– O nome dela é Lia. Ela é filha de uma dona de bordel, um lugar chamado de Castelo da Rainha. A garota é conhecida por lá como Princesa –
– Já ouvi falar do lugar, dizem que é um dos melhores –
– Eu fui mais a fundo e consegui descobrir mais. Parece que a tal da Rainha queria que a filha virasse puta, pra saber como é a vida dura que a mãe teve, antes de assumir o puteiro. A garota não quis, e acabou fugindo. Conversei com algumas pessoas, e acho que ela não fugiu sozinha –
– O príncipe encantado foi lá salvar a princesa do seu castelo cruel? –
– Acho que sim. O caso desses dois é mais antigo que assassinato do meu irmão. Ela deve ter virado uma golpista, mas pelo visto era boa, quase não consegui nada sobre ela –
– Não me admira que o Jean caiu –
– O Jean não pode ter caído. Se eles conseguissem enganar ele, já estariam fora da ilha agora. Um dos dois matou o meu irmão, só pode ser porque ele descobriu tudo –
– Você levou dois meses pra descobrir só isso? Se meus contatos não tivessem se cagando de medo de mim por sua culpa, eu já teria pego esse casalzinho –
– Não vem com essas desculpas. Se você fosse bom mesmo já teria feito o seu trabalho –
– Se eu não sou bom mesmo, então por que você ta aqui, hein? Quem foi que o seu papaizinho mandou dessa vez que não pode te deixar ir junto?
– O meu irmão mais velho, Felipe. Ele não me deixaria ir junto. A gente não se dá muito bem –
– Eu acho que ele não ia gostar muito de mim também. Só pra eu saber, o que um Menegaro faria se me visse investigando esse caso? –
– Te mataria. Meu pai ainda ta puto contigo, ele ta só querendo uma desculpa pra mandar alguém te matar. Se o Felipe te ver, ele não vai pensar duas vezes –
– E se eu ver ele, e puxar o gatilho primeiro, o que você vai fazer? –
Aline não soube responder. Apenas baixou a cabeça, pensativa. Carlos sabia que aquilo era pressionar demais alguém, mas também sabia que precisava pôr ela de um lado só. De nada serviria sua ajuda se no fim ela o impedisse por amor ao irmão.
– Eu espero sinceramente que você não atire. Não me peça pra ficar contra a minha família – respondeu finalmente ela, levantando a cabeça e mostrando olhos mais brilhantes que o normal.
– Você já está contra a sua família. Escolheu isso quando decidiu vir comigo. Pra mim já deu de ter dois lados, ou melhor, qualquer lado. Eu agora declaro guerra a tudo e a todos, e foda-se o que vai acontecer comigo. Cansei disso tudo, de ter que aguentar essa gente que acha que é meu chefe. Vou caçar o Guilherme porque é isso que eu quero, e vou matar quantos filhos da puta eu encontrar no caminho, Manentti ou Menegaro. Se quiser sair, a hora é agora –
Aline se levantou de imediato. Estava se dirigindo para a porta quando parou de repente. Ficou lá, parada, de costas para Carlos por pelo menos cinco minutos. Voltou então e sentou-se novamente.
– Vou ficar do seu lado. Mas não me peça para atirar na minha família –
– Por que diabos você quer tanto ficar nesse caso? Não consigo entender isso –
Aline debruçou-se sobre a mesa e beijou Carlos com intensidade. Voltou então a se sentar. Não estava corada, nem demonstrava o menor sinal de ter feito algo que significava muito, embora não parecesse. Em seu olhar só havia a mesma obstinação de sempre. Estava disposta a ir contra a própria família apenas porque queria aquele homem, e nada mais. Ou seria isso que ela queria que Carlos pensasse? O policial já não tinha mais certeza de nada, e se perguntava se algum dia teria certeza de qualquer coisa que envolvesse aquela mulher.
Carlos observava Aline com atenção, agora consciente de que ela poderia estar ou não atuando. Precisava tomar cuidado com ela. Aquela mulher acabou se tornando o ponto fraco do policial.
– É claro, e ainda to achando. Sem ofensas –
– Não ofendi. Ainda bem que você ainda tá com a cabeça no lugar –
Eles estavam sentados a uma mesa pequena de um bar pequeno, mas muito frequentado. Havia casais por toda a volta, seria fácil para Carlos sumir na multidão caso Aline estivesse mesmo armando uma cilada para ele. Enquanto os dois conversavam, um garçom chegou trazendo um x-salada tamanho gigante, e o entregou a Carlos, que começou a comer sem se importar com o olhar de nojo de Aline.
– Você vai mesmo comer isso? –
Carlos não esperou terminar de mastigar para responder, o que só piorou o olhar que Aline lançava ao prato em sua frente.
– Esse aqui não é o seu castelo, princesa. Aqui isso é comida, e das melhores –
Para a surpresa do policial, Aline sorriu satisfeita. Ignorando o fato de que ele continuava mastigando, ela se debruçou sobre a mesa para poder falar mais baixo e continuar sendo ouvida.
– É exatamente sobre isso que eu vim falar com você. Aposto como nesses dois meses parado você não conseguiu nada do paradeiro do Guilherme e da garota dele, não é? –
– Dá um tempo, eu tava no hospital! Não tenho metade dos médicos da ilha na minha casa vinte e quatro horas por dia pra me atender. Desse lado a história é outra –
– Tanto faz, eu me machuquei bem mais que você e não fiquei parada, reclamando da vida feito uma velha. Eu fiz a minha pesquisa –
– Descobriu aonde que ta o moleque? –
– Não, mas eu descobri quem é a vadia dele, e onde ela pode ter ido –
– Quem? –
– O nome dela é Lia. Ela é filha de uma dona de bordel, um lugar chamado de Castelo da Rainha. A garota é conhecida por lá como Princesa –
– Já ouvi falar do lugar, dizem que é um dos melhores –
– Eu fui mais a fundo e consegui descobrir mais. Parece que a tal da Rainha queria que a filha virasse puta, pra saber como é a vida dura que a mãe teve, antes de assumir o puteiro. A garota não quis, e acabou fugindo. Conversei com algumas pessoas, e acho que ela não fugiu sozinha –
– O príncipe encantado foi lá salvar a princesa do seu castelo cruel? –
– Acho que sim. O caso desses dois é mais antigo que assassinato do meu irmão. Ela deve ter virado uma golpista, mas pelo visto era boa, quase não consegui nada sobre ela –
– Não me admira que o Jean caiu –
– O Jean não pode ter caído. Se eles conseguissem enganar ele, já estariam fora da ilha agora. Um dos dois matou o meu irmão, só pode ser porque ele descobriu tudo –
– Você levou dois meses pra descobrir só isso? Se meus contatos não tivessem se cagando de medo de mim por sua culpa, eu já teria pego esse casalzinho –
– Não vem com essas desculpas. Se você fosse bom mesmo já teria feito o seu trabalho –
– Se eu não sou bom mesmo, então por que você ta aqui, hein? Quem foi que o seu papaizinho mandou dessa vez que não pode te deixar ir junto?
– O meu irmão mais velho, Felipe. Ele não me deixaria ir junto. A gente não se dá muito bem –
– Eu acho que ele não ia gostar muito de mim também. Só pra eu saber, o que um Menegaro faria se me visse investigando esse caso? –
– Te mataria. Meu pai ainda ta puto contigo, ele ta só querendo uma desculpa pra mandar alguém te matar. Se o Felipe te ver, ele não vai pensar duas vezes –
– E se eu ver ele, e puxar o gatilho primeiro, o que você vai fazer? –
Aline não soube responder. Apenas baixou a cabeça, pensativa. Carlos sabia que aquilo era pressionar demais alguém, mas também sabia que precisava pôr ela de um lado só. De nada serviria sua ajuda se no fim ela o impedisse por amor ao irmão.
– Eu espero sinceramente que você não atire. Não me peça pra ficar contra a minha família – respondeu finalmente ela, levantando a cabeça e mostrando olhos mais brilhantes que o normal.
– Você já está contra a sua família. Escolheu isso quando decidiu vir comigo. Pra mim já deu de ter dois lados, ou melhor, qualquer lado. Eu agora declaro guerra a tudo e a todos, e foda-se o que vai acontecer comigo. Cansei disso tudo, de ter que aguentar essa gente que acha que é meu chefe. Vou caçar o Guilherme porque é isso que eu quero, e vou matar quantos filhos da puta eu encontrar no caminho, Manentti ou Menegaro. Se quiser sair, a hora é agora –
Aline se levantou de imediato. Estava se dirigindo para a porta quando parou de repente. Ficou lá, parada, de costas para Carlos por pelo menos cinco minutos. Voltou então e sentou-se novamente.
– Vou ficar do seu lado. Mas não me peça para atirar na minha família –
– Por que diabos você quer tanto ficar nesse caso? Não consigo entender isso –
Aline debruçou-se sobre a mesa e beijou Carlos com intensidade. Voltou então a se sentar. Não estava corada, nem demonstrava o menor sinal de ter feito algo que significava muito, embora não parecesse. Em seu olhar só havia a mesma obstinação de sempre. Estava disposta a ir contra a própria família apenas porque queria aquele homem, e nada mais. Ou seria isso que ela queria que Carlos pensasse? O policial já não tinha mais certeza de nada, e se perguntava se algum dia teria certeza de qualquer coisa que envolvesse aquela mulher.
Quando saíram da mesa, metade do x-salada permaneceu no prato. Ambos caminharam em silêncio. Carlos, confuso demais para falar, enquanto Aline se divertia silenciosamente da confusão mental de Carlos. Ela agora tinha um homem poderoso e decidido nas mãos. Músculos e cérebro que faziam os outros se curvarem e implorarem por sua vida, agora estavam curvados e confusos diante do enigma esguio e atraente. Só o fato de ela permanecer em silêncio já poderia ser considerado uma traição, um ato impiedoso e cruel depois de ter embaralhado a vida daquele homem com um simples beijo. Carlos nunca se deixava embaralhar. Se algo o deixava confuso, ele atirava primeiro e perguntava depois. E tudo pelo dinheiro. Agora lá estava ele, caçando um jovem casal por motivo nenhum, e se deixando domar por uma mulher, justo uma mulher, este ser que ele sempre subjugou.
Apesar disso, ele não se importava. Poderia fazer tudo como sempre fez, e não haveria nenhum risco. Mas já passou o tempo de não correr riscos. Carlos tinha 43 anos, embora aparentasse 30, e coçava em sua barba a vontade de jogar para o alto todas as regras. Se fosse para morrer assim, ao menos ele estaria aproveitando do melhor que uma jovem moça poderia lhe dar.
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