domingo, 5 de fevereiro de 2012

17 - Maravilhoso X-Salada

– Achou que era uma armadilha? –
            Carlos observava Aline com atenção, agora consciente de que ela poderia estar ou não atuando. Precisava tomar cuidado com ela. Aquela mulher acabou se tornando o ponto fraco do policial.
– É claro, e ainda to achando. Sem ofensas –
– Não ofendi. Ainda bem que você ainda tá com a cabeça no lugar –
            Eles estavam sentados a uma mesa pequena de um bar pequeno, mas muito frequentado. Havia casais por toda a volta, seria fácil para Carlos sumir na multidão caso Aline estivesse mesmo armando uma cilada para ele. Enquanto os dois conversavam, um garçom chegou trazendo um x-salada tamanho gigante, e o entregou a Carlos, que começou a comer sem se importar com o olhar de nojo de Aline.
– Você vai mesmo comer isso? –
            Carlos não esperou terminar de mastigar para responder, o que só piorou o olhar que Aline lançava ao prato em sua frente.
– Esse aqui não é o seu castelo, princesa. Aqui isso é comida, e das melhores –
            Para a surpresa do policial, Aline sorriu satisfeita. Ignorando o fato de que ele continuava mastigando, ela se debruçou sobre a mesa para poder falar mais baixo e continuar sendo ouvida.
– É exatamente sobre isso que eu vim falar com você. Aposto como nesses dois meses parado você não conseguiu nada do paradeiro do Guilherme e da garota dele, não é? –
– Dá um tempo, eu tava no hospital! Não tenho metade dos médicos da ilha na minha casa vinte e quatro horas por dia pra me atender. Desse lado a história é outra –
– Tanto faz, eu me machuquei bem mais que você e não fiquei parada, reclamando da vida feito uma velha. Eu fiz a minha pesquisa –
– Descobriu aonde que ta o moleque? –
– Não, mas eu descobri quem é a vadia dele, e onde ela pode ter ido –
– Quem? –
– O nome dela é Lia. Ela é filha de uma dona de bordel, um lugar chamado de Castelo da Rainha. A garota é conhecida por lá como Princesa –
– Já ouvi falar do lugar, dizem que é um dos melhores –
– Eu fui mais a fundo e consegui descobrir mais. Parece que a tal da Rainha queria que a filha virasse puta, pra saber como é a vida dura que a mãe teve, antes de assumir o puteiro. A garota não quis, e acabou fugindo. Conversei com algumas pessoas, e acho que ela não fugiu sozinha –
– O príncipe encantado foi lá salvar a princesa do seu castelo cruel? –
– Acho que sim. O caso desses dois é mais antigo que assassinato do meu irmão. Ela deve ter virado uma golpista, mas pelo visto era boa, quase não consegui nada sobre ela –
– Não me admira que o Jean caiu –
– O Jean não pode ter caído. Se eles conseguissem enganar ele, já estariam fora da ilha agora. Um dos dois matou o meu irmão, só pode ser porque ele descobriu tudo –
– Você levou dois meses pra descobrir só isso? Se meus contatos não tivessem se cagando de medo de mim por sua culpa, eu já teria pego esse casalzinho –
– Não vem com essas desculpas. Se você fosse bom mesmo já teria feito o seu trabalho –
– Se eu não sou bom mesmo, então por que você ta aqui, hein? Quem foi que o seu papaizinho mandou dessa vez que não pode te deixar ir junto?
– O meu irmão mais velho, Felipe. Ele não me deixaria ir junto. A gente não se dá muito bem –
– Eu acho que ele não ia gostar muito de mim também. Só pra eu saber, o que um Menegaro faria se me visse investigando esse caso? –
– Te mataria. Meu pai ainda ta puto contigo, ele ta só querendo uma desculpa pra mandar alguém te matar. Se o Felipe te ver, ele não vai pensar duas vezes –
– E se eu ver ele, e puxar o gatilho primeiro, o que você vai fazer? –
            Aline não soube responder. Apenas baixou a cabeça, pensativa. Carlos sabia que aquilo era pressionar demais alguém, mas também sabia que precisava pôr ela de um lado só. De nada serviria sua ajuda se no fim ela o impedisse por amor ao irmão.
– Eu espero sinceramente que você não atire. Não me peça pra ficar contra a minha família – respondeu finalmente ela, levantando a cabeça e mostrando olhos mais brilhantes que o normal.
– Você já está contra a sua família. Escolheu isso quando decidiu vir comigo. Pra mim já deu de ter dois lados, ou melhor, qualquer lado. Eu agora declaro guerra a tudo e a todos, e foda-se o que vai acontecer comigo. Cansei disso tudo, de ter que aguentar essa gente que acha que é meu chefe. Vou caçar o Guilherme porque é isso que eu quero, e vou matar quantos filhos da puta eu encontrar no caminho, Manentti ou Menegaro. Se quiser sair, a hora é agora –
            Aline se levantou de imediato. Estava se dirigindo para a porta quando parou de repente. Ficou lá, parada, de costas para Carlos por pelo menos cinco minutos. Voltou então e sentou-se novamente.
– Vou ficar do seu lado. Mas não me peça para atirar na minha família –
– Por que diabos você quer tanto ficar nesse caso? Não consigo entender isso –
            Aline debruçou-se sobre a mesa e beijou Carlos com intensidade. Voltou então a se sentar. Não estava corada, nem demonstrava o menor sinal de ter feito algo que significava muito, embora não parecesse. Em seu olhar só havia a mesma obstinação de sempre. Estava disposta a ir contra a própria família apenas porque queria aquele homem, e nada mais. Ou seria isso que ela queria que Carlos pensasse? O policial já não tinha mais certeza de nada, e se perguntava se algum dia teria certeza de qualquer coisa que envolvesse aquela mulher.
            Quando saíram da mesa, metade do x-salada permaneceu no prato. Ambos caminharam em silêncio. Carlos, confuso demais para falar, enquanto Aline se divertia silenciosamente da confusão mental de Carlos. Ela agora tinha um homem poderoso e decidido nas mãos. Músculos e cérebro que faziam os outros se curvarem e implorarem por sua vida, agora estavam curvados e confusos diante do enigma esguio e atraente. Só o fato de ela permanecer em silêncio já poderia ser considerado uma traição, um ato impiedoso e cruel depois de ter embaralhado a vida daquele homem com um simples beijo. Carlos nunca se deixava embaralhar. Se algo o deixava confuso, ele atirava primeiro e perguntava depois. E tudo pelo dinheiro. Agora lá estava ele, caçando um jovem casal por motivo nenhum, e se deixando domar por uma mulher, justo uma mulher, este ser que ele sempre subjugou.
            Apesar disso, ele não se importava. Poderia fazer tudo como sempre fez, e não haveria nenhum risco. Mas já passou o tempo de não correr riscos. Carlos tinha 43 anos, embora aparentasse 30, e coçava em sua barba a vontade de jogar para o alto todas as regras. Se fosse para morrer assim, ao menos ele estaria aproveitando do melhor que uma jovem moça poderia lhe dar.

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