domingo, 20 de novembro de 2011

6 - O Apartamento no Terceiro Andar

– É aqui? – Perguntou Aline, olhando com desagrado para o prédio velho, cheio de rachaduras e com a pintura quase toda descascada.
– Tá com medo de se sujar? – Carlos não encarou ela. Ainda estava visivelmente zangado. “Por que diabos eu trouxe ela comigo?” era o que ele estava se perguntando. Durante toda a busca, Aline fez questão de aparecer aonde não deveria. Uma Menegaro ao lado dele estragava sua fama de neutro. Mesmo tentando explicar a ela, ela fazia questão de interferir, de botar medo nos contatos que Carlos demorou tanto para ganhar confiança. A briga de meia hora atrás ainda ressoava em sua mente, como uma música irritante que ele não conseguia parar de cantar.
É graças a essas pessoas que eu faço meu trabalho melhor que qualquer um, e você está arruinando tudo!
Não quer ser visto em minha companhia?
Você sabe muito bem que aqui não posso tomar lados. Não quero que ninguém veja uma Menegaro junto comigo!
Achei que você gostasse de mim... disse Aline, sem fazer o menor esforço pra esconder o sorriso irônico. Para ela aquilo tudo era apenas uma brincadeira. Carlos se perguntava se ela já teria esquecido tão cedo da morte do irmão. Provavelmente esse era o jeito dela de tentar esquecer Além do mais, ficar do lado da minha família só faz com que todos saibam que você está do lado mais forte
Eu não estou de lado nenhum. Eu faço o trabalho que eu aceitar pelo dinheiro de quem paga mais
Então você faz o que eu quiser

“Faz o que eu quiser! quem aquela vadia pensa que é?”. Carlos saiu do carro. Aline falava alguma coisa, mas ele simplesmente não conseguia ouvir, ou talvez não quisesse ouvir. Ignorou a voz dela e entrou no apartamento. Uma escadaria estreita estava logo a frente: subia um pouco, virava pro outro lado. Uma porta de madeira observava os intrusos tranquilamente ao final do primeiro lance, ignorando a pichação com o formato de um pênis que o filho do vizinho havia feito nela.
Carlos começou a subir. Tinha a vaga consciência de que Aline estava atrás dele. Não era surpresa, em nenhum momento ela ficou dentro do carro. Só pedia para que não encontrasse aquele tal de Guilherme esperando por ele na curva da escadaria.
Subiram o primeiro lance, depois o segundo. Só haviam três. A última porta aguardava no topo do último lance. Um pênis também servia de boas vindas nela, assim como em todas as outras porta. Carlos se sentiu um pouco desconfortável: nesta porta a maçaneta era o testículo direito do pênis. Aline riu quando percebeu o motivo de Carlos ter parado.
– Quem está com medo de se sujar agora? –
– Cala a boca! –
E ele então subiu, Aline rindo histericamente atrás. Uma veia latejava na têmpora de Carlos enquanto ele imaginava uma cena onde estaria estrangulando aquela mulher. Nunca antes tinha se incomodado tanto com a risada de alguém.
Antes de abrir a porta, ambos pararam. Ouvia-se um barulho de dentro do apartamento. Parecia voz de duas pessoas conversando. Não sabia dizer o que estavam falando, as vozes eram baixas.
– Parece que vamos ter que interromper eles –
Shhhhhh! Fala mais baixo!
Carlos encostou o ouvido na porta, preocupado, mas pelo visto o suposto casal que eles caçavam ainda estava conversando. Pode reconhecer a voz de um homem e de uma mulher, tinha de ser eles. Lentamente, ele sacou seu revólver, segurando-o com uma mão e com a outra segurou a maçaneta, esquecendo completamente a pichação. Mas Aline não havia esquecido.
Não tão forte! Vai machucar o coitadinho

Carlos apenas ignorou. Respirou fundo, afastou Aline com a mão, girou a maçaneta e abriu a porta com força, apontando a arma para dentro.
Durante o segundo em que ele fez isso, tomou consciência de três coisas: a porta estava aberta, um casal conversava em uma novela na tv e um fio branco, quase invisível, arrebentou quando a porta se abriu. Um fio branco que estava preso ao pino uma temida bola verde.
Carlos não esperou para ver o que aconteceria, na verdade, ele nem sequer olhou na direção da granada. No instante em que percebeu que o fio estava lá, saltou para trás, batendo com as costas em Aline e fazendo com que ambos rolassem escada abaixo enquanto o inferno parecia correr atrás deles na forma de uma imensa bola de fogo.

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