Marcos não conseguia conter o suor, nem a tremedeira causada pelo nervosismo. Todos o olhavam desconfiados. Andar nervoso na casa do chefe era quase suicídio, mas ele não tinha escolha. “Diabos, o que eles estão pensando, que eu to carregando uma bomba pra explodir na cara do chefe?”.
Na verdade, era isso mesmo. Marcos carregava uma bomba que iria explodi-lo assim que Giuseppe ouvisse o barulho. Mas Giuseppe, é claro, não iria explodir junto. No máximo ia acabar queimado. Ninguém que trabalha para os Manenti é tão infeliz quanto aqueles que devem dar a notícia ruim para o senhor chefe, pois ele as vezes podia ser um pouco... incompreensível. De fato as histórias que os veteranos as vezes contavam sobre o que aconteceu com o último cara que deu uma notícia ruim ao Giuseppe assombrava Marcos mais do que o dinheiro lhe dava esperanças. “Por que então eu não simplesmente dou meia-volta e largo esse emprego kamikaze?”
Ele sabia bem o porque. Ninguém dava meia-volta. Ninguém larga a família sem sofrer as consequências. E as consequências sempre deixam furos na camisa.
“Aquele puto do Guilherme é que devia ter pensado nisso antes de matar o Jean. Agora por culpa daquele desgraçado sou eu quem vou ser morto. Ou será que eu to exagerando? Se o Manentão matasse mesmo todos que trouxessem notícias ruins metade desse filhos da puta não tariam aqui. isso é treta que esses vagabundos ficam armando porque não tem mais o que fazer”
O pensamento deixou Marcos mais tranquilo, mas ele ainda suava. Suava e olhava para os lados, recebendo em troca de seu olhar medroso olhares desconfiados, mãos que apertavam um pouco mais o rifle. Dedos coçando para fazer alguma besteira.
– Tenho uma mensagem pro Giuseppe – As palavras saíram trêmulas da sua boca, e os guardas notaram e riram. Todos pareciam achar graça agora que sabiam o motivo do nervosismo. Um negro alto e musculoso tateou o corpo de Marcos a procura de armas, um pouco mais do que devia. As risadas estouravam. O negro alto e musculoso fazendo a revista já seria amedrontador o bastante, mas ainda havia o fato que todos sabiam: ele era gay, e era exatamente por isso que colocaram ele na revista.
– Entra... – Ouviu-se a voz grave, que procurava lembrar o nome de seu visitante
– Marcos – Respondeu o rapaz, prontamente.
– Tanto faz, o que você ta fazendo aqui? –
Os lábios de Marcos agora pareciam estranhamente secos. Demorou um tempo para que ele conseguisse falar de novo. Giuseppe não o apressou, parecia cansado demais para se importar.
– O... o Guilherme... – Tentou falar Marcos, gaguejando um pouco.
– Sei, que que tem, ele saiu da linha? – Perguntou o Manentti, já parecendo um pouco mais interessado.
A compreensão súbita de que Giuseppe já esperava alguma coisa do tipo deu a Marcos novas forças. Talvez se ele falasse bastante mal daquele puto do Guilherme antes de dar a notícia, quem sabe não ganhava um voto de confiança?
– É, aquele desgraçado filho duma puta. Eu sempre soube que ele tinha alguma coisa estranha –
– Anda logo – Disse Giuseppe, o tédio tomando conta da sua voz.
– Poisé, ele e aquela vadia que anda com ele, não lembro o nome. Eles fuderam pra valer com o senhor – Disse Marcos de uma só vez, um sorriso quase aparecendo no rosto pela oportunidade de criar um vínculo com o chefe. Nada melhor do que xingar o inimigo de um homem para ganhar a sua simpatia.
Desta vez Giuseppe se ajeitou na cadeira. Esperava um erro, não que alguém fodesse com ele.
– Eles mataram o Jean –
Por um instante a idéia pareceu não tomar forma na cabeça de Giuseppe, como se ele estivesse em choque, ou talvez apenas sonolento. Mas quando ele percebeu o que havia acontecido. Gritou com fúria o nome do seu braço direito, a cara já começando a ficar vermelha.
– MATHEUS! –
E Matheus veio correndo, silencioso, mas correndo.
– PEGA O FILHO DA PUTA DO GUILHERME E AQUELA VACA DELE E TRÁS OS DOIS AQUI AGORA! –
– Vivos ou mortos? – Perguntou Matheus, a voz firme e calma, embora Marcos se surpreendesse com seu tom agudo. Nunca antes tinha o ouvido falar, e esperava que um armário ambulante tivesse uma voz a altura.
– Não sei! Digo, mortos! Não... –
Por um tempo a cabeça vermelha se pôs a pensar, tentando perceber melhor o que havia acontecido e como lidar com a situação.
– Vivos. Traga eles vivos –
Matheus saiu, deixando Giuseppe sozinho na sala, pois Marcos aproveitou a primeira oportunidade para sair silenciosamente, e dava graças a Deus por ainda estar vivo. Giuseppe não notou a sua ausência.
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