domingo, 18 de dezembro de 2011

10 - Aumente o Volume, Por Favor

        Toda a estranheza das ruas sempre foi normal. É normal se acostumar com a estranheza quando ela é a sua casa. O problema é quando se começa a estranhar aquilo que sempre esteve lá. Guilherme ia pensando nisso pelas ruas escuras. Era normal ser olhado por todos que se escondiam nos becos. Era normal até mesmo ser olhado pelas pessoas que se escondiam atrás das cortinas. Só que nada mais parecia normal para ele. Em cada olhar desconfiado, assustado, curioso ou até mesmo raivoso, ele via sua última aventura exposta. Via uma arma em cada bolso. Via uma tentativa em cada movimento. A sua mente já começava a brincar com ele, e ele nem fazia ideia de até onde aquilo poderia chegar.
        Não era possível adivinhar se a eles sabiam quem ele era, o que ele tinha feito. As vezes as notícias corriam rápido demais em Tenemissa. As vezes não. Os dedos de Guilherme roçavam nervosos no canivete de bolso: a única arma que ele tinha, contra uma possível emboscada reunindo mais de dez mendigos. É fácil fazer um exército, basta espalhar a notícia de que a cabeça de alguém está a prêmio, e a cidade inteira estará voltada para aquela pessoa. Mesmo os mais inocentes não podem negar seu profundo desejo por sangue, e no fim o prêmio é apenas uma desculpa: o que todos querem é descontar em uma única pessoa tudo o que já aconteceu em toda a sua vida. Se for pago pra fazer isso, melhor.
        Mais adiante havia um bar. Vozes gritavam e riam lá dentro. A única luz ainda acesa. Era o tipo de bar que abria com o pôr do sol e só fechava quando ele nascia de novo. Um ótimo lugar para alguém com contatos se informar e, quem sabe, cobrar favores. Guilherme precisava de um lugar seguro para dormir, não dava pra confiar em nenhum hoteleiro.
        Lá dentro, a confusão era como um almoço de domingo. Bebidas, cartas, bebidas, brigas, bebidas, queda-de-braço, bebidas, homens desmaiados no chão, bebidas, televisão...
Televisão
        Uma notícia urgente mostrava uma confusão muito maior do que a festinha do bar. O lar-doce-lar de Guilherme era manchete do jornal local. O sonho do síndico, ou talvez não, já que o prédio já quase não existia. O que existia era um bocado de concreto tentando não ceder a um apartamento inteiro que fazia força para baixo. Fumaça, fogo, pessoas gritando, curiosos sedentos por novidades e moleques fazendo caretas para as câmeras.
        Já dentro do bar, Guilherme tentava ouvir a notícia, junto com um grupo de bêbados. Cada vez chegavam mais. Vendo isso o dono aumentou o volume, e logo todo o bar estava quieto para ver e ouvir.
        ... Ainda não se sabe o que aconteceu, tudo indica um acidente envolvendo o último apartamento. Provavelmente explodiu o butijão de gás. Até agora ninguém saiu, e não podemos ver se há sobreviventes...
        Guilherme não se surpreendeu. Sabia que sua granada não explodiria apenas um possível perseguidor, mas também todos os seus vizinhos. Sua guerra particular havia começado, não podia parar para se arrepender por atos pequenos. Eram apenas mais pessoas sem vidas, morrendo oficialmente para os jornais.
        Os bombeiros estão a caminho, mas parece que o número de carros das pessoas que vieram para ver o acidente está interditando as ruas. Pedimos para que ninguém mais tente vir aqui de carro, ou o caminhão de bombeiros não conseguirá chegar. Espere! Tem alguém... há duas pessoas no topo tentando descer!
        A repórter começou a correr e o câmera tentava segui-la sem tirar o foco dos vultos em meio a fumaça. Seguiu-se um verdadeiro batalhão de pessoas gritando e amontoando o que quer que tivesse a volta para formar uma escada. A grande maioria queria ajudar. Um ou outro queria ser entrevistado pelo ato de heroísmo.
        Guilherme ficou apreensivo. Quando apareceram o homem negro e a mulher de cabelos compridos, ele não os reconheceu. Não eram inquilinos, eram as pessoas que acionaram a granada. Por isso sobreviveram: o teto não caiu em suas cabeças.
        Devagar, ainda muito confuso Guilherme tentou se desvencilhar do bando de bêbados a sua volta que tentavam assistir a notícia. Queria sair daquele lugar, antes que anunciassem seu nome como dono do apartamento ou qualquer coisa do tipo. Se sua casa explodiu, ele estava morto. Era melhor assim. Já se dirigia para a porta quando um brilho chamou a sua atenção. Era a luz refletida nos óculos de alguém que sentava sozinho na mesa do canto, meio copo de cerveja a sua frente. Aqueles óculos quadrados que Guilherme tão bem conhecia. Os olhos atrás deles se mantinham fixos em Guilherme desde o momento em que ele entrou no bar. Aqueles olhos capazes de acalmar ou deixar alguém desconfortável.
        Aqueles olhos verdes que deveriam estar vendo as paisagens de lugares muito distantes de Tenemissa, pois foram os primeiros olhos a escapar daquela ilha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário