Os últimos vestígios de verde sumiram em meio ao redemoinho de água. Guilherme e Lia continuaram lá, olhando para a privada vazia, esperando o vestido retornar como um monstro vingativo, mas ele não voltou.
– E a tesoura? –
– A gente enterra no vizinho –
– E... ele? –
– A gente deixa ai. Não tem como se livrar do... dele agora. Eu peguei o dinheiro, vão pensar que foi um assalto –
Com a cautela mais do que necessária, eles abriram a janela dos fundos, tremendo a cada rangido que ela fazia, olhando para os lados, esperando ver vizinhos ou até mesmo a gangue olhando para eles. Agachados como ladrões, correram até o muro do quintal e o pularam com facilidade. Com sorte não teria nenhum cachorro.
– Vamos enterrar aqui –
E eles cavaram. A terra entrando pelas unhas, os dedos batendo nas pedras, nada disso era notado. Só mantiveram os olhos o tempo todo na janela iluminada, o som que devia ser do jornal da madrugada.
– Pronto, vamos dar o fora daqui – sugeriu Guilherme, sua voz beirando a desespero
– Pra onde? –
– Pra minha casa, é seguro por enquanto –
– Você ta querendo que eu durma com você? –
– Tem um belo sofá lá –
– E sou eu quem vou dormir no sofá? – a voz de Lia subia um tom a cada palavra
– Tem um lugar melhor pra ir? –
Lia se calou, mas fez questão de continuar com a expressão dura durante todo o trajeto, que foi a caminhada mais longa que eles já fizeram juntos. Todos pareciam notá-los, seu olhares eram atraídos pelo casal nervoso, e algo dizia a Lia que eles poderiam sentir o cheiro do medo. Bêbados, arruaceiros, prostituas e homens que nunca diziam seus negócios em voz alta. Todos eles olhavam o casal e sabiam que eles tinham feito merda. Não sabiam o que, mas sabiam que era grave. Quando se vive na madrugada, o instinto se torna o sentido mais aguçado.
– Por que eles estão olhando pra nós? – perguntou Lia, as palavras mal saindo da boca
– Porque nós formamos um belo casal –
Apesar de todos os olhares, ninguém os incomodou, fora as habituais cantadas que nenhum bêbado que se preze poderia deixar de gritar para uma moça tão bonita.
– Porra Guilherme, o que que a gente faz agora? – Foi a primeira pergunta de lia quando chegaram ao apartamento sujo e apertado, único lugar onde Guilherme conseguia dormir de verdade.
– Por que você ta perguntando isso pra mim? Foi você quem deu a tesourada no panaca – respondeu Guilherme, de mal humor.
– Quem sabe se você não fosse tão burro, eu não teria feito isso! –
– Foi você quem não me disse nada sobre a família do cara! Vai dizer que namorou ele por dois meses e nem sabia o sobrenome? –
– O Jean sempre foi cuidadoso. E além do mais, você me disse que não tava mais trabalhando pro Giuseppe. Eu achei que pudesse confiar em você –
– Eu também pensei que não tava mais trabalhando pra ele, mas não é assim que funciona, tá bom? E mesmo que eu não tivesse, era sua função descobrir tudo o que pudesse do cara. Não tem como enganar otário por aqui sem saber da vida dele antes, ainda mais otário profissional –
Eles estavam novamente sem fôlego. Sem palavras. Não podiam brigar um com outro, mas era difícil se segurar. Com um susto Lia percebeu que havia um pouco de sangue na orelha de Guilherme. Devagar se aproximou dele, sua mão levantando para limpar o sangue, mas Guilherme a segurou pelo pulso.
– O que ce ta fazendo? –
– Calma, vou só limpar o sangue na sua orelha, só isso –
Devagar, ela usou um pouco da manga para limpar o sangue, os olhos sempre em contato com os de Guilherme.
– Pronto, respingou um pouco, só isso –
Eles se sentaram no sofá de três lugares, cada um em um canto, olhando para lados opostos, ambos sem saber no que pensar ou no que não pensar. Ambos sem saber o que poderia ser pior naquela situação. Eles gostavam da companhia um do outro, mas não poderiam admitir.
– E a tesoura? –
– A gente enterra no vizinho –
– E... ele? –
– A gente deixa ai. Não tem como se livrar do... dele agora. Eu peguei o dinheiro, vão pensar que foi um assalto –
Com a cautela mais do que necessária, eles abriram a janela dos fundos, tremendo a cada rangido que ela fazia, olhando para os lados, esperando ver vizinhos ou até mesmo a gangue olhando para eles. Agachados como ladrões, correram até o muro do quintal e o pularam com facilidade. Com sorte não teria nenhum cachorro.
– Vamos enterrar aqui –
E eles cavaram. A terra entrando pelas unhas, os dedos batendo nas pedras, nada disso era notado. Só mantiveram os olhos o tempo todo na janela iluminada, o som que devia ser do jornal da madrugada.
– Pronto, vamos dar o fora daqui – sugeriu Guilherme, sua voz beirando a desespero
– Pra onde? –
– Pra minha casa, é seguro por enquanto –
– Você ta querendo que eu durma com você? –
– Tem um belo sofá lá –
– E sou eu quem vou dormir no sofá? – a voz de Lia subia um tom a cada palavra
– Tem um lugar melhor pra ir? –
Lia se calou, mas fez questão de continuar com a expressão dura durante todo o trajeto, que foi a caminhada mais longa que eles já fizeram juntos. Todos pareciam notá-los, seu olhares eram atraídos pelo casal nervoso, e algo dizia a Lia que eles poderiam sentir o cheiro do medo. Bêbados, arruaceiros, prostituas e homens que nunca diziam seus negócios em voz alta. Todos eles olhavam o casal e sabiam que eles tinham feito merda. Não sabiam o que, mas sabiam que era grave. Quando se vive na madrugada, o instinto se torna o sentido mais aguçado.
– Por que eles estão olhando pra nós? – perguntou Lia, as palavras mal saindo da boca
– Porque nós formamos um belo casal –
Apesar de todos os olhares, ninguém os incomodou, fora as habituais cantadas que nenhum bêbado que se preze poderia deixar de gritar para uma moça tão bonita.
– Porra Guilherme, o que que a gente faz agora? – Foi a primeira pergunta de lia quando chegaram ao apartamento sujo e apertado, único lugar onde Guilherme conseguia dormir de verdade.
– Por que você ta perguntando isso pra mim? Foi você quem deu a tesourada no panaca – respondeu Guilherme, de mal humor.
– Quem sabe se você não fosse tão burro, eu não teria feito isso! –
– Foi você quem não me disse nada sobre a família do cara! Vai dizer que namorou ele por dois meses e nem sabia o sobrenome? –
– O Jean sempre foi cuidadoso. E além do mais, você me disse que não tava mais trabalhando pro Giuseppe. Eu achei que pudesse confiar em você –
– Eu também pensei que não tava mais trabalhando pra ele, mas não é assim que funciona, tá bom? E mesmo que eu não tivesse, era sua função descobrir tudo o que pudesse do cara. Não tem como enganar otário por aqui sem saber da vida dele antes, ainda mais otário profissional –
Eles estavam novamente sem fôlego. Sem palavras. Não podiam brigar um com outro, mas era difícil se segurar. Com um susto Lia percebeu que havia um pouco de sangue na orelha de Guilherme. Devagar se aproximou dele, sua mão levantando para limpar o sangue, mas Guilherme a segurou pelo pulso.
– O que ce ta fazendo? –
– Calma, vou só limpar o sangue na sua orelha, só isso –
Devagar, ela usou um pouco da manga para limpar o sangue, os olhos sempre em contato com os de Guilherme.
– Pronto, respingou um pouco, só isso –
Eles se sentaram no sofá de três lugares, cada um em um canto, olhando para lados opostos, ambos sem saber no que pensar ou no que não pensar. Ambos sem saber o que poderia ser pior naquela situação. Eles gostavam da companhia um do outro, mas não poderiam admitir.
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