sábado, 15 de outubro de 2011

1 - Diga Adeus ao Vestido Verde

 
            Guilherme viu o sangue pingando das mãos de Lia. Seu rosto furioso era agora uma máscara de horror. Arrependimento e medo pintados de vermelho. A tesoura jazia no chão, imóvel, descansando após um trabalho bem feito.
– Vai lavar isso ai! –
            Ela parecia não estar ouvindo. Guilherme falou de novo, sussurrando desta vez: “Anda!”. Em um segundo houve uma mudança em seu olhar, como se entrasse em foco pela primeira vez desde que agarrou a tesoura. Olhou para as mãos e o vestido manchado de sangue. Não ia dar pra lavar aquilo tudo, mas ela foi ao banheiro mesmo assim. Enquanto tentava se livrar do suco de Jean, Guilherme vasculhava desesperado as gavetas.
– O que você está fazendo? –
– Procurando qualquer coisa útil que esse babaca possa ter deixado aqui –
            Mentira. A única coisa que Jean poderia ter deixado de “útil” para eles tinha um nome e Guilherme sabia disso: dinheiro. E ele veio embrulhado em quase todas as meias da última gaveta. O amargo cheiro que vinha junto não impediria ninguém de roubar aquelas notas. Não eram poucas.
            O barulho de Lia fechando a torneira apressou Guilherme, sem nenhum motivo. O curto vestido ainda parecia uma tela verde onde uma criança jogou tinta vermelha.
– Você vai ter que tirar essa coisa –
– O que? Mas eu estou sem sutiã! –
– Prefere sair assim? Procura por ai, do jeito que esse cara era, eu não duvido que tenha roupas das “amigas” dele espalhadas pela casa –
– Você quer que eu saia daqui parecendo uma puta? Já aproveito e escolho uma bolsa bem grande pra rodar por ai –
– Da pra calar a boca? Você por acaso esqueceu que acabou de... – Guilherme engoliu em seco, olhando para o corpo imóvel em cima da cama. Continuou a frase num sussurro – acabou de matar um cara? –
            Por um instante ele achou que Lia fosse chorar. Mas ela se manteve firme, e sua voz não tremeu quando disse
– Esta bem. Vira pra lá –
– Como se eu nunca tivesse te visto antes – disse Guilherme num sorriso, mas se virou mesmo assim. Quando ela o chamou, estava usando roupas masculinas, calça e camiseta que a pouco tempo pertenciam a uma pessoa viva.
– O que nós vamos fazer? – Ela o olhava suplicante, uma menina frágil e insegura esperando receber ordens. Essa foi a primeira vez que Guilherme a viu assim: frágil e insegura. Qualquer um que a conhecesse jamais poderia imaginar ver algum dia esse olhar em seu rosto. A brava Lia, sempre se lixando pra o que as pessoas achavam dela. Sempre mostrando o dedo do meio para o perigo. Essa era a verdadeira Lia, não aquela menina fraca parada em sua frente, o vestido verde aos seus pés.
– Fui eu quem te deu esse vestido – disse Guilherme, tentando não pensar na pergunta de Lia.
– Eu sei. Era o meu preferido –
            Ambos ficaram lá, apenas se olhando. Algo os prendia, como uma imensa corda em que cada ponta fora amarrada em um olho. Não havia como desviar. Eles prometeram que nunca mais iam ficar juntos, que iam ser apenas amigos, ou melhor, apenas sócios. E lá estavam eles, grudados pelo olhar. Um tão dependente do outro... uma pressão gigantesca se formando dentro deles. A vontade de gritar, de correr para o abraço quente e confortável.
            Ela desviou o olhar primeiro.
– Eu acho que a gente não devia sair pela porta. Não podemos ser vistos saindo daqui assim –
– É claro! Vamos sair pela janela dos fundos – retrucou Guilherme
– E depois? –
            Eles se encararam mais uma vez, mas com outros motivos, outras faces, um novo medo fazendo a pressão dentro deles. A vontade de gritar, de correr... de correr cada um na direção oposta.

2 comentários:

  1. uauuu, agora vou ter que ler até o final!
    Carinha, quem te via no colodel nem esperava que você tinha dedos mágicos para a escrita!
    *-*

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  2. muito obrigado *-*
    é, no Colodel eu nem era eu, acho xD

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